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sexta-feira, 16 de abril de 2021

2021.6 1984

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Uma conhecida pediu emprestado "1984" no segundo semestre do ano passado. Eu na hora falei: "que loucura, pior momento para lê-lo". Aí voltei a dar aula em abril e qual foi um dos materiais para me preparar para as aulas: "1984", de George Orwell. Eu queria usar o "duplipensar" para a aula sobre desinformação, daqui a algumas semanas, cruzando com a "informação de classe", de Bolaño (2000) e as preocupações atuais sobre os riscos de aceitar tão fácil coisas contraditórias.

Enfim. Li 1984 em 2009 e quem quiser pode ler o relato aqui: Dialética terrestre: 1984 ideias (terrainteressados.blogspot.com). O impacto foi bem diferente daquele momento, ainda que a conjuntura seja bem pior. De certa forma, ainda bem.

Referência
ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

2019.17 Megaeventos "Made in Bra$il" na sociedade do espetáculo/ 2019.18 Como morrem os pobres e outros ensaios

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O livro da Elizabeth furou a fila. Ele foi publicado ano passado, mas eu o comprei na viagem a Belém, no início de setembro e virou minha leitura no caminho para a UnB.

A perspectiva de atuação, mais voltada para a análise publicitária, é diferente da minha. O posicionamento político ao tratar das manifestações de Copa das Confederações/Copa do Mundo também se mostrou. Mas serve para entender um pouco das surpresas daquele processo e o que são os megaeventos esportivos.

ROCHA, Elizabeth de Menezes. Megaeventos "Made in Bra$il" na Sociedade do Espetáculo: A Copa do Mundo 2014 e as Olimpíadas 2016 num mundo globalizado. Curitiba: Appris Editora, 2018.


"1984" virou o livro mais lembrado nos últimos anos a partir do aumento de difusão de desinformação por mídias sociais. Retrocedemos do "Admirado Mundo Novo" para ele. "Revolução dos Bichos" também poderia ser lembrada neste momento histórico. Li alguns livros do Orwell desde esses dois clássicos. "Como morrem os pobres e outros ensaios" estava em casa há algum tempo e dado o seu tamanho fui lendo bem aos poucos.

A importância dele é poder ter uma visão muito boa sobre o posicionamento político de Orwell (críticas ao fascismo e ao socialismo praticado na época) e sobre como ele via o relato sobre a sociedade, com participação direta inclusive entre os pobres da Inglaterra, que é uma parte do livro. As crônicas mostram a visão dele na sociedade, incluindo aí crítica a quem acompanha o futebol.

ORWELL, George. Como morrem os pobres e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Oh, Admirável Mundo Novo!

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Quando costumo dizer que 1984 é o livro que mais gosto, algumas pessoas me indicavam Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley. "Este seria ainda melhor que o livro de George Orwell", me contavam. Além disso, acabei por ver algumas comparações entre as duas obras e, é claro, tendo como referência a sociedade atual.

Li rapidamente o livro, aproveitando-me de uma opção de diminuir o tempo à frente do computador após meses de trabalho quase incessante na dissertação, leituras, documentos, projetos, etc. Como sempre quando eu crio muita expectativa com algo quase sempre saio frustrado. Desta vez, é verdade, um pouquinho frustrado. Mas isso ocorreu mais por uma grande identificação com Winston, de 1984, que pela falta de força deste livro, cujos comentários seguem a seguir.

Comunidade, Identidade, Estabilidade
A minha leitura de Admirável Mundo Novo identificou quatro partes que são contadas ao leitor. Na primeira, estamos entre os jovens estudantes Alfas a quem o Diretor de Incubação e Condicionamento apresenta como se dá a reprodução da espécie humana. Da forma mais "natural" possível, ele vai nos mostrando como de "natural" nada restou à humanidade no ano 632 Depois de Ford. Sim, Henry Ford, da produção seriada e massiva de um bem de consumo não durável como o carro, sendo 01 de outubro de 1908, ano de lançamento do modelo T, considerado como o momento inicial dessa nova era, em que mais importava a "comunidade, a identidade e a estabilidade", lemas do chamado Estado Mundial.

Acompanhamos como tudo ocorre de uma forma bem diferente da atual, especialmente porque não se tem mais a reprodução vivípara. Ou seja, o embrião é fecundado de forma totalmente mecânica, artificial mesmo, através de tubos e bocais. De forma que as mulheres não mais podem engravidar, com muitas delas, inclusive, já nascendo "neutras". Às que não nascem assim, são condicionadas a tomar medicamentos de maneira frequente para evitar ser "mãe", uma palavra odiosa nesses novos tempos, a ponto de ser impronunciável.

Vejamos o que o Diretor diz aos jovens sobre isso:

“Garantidamente estéreis. O que nos leva, por fim – continuou o Sr. Foster – a deixar o domínio da simples imitação servil da natureza para entrar no mundo mais interessante da invenção humana.
Esfregou as mãos. Porque, bem entendido, não se contentavam com incubar simplesmente os embriões: isso, qualquer vaca era capaz de fazer” (17).


Assim, o desenvolvimento daquela sociedade foi ocorrendo, especialmente após a Guerra dos Nove Anos, (no segundo século D.F.) quando as pessoas teriam optado pela estabilidade que por coisas como sofrimento, verdade e paixões. Para isso, a população era criada e condicionada através de uma estratificação "natural", entre Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Ipsilones, nesta ordem de importância e com alguma graduação de mais e menos em cada nova casta.

Os trabalhos mais elevados eram feitos pelos Alfas, que vestiam verde, e os trabalhos mais difíceis - caso de se pendurar de cabeça para baixo para consertar aviões em voo - eram realizados pelos Ipsilones, que vestiam cáqui. A questão física, com os mais belos sendo das castas mais altas, é definida pela genética - que viria a se desenvolver a partir da década de 1990, ou seja, 60 anos depois da publicação deste livro. A parte de resiliência quanto a esta situação de divisão social era definida através do condicionamento por qual as pessoas passavam desde bebês, especialmente através de repetições hipnopédicas, que atuavam até mesmo durante o sono. 

Segundo o Diretor:

“- E esse – interveio sentenciosamente o Diretor [de Incubação e Condicionamento] – é o segredo da felicidade e da virtude: amar o que se é obrigado a fazer. Tal é a finalidade de todo o condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social a que não podem escapar” (19).

Vemos um grupo de bebês sendo apresentados a livros e a flores, de forma que, no melhor estilo pavloviano, é criado um grande barulho, ou até choques, quando eles se aproximam deles, de maneira que a partir daí não mais chegarão perto dessas coisas que podem tirar a estabilidade de uma pessoa.

“- Nós condicionamos as massas a detestarem o campo – disse o Diretor, em conclusão – mas, simultaneamente, as condicionamos a adorarem todos os esportes ao ar livre. Ao mesmo tempo, providenciamos para que todos os esportes ao ar livre exijam o emprego de aparelhos complicados. De modo que elas consomem artigos manufaturados, assim como transporte. Daí esses choques elétricos” (25-6).

Nesta nova sociedade, o consumo é elemento obrigatório, de forma que nada é reaproveitado, tudo é comprado. O Diretor explica que:

“- Governar é deliberar, e não acatar. Governa-se com o cérebro e com as nádegas, nunca com os punhos. Por exemplo, houve o regime do consumo obrigatório...” (49).

CONSCIÊNCIA DE SUAS INDIVIDUALIDADES
Ao longo da visita, vamos conhecendo algumas das pessoas que trabalham durante este processo, os Alfas, é claro, já que os de castas inferiores são gêmeos bokanovskianos, nascidos em 82 por óvulo fecundado! Todos iguais, que vão a ser os operários das fábricas e fazer os demais serviços mais pesados, como já dito. Assim, conhecemos Henry Foster, Fanny Crowne, Lenina Crowne e, principalmente, Bernard Marx e seu amigo Helmholtz Watson.

Como já dito, neste novo tempo as pessoas não devem sofrer, existindo o soma, um comprimido, que faz com que rapidamente qualquer angústia seja extirpada e que se caia num sono profundo a ponto de levar qualquer um a uma espécie de delírio mental paradisíaco. Como já dito, como as mulheres não precisam se preocupar com filhos e as doenças foram extirpadas da sociedade, um dos lemas de agora é que "um é de todos", assim, as relações sexuais ocorrem de forma livre e quando o homem ou a mulher quiserem. 

Em meio a tantas coisas diferentes apresentadas pelo livro, algo que acaba por parecer uma evolução, já que em sociedades machistas como a atual, geralmente os homens podem transar com quantas mulheres quiserem, enquanto estas não podem fazer o mesmo. Assim, acompanhamos uma conversa em que Fanny reclama que Lenina estaria muito tempo apenas com Henry Foster, cerca de seis meses, algo que seria desprezível para a época. Lenina diz sentir algo estranho, de querer se apegar a alguém, mas logo é desfeita da ideia.

É assim que conhecemos - em paralelo, uma estratégia utilizada no livro é de, em alguns momentos, contar cenas diferentes num mesmo capítulo, mas de maneira a não nos atrapalharmos, pelo contrário - Bernard Marx, um Alfa Mais que, dizem, teria seu bocal de nascimento atingido por álcool, o que provocara coisas diferentes nele, tanto na parte física, parecida com a de um Delta, quanto na de condicionamento. Bernard recusa-se a tomar somas para aliviar as pressões do dia-a-dia e aparece como um grande questionador desta nova forma social, lembrando de cada conto hipnopédico que fez com que as pessoas repetissem determinadas coisas, como a alegria proporcionada pelos comprimidos de soma.

Bernard crê que as mulheres são vistas e se deixam ver como pedaços de carne, prontos para serem consumidos por quem quiser a qualquer hora, mais pela vontade dos homens que pela delas. Apresenta admiração pela "pneumática" Lenina, sai com ela, mas acaba a irritando ao tentar mostrar coisas diferentes e da natureza, da forma com a qual nós conhecemos.

Ele é tão estranho que ao receber uma ameaça para ir à Islândia, justamente por conta de seu temperamento, ele fica alegre por sentir este desafio:

“Pois Bernard saiu do gabinete de cabeça erguida, exultando, enquanto batia a porta atrás de si, com a ideia de enfrentar sozinho a ordem das coisas; exaltado pela consciência embriagadora de sua significação e importância pessoais. A própria ideia da perseguição deixava-o impávido e em lugar de deprimi-lo, atuava antes com um tônico. Sentia-se bastante forte para fazer face às calamidades e vencê-las, bastante forte para enfrentar até a Islândia. E essa confiança tornava-se ainda maior pelo fato de ele não acreditar realmente, por um só instante, que teria de enfrentar fosse o que fosse. As pessoas simplesmente não eram transferidas por motivos dessa espécie. A Islândia era uma simples ameaça. Uma ameaça muito estimulante e vivificante. Caminhando ao longo do corredor, atreveu-se até a assobiar” (93).

Se Bernard Marx era o esquisito por uma falha na produção, o seu amigo Helmholtz, que trabalhava na publicidade do regime, era por ser esperto demais, mesmo para os Alfas, o melhor em tudo o que tentava fazer. A amizade dos dois foi formada justamente por sentirem que eram individuais numa sociedade com pessoas condicionadas a serem tão parecidas:

“A insuficiência óssea e muscular tinha isolado Bernard de seus semelhantes, e o sentimento de ser assim um indivíduo à parte era considerado, segundo os padrões correntes, um excesso mental , o qual, por sua vez, se tornava causa de um afastamento mais acentuado. A Helmholtz, o que lhe dava tão penosa consciência de si mesmo, e de estar totalmente só, era um excesso de capacidade. O que esses dois homens tinham em comum era a consciência de serem individualidades. Mas enquanto Bernard, o fisicamente deficiente, sofrera toda a sua vida pela consciência de ter sido um indivíduo à parte, só recentemente Helmholtz Watson, tendo descoberto seu excesso mental, compreendera também o que o diferenciava das pessoas que o cercavam” (66).

Não li tanto assim sobre a obra de Huxley, que a escreveu na França e faz parecer, inclusive no pouco que li sobre os outros livros, alguém que não era otimista quanto ao futuro. Num trecho, em que Bernard Marx vai a uma "Cerimônia de Solidariedade", em que finge sentir as mesmas coisas que os demais do grupo, temos num mesmo espaço com um Marx, Sarojini Engels e Herbert Bakunin, três sobrenomes muito conhecidos para a esquerda radical. Além de Lenina, que poderia ser uma referência a Lênin.

MALPAÍS
Por conta do emprego, Bernard pode levar Lenina a conhecer a Reserva dos Selvagens, localizada no Novo México, chamada de Malpaís, onde descobrem que há pessoas de origem Alfa Mais em meio ao que, pela descrição, parece uma mistura entre índios e o que sobrou da divindade cristã de um Deus único.

Este espaço, que causou tanto espanto e nojo de Lenina, enquanto Bernard adorava por ser tão mais natural que o Estado Mundial, era definido nas escolas da seguinte maneira:

"'uma Reserva de Selvagens é um lugar que, devido a condições climáticas ou geológicas desfavoráveis, ou à pobreza de recursos naturais, não compensa as despesas necessárias para civilizá-lo’” (150).

Lá eles conhecem Linda, uma mulher que fora levada pelo Diretor de Incubação e Condicionamento para passar um tempo e que acabou se perdendo por lá, passando a morar no local. Com uma aparência repugnante, Linda não consegue se adaptar à nova velha realidade, e sofre por conta de seu condicionamento, que diz que as mulheres são livres para ter relações sexuais com quer quem fosse. Além de sofrer com a falta de soma, que a faz ser direcionada a Popé e sua bebida alcoólica que dá uma grande ressaca depois.

É ali que ela tem um filho, John, a quem não gosta de ser chamada de "mãe", nome proibido, e que tenta dar algum condicionamento, ensinando a ler e algumas frases hipnopédicas. Porém, John acaba conhecendo uma coletânea de livros de Shakespeare, adorando as histórias e aprendendo muitas das palavras e frases utilizadas pelo autor, proibido no Estado Mundial - todos os livros produzidos antes de 150 D.F. eram proibidos, sendo substituídos por uma literatura infantil, em palavras de um Administrador Mundial, nível máximo de hierarquia.

Bernard Marx articula bem e acaba levando Linda e John, que também fora excluído das atividades locais por ser de tez branca, para a "civilização", onde começa a última parte da história.

"OH, ADMIRÁVEL MUNDO NOVO!"
John se enamora de Lenina, mas foi acostumado a enfrentar um grande desafio para conquistar a mulher amada, enquanto ela foi condicionada a pensar que se há desejo não se deve pensar duas vezes. O que gera vários momentos de grande conflito.

Além disso, a cada coisa que ele passa a conhecer da civilização ele passa a odiar. O cinema sensível, a falta de bons livros, a busca incessante pelo soma e a fuga de qualquer adversidade emocional para o bem da estabilidade. John tem especial pavor aos gêmeos bokanovskianos:

“'Oh, admirável, mundo novo...’ Por algum capricho perverso de sua memória, o Selvagem deu consigo repetindo as palavras de Miranda. ‘Oh, admirável mundo novo que encerra criaturas tais!’” (148).

Pulo algumas partes sobre Linda e a reação do "Selvagem", que fica famoso e traz alguma fama ao excluído Bernard Marx, para colocar citações do Administrador Mundial para a Europa Ocidental, Mustafá Mond, que leu todos os livros proibidos por ser ele quem proibia e criava as leis, podendo, portanto, transgredi-las impunemente:

“- Nós acreditamos na felicidade e na estabilidade. Uma sociedade composta de Alfas não poderia deixar de ser instável e infeliz. Imagine uma usina cujo pessoal fosse constituído por Alfas, isto é, por indivíduos distintos, sem relações de parentesco, com boa hereditariedade e condicionados de modo a tornarem-se capazes (dentro de certos limites) de fazerem livremente um escolha e de assumirem responsabilidades. Imagine isso – repetiu” (208). 

“- Não é somente a arte que é incompatível com a felicidade, também o é a ciência. Ela é perigosa; temos de mantê-la cuidadosamente acorrentada e amordaçada” (210-1). 

"- Nosso Ford mesmo fez muito para diminuir a importância da verdade e da beleza, em favor do conforto e da felicidade. A produção em massa exigia transferência. A felicidade universal mantém as engrenagens em funcionamento regular; a verdade e a beleza são incapazes de fazê-lo. E, é claro, cada vez que as massas tomavam o poder público, era a felicidade, mais do que a verdade e a beleza, o que importava” (213).

Para John, nada daquilo era excepcional, muito importante e o livro termina com a busca pela solidão, que ele tanto rejeitara em Malpaís, mas que tanto queria na "civilização". Afinal, como diria Otelo:

“'Se depois de toda a tempestade vêm tais calmarias, então que soprem os ventos até acordar a morte!’” (222).

Se ele vai conseguir? Basta lembrar que Huxley é pessimista quanto à evolução da sociedade.

REFERÊNCIA
HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Tradução de Vidal Oliveira e Lino Vallandro. 20.ed. São Paulo: Globo, 1994 (1932).

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Os "Dias na Birmânia" de Orwell

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“Em tudo o que escrevi, desde 1936, tomei partido, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático, como eu o entendo” (260).

Comecemos a tratar de Dias na Birmânia de uma forma diferente. Ao final do livro há a seção O Autor e sua Obra, que apresenta a frase que serve como epígrafo deste texto e que também nos conta que Eric Arthur Blair, o homem por trás do pseudônimo George Orwell, viveu dos 19 aos 25 anos (1922 a 1928) na Birmânia, contando neste livro, portanto, boa parte das relações entre colonizadores e colonizados que viu nesta experiência, num livro que veio a ser publicado em 1934.

Desta feita, Dias na Birmânia, um livro que passei meses e meses tentando achar na biblioteca da universidade, só o encontrando quando já não o procurava. Este livro veio para se juntar a outros, que foram publicados depois, mas que eu li antes: A flor da Inglaterra (1936), Um pouco de ar, por favor! (1939), Revolução dos Bichos (1945) e 1984 (1948).

Por vários motivos que não vale eu destacar aqui, não teria como fazer uma super análise como algumas as quais eu fiz nos livros anteriores de Orwell que, indiscutivelmente, é um dos melhores autores que já li, principalmente por conta da frase que reflete bem o como eu interpreto as suas obras frente à sociedade que o circundava. Neste caso, é a relação do império britânico com a colônia.

Alguém me explica essa capa?
LIVRO
A história de Dias na Birmânia, até mesmo pelo ano em que foi escrita, é bem mais simples que as demais já analisadas. Não traz um percurso de um personagem que por ir de encontro às leis e normas vigentes acaba sofrendo ao final por conta disso. Quer dizer, a história de Flory caminha por entre as normas que os britânicos acabaram criando para a Birmânia, ele é contrário à relação de submissão existente, mas não dá para dizer que isso seja definitivo para o seu trajeto - ou será? Enfim, quem quiser que tire a dúvida lendo o livro.

Orwell escreve de uma maneira bem interessante, altamente descritiva, a tal ponto que os primeiros capítulos do livro aparecem todos os personagens que irão ser desenvolvidos ao longo do mesmo. Pode até ficar um pouco bagunçado no início, gerando histórias paralelas que tendem a se cruzar depois das 20 ou 30 primeiras páginas e desanuviar as dúvidas que se acumulam nas cabeças dos leitores.

Uma dessas figuras apresentadas no início é um burocrata local U Po Kyin, por quem parece que a história vai se centrar, que ele vai ter participação fundamental no livro e, vá lá, dependendo do ponto de vista até que ele atua de forma determinante, mas não chega a ser um dos principais personagens. Porém, não deixa de ser interessante. Vejam um trecho de apresentação deste sujeito. Contem quantos assim vocês lembram da política e do judiciário no Brasil:

“Assim que surgia qualquer acusação contra ele, U Po Kyin simplesmente a desacreditava através do suborno de inúmeras testemunhas, e adotava uma série de contra-ataques que o deixavam numa posição mais forte ainda. Ele era praticamente invulnerável por ser um bom juiz dos homens, por não se arriscar tomando atitudes extremadas, e, por estar a par das intrigas, não fracassava pela negligência ou pela ignorância. Podia-se prever com segurança que ele nunca seria desmascarado; sua vida seria marcada pelo sucesso e ele morreria coberto de honrarias e recheado de milhares de rupias” (p. 9). 

Em Kyuktada, cidade onde se dá a história, os britânicos têm um clube em que só eles podem participar. A história se desenvolve tendo como uma das bases quando o responsável local, o Sr. Macgregor, resolve seguir norma geral para as colônicas do Reino Unido e convidar um nativo para se juntar a eles. Em geral, os participantes do clube não querem a participação do Outro, que na verdade é o dono da terra, dentre eles. Ellis é um dos maiores entusiastas da "pureza" do clube. Percebe-se o tamanho do preconceito e, além disso, da submissão que a maioria dos ingleses tinham:

“Moramos aqui para governar uma récua de porcos negros, que desde o começo da humanidade vêm sendo escravos, e em vez de cumprimos nossa obrigação, o que fazemos? Resolvemos tratá-los como iguais! E vocês são uns merdas por acharem isso muito natural. [...] Céus! Parece até que vocês gostam dessa negrada toda! Francamente, não sei o que aconteceu com a gente, não sei mesmo!” (p. 25). 

A exceção é Flory, que não vê problema algum em conviver com os nativos. Pelo contrário, ele geralmente acha interessante. Alguns momentos que mostram a contradição do pensamento pequeno do nativo, mais voltado à burocracia de um emprego ruim, e a visão realista do papel dos britânicos segundo alguém que tende a respeitar os nativos são as conversas entre Flory e o Dr. Veraswami:

“[Veraswami] - Será que os birmaneses poderiam comerciar sozinhos? Saberiam construir máquinas, navios, estradas de ferro e de rodagem? Sem vocês, nós não seríamos coisa alguma. O que aconteceria com as florestas da Birmânia se os ingleses não estivessem aqui? Seriam imediatamente vendidas aos japoneses, que as devastariam, destruindo-as. No entanto, sob sua jurisdição, nossas florestas estão até melhores, pois, enquanto os negociantes ingleses desenvolvem os recursos do país, os funcionários do governo nos civilizam, elevando-nos ao seu nível, e tudo isso por puro espírito comunitário. É, na verdade, um esplêndido testemunho de altruísmo” (p. 40). 

“[Flory] - Nós ensinamos os jovens a beber uísque a jogar futebol e nada mais além disso. Olhe para as escolas: fábricas de futuros escrivães onde jamais se ensinou sequer um artesanato manual útil a qualquer indiano. Não nos atrevemos a isso, pois temos medo da competição na indústria. Chegamos até a destruir algumas indústrias locais, o que me leva a perguntar: onde se encontra atualmente a musselina indiana? No início da década de 1840, construíam-se navios mercantes na Índia, ao passo que hoje em dia não se constrói sequer um barco pesqueiro! [...] As únicas aças orientais que se desenvolveram rapidamente foram as independentes. Não vou citar o Japão, mas o Sião, por exemplo...” (p. 40). 

Flory quer indicar Veraswami para o clube, mas sempre fica sem jeito de encarar Ellis e os demais na hora da assembleia do clube. U Po Kyin quer ser o indicado e vai fazer de tudo para o médico não assumir o posto. Calúnias através de correspondências, revolta fabricada e até prejudica algum branco, nada pode passar por cima de alguém cuja caracterização é bem burlesca.

No meio disso, aparece a sobrinha dos Senhores Lackersteens. Elizabeth vem direto da França após uma vida cheia de problemas, com uma mãe que se acha artista e vive de forma boêmia, enquanto ela tem que trabalhar no que dá. A ida para a Birmânia aparece como única opção. Flory e ela se encontram após um búfalo encará-la de frente. Mesmo sem muito perigo, o britânico com uma cicatriz no rosto a salva e vira herói.

A história caminha com os dois se conhecendo. Flory querendo alguém para fazer companhia e poder conversar sobre várias coisas que seus livros diziam. Eram os livros os companheiros para uma solidão de alguém depois dos 30 anos fora de seu lugar de origem. O problema é que ela não gostava de conversas assim, mas queria saber mesmo era de caça, de aventuras. Até sair com ela numa caçada e surpreendentemente ir muito bem, com direito a um leopardo morto.

Como sempre para nós homens, uma mulher muda qualquer coração solitário e se esquece que a realidade pode ser menos dura do que parecia:

“'O que acontecem com meu passado?’, voltou a pensar enquanto cruzava o jardim, sentindo-se feliz por haver compreendido que os crentes estão certos quando dizem que existe a salvação e que a vida pode recomeçar. Ele passou pela entrada e lhe pareceu que sua casa, as flores, os criados, toda aquela vida que havia tão pouco tempo parecia inundada de tédio e saudade, de alguma forma tinha se transformado numa existência nova, significativa e inesgotavelmente bela. Como tudo podia ser bom quando se tinha alguém com quem compartilhar essa felicidade! Como se podia amar este país, bastando para isso não estar sozinho!” (p. 137). 

Mas quem quer alegria que não leia livros de George Orwell. Só malucos que nem esse que vos escreve que se tranquiliza com seus livros - com exceção de Winston, em 1984. Tudo muda e depois ganha uma reviravolta e mais outra até o final não ser feliz, e isso não tem nada de spoiler.

Uma dessas mudanças vem com a morte de um agente florestal que fazia parte do clube, ainda que não com participação efetiva. Mas o assassinado de um branco, independentemente quem fosse, era diferente e isso é uma das críticas de Orwell aos colonizadores:

"Ninguém particularmente ficou muito aborrecido, pois Maxwell era quase uma nulidade – apenas ‘um bom rapaz’, como dez mil nos rapazes ex colore da Birmânia, sem amigos íntimos. Nenhum dos europeus sentiu realmente sua morte, mas isso não queria dizer que não estivessem furiosos. Pelo contrário, na verdade estavam lívidos de ódio, pois o imperdoável havia ocorrido – um branco tinha sido assassinado – e, quando isso acontecia era como se uma corrente elétrica atingisse a colônia inglesa do Oriente. Uma média de oitocentas pessoas são mortas anualmente na Birmânia, e isso não tem a menor repercussão; contudo, o assassinato de um homem branco é considerado um sacrilégio, uma monstruosidade” (214).


Para finalizar, um bom trecho destas reviravoltas do livro, com destaque para um autor/ativista revolucionário russo bem famoso, que acaba virando a comparação para saber se algo era bom ou ruim para os britânicos na Birmânia:

“Agora ela [Elizabeth] entendia perfeitamente o caráter de Flory, por que ele a aborrecia tanto e a irritava também. Era um ‘intelectual’ – palavra feia no seu vocabulário – que poderia juntar-se a Lênin, A. J. Cook e os poetas sujos dos cafés de Montparnasse” (179). 

“Do jeito que as coisas estavam, Flory poderia entrar no clube e fazer um discurso sobre Lênin que seria, pelo menos, ouvido por todos” (231).


Eu encaixo Dias na Birmânia abaixo de 1984 e Revolução dos Bichos por motivos óbvios que fazem destes dois livros clássicos. Porém, quase no mesmo nível de A flor da Inglaterra, por achar que o soco no estômago que o leitor recebe neste livro é maior, e acima de Um pouco de ar, por favor!


Pela propaganda que me faziam para ler este livro e, além disso, pela espera que tive para lê-lo, pensava em algo um pouquinho mais impactante. Talvez, a ansiedade e o conhecimento de outros livros de Orwell tenham me feito esperar muito, mas como? Este é um dos primeiros livros dele!

Referência
ORWELL, George. Dias na Birmânia. São Paulo: Círculo do Livro, s/a. (1934). 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Um pouco de ar, por favor! (ORWELL)

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Acabei colocando o autor entre parêntesis para não acharem que é uma reclamação da minha parte - algo que deixaria para a coluna "Em busca do El Dorado". Seria um bom título até para representar a vida nestes primeiros dias do ano, mas de fato este texto se refere a outra coisa, ou melhor, a um livro. Um pouco de ar, por favor! é o título traduzido para o português do livro do jornalista britânico Eric Arthur Blair. Não reconhece o autor? Pois bem, o pseudônimo, conhecidíssimo, já está na imagem que apresenta este modesto texto: George Orwell.

Confesso que a minha escolha de livro para ler nas férias era outra. Na realidade, pretendia pegar Dias na Birmânia (1934), que conta a verdadeira face colonizadora do império britânico na Índia, porém - como boa parte das coisas que havia planejado para estas "férias" -, acabei não conseguindo, pois não o encontrei na Biblioteca da Unisinos, mesmo que tivesse duas edições.

Olhando na seção de Orwell acabei encontrando Mantenha o sistema e Moinhos de Vento, que, quando li a contracapa percebi que já havia lido por inteiro, pois conhecia o protagonista, Comstock. Esses foram os títulos para traduções iniciais de A flor da Inglaterra (1936), livro que já li anos atrás.

Um pouco de ar, por favor! (1939) acabou sendo a única alternativa para quem pretendia relaxar lendo George Orwell, se é que isso é possível. O legal, do ponto de vista biográfico, é que este é o último livro do autor publicado (um pouco) antes da Segunda Guerra Mundial e, o principal, é a obra que antecede os seus clássicos e excelentes A Revolução dos Bichos (1945) e 1984 (1948). Por conta da reedição da Editora Itatiaia, provavelmente para sua maior difusão, aparece o sub-título "na sombra de 1984", o que acaba nos empurrando para possíveis comparações ou aparições de passagens que você pense que o protagonista deste livro deixe dicas do temor apresentado no livro futuro.

UM POUCO DE AR, POR FAVOR!
Até para evitar ainda mais momentos de comparação, para além dos naturalmente feitos ao longo da leitura, optei por não ler os textos publicados aqui no blog sobre os três livros que já li de Orwell.

Um pouco de ar, por favor! é a história do e pelo vendedor de seguros George Bowling, um homem de meia idade, que aos 45 anos convive com uma barriga que lhe dá a alcunha de "gordo" ou "gordinho"  (e o "Bowling" seria mera coincidência?) e um emprego de vendedor de seguros o qual, de certa forma, orgulha-se - "Sou vulgar, insensível e me adapto perfeitamente ao meio ambiente" (25). Ele é casado com a ciumenta Hilda, de quem pouco se orgulha, e pai de duas crianças, as quais pouco se preocupa.

O ponto inicial do texto é o dia em que usa pela primeira vez uma dentadura, algo que durante o livro ele passa a maior parte do tempo acreditando que o rejuvenesce, mas que nos momentos mais críticos acaba por não ver diferença alguma.

Fato é que ele está sem o mínimo de paciência com o caminho que a sua vida tomou. Não querendo mais saber da classe média baixa londrina e em busca de coisas que sejam realmente agradáveis de fazer e é por conta disso que percorremos a vida dele ao longo da obra, com suas opiniões sobre a sociedade inglesa da época em todos os níveis. Afinal, como toda obra de George Orwell, a caracterização do contexto socioeconômico é excelente e com uma perspicácia característica.

Sobre isso, o livro foi escrito e narrado por alguém que está em 1939, o ano que marca o fim do período de tranquilidade, como ele vai relatar num dos trechos do livro: "quando a civilização parece firmar-se em suas quatro pernas como um elefante nas suas, que coisas como 'a vida depois da morte' não têm importância" (105). 

Não que Bowling vivesse com toda essa tranquilidade, pelo contrário, a "sombra de 1984" que os editores brasileiros colocaram como o subtítulo representa toda a tensão demonstrada ao longo da obra sobre a Segunda Guerra Mundial, numa provável aliança de Hitler e Stálin - que em determinado momento "perseguem" o protagonista, em sua imaginação, numa mesma bicicleta... O medo dele não estava no caos proporcionado pela guerra em si, mas no que ocorreria após ela:

“Guerra! Comecei a pensar nisso novamente. Logo estará aí, com certeza. Mas quem tem medo de guerra? Isto é, quem tem medo de bombas e metralhadoras? - 'Você tem', diz você. Sim, tenho, assim como qualquer pessoa que a tenha visto. Mas não é a guerra que importa, é o após-guerra. O mundo no qual seremos arremessados, aquela espécie de mundo de ódio, o mundo dos slogans. As camisas de determinada cor, o arame farpado, os cassetetes de borracha. As câmaras secretas onde a luz elétrica brilha dia e noite e os detetives ficam de guarda enquanto você dorme. E os comícios, os cartazes com caras enormes e as multidões, milhões de pessoas todas a dar vivas ao seu líder até que elas mesmas se ensurdecem, pensando que elas o apoiam quando, durante todo o tempo, no seu íntimo, odeiam-no e então só desejam vomitar. Tudo isto vai acontecer. Ou não vai? Em determinados dias sei que é impossível mas, em outros, sei que é inevitável” (151).

A necessidade de ar, não só para fugir da sua esposa Hilda, muito idiota com suas amigas para várias coisas, mas inteligentíssima para descobrir as traições do protagonista; ou da impaciência com a Londres congestionada de "lixo", representa o precisar de escapar de tudo, que só o lembra a guerra prestes a começar.

O livro é dividido em quatro partes. Na primeira há a apresentação de um cenário de sensações e situações cotidianas de Bowling, encerrando com algo que ele vê como manchete de jornal e o faz lembrar da infância: Rei Zog lembra um canto da igreja, ao qual ria porque formava "and Og"(dog). Na parte seguinte ele vai percorrer as memórias da infância, como foi sua criação em Lower Binfield, cidade em que viveu até os 16 anos, vendo o pai trabalhar numa armazém próprio - em meio à invasão de novos e poderosos concorrentes -, a mãe fazendo as tarefas de casa e o irmão perturbar a família até abandoná-la em definitivo. 

Uma de suas grandes lembranças está nas pescas realizadas, nos peixes deixados em sua cidade natal após promessas de um dia retornar a lugares inóspitos que, imaginara, só ele conhecia, podendo pescar peixes ainda maiores do que o que vira naqueles tempos.

Apesar de ter se apaixonado pela leitura quando adolescente, algo que orgulhar ter feito enquanto pôde, e apresentar inteligência que surpreendera a própria família, não estudou muito por conta da crise  financeira que a família passaria. Ainda assim, ele destaca que no fundo não faria tanta importância:

“Quando entrei em contato com os rapazes das classes superiores, como aconteceu durante a guerra, fiquei muito surpreendido ao verificar que, na realidade, eles jamais conquistam aquele espantoso domínio de conhecimentos que se supunha deveriam conseguir nas escolas. Ou as escolas os reduzem a perfeitos idiotas ou passam o resto das suas vidas a protestar contra elas. Assim não acontecia com os rapazes de nosso meio, filhos de negociantes e fazendeiros. Ingressava na Grammar School e lá se ficava até os dezesseis anos, para mostrar que não se pertencia ao proletariado, – mas a escola era, principalmente, um lugar de onde se desejava sair” (70).

O seu divisor de águas, assim como de muitos da sua época, foi o alistamento para a Primeira Guerra. Mundial. Servindo fora do país, acabou por se machucar e retornou para ser tratado na Inglaterra. Após recuperação, foi reencaminhado para uma cidade no extremo do país para tomar conta de 11 latas de conservas durante dois anos. Mesmo reclamando que não havia depósito a tomar conta, continuou por lá vigiando algo que não existia. Para sua sorte havia livros e revistas o suficiente para se entreter.

Ainda assim, a partir de 1918, até na longínqua localidade de Twelve Mile Dump havia a sensação de estar se lutando por nada, não tendo mais a identificação dos adversários de front como alguém que se deveria matar a todo o custo. Ele descreve esse período como o de um niilismo causado não necessariamente porque a guerra fizera com que as pessoas virassem intelectuais.

Terminada a guerra, ele e todos os outros foram demitidos sumariamente do Exército e tiveram que arranjar emprego, momento em que até teve sorte, já que arranjou o lugar "comum" da época, ser vendedor viajante e numa dessas visitas às empresas acabou conseguindo o emprego como vendedor de seguros.

O período deprimente pós-Primeira Guerra, o qual tanto o atemorizava para depois da Segunda, foi assim descrito:

“Aquele foi um tempo estranho, dos anos logo após a guerra, e quase até mais estranho que a própria guerra, embora se pessoas não tenham conservado uma lembrança tão vívida. De uma maneira muito diferente, o sentimento de descrença por tudo era mais forte do que nunca. Milhões de homens foram subitamente despedidos pelo exército, para verificar que o país pelo qual haviam lutado não tinha lugar para eles e que Lloyde George e seus pares estavam liquidando com quaisquer ilusões que ainda existissem” (126).

Ah, na primeira parte ele lembra que tinha uma dezena de libras guardadas no banco, de modo que nem a esposa, sempre preocupada em gastar menos, sabia. É com ele que resolve partir de volta para sua cidade natal, em busca de "um pouco de ar". As partes derradeiras são dedicadas a isso: sua preparação, ida a Lower Binfield em busca dos fantasmas de suas memória e o resultado dessa volta.

Para não me prolongar ainda mais e também para não contar trechos importantes que guiariam para o final da expedição, basta dizer que a narrativa se assemelha à realizada por Gordom Comstock em A flor da Inglaterra.

Como deixa de conclusão, um trecho que na minha imaginação fruiu bem e que serviria bastante para quem desenha, escreve e/ ou interpreta e que vem dentre as páginas finais:

“Um pote de geleia havia rolado pelo assoalho, deixando atrás de si um rastro de marmelada e, ao lado dele, corria, paralelamente, um grosso fio de sangue. Mas no meio de toda a louça quebrada jazia uma perna. Apenas uma perna vestindo ainda a sua parte da calça e trazendo no pé um salto de borracha. E era exatamente diante daquilo que o povo as exclamações que estava ouvindo” (222).

REFERÊNCIA
ORWELL, George. Um pouco de ar, por favor!: na sombra de 1984. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Itatiaia, 2000 (1939). Título original: Coming up for air.



sexta-feira, 12 de junho de 2009

1984 ideias: Lemas do partido

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Tentaremos concluir agora a série sobre o livro do britânico George Orwell, 1984, com a forma com que o autor traz alguns lemas até mesmo contraditórios e os aplica na vida do seu protagonista nos momentos mais inquietantes deste clássico.

O grande lema, espalhado nos cartazes e fotos de propaganda do Partido, o Ingsoc, era: “O Grande Irmão zela por ti”. Se repararmos bem, em todos os locais que ditaduras são identificadas, veremos grandes imagens dos governantes locais (ainda é assim na China pós-Mao, e era assim no Iraque na época de Saddan), na Londres do livro não era diferente.

A frase existia para que as pessoas pensassem naquele sujeito, que provavelmente nunca viram e nem verão, como o grande protetor do povo; o que resolveria qualquer problema – se bem que na nossa democracia a ideia é bem parecida. Ao mesmo tempo, tal tema servia para vigiar as pessoas, afinal de contas o Grande Irmão sempre estaria ali para cuidar de você, dos seus atos e pensamentos.

Outros três lemas, espécimes de slogans, são colocados desde o início - assim como os “ministérios” responsáveis por julgar as atitudes das pessoas – e são contraditórios até o ponto de os fatos lhe darem razão: “Guerra é paz”, “Liberdade é escravidão” e “Ignorância é força”.

GUERRA É PAZ - Como já devemos ter dito anteriormente, a função do protagonista do livro, Winston, era mudar os arquivos jornalísticos do passado de acordo com as novas vontades do poder. Se antes estavam em guerra com um país, a partir de agora sempre guerrearam o outro.

Mesmo que nessas batalhas pouco fosse disputado, o que importava era justificar as más condições da classe subsumida em questão, os proles, e o rareamento de determinadas comidas ou objetos em algumas épocas até mesmo para os membros da classe média, burocrática.

Em nosso ver, “Guerra é paz”, significa manter uma situação beligerante para alimentar o sentimento de nacionalismo e evitar que as pessoas se unam contra a situação vigente. Afinal, tudo irá melhorar depois que “vencermos a guerra”. Como nos diz em certa parte, Winston, ninguém sequer lembra se antes era pior ou melhor que aquilo; e mais, “ortodoxia quer dizer não pensar... não precisar pensar. Ortodoxia é inconsciência” (p. 46).

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO - Voltemos à relação com os dias atuais. Quantas pessoas nós já não ouvimos reclamar das coisas, mesmo na universidade, e não se moverem para nada para tentar alterá-las? O conformismo é alimentado diariamente pelas próprias pessoas e mesmo pela mídia. Esta que apesar de criticar os políticos e mostrar alguns problemas do mundo, não sai da superfície dessas coisas – por interesses já conhecidos – e mais incentiva as pessoas a continuar sentadas no sofá assistindo à TV.

E é essa falsa sensação de liberdade (democrática) que mais escraviza a população. Afinal, todos alardeiam que é fácil mudar dentro do que se tem em vigor, porém ninguém quer que uma alteração real ocorra. Você é livre, “mas para quê mesmo? Precisamos de um controle central, alguém no comando”. E é aí que entra o GI em 1984, a sua função.

Segundo um dos seus seguidores, Martin, – que só saberemos depois que é um de seus vigias: “O indivíduo só tem poder na medida em que cessa de ser indivíduo” (p. 214). E o poder do Partido “consiste em infringir dor e humilhação” (p. 217) a quem pensar o mínimo possível em duvidar desta força.

IGNORÂNCIA É FORÇA – O trabalho de Winston também consistia em alterar a história em relação a algumas pessoas, se antes a história oficial dizia que três homens eram herois, agora eles passariam a vilões. Mesmo que estivessem mortos, iriam a julgamentos populares e seriam enforcados em cerimônias públicas para mostrar o quanto o GI era justo.

Neste caso, a ignorância da maioria das pessoas representava a força do Partido e de seus reais seguidores. Esse controle da idiotice alheia era feito de inúmeras formas, dentre as quais se destaca o fato de que os próprios pensamentos poderiam ser controlados.

Manipulação de notícias é um tema que todos nós, estudantes de Jornalismo ou profissionais da Comunicação, escutamos quase que diariamente e isso não é surpresa para ninguém. Bem que os meios de comunicação poderiam aderir a esta frase: “Quem controla o passado, controla o futuro, quem controla o presente controla o passado” (p. 205).

SOFRIMENTO É PUNIÇÃO – Para quem duvida disso e tem consciência que algo deve ser mudado, há uma série de punições a serem aplicadas, até chegar à morte. Mas antes viesse a morte, que aparentou ser bem melhor do que o processo de crença no Grande Irmão, através da prova do quanto o indivíduo pode ser fraco.

São três os processos empregados após a prisão normal, com todos tipos de meliantes, e antes do julgamento: 1. Crimedeter, que significa deter qualquer pensamento; 2. Negrobranco, que representa tal nível de flexibilidade que se chega a acreditar e fazer preto com branco e vice-versa; 3. Duplipensar, que é um controle da realidade de forma consciente inconsciente.

É assim que se dá a vitória do GI sobre os que tentam alterar algo em seu mundo. Após se denunciar e também ao outro o qual gosta, de se ver em gravetos em frente a espelhos, de ser torturado através de alguns objetos, e o pior, depois de admitir que “o Grande Irmão zela por ti”, recebe um tiro na nuca e morre.

Ah, não pense que só porque soube de determinados detalhes do livro isso será suficiente para representar as sensações que 1984 podem causar. Como disse no início dessa série, este é um livro para se ler mais de 1984 vezes, e possivelmente você perceberá milhares de coisas que podem ser interligadas com a sociedade de Orwell e a nossa.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

1984 ideias: REALIDADE x UTOPIA

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Como visto nos demais livros de George Orwell (A revolução dos bichos e A Flor da Inglaterra), o autor inglês era bem cético quanto a transformações sociais radicais. Mudanças que significassem não apenas uma nova forma de sociedade, mas um convívio entre pessoas de forma justa, livre e igualitária.

Orwell tinha como exemplo para acreditar que isso seria impossível a maneira que a União Soviética, sob julgo stalinista, não só tratava os demais países, como tratava a própria população. A manutenção da divisão social era clara, com clara superioridade dos burocratas estatais.

Mesmo assim, o autor, como já temos dito nos demais textos, não acreditava ser o sistema capitalista perfeito. Pelo contrário, ele conhecia as contradições entre as classes existentes sob o julgo do capital e recriminava não só a exploração entre os humanos (A Revolução...), como a dependência estrita perante o objeto dinheiro (A Flor...).

Em 1984 mais uma vez encontramos a comprovação dos comentários dos dois últimos parágrafos. Uma das passagens mais interessantes sobre este assunto encontra-se, nesta edição, na página 155. Através do sistema capitalista, como já havia dito Marx, os homens criaram condições materiais para o fim da desigualdade humana:

“Desde o momento em que a máquina surgiu, tornou-se claro a todos que sabiam raciocinar que desaparecera em grande parte a necessidade do trabalho braçal do homem e, portanto, a desigualdade humana”.

Porém, os objetos que criaram, especialmente o dinheiro, acabaram por subjugá-los. As formas de expressão de poder são criações humanas que de meios de organização viraram instrumentos de forte repressão e segregação.

Na Londres do livro, o poder mais uma vez toma as cabeças de quem o alcança: “O Partido procura o poder por amor ao poder [...] Sabemos que ninguém jamais toma o poder com a intenção de largá-lo. O poder não é um meio, é um fim em si” (214).

Entretanto, através de Winston, o autor mostra como deveria ser modificada a realidade vigente. Assim como para Marx, a revolução teria que partir, ter como protagonistas, membros das classes exploradas, os proles: “Se há esperança, escreveu Winston, está nos proles” (59). Ainda “escreveu: Não se revoltarão enquanto não se tornarem conscientes, e não se tornarão conscientes enquanto não se rebelarem” (59).

Assim como outros tantos ex-revolucionários – os que não se transformaram em reacionários, mas em fatalistas -, Orwell desacredita ideias transformadoras e como já dissemos ao longo das análises orwellianas, ele demonstra isso em seus livros:

“O socialismo, teoria aparecida no início do século dezenove e o último elo de uma cadeia de pensamento que se iniciara nas rebeliões dos escravos antigos, ainda estava profundamente infeccionada pelo utopismo do passado” (166).

Baseado no exemplo soviético, stalinista, o qual foi contemporâneo, o autor já afirmara um pouco antes a falibilidade do Socialismo: “Mas em cada variante de Socialismo que apareceu de 1900 para cá, o propósito de estabelecer a liberdade e a igualdade ia sendo abandonado cada vez mais abertamente” (162).

Na cidade-continente do livro, assim como na URSS, as pessoas sequer poderiam ter ideias de querer transformar a sociedade, não poderiam ver problemas nela. O que não é diferente também dos dias atuais, em que todos são guiados para o pensamento de que “são pobres porque querem, não se esforçaram”, quando sabemos quem é que não quer.

Instrumentos não faltam para que isso seja realizado. Se a tecnologia evolui a passos cada vez mais rápidos, também evolui, talvez em proporções maiores, a quantidade de pessoas que nascem ou caem para as classes inferiores da sociedade.

Se já havia algo errado por volta de 1948, sessenta anos depois os problemas existentes se agravaram e novos apareceram. Alguma coisa continua errada. O sistema que nos rege não foi alterado, sofreu apenas algumas mutações. O que fazer?

segunda-feira, 27 de abril de 2009

1984 ideias - II

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FAMÍLIA, 1984 E HOJE - Muitos foram e são os casos na nossa sociedade de casamento arranjado. E, com o tempo, aumentaram não por tradição cultural, mas pela influência do dinheiro nas relações. Até mesmo porque a segregação social criada envolve os mais diversos tipos de elementos culturais. Poucas são as pessoas que tem a opção de usufruir um bem cultural ou, até mesmo, de frequentar instituições escolares.


Assim, as uniões matrimoniais ocorrem na maioria das vezes com pessoas de classes sociais iguais. Desta forma, a riqueza produzida por ambas as origens familiares não tem que ser dividas com alguém de uma origem mais baixa. Ou seja, não há a possibilidade da divisão de riquezas nem sob o signo de um relacionamento afetivo.

Segundo Engels (p. 89), “o matrimônio, pois, só se realizará com toda a liberdade quando, suprimidas a produção capitalista e as condições de propriedade criadas por ela, forem removidas todas as considerações econômicas acessórias que ainda exercem uma influência tão poderosa na escolha dos esposos”.

No caso da Londres do livro, quem escolhe como deve ser a relação e com quem é o Partido. É ele que determina quem deve ficar com quem a partir da análise das tais considerações socioeconômicas que tal união pode gerar. As relações estão longe de ser definidas por uma relação afetiva, mas sim por relação de troca: de um lado uma esposa que cuida da casa e que só servirá para procriação; enquanto do outro está um marido que tem que suster a casa e procriar para a manutenção da sociedade.

Winston, por ter variadas ideias subversivas, sempre teve medo das mulheres. Achando que aqueles seres brutos pudessem a qualquer momento denunciá-lo. Sua esposa se separou dele porque não tinham conseguido filhos. Para ele, era algo muito ruim ter relação com alguém tão frígida e sentia falta de sensações mais humanas.

Até que um dia ele tem uma grande surpresa. Ao passar pelo corredor do trabalho em frente a sua sala de trabalho, uma mulher de faixa rosa na cabeça - a qual vira numa das sessões de ódio e faz parte do grupo das jovens feministas - deixou cair uns papeis perto dele. No momento em que Winston a ajudou a catá-los, ela cuidadosamente entrega um pequeno recado em sua mão.

Sabendo do risco de ser vigiado por alguma câmera, ele tentou escolher o momento certo para que o equipamento que ficava na sua mesa de trabalho não visse. De início colocou o bilhete junto com tantas outras mensagens para alterações dos arquivos. De forma que só o abriu após algum tempo e, para sua deslumbre, dizia: “Eu te amo”.

A partir daí ele e Júlia viveram momentos de fuga dos olhos e ouvidos do Grande Irmão, uma fuga daquela realidade. Os prazeres que ambos buscavam tinham motivos diferentes. Ela buscava fugir do sistema através de relações prazerosas, mas ele queria um pouco mais, buscava conhecer pessoas revoltadas da situação social tanto quanto ele.

De certa forma ambos conseguiram isso. Só que Winston também tinha seus pensamentos vigiados e os dois teriam que pagar por vossas desobediências ao sistema estabelecido. Jamais uma família baseada no amor entre as pessoas e na revolta perante o sistema poderia prosperar. Nenhuma ideia revolucionária prosperaria.

É a partir do fim da relação entre os dois que começam os momentos de tortura que afirmei no texto anterior. Só que essa parte só pode ser descrita mais à frente. Caso eu consiga descrever e comparar com qualquer outra coisa.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado - trad. Leandro Konder. 14.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. 224pp. Título original: Der Ursprung der Familie, des Privateigentaums und des Staats.

sábado, 25 de abril de 2009

1984 ideias

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Já se foram três meses da minha leitura de 1984, este clássico da literatura mundial escrito por George Orwell. Semana por semana se passava e eu não conseguia escrever sequer uma linha sobre esta obra, até que na semana passada saí da letargia criada pelo livro para escrever sobre ele.


Mas são tantos aspectos observáveis, tantas coisas que a minha memória apagou de seus registros. Algumas anotações e citações feitas. Tanto que não sabia de onde começar. A vantagem é que da mesma forma que o tempo apagou algumas das minhas memórias referentes ao livro, neste período pude ler outras coisas. E é através da última leitura que começo a série "1984 ideias".

FAMÍLIA
“Morgan diz ‘[...] A única coisa que se pode responder é que a família deve progredir na medida em que progrida a sociedade, que deve modificar-se na medida em que a sociedade se modifique, como sucedeu até agora. A família é produto do sistema social e refletirá o estado de cultura desse sistema” (p. 91).

Esta é uma das citações utilizadas por Friedrich Engels em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, um estudo que pretende unir os elementos antropológicos de Lewis Henri Morgan com os socioeconômicos de Karl Marx. É através da família analisada por Engels que começaremos a nossa árdua jornada.

Para quem ainda não leu o livro de George Orwell, aqui vai uma explicação rápida. O livro, escrito em 1948, mostra como seria a Inglaterra no ano de 1984. Para isso, o autor, com seu peculiar pessimismo super-realista, mostra elementos já apresentados no seu entorno social bastante piorados menos de quarenta anos depois. A predominância é do autoritarismo, o que significa total controle das pessoas, inclusive de seus pensamentos.

Ah, temos que lembrar que existiam equipamentos, que poderiam ser comparados a televisores, a que tudo observavam por quase todos os lados. Não é a toa que o reality show, o de maior sucesso do Brasil, que observa todos os movimentos das pessoas trancadas numa casa se chama Big Brother (Grande Irmão, líder deste continente).

As famílias na Londres de 1984, segregada claramente em burocratas governamentais X proles, são formadas apenas para garantir a procriação, nenhuma forma de amor ou paixão é possível. Sequer o sentimento filial é permitido, a ponto de muitas crianças denunciarem os próprios pais à “polícia”.

O protagonista do livro, Winston, é um burocrata e tem a função de modificar materialmente os arquivos do passado. Porém, é alguém que sente dúvidas de como as coisas chegaram até aquele ponto, que pouco conhece do passado e do pouco que conhece sabe o quanto foi diferente do que o Estado conta.

Sua relação com as mulheres ao longo da vida nunca foi boa. Com a mãe, pelo que lembra, era bem conflituosa. Inclusive, nas épocas de racionamento alimentício ele sempre fora egoísta a ponto de deixar sua irmã de colo morrer de fome.

Seu casamento era com alguém mais frio que uma pedra, que só fazia sexo de forma automática, em nome do Grande Irmão – espécime que chargeia Stálin na União Soviética e que muito bem poderia ser representado para esperança cega atual em Barack Obama.

Seus vizinhos possuem dois filhos que já começaram o treinamento em escolas que mostram que devem ser denunciadas quaisquer pessoas as quais tenham uma hesitação que seja sobre o Partido. É assim que o pai deles, o exemplar de um ser humano idiota e que acredita em qualquer coisa, foi preso. Ambos faziam parte de grupos jovens sexualmente separados e reprimidos. Desde cedo aprendiam o que deveriam agredir e o que não queriam.

Como muito bem coloca Morgan acima, “a família refletirá o estado de cultura desse sistema” e o mostrado em 1984 é deste nível. Algo que explore bastante o individualismo, de forma a se entender a importância da escravidão, da guerra e da ignorância perante o Outro. O único tipo de paixão possível, como já foi colocado anteriormente, é ao Grande Irmão.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A trilogia orwelliana

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Termino com o grande clássico 1984 a trilogia de livros de George Orwell – trilogia ao menos para mim. Antes de qualquer comentário sobre o livro, que se a memória e o tempo permitirem serão muitos, preciso demonstrar como saí de seus livros. A sensação de impotência misturada com um pouco de revolta prevaleceu em mim livro após livro em progressão geométrica.


Suas palavras, que beiram o ceticismo, são um baque forte para qualquer um, especialmente para quem acredita e adquire teoria para uma transformação radical da sociedade. Ao mesmo tempo, seus parágrafos servem para mostrar que apesar de tão difícil de ocorrer tal ação é extremamente necessária. Até mesmo como forma de evitar que coisas ainda piores aconteçam. Evitar que a barbárie se torne a única coisa efetiva no mundo.

Enquanto, em nossa opinião, A Flor da Inglaterra traz críticas aos dois sistemas vigentes, meio que trazendo à superfície as reais opiniões de Orwell, os outros dois livros aprofundam-nas. Na Revolução dos Bichos há o processo de transformação metaforizado para uma sociedade melhor e os problemas trazidos por ser apenas algo localizado. Como tentarei colocar a seguir, 1984 trará a experiência do porco Napoleão sendo maximizada pelo Grande Irmão.

A mistura de vigilância diária de um Big Brother – palavras utilizadas astuciosamente para um produto cultural – com violência cotidiana, trazida com a burocracia governamental, dão a tônica do livro. A União Soviética volta a ser o primeiro exemplo a ser pensado quando lemos o livro, entretanto, mais uma vez discordo desta exclusividade stalinista para trazer à tona nossa sociedade e sua impassividade e, até mesmo, raiva com quem deseja algo melhor.

Mais uma vez, só que ao longo do texto, vejo-me reconhecido em seu protagonista, Winston, só que por motivos, por assim dizer, superiores e bem mais causticantes do que o que me foi encerrado com uma simples bebedeira do Comstock. A única coisa que posso adiantar é que nunca me senti tão (psicologicamente) maltratado quanto após a leitura deste livro. 1984 me gerou uma conjunção de 1984 sentimentos, pensamentos e ideias. Com certeza é um livro a ser lido e relido a posteriori.

Por isso, deveria ser um livro a ser comentado, no mínimo, 1984 vezes, por vários ângulos e recortes possíveis. Para fazer o possível neste momento, a partir da semana que vem tecerei comentários sobre algumas partes que me chamaram atenção nessa primeira leitura, através da série “1984 ideias”.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Da proximidade ao afastamento

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É incrível como os livros têm a capacidade de causar inúmeras sensações a quem o lê. Inclusive, alguns deles nos proporcionam a possibilidade de navegar em vários sentimentos no mesmo livro. Pelo que li de George Orwell, ele é capaz de fazer isso.
Em A Flor da Inglaterra (do original Keep the aspidistra flying) Orwell desvela mais elementos importantes sobre a estrutura social da sua época. Neste livro escrito em 1937 as relações sociais são mediadas pelas mercadorias, como já colocara Marx alguns anos antes. Dentre as quais, a representação do valor do capital, o dinheiro é o principal ponto de ligação e afastamento das personagens.
Gordon Comstock poderia ser o típico inglês: aquele que ganha um salário médio após trabalhar com algo que foi forçado a gostar e vivendo à mercê da quantidade de dinheiro que tinha na carteira. Ah, e com uma aspidistra (planta inglesa) decorando a casa, geralmente na janela. Porém, Comstock não faz isso. Deixa emprego, entra noutro em que recebe menos, mora numa pocilga. Tudo isso para fugir do dinheiro.
“O que ele percebeu, e com uma clareza que só aumentou com a passagem do tempo, foi que o culto ao dinheiro tinha sido elevado à categoria de verdadeira religião. E talvez a única religião autêntica – a única religião autenticamente sentida – que nos resta. O dinheiro é o que Deus já foi. O bem e o mal não significam mais nada, a não ser fracasso ou sucesso. Daí a expressão de sair-se ou dar-se bem. [...] Não haverá revolução na Inglaterra enquanto houver aspidistras nas janelas (p. 59).”
É neste ponto que concordo com ele. Já tive minha fase, assim como Gordon a tem na maior parte do livro, de acreditar que seria este o elemento que garantiria amizades, relacionamentos mais sérios e conforto. Por isso, desde o início passei a vestir o personagem, como se fosse eu próprio.
Gordon representava a esperança de uma família que dependia dele para prosperar, senão os Comstock terminariam por ali. Sua irmã, Júlia, deixara os estudos e o ajudava financeiramente acreditando na possibilidade dele ser o que todos esperavam. Porém, não haviam combinado com ele que, pelo contrário, tinha horror a ter um emprego bom.
Mesmo assim, Gordon chegou muito perto de ser o homem típico da Inglaterra, inclusive devido a sua forma de escrever, mas não a de um poeta, como gostaria. Gordon Comstock acabou caindo por indicação de amigos, e após renegar algumas propostas de ganhar dinheiro, justamente no local em que ajudar a gerá-lo é o principal foco: uma empresa publicitária. Fazia, muito bem, mensagens publicitárias. É com esta cena, ao longo do livro, que sabemos o motivo que ele tanto odeia olhar para cartazes com propagandas.
Saiu de lá, mas na estava livre do seu adversário. Gordon, após ter recebido uma boa quantia de uma revista estadunidense por umas poesias publicadas, resolve gastá-lo com muita bebida. Foi o momento da minha necessidade de afastamento do personagem. Nesta parte parecia sentir cada tontura dele, o cheiro de seu bafo de bebida, suas ânsias de vômito. Desta vez não me identificava com aquilo. Sentia asco de toda aquela situação. Será que por nunca ter feito aquilo, ter se entregado aos vícios dos mais comuns entre as pessoas da minha idade? O fato é que tão logo queria passar destas páginas do livro.

Da proximidade ao afastamento - parte 2

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Porém, quando quase vence o dinheiro, eis que o jogo vira. Apesar de jogar toda a culpa nele, Gordon é obrigado a se tornar o típico cidadão londrino. Família (leia-se mulher e filho), emprego, o dinheiro que dava para manter a todos e, claro, algo que todo inglês de classe média possuía, e que ele fez questão de ter, uma aspidistra na janela. O que significou a sua volta para a empresa de publicidade.
Infelizmente não dá para abordar todos os pontos do livro, abaixo vão alguns:
1-Gordon tinha um amigo pequeno-burguês que se dizia socialista, algo que ele não gostava tanto. Para ele, “Todo rapaz inteligente é socialista aos dezesseis anos. Nessa idade, ninguém percebe a ponta do anzol cuidadosamente escondido dentro da isca. Bem gorda” (p. 59). Mais uma crítica de Orwell ao projeto em curso no Leste europeu. Como em A Revolução dos Bichos, há a crítica da representação do valor do capital, o dinheiro, mas também há a crítica ao sistema que na época polarizava, ou tentava, com o capitalismo.
2-A sedução da mercadoria é uma das partes citadas e que podem ser destrinchadas do livro. Primeiro, e principal, a mercadoria dinheiro, a qual todos correm em direção e Gordon ao contrário. Depois, nos elementos que têm a função de ajudar a vender as coisas. Vemos nos livros mais novos e mais caros a intenção estética de ser facilmente atingido por olhares curiosos – e por bolsos com dinheiro. Nos cartazes e slogans a possibilidade de vencer os mais variados produtos. Tudo isso através da estetização da mercadoria.
Mantenha as aspidistras voando e a situação como está? Um homem só não poderá enfrentar todo um sistema imposto desde que ele nasceu, mas um conjunto de homens, sim.
(ORWELL, George. A Flor da Inglaterra; trad. Sérgio Flaksman; – São Paulo: Companhia das Letras, 2007, 318pp. Título original: Keep the aspidistra flying).

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Uma ode ao real

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A alguns dias li o livro A Revolução dos Bichos, de George Orwel. Após várias tentativas de encontrá-lo na Biblioteca da Ufal, uma colega de turma me emprestou. Vamos a alguns comentários que acredito que sejam pertinentes, principalmente no que se refere à sua atualidade e ao que foi dito sobre sua análise do contexto histórico em que fora escrito.

De antemão discordo dos que acharam o texto de Orwell uma ode ao capitalismo. Hoje, vinte anos depois do início da derrocada do que se convencionou erroneamente denominar de “socialismo real”, percebemos o quanto aquilo que fora escrito ainda após a Segunda Guerra Mundial, 1945, só teve seus deméritos fortalecidos ao longo dos anos; da mesma forma que ocorreu com os defeitos apresentados no mundo sobre a égide do Capital.

O contexto do início da Revolução com a realidade social dos animais sendo oprimidos pelos seres humanos continua ainda hoje, tanto na relação humano-animal quanto entre os próprios homens. Vários foram os projetos de proteção aos animais que surgiram de lá para cá, mas, por incrível que pareça, poucas são as organizações que se mantêm enquanto uma proposta coerente de transformação real das condições subumanas em que vive a maioria das pessoas.

O processo de criação do livro, que representa o fim da opressão animal, surgiu na mente de Orwell ao ver como uma criança andava com um cavalo, molestando-o, mesmo sendo infinitamente mais fraca que o mesmo. Resolvera, então, mostrar a teoria marxista através da realidade dos demais animais, numa simples granja, em que o senhor Jones representaria o primeiro dos capitalistas e os cavalos, ratos, vacas, galinhas, ovelhas... os trabalhadores.

No transcorrer do livro, vemos como o "Trabalharei ainda mais" do cavalo (proletário) Sansão vai causando a sua morte, isso quando as coisas na agora Granja dos Bichos deixam de ter produção recorde e com menos trabalho e as divisas, que desde o início eram desiguais, tornam-se ainda mais favoráveis a certos setores de animais.
Em paralelo a isso, alguns atos definidos após a grande batalha de conquista são proibidos. O hino “Bichos da Inglaterra” (espécie de Internacional Comunista) foi proibido, uma frase de elogio ao ditador da Granja fora pintada e todos os pontos dos Mandamentos - que servia para diferenciar "duas patas de quatro patas" foram modificados com a finalidade de adequar às mordomias humanas que os porcos passavam a conhecer. Manipulação teórica lembra alguém?

De imediato a reposta vem a ser Stálin. Abro, porém, um parêntese na linha discursiva para questionar o que foi feito com esse texto de Orwell na parte ocidental do mundo. Será que não fora também uma manipulação de acordo com os interesses do capitalismo dominante (EUA e Inglaterra)? De início, amigos dos stalinistas, não quiseram sequer publicar a obra por pensarem que irritaria ao comparar os soviéticos com porcos. Pouco tempo depois, e o esfriamento nas relações, o texto virou ataque ao tal do “socialismo real”.

No final, um encotrno de taças representa claramente uma conciliação de classes, mesmo que a classe menos favorecida não tenha sido consultada para tal. A República na qual se transforma a Granja lembra muito terras tupiniquins atualmente com um presidente que veio das classes menos favorecidas só que preferiu se render aos capitalistas. Na época, serviu como paródia do encontro entre Churchill, Roosevelt e Stálin.

Pena que não possa tratar de acontecimentos marcantes do livro, até mesmo para não anunciar o seu final. Porém, posso dizer que o seu término deixa um sentimento de revolta, especialmente para quem deseja uma transformação social radical. Principalmente porque representa a nossa realidade, mesmo após mais de sessenta anos de escrito, assim como, explica muito do que se viu depois, independentemente de nomes. Virou praxe brigar em público e realizar jantares íntimos para selar acordos econômicos, vide relação Estados Unidos e Venezuela, com o seu “socialismo bolivariano”.

Por isso é que entendemos A Revolução dos Bichos enquanto uma ode ao real. A realidade e seus conflitos, suas diversas formas de opressão, suas imposições, oportunismos, enfim, tudo que reflete as desigualdades sociais iminentes. Esta mesma realidade que mostra a necessidade de se compreender que não há consciência de classe com um “todos são iguais, porém uns são mais iguais que outros” (democracia), e sim, quando a classe oprimida perceber sua função social e, principalmente, sua capacidade de transformação. Aí sim, poderemos lutar por uma transformação real desse conjunto de situações desiguais e partir para um mundo justo, livre e igualitário.