sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A introspecção de "O Palhaço" - e a difícil tarefa de ir ao cinema...

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Este texto deveria ser só sobre o último filme dirigido por Selton Mello, ganhador de alguns prêmios e que agradou também a crítica. Mas, antes de comentar sobre o filme, preciso contextualizar como foi a minha recepção perante o filme.

Primeiro, dizer que desde que cheguei ao Rio Grande do Sul não tinha ido ao cinema. Além de muito trabalho a fazer, quase que sem folga, não tinha tantos motivos pessoais ou cinematográficos para fazê-lo - quer dizer, queria muito ver Capitães da Areia, por gostar muito do livro, mas acabei não vendo porque não estava em cinemas próximos. Seguindo o roteiro de "recesso" estabelecido por mim - que acabou sendo bem menor do que eu pretendia -, aproveitei a visita à Casa de Cultura Mário Quintana para assistir "O Palhaço", que estava numa das três salas (!) de cinema presente neste (super) espaço cultural de Porto Alegre.

Surpreendi-me com a quantidade de pessoas presentes numa sessão às 17h em pleno dia de semana (quarta-feira). A sala Eduardo Hirtz é pequena, mas aconchegante, com seus 98 lugares. Neste dia tinha cerca de 35 pessoas nela. Para meu azar, perante outras 65 cadeiras para se acomodar, tive ao meu lado alguém que praticamente não parou de rir durante todo o filme. E não era qualquer risada, não. Era das mais altas que já ouvi.

Odeio claque em séries estadunidenses, já que me parece ser muito autoritário querer que o espectador ache graça da mesma coisa que os produtores/diretores. Se a piada não for engraçada como eles imaginaram, e aí? Por isso que eu tendo a demorar a gostar das séries mais "famosas". Um exemplo delas foi "The Big Bang Theory", por mais que alguns episódios continuem não sendo tão bons assim para mim.

Mas não parou por aí. Sentou ao meu lado o cúmulo de todos os vícios para uma pessoa na opinião de quem vai ao cinema só para assistir ao filme. A pessoa não parava de olhar o celular - motivo que a fazia parar de rir ou diminuir a intensidade do mesmo. Como se não bastasse a quantidade de vezes que pegou algo para comer de dentro de uma bolsa que só podia ser mágica...

Enfim, essa introdução é necessária para justificar possíveis equívocos na análise do filme. Vamos a ela propriamente dita então...

O PALHAÇO
Gosto de personagens mais introspectivos, que não são afeitos às corriqueiras "alegrias" e questionam o que raios está fazendo afinal. Benjamin (Selton Mello), o palhaço Pangaré, passa o filme inteiro assim: querendo saber o que realmente ele possa fazer para se agradar perante às obrigações de tomar conta do Circo Esperança, posto que assumiu por "herança" de seu pai, o palhaço Puro Sangue (Paulo José).

Como todo pequeno circo, a viagem perante as cidades do interior do Brasil é uma constante. Com tantas cenas de carros e caminhões entre plantações de canas, bem que poderíamos lembrar das estradas alagoanas. Por mais que as cidades sejam de Minas Gerais, Maceió ainda aparece num dos diálogos... O agrado a todos os prefeitos e primeira-damas, com o mesmo discurso já ensaiado de "o melhor prefeito das Américas do Sul e da África, ou qualquer coisa assim, são legais.

O melhor ficando para a primeira família, que abre sua casa para um banquete para tod@s do circo, em meio a esquisitos quadros como o da cabra que segura uma rosa - e essa cabra ainda volta nos sonhos (?) do Borrachinha, um dos personagens. O prefeito querendo que o filho declamasse uma ridícula poesia de dia das mães porque acha que ele tem futuro! Na hora da apresentação, o menino ficou calado, causando preocupação a todos. No fim, até que sua fala foi bem engraçada, pois foi natural, quase um "não me mate, pois sou filho do prefeito!".

Enfim, a imagem que abre este texto reflete muito bem o protagonista do filme. Como ele mesmo se define num momento: "como palhaço faz os outros rir, mas quem o faria rir?". É para conseguir essa resposta que ele muda totalmente a vida, vai buscar um documento que valha realmente para algo, afinal Certidão de Nascimento per si não serve para arranjar emprego ou para abrir um crediário; um emprego que lhe dê dinheiro que não sirva só para corromper mecânicos ou delegados, mas também para comprar o sutiã grande que uma das palhaças precisa ou o ventilador - que o persegue durante todo o filme - que a estrela da companhia o pediu.

As apresentações no circo já não são mais como antes e todas as personagens percebem isso, mas ninguém quer importunar Benjamin. O cúmulo, e engraçado, é quando ele troca o nome do prefeito de uma das cidades que o circo visita pelo do bêbado mais conhecido da mesma. Ninguém rindo até toda a trupe aparecer em cena para tirá-lo do foco.

Como o filme é relativamente curto, 90 minutos, não me prolongarei mais. Destaco a presença de alguns comediantes brasileiros que aparecem em algumas cenas: Jorge Loredo ("Zé Bontinho"), Moacir Franco, Ferrugem, Fabiana Karla,... Além das boas atuações de Selton Mello e do grande Paulo José, que deve passar segurança para qualquer ator que esteja do seu lado.

Um dos pontos negativos que vi não é bem do filme em si, mas da demora que ele leva para começar. Ao contrário de outros (tantos) filmes nacionais que, bancados por leis de incentivo a cultura e/ou Lei Rouanet, que colocam num mesmo quadro as empresas que apoiaram a produção, "O Palhaço" passa uma por uma. Legal para quem ajudou a financiar, mas péssimo para quem tem que "perder" tempo vendo nomes como Ambev, OI, Santander e cia. Fora rever as logomarcas das co-produtoras, como a Globo Filmes, mesmo após termos visto suas vinhetas no início.

De forma geral, esperava mais de "O Palhaço", principalmente um pouco mais de tempo, não sei se pelo meu costume em ver filmes um pouco maiores ou por ter alguém me enchendo do lado, não permitindo que eu prestasse maior atenção ao filme. Mas vale à pena sim, vê-lo. Ah, e o filme é sim engraçado, talvez não o suprassumo da comédia, afinal tem elementos dramáticos nele.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Senna: o brasileiro, o herói, o campeão

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Acabo de ver o documentário feito por ingleses apresentado ao mundo no ano passado sobre uma das grandes personalidades do esporte mundial, um verdadeiro mito no Brasil: Ayrton Senna da Silva. A direção é de Asif Kapadia e o roteiro de Manish Pandey.

Não tinha pretensão de escrever sobre o documentário logo após de assisti-lo. Quer dizer, nem tinha o interesse ou lembrança de tentar achá-lo no mundo da internet, por maior que tenha sido a minha curiosidade quando ele foi colocado nos cinemas mundiais - muito depois no Brasil e não sei se chegou a terras alagoanas, acho que não. 

Na segunda-feira, o Sportv mostrou pela primeira vez em TV fechada o documentário, que logo foi para os Trending Toppics do Twitter. Só hoje li o texto do Rafael Lopes, do blog Voando Baixo (Globoesporte.com), que costumo ler por conta da Fórmula 1, sobre o documentário, o que aumentou a vontade de vê-lo.

Comentei aqui no Dialética sobre as minhas lembranças do dia 1º de maio de 1994. É curioso que apesar de ter na época apenas 6 anos de idade, muito daquele dia ficou na minha memória e mais curioso ainda era sempre me emocionar com o chamado "tema da vitória", que por muitos anos só foi tocado por conta de replays das vitórias do Senna - por mais que a música fosse usada desde anos antes.

É bem difícil expressar em palavras a sensação que o documentário acaba de me deixar, uma letargia que me impressiona, por mais que a minha relação com esportes seja bem intensa - independente de se discutir se automobilismo é ou não esporte, apesar que naquela época acho que a dúvida era bem menor sobre a importância do piloto.

Por mais que, como o Rafael destaca no texto dele, o filme tenha que ter optado por uma linha para descrever a história de Senna, apagando alguns momentos importantíssimos - lembro muito bem da sua última vitória no Brasil, carregado pelas pessoas na pista -, o jeito que se conta é bem interessante. Com o destaque para a paixão que ele tem por vencer, mas principalmente na época do kart, em que não havia política e nem dinheiro, era "pura corrida" - frase que abre e fecha o filme.

Eu fui atrás ao longo dos anos de algumas histórias de Senna, acho que com mais destaque para sua disputa com o "Professor" Alain Prost, tentam me convencer de que o piloto brasileiro também havia feito coisas "erradas" para vencer (GP de Suzuka, 1990), por mais que como resposta ao que ocorrera no ano anterior.

O doc acaba me mostrando um pouco mais, até mesmo por manter como foco "maniqueísta" a relação com o então presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), o francês Jean-Marie Balestre, que chegou a dizer que a decisão era dele e que toda decisão dele era correta. Talvez sendo decisivo para a exclusão de Senna no GP de Suzuka de 1989, o que deu a vitória ao também francês Prost. Isso eu ainda não conhecia.

Sobre a história, da Toleman, passando pela Lotus, tendo os três títulos na McLaren e o fracasso que virou desastre na Williams eu tinha uma ideia. Lembrava bem que antes do GP de Ímola, ele tinha abandonado as corridas anteriores. Relembrando e vendo no documentário, fico com a sensação de que a "sorte o abandonara", como disse, creio eu, um repórter da ESPN. 

Nos dois anos anteriores, ele foi grande com um carro que enfrentava uma equipe de outro mundo, a Williams - como foi a Brown na primeira metade de 2009 e a RBR desde o ano passado. Mesmo ganhando algumas corridas, e muitas poles, tirando mais que "o design do carro permitia", ele claramente queria dirigir o melhor carro e não escondeu isso de ninguém durante aqueles dois anos. Quando chegou no melhor, a FIA tirou o que ele tinha de melhor: as alterações eletrônicas (como a tração). O intuito era equilibrar o campeonato. O que desequilibrou totalmente a Williams.

Todo mundo que teve interesse ou lembra daquele fatídico final de semana deve lembrar que Rubens Barrichello, Rubinho, sofreu um acidente num dos treinos, e que Ratzenberg morrera na véspera. Trágica a frase encontrada nos arquivos da FIA em que o piloto austríaco falava que estava assustado, porque estaria passando dos limites do carro.

Ayrton Senna, que passa alguns momentos bem tensos ao longo das cenas mostradas no documentário, nunca esteve tão preocupado como naquele fim de semana, como comprovam os repórteres que trabalham na F1 há muitos tempo e acompanharam sua trajetória. A morte do dia anterior poderia até tê-lo feito não correr uma prova que largaria na pole, mas todo mundo sabe que ele correu...

É o tipo de filme chato de se assistir pelo simples motivo de se saber o final, e olha que eu não vejo problema nenhum em saber final já que a surpresa deverá ser como se chegará nele - se for bem feito. Porém este é um caso diferente. Um ídolo que marcou minha infância e que não era do futebol, num momento em que este vivia uma crise sem tamanho, assim como o próprio país, que tropeçava, e muito!, no processo de redemocratização (desastre econômico sob Sarney e Collor, que não precisa de explicações).

Como alguma torcedora fala no filme, o Brasil precisa de comida, precisa de saúde, de educação, mas tinha algo com o que se orgulhar. Senna representava o sonho das pessoas. O que as fazia acordar todo domingo de manhã e esquecer de alguns problemas pelas quase 2 horas que viriam, por saber que alguém realmente faria de tudo para mostrar o país como vencedor.

Não tenho vergonha de admitir que me emocionei com duas cenas em especial. A primeira foi a vitória no GP Brasil de 1991, com a McLaren travada na sexta marcha durante mais de dez voltas, em que ele desmaia após cruzar a linha de chegada e mal consegue levantar o troféu. O segundo momento é mais óbvio, mal deu vontade de olhar, por mais que tenha visto a cena centenas de vezes ao longo desses mais de 17 anos,

Após vivermos a "Era Schumacher" e a aparição de estrelas, e bons pilotos, como Hamilton e Alonso, com o atual destaque, muito merecido, para o bicampeão e demolidor de recordes Sebastian Vettel, não consigo parar de pensar o que seria da Fórmula 1 se Ayrton Senna da Silva não tivesse falecido naquele 1º de maio de 1994. Acho que esse e um dos SEs que mais queria que fosse realidade...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

4.121 tuítes e quase 11 meses depois...

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Em fevereiro de 2011 acabei me rendendo a um algoz de muito tempo: o Twitter. Como contei aqui no Dialética Terrestre, o intuito era mais para saber o potencial da mídia social que moveu muitas opiniões e trabalhos científicos por conta de um possível potencial contra-hegemônico e, além disso, como as empresas não estavam sabendo utilizá-lo.

Acabei prometendo em fazer uma análise sobre a forma que utilizei o Twitter e por vários motivos não pude fazê-lo para além dos primeiros dias. Até que muitas das dificuldades apresentadas no único relatório de atividades acabaram, com a assimilação pela empresa de outras ferramentas que acabaram por melhorar sua utilização - sem a necessidade de se usar outros instrumentos para, por exemplo, postar uma simples imagem.

Acostumei-me com a série de manchetes - afinal só são 140 caracteres... - publicadas e muitas vezes fiquei e ainda fico com muitas abas abertas por conta da velocidade das notícias e dos meus interesses em ler. Nem sempre dá para acompanhar. Afinal, em questão de minutos já tem dezenas de postagens; apesar de nem sempre serem coisas interessantes - como anúncio de chegadas de festas ou puxa-saquismos governistas.

Por mais que mantenha a crítica quanto à quantidade de caracteres, que restringe, e muito, as discussões, tendo que dizer que esta mídia social foi muito útil para mim durante este quase um ano de utilização. Pude reencontrar um colega/amigo ou outro, que perdi o contato ao longo dos anos, alem de poder trocar tuítes até com algumas referências de produção acadêmica/profissional. Porém, também arranjei por conta do Twitter o meu maior problema profissional em terras gaúchas - por mais idiota que possa ter sido.

Produção própria
Desses 4.121 tuítes até agora, a maioria devem ter sido mesmo sobre futebol. Houve quem reclamasse que eu só tuitava sobre aquilo e até mesmo quem me provocava para usar esta mídia social para escrever em menor quantidade reclamar que eu estava enchendo sua Timeline com informações sobre futebol - especialmente, na final da Libertadores deste ano.

Fazer o quê? Além de apaixonado quase que desde sempre por futebol - e de quase todos os esportes, ao menos todos os que conheci até agora -, ele virou realmente o meu trabalho. Sou editor de uma coluna que se propõe escrever "Além das quatro linhas" ao menos uma vez por semana, logo, tenho que ler muito sobre o assunto. Além disso, a minha pesquisa de dissertação também é sobre futebol, logo nada mais normal do que falar mais dele.

Ainda assim, não é só sobre futebol. Afinal, não é porque sou fissurado por isso que só falo sobre ele, tendo toda a minha vida cultural com ele relacionado - sei lá, ler só sobre ele, ver filmes só sobre esportes ou ouvir músicas que tratem dele e coisas do tipo,...

Quem me conhece de forma razoável sabe que não costumo ficar fazendo só uma coisa. Então, análise crítica da mídia, pensar em políticas de comunicação, além de pensar sobre mobilizações sociais dos mais diversos tipos são temas que devem aparecer também.

Hoje tenho exatos 115 "seguidores". Nunca imaginei que passaria dos 50, imagina dos 100. Sei que é muito, mas muito pouco mesmo, mas nunca disse que queria fazer resultados com isso. Acho que serve mais para um desabafo momentâneo. Surpreendo-me que dentre estas pessoas há quem eu não conheço e quem eu conheço bem, mas que nunca esperava que fosse me seguir, dentre outros, casos de nos nomes da música brasileira, blogueiros "famosos" e professores da área com renome, casos de Martín Becerra e de Laurindo Leal Filho.

Em tom de crítica
Ah, se os indivíduos sabem usar melhor mídias sociais que as corporações em que eles trabalham? As pesquisas mostram que sim. Os jornalistas, apresentadores e atores têm mais "seguidores" que suas empresas. Muitos perfis de programas de TV continuam a falar mais só quando ele está no ar, até mesmo no caso dos jornalísticos (!). A "notícia" a cada minuto, ou a cada segundo, ainda anda longe de ser verdade na maioria dos casos - por isso, ainda temos que dar vivas ao rádio!

De todas as críticas possíveis, ainda tenho sérios questionamentos sobre o caráter revolucionário das mídias sociais. Em alguns espaços tratei disso durante o ano. Tudo bem, hoje temos mais possibilidade de que nossa voz seja ouvida - nossa, entenda de conteúdo fora das grandes corporações. Porém, a possibilidade de difusão de uma mídia massiva no Brasil é infinitas vezes superior ao de uma mídia social. Se temos muitos exemplos de casos de protestos que começaram na Internet, também temos os que não deram certo também partindo dela.

De forma geral, uma coisa é se dizer revoltado num computador e outra bem diferente é afirmar isso nas ruas. No caso da Primavera Árabe, as redes sociais tiveram importância fundamental para o início dos protestos, mas sem acesso a elas, o que seria deles se as pessoas não continuassem indo às ruas?

Hoje eu li, também por conta de um link do Twitter, uma entrevista com o jornalista Ignácio Ramonet, que foi diretor durante 17 anos da Le Monde Diplomatique. Ele dividiu o cenário atual como "entre a luz e a sombra". Vejamos um trecho:

"Por um lado, as mídias sociais são um fenômeno altamente positivo. É uma possibilidade de os cidadãos intervirem em debates que antes só eram restritos a quem a grande mídia quisesse. [...] A internet é uma ferramenta de fácil utilização e barata. Mesmo que se necessite comprar um mínimo de equipamento, é possível gerir um veículo com recursos cada vez mais reduzidos. Trata-se de uma reviravolta considerável e que pode ser considerado altamente positiva. Essa é o lado da “luz”. Há, no entanto, o lado “sombrio”. Também não podemos simplesmente acreditar que essa transformação na maneira de se comunicar ocorra sem que novas corporações sejam as grandes beneficiadas. Entre as principais temos o Facebook, o Twitter e o Google. Às vezes não nos damos conta de que, toda vez que utilizamos essas novas mídias, estamos tornando essas corporações cada vez mais lucrativas. Você pode ligar para um amigo para planejar a “grande revolução anticapitalista”. Para a empresa de telefonia pouco importa: ela lucra com a sua chamada. Também não devemos acreditar que, ao conseguirmos oferecer a possibilidade de qualquer pessoa expressar sua opinião, chegamos à era da democratização da comunicação. Sim, ela está mais acessível, mas os cidadãos não produzem nem são fonte dessas informações. Eles participam, na realidade, nos comentários. Em terceiro lugar, deve- se considerar que todo esse sistema é vigiado. Quando você se exprime através das novas mídias sociais ou por novas tecnologias de informação, está entregando informações que poderão ser rastreadas. Claro, o que ocorreu na Tunísia e no Egito foi muito positivo. Porém, pelo mundo, nem sempre é assim. É um sistema de dupla face".

Acredito que Ramonet foi muito feliz em suas considerações, especialmente nos pontos que eu destaquei. Afinal, vivemos um monte de uma "crise" - ou uma fraude chamada de crise, como nós no NIEG falamos -, com muita produção audiovisual sobre o assunto, independente de posicionamento político. O domínio do capital financeiro sobre a economia mundial é visível até mesmo para produções hollywoodianas - este primeiro modelo de Indústria Cultural - e, ainda assim, os interesses políticos das principais potências mundiais são para a manutenção deste domínio sem face, sem matriz geográfica.

Enfim, por mais que use, e utilize muito o Twitter, sou defensor da análise consciente da situação social e da cada vez mais necessária ação para que haja mudança. Difundir as informações sob outro ponto de vista é essencial, e as mídias sociais ajudam muito para isso, mas só isso não basta.

PS: Ainda esta semana pretendo escrever sobre os primeiros dias utilizando o Facebook - após várias pressões e argumentos vindo de vários lados.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

[Por Trás do Gol] Só sofrimento...

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Desde 2008, quando eu e Homero criamos o blog Por Trás do Gol, que faço uma retrospectiva dos meus times no final de cada ano. Se no primeiro ano, vivenciei semestres opostos, com Palmeiras e CSA ganhando os estaduais e naufragando no Brasileiro; em 2009, o desastre do (mais um) rebaixamento azulino e do desastre que foi a perda de um Brasileirão "imperdível" pelo Palmeiras; terminei 2010 desesperançoso com ambos.

Só para saberem que não estava mentido na minha racionalidade, que às vezes é bem maior do que eu mesmo quero. Do lado do CSA, que fez um ano que, definitivamente, tornou-se azulino de sangue azul, eu clamava cautela: "podemos terminar o Estadual tanto entre os quatro melhores quanto entre os quatro piores. Resta torcer".

Já do lado palmeirense, a empolgação pelas voltas de Felipão, Kleber e Valdívia durou bem menos que os seis meses. Como se não bastasse a falta de títulos importantes, o ambiente externo do clube continuaria atrapalhando, só não sabia que seria ainda mais: "Enfim, perspectivas de não mudar muito. Quanto ao futebol, não sei o que esperar".

Enfim, dado esta introdução, vamos para a atividade de fazer uma retrospectiva do ano de 2011 para CSA e Palmeiras, algo que cada vez mais está se tornando uma ação masoquista.

QUANDO ATÉ EU JÁ DESISTIRA...
Desde o início do Alagoano que todo mundo dizia que as contratações eram muito fracas. Porém, o presidente do clube dizia que era "intriga" de quem não queria ver o CSA bem. De início, a maluca ideia de colocar o clássico para abrir o torneio. A derrota por 2 a 0 para o arquirrival derrubou o técnico Lino - simplesmente porque ele não atendia aos "requisitos" de alguns dirigentes e não procurava agradar fora de campo...

Depois disso, mais três derrotas e um desastre como nunca dantes na história maruja, nem mesmo em 2003, quando caímos para a Segunda Divisão pela primeira vez, ou em 2009, quando ocorreu a segunda queda. Vencemos dois jogos, inclusive o ASA, por 2 a 1, em Maceió - geralmente vencemos em casa e eles nos vencem na casa deles, uma boa relação, portanto.

Arrisquei-me a ir a dois jogos. Contra o Coruripe, presenciei o pior time que já vi até agora na minha vida. Uma derrota por 2 a 0, em casa, com um time com apenas um jogador bom e o resto não servia nem para a várzea, desculpem-me a honestidade - parecia mesmo ser melhor assistir à estreia do Ronaldinho (Ex-)Gaúcho no Flamengo.

O último jogo antes de aportar em terras gaúchas foi mais para me despedir de um dos ambientes que eu mais gosto: o Estádio Rei Pelé. Como morei perto de lá durante 11 anos, tenho a mesma relação de afeto que possuo em relação ao Rio São Francisco. O "Trapichão" é o único lugar com aglomeração de pessoas que ia numa boa em Maceió.

O confronto derradeiro era contra o Sport Atalaia - logo Sport... A abertura do placar só serviu para enganar a fascinante torcida azulina - que mesmo com o time muito mal colocava, pelo menos, 1500 pagantes por jogo -, sofredora nata, cuja paixão não era reconhecida pelos diretores, que colocaram menos ingressos que o necessário. No intervalo, o 1 a 1 fez com que até senhores discutissem com o presidente do clube que, ironicamente, ameaçou pegar os R$ 2 oferecidos por quem estava na arquibancada.

A partida terminou 2 a 1 ou 3 a 1 para eles. Desastre. A certeza que eu tinha era que não dava mais, pois tinha sido um confronto direto contra o rebaixamento. O nosso caminho a partir dali era mais difícil que o dos nossos adversários diretos, fora que ainda tínhamos um clássico que não ganhávamos há anos na última rodada.

Resgataram Lino às pressas para ver se ainda tínhamos como evitar mais um desastre na nossa quase centenária história. Com uma campanha espetacular no final do turno, restava vencer o arquirrival CRB para escapar do descenso. Os regatianos nada tinham com o torneio, já que conseguiram se livrar do rebaixamento antes que a gente - graças ao eterno bombeiro Joãozinho Paulista - e estavam bem na sexta posição, (mais uma vez) sequer com a classificação para a segunda fase.

Momentos de terror me marcaram naquele dia. Por não contar ainda com internet em casa, tive que ser socorrido pelo acesso via celular - ou seja, sem possibilidade de streaming de rádio. Primeiro tempo, acompanhando minuto-a-minuto, 0 a 0 com grande atuação do goleiro deles. "Não é possível", passava pela minha cabeça.

No segundo, nem o minuto-a-minuto funcionava... Desespero, angústia, tudo junto. Tentava acessar alguns sites só para ver a página principal, que traz o resultado parcial, e até isso estava difícil. Bem perto do fim do jogo consegui ver uma! - e dificilmente esquecerei disso - Um a zero aos 45 minutos do segundo tempo! Com Washington, da base, fazendo o gol. Sozinho no apartamento, não podia gritar, não podia fazer barulho, mas a vontade era muito grande para isso. Restava esperar o jogo terminar, afinal, CSA é CSA.

Minutos depois, meu pai me liga de Maceió. Acabou! Ganhamos! Segunda Divisão, não mais!!!

Quer dizer, fugimos do rebaixamento, mas participamos da Segundona deste ano por meio de convite da Federação, supostamente para não parar com o time por todo o segundo semestre. Desastre: mal passamos da primeira fase.

Enfim, para 2012 já tivemos a confirmação da volta de três grandes ídolo: o primeiro é Catanha, que não jogou este ano porque teria pedido demais; o segundo é Flávio, goleiro campeão brasileiro com o Atlético-PR e da Série C de 2009, contra o ASA, pelo América-MG; por fim, Adriano, que todo o colorado conhece pelo título mundial deles.

Não estou acompanhando muito, mas pelo pouco que vejo pela internet, as perspectivas são bem melhores que no início deste ano. Que venha o CRB - com acesso à Série B, Aloísio Chulapa e Jadilson - no dia 14 de janeiro!

ANO MUITO, MAS MUITO RUIM NAS HOSTES ALVIVERDES
A única coisa boa no ano alviverde foi que depois de ser eleito com o apoio de Mustafá Contursi para a presidência do Palmeiras, Arnaldo Tirone rompeu com ele no meio do ano. De resto, ele cumpriu a promessa de não abrir os cofres e a Arena Palestra começa a ganhar formas, quer dizer, o antigo Palestra Itália a perder a suas arquibancadas.

O ano foi de altos e baixos, com o de regular a fraco elenco às vezes dando o ar de sua graça, principalmente devido a boas atuações de Marcos Assunção e de Luan - este virou o atleta "indispensável" no meio do ano.

No Paulista, conseguimos chegar às semifinais, disputamos palmo a palmo para ter o direito de jogar contra o Santos a final, mas perdemos nos pênaltis... Com o alagoano João Vitor - que se meteria num problema com membros da Torcida Organizada futuramente - perdendo o derradeiro.

Na Copa do Brasil, a fatídica goleada de 6 a 0 para o Coritiba, e a vitória em casa depois nas oitavas-de-final. Se o jogo não servia para muita coisa, mostrou que há torcedores efetivos do Palmeiras. Sem as organizadas, a torcida "comum" não parou de gritar durante todo o jogo.

O Brasileiro veio e o time passou o primeiro turno inteiro entre os cinco, seis primeiros, mostrando que teria chances de disputar uma vaga para a Libertadores e, quiçá, o título. Teria... Se Kleber já havia se envolvido a um histórico de infância corintiano, com direito à carteirinha da Gaviões, depois só quebrou a relação que tinha com a torcida alviverde. Primeiro, a forçada de barra para sair ao Flamengo. Mantido, com a agressão a João Vitor, rebelou-se contra Felipão e diretoria - nada contra isso -, mas a torcida já não estava do seu lado. Saída pelas portas dos fundos.

O time naufragou no segundo turno, com uma péssima campanha que chegou a nos deixar preocupados até com a possibilidade de um rebaixamento. No fim, com as voltas de Cicinho e Marcos Assunção, tivemos gás para atrapalhar alguns clubes, como os rivais São Paulo (vitória por 1 a 0) e Corinthians, a quem empatamos o jogo sem gols, mesmo tendo um a menos e com mais chances de marcar.

Mas o ano não foi tão ruim assim, ao menos no quesito individual. Posso dizer que assisti ao meu time de futebol do coração atuando. E duas vezes! Em agosto, fui a um Canindé lotado com um amigo, onde pudemos ver o empate sem gols em casa, mas uma das últimas atuações do grande ídolo deste que vos escreve e de muitos outros palmeirenses: Marcos!

Além disso, na mesma viagem, também graças a esse amigo, pude visitar as obras para a construção da Arena, entrar nos "jardins suspensos", que já presenciaram jogadores como Marcos, Ademir da Guia, Leivinha, Evair, Alex, Edmundo,...

Para finalizar o ano, vi o jogo de volta entre Grêmio e Palmeiras, aqui no Olímpico. Abrimos 2 a 0 com grandes atuações de Cicinho - como joga! - e Marcos Assunção, em mais um gol de falta. No final do jogo, em mais um dos momentos de "sorte" característicos, o volante Fernando acertou um pombo-sem-asa no último lance para empatar a partida. 2 a 2, fora de casa, foi muito bom. Continuo invicto!

Para o ano que vem, já não acredito na promessa da diretoria de que pelo menos quatro jogadores experientes virão, acho que nem o Felipão acredita nisso. A tendência é ser mais um ano de futebol burocrático, muito sofrimento e torcer para que se o Marcos se aposentar mesmo agora contra o Ajax, em janeiro, que seja em grande estilo. Pois ele merece, e muito!



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Em busca do El Dorado: Tentando uma retrospectiva...

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Acabo de enviar o último trabalho do ano! E que ano! Entre 2010 e 2011 mal esperava eu que a minha vida tomaria este rumo, que teve início já nos primeiros dias do ano. Esta modesta e pessoal coluna serviu para eu desabafar e (muito pouco) para que colegas e amigos de outrora acompanhassem meus passos. Você - se há realmente alguém lendo isso - pode me acompanhar deste o processo de despedida de Maceió passando por viagens a trabalho, desilusões e até à qualificação da dissertação, no final de novembro.

Profissionalmente - é, para mim TRABALHO intelectual é uma forma de trabalho - foi o melhor ano que eu tive até agora. Como cansei de falar e escrever, se até o ano passado tive que correr atrás das oportunidades de pesquisa, este ano eu as vi correndo atrás de mim, que, como quase sempre, não deixei de negá-las.

Em termos de apresentação de trabalhos, fui a três eventos de caráter internacional: Confibercom (Ibero-Americano), Lusocom (dos países que falam a língua portuguesa), ambos em São Paulo; e para o Seminário Internacional de Comunicação da PUC, aqui mesmo no Rio Grande do Sul. Surpreendi-me com certa aceitação dos temas neles apresentados. No caso do primeiro e do último eventos, o futebol; no caso do segundo, a análise sobre o "Valerioduto". Além da participação num artigo sobre o Cepcom, no Confibercom, e noutro sobre futebol, no Seminário da PUC.

Foram os eventos nacionais que me proporcionaram experiências diferentes. O primeiro foi o Intercom, a referência da comunicação, realizado em Recife-PE - na Unicap, também gerida pelos jesuítas... As escolhas que fiz para espaços a participar foram muito produtivas e, além disso, pude viajar para Maceió após seis meses fora. O trabalho lá foi sobre a "Operação Satiagraha".

O segundo foi a II Conferência de Desenvolvimento CODE/IPEA, em Brasília. Apesar de alguns problemas de ordem  prática - e muitos de ordem psicológica -, a viagem foi interessante. Pude realizar um dos grandes sonhos de quem é estudante e geralmente têm que se virar como pode, tanto com dinheiro quanto em termos de locomoção, para apresentar seus trabalhos. Afinal, pobres mortais como nós não somos convidados pelo evento, ou seja, temos que pagar tudo. Em Brasília, por conta do trabalho aprovado, o Governo pagou as minhas passagens e cedeu duas diárias. O trabalho aprovado foi uma análise sobre a legislação das rádios comunitárias que, confesso, acabou virando quase um manifesto por maior atuação e respeito a este tipo de radiodifusão, essencial em nosso entender, desde que efetivamente garantido.

Para fechar o ano, numa semana para lá de conturbada, a qualificação em meio a um histórico temporal, que comprovou a minha total falta de sorte, e a última apresentação da última mesa do Seminário do grupo de pesquisa. O tema: o histórico de disputas entre Globo e Record pelos direitos de transmissão de eventos esportivos, centrando na mais recente e mais discutida, frente ao Campeonato Brasileiro de Futebol.

Além desses eventos, ainda pude participar da Semana de Comunicação da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, em Porto Alegre, numa mesa bastante interessante que tratava do fenômeno popular que é o futebol e cujo resultado da integração e do diálogo entre os participantes pode gerar um evento ainda maior ano que vem.

Em termos exclusivos de produção, tive os já "rotineiros" textos para o Observatório da Imprensa que, a partir de março, foram assinados em coautoria e onde pudemos transcorrer de forma opinativa sobre vários temas, com destaque para a briga para transmitir eventos de futebol e a luta por uma regulação dos meios de comunicação. Além disso, tive um texto aprovado para o Observatório de Mídia & Política, da UnB, sobre o programa que participo aqui numa rádio educativa, o Periscópio da Mídia - o qual falarei daqui a pouco.

Para finalizar, um dos fatos mais comemorados por mim: o primeiro texto solo aprovado em revista científica. A ideia depois do primeiro semestre era dar vazão aos artigos produzidos para as disciplinas. Um deles, que tenho a "audácia" de analisar o futebol sob a perspectiva de Adorno, Benjamin e Gumbrecht, foi aprovado e publicado na Revista Faac, da Unesp. Independente da revista ser nova, esta foi a segunda edição, a importância é muito grande para mim, já que não precisei de um nome importante na área para pesar a falta de conhecimento sobre mim na área.

JORNALISTA
Por mais que ainda não tenha registrado na Carteira de Trabalho, pude manter a publicação de textos mais de caráter profissional. Primeiro, por conta das atribuições do grupo, ajudei a produzir e a apresentar o programa de rádio "Periscópio da Mídia: a indústria da comunicação social de cabeça para baixo". Nele, eu e os meus amigos pudemos relaxar antes, durante e depois do programa, que está longe de ser um trabalho - apesar de um problema ou outro que tenha aparecido este ano.

Além disso, recebi o convite para ser editor da Coluna Além das Quatro Linhas, no site de textos de forte teor crítico Estratégia & Análise. A parte boa é que a produção não tem limites de linhas, o que é excelente para alguém como eu, e podemos fugir dos temas "rotineiros" do futebol, indo além deles. Já tivemos alguns resultados, com direito à utilização de um trecho de um dos textos na coluna do editor de esportes na edição de domingo de um jornal de circulação diária, além de um contato com uma jornalista do Le Monde.

2012
Para 2012, além da continuação da pesquisa de dissertação - já em sua etapa final - e dos compromissos assumidos este ano com o grupo, Periscópio e Além das Quatro Linhas, mais coisas para fazer devem aparecer - para variar...

De produção, já tenho artigos aprovados para revistas, capítulos de livros e eventos, que me trazem a possibilidade de conhecer o Brasil e aumentar a minha coleção de camisas - por mais que em Brasília tenha sido impossível de se conseguir a camisa do Brasiliense...

Enfim, em termos pessoais, além da distância dos problemas "cotidianos" de família, pude conhecer muitas pessoas legais por aqui, algumas das quais que espero ter contato para além das relações de trabalho. De resto, o mesmo de sempre, o "pseudo eu" toma conta deste ser.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Paixão à primeira vista: Animação de "Morte e Vida Severina"

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Não sou fã de poemas e/ou poesias, prefiro os romances, os contos e as crônicas. Mas hoje comecei a mudar (um pouco) de ideia por conta de um audiovisual: Morte e Vida Severina (dezembro, 2010). 

Baseado no poema de José Cabral de Melo Neto, cujo subtítulo é "Ato de Natal Pernambucano", esta sugestão me veio através do blog do jornalista Luiz Nassif. Acabo de ver a animação baseada nos quadrinhos de Miguel Falcão, numa coprodução da Função Joaquim Nabuco (Pernambuco) e da TV Escola, e não podia deixar de escrever o quanto antes sobre ela.

Primeiro, se não gosto de poesias ou poemas, sejam "tradicionais" ou dramáticas, como é este o caso, acabei ao longo da minha formação escolar descobrindo que sou fascinado por desenho. Longe de saber desenhar, eu já tive meus momentos de rascunhar alguma coisa ou outra - além de sempre ter várias ideias, mas que o tempo não me permite mais -, principalmente como uma forma de relaxar, mas tenho absoluta certeza que não é uma atividade para mim, pois não tenho um traço que me caracterize.

Assistindo à animação, eu gostei muito da forma que as pessoas são desenhadas. Por mais simples que para um especialista no assunto possa parecer, e por mais que talvez o sentido não tenha sido este, a ideia de deixar os olhos fundos, sem o tradicional globo ocular nos obriga a tratar as personagens de uma forma ainda mais diferentes. O olhar reflete o mundo que você vê e o como você sente este mundo visto. Sem ele, a interpretação de quem assiste se abre e a atenção tem que se fixar no desenrolar das imagens e da narração/sons.

Indo para a animação per si, gostei de algumas transformações de objetos para se mudar a cena. Num trecho, um flor brota numa palma e do seu interior surgem redes, de forma a continuar o diálogo escrito por João Cabral de Melo Neto. Um recorte bem mais sutil do que os que aparecerão a seguir, típicos de intervalos comerciais, o fundo negro e ponto - que provavelmente reflitam as paradas do próprio texto.

Ah, empolguei-me com a animação e esqueci de apresentar o poema - se é que ninguém ouviu falar dele, o que acho bem difícil. Morte e Vida Severina trata da história de um retirante, que sai do sertão nordestino em busca de uma vida melhor, viver para além dos 30 anos, no litoral. Será que isso é possível? O poema, e neste caso junto com a animação, nos mostra.

Como cenas de destaque que mais me marcaram, além da transformação da flor brotando em rede, há o trecho inicial, em que ele tenta se apresentar. Mas é tão comum ser Severino, como também ser Severino da [mãe] Maria, mas também da Maria do finado Zacarias, pois pode ser confundido com um famoso coronel...

Depois, no meio do caminho, o encontro com um Severino que morreu de "morte matada", sendo carregado por dois "irmãos das almas", por conta de uma plantação de palha de dez quadras, que uma ave-bala, que sempre vive passarinhando por aí, acabou encontrando.

Já num lugar "melhor", encontra uma casa de certo nível. Severino pergunta por emprego, apresentando todas as opções de trabalho que já tinha feito, sendo negado em todas elas. Afinal, diz a rezadeira:

"Como aqui a morte é tanta, 
só é possível trabalhar 
nessas profissões que fazem 
da morte ofício ou bazar. 
Imagine que outra gente 
de profissão similar, 
farmacêuticos, coveiros, 
doutor de anel no anular, 
remando contra a corrente 
da gente que baixa ao mar, 
retirantes às avessas, 
sobem do mar para cá. 
Só os roçados da morte 
compensam aqui cultivar, 
e cultivá-los é fácil: 
simples questão de plantar 
não se precisa de limpa, 
as estiagens e as pragas 
fazemos mais prosperar 
e dão lucro imediato 
nem é preciso esperar 
pela colheita: recebe-se 
na hora mesma de semear". 

Na cena, um gato até tenta encarar dois urubus, mas acaba ficando só os ossos grunhindo para animais que voam embora de mais presas. Depois aparece a "plantação" de mortos aparecendo, cuja semeadura vem no mesmo instante que se planta.

Na Zona da Mata encontra muita cana - essa "maldição" nordestina que os alagoanos conhecem muito bem - e sente no pé a diferença da terra macia. Neste trecho vem o diálogo que ficou conhecido na música "Funeral de um Lavrador", de Chico Buarque - ouça abaixo.





Em Recife o negócio não melhora tanto. Sentado na calçada, Severino escuta dois coveiros reclamando da situação na cidade, já que os retirantes acham que vão melhorar a vida, mas só sabem se aproximar de suas covas. O protagonista passa a viver a dúvida que o acompanhará até o final: jogar-se da vida ou esperar que o que se jogou nela mude tudo?

Evitando spoilers, para terminar, o "Auto de Natal Pernambucano" não traz reis magos e seus presentes caros, mirra, incenso e ouro, mas o que a população pode dar à nova criança vinda ao mundo. Das ofertas, achei bem legal o seguinte trecho, que mostra a pobreza e a esperança das pessoas:

"Minha pobreza tal é 
que não tenho presente melhor: 
trago este papel de jornal 
para lhe servir de cobertor 
cobrindo-se assim de letras 
vai um dia ser doutor". 

Desculpem os fãs desta grande obra se o relato foi resumido. Se eu não tivesse hoje pego os livros, "Morte e Vida Severina" com certeza seria um a ser escolhido. Confira abaixo toda a animação.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O que já mudou e o (muito) que ainda precisa mudar II

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O segundo dia da etapa estadual de "Seminários Comunicação em Pauta: o que já mudou e o que precisa mudar" continuou com a presença de poucas pessoas presentes no Auditório da CEF, no Centro de Porto Alegre (quem quiser ver minha crítica a isto, ver post anterior). A parte boa disso foi que os palestrantes desceram e falaram conosco no mesmo nível, sem a necessidade de usar o palco.

O segundo dia foi dedicado a diferentes análises sobre os meios de comunicação, com a presença dos seguintes palestrantes: Conceição Oliveira (Blog Maria Frô), Marcelo Branco (ativista pela liberdade do conhecimento/Software Livre), Rachel Moreno (coord. do Observatório da Mulher) e Laurindo Leal Filho (prof. da USP/apresentador do Ver TV).

Confesso que pelo espaço em que estava, com o Governo, do PT, organizando o evento e com a participação de algumas pessoas e entidades sociais que imaginava que tinham grande proximidade ao partido, imaginava que ouviria mais daquelas histórias de que "não está bom, mas está melhor" - slogan de certo governo estadual, de partido "oposto" em sua primeira gestão. Surpreendi-me que não. Não é a toa que optei por fazer questões mais objetivas na minha colocação após as apresentações.

- Conceição Oliveira
Formada em História e blogueira do Blog da Frô, um dos mais acessados do país, concordei com toda, ou quase toda, fala dela durante o evento. Ela lembrou de casos recentes, como a promessa de autorregulação da RBS (e a criação de seu Guia de Ética) e a afirmativa do Boni de que não só manipularam a edição do debate de 89 para o JN, como também preparam o candidato Collor para ele, para destacar o seu pessimismo perante um cenário pouco animador.

Conceição disse que o Governo não só não tem coragem para tal, como o ministro de Comunicação seria o mais subserviente que já se teve. Segundo ela, o Paulo Bernardo teria dito que a prioridade do Governo era saneamento básico quando pressionado por ações mais efetivas na área. Além disso, ele sequer participou do seminário do próprio PT sobre o marco regulatório (!).

Além disso, ela lembrou que a Anatel fecha rádios comunitárias, enquanto igrejas utilizam esse tipo de concessão em todo o país e nada acontece. Assim como, não vê esperanças no PNBL, ainda mais com o BNDES "emprestando" R$ 3 bilhões para a Vivo, enquanto que a Telebras não recebe investimento algum.

Para mudar a situação só há uma solução: ir às ruas!!!

- Marcelo D'Elia Branco
Marcelo explicou a evolução da tecnologia midiática que, de certa forma, reverte o esquema de produção de conteúdo. Porém, é necessário evitar qualquer forma de intervenção/perseguição sobre o uso da internet.

Uma das propostas em pauta no Congresso neste ano foi a neutralidade da rede. As teles querem cobrar para a utilização e garantir a segurança de portais, ou seja, este blog teria que pagar a uma das grandes redes que controlam a estrutura da internet para não ter problemas de segurança, por exemplo. E isso vale para mim e para a Globo e seu Globo.com e derivados, não é a toa que as Organizações dos Marinho já anunciaram ser contrárias ao fim da neutralidade da rede. Além da "clássica" filtragem de conteúdo, presente no "AI-5 Digital" do Azeredo.

No dia 25 de agosto, o Governo federal enviou ao Congresso uma proposta de Marco Civil da Internet, com a necessidade de se entender a internet como um direito. Porém, não se pode responsabilizar os provedores por determinado conteúdo. Primeiro, porque isso abre espaço para que eles controlem o conteúdo; segundo, alguém culpa empresas como Toshiba ou Philips pelo conteúdo produzido pela Rede Globo?

Além disso, como adepto da liberdade do conhecimento, Branco destacou as leis de direitos autorais no Brasil são "draconianas", em que até emprestar livro é proibido!

A importância desse tipo de discussão seria perceptível com a quantidade de informações que circulou na rede durante as eleições do ano passado, sem o predomínio dos grandes grupos de comunicação. Entretanto, apenas 1% veio de movimentos sociais, o que sugere a necessidade deles utilizarem bem mais os novos meios - desde que tenham como fazê-lo, tanto em termos de estrutura quanto de tipo de produção.

Outra coisa que achei interessante foi ele apontar um possível erro. Mídias sociais são Twitter, facebook,... Redes sociais necessitam de pessoas para formá-las e é necessário ampliá-las, não bastando um Governo ou movimento social tê-los, mas estabelecer ligações e diálogos com outras pessoas.

- Rachel Moreno
Rachel fez um apanhado muito bom sobre como a mídia vem retratando a mídia. O Observatório da Mulher fez uma excelente pesquisa, com a divisão por etapas da mesma, com conclusões também de como a lei brasileira, em comparação com a de outros países, trata o assunto.

Ela lembrou o julgamento da proibição da classificação indicativa, em trâmite no STF. Falta o entendimento de que o que se chama de autorregulação é, na verdade, o que atende mais aos patrocinadores dos programas e das emissoras.

Na análise, anotei algumas coisas ainda mais interessantes. A pesquisa mostrou que a mulher que aparece na televisão é de forma absolutamente seletiva (18%). Geralmente, aparece nos telejornais como testemunha anônima, nunca como especialista. Um dos poucos momentos em que a mulher é destaque, na verdade, é o seu corpo que está no foco da câmera, não sua capacidade intelectual.

No terceiro ponto da apresentação, "Manifestações", Rachel destacou a existência da Plataforma de Beijing, dos Objetivos do Milênio e de outros acordos que têm a assinatura do Governo brasileiro.

Por fim, Rachel Moreno apresentou alguns pontos problemáticos a serem discutidos e (re)vistos: a concentração e a dependência financeira, que "garante" a invisibilidade seletiva; determinação da violência midiática como violência simbólica, na Argentina; necessidade de se trabalhar no sentido de se conscientizar os telespectadores para que eles também participem das mobilizações; e que nós estamos atrasados tanto na autorregulação, como também na regulação dos meios de comunicação.

Ela lembrou que o ex-secretário de Comunicação Social Franklin Martins não defende a regulação do conteúdo. Porém, ela lembrou do caso dos Toddynhos contaminados aqui no Rio Grande do Sul, que passaram pela autorregulamentação da empresa, mas que foi necessário uma agência externa, a Anvisa, para perceber.

- Laurindo Leal Filho
Lalo teve um discurso um pouco mais otimista. Ele destacou o nosso atraso, ainda mais se considerarmos os recentes avanços dos vizinhos sul-americanos, mas que já se melhorou muito, quando comparado à época que ele voltou ao Brasil após ter estudado a BBC (Reino Unido).

Para ele, o problema é que a radiodifusão e a mídia em geral é pensado como um modelo de negócio, não como um serviço público. Até mesmo na Academia se via muito este tipo de pensamento, algo que mudou consideravelmente nas últimas décadas. Isso fez aumentar a quantidade de debates sobre o assunto, mais ainda não garantiu um avanço significativo na legislação, com a classificação indicativa podendo cair por defesa dos interesses midiáticos por parte da maior instituição de Justiça.

Sobre o Conselho Estadual de Comunicação, sobre o qual comentamos ontem, ele disse que "você tem que desconstruir o que estava antes [conceitos negativados] par depois construir o Conselho". Primeiro há a difusão de que a criação desse órgão auxiliar significará a censura, naquele discurso, repetido pela presidenta Dilma Rousseff, de que "o melhor controle é o controle remoto". Lalo lembra que há um grave erro na aplicação dos conceitos, afinal regular é sempre a posteriori, enquanto que censura é prévia.

No que tange à legislação, ele lembra a importância do setor de comunicações, que "faz a cabeça das pessoas". Muda-se o apresentador, o canal, mas o conteúdo continua o mesmo. Isso num país em que o Código Brasileiro de Telecomunicações não serve mais para as telecomunicações e que mesmo para o setor de audiovisual ele é retrógrado, por se tratar de algo que completará em 2012 50 anos, ou seja, ele foi criado quando a Rede Globo, líder do oligopólio nacional não usava suas concessões - algo que começa em 1965. 

Enquanto isso, a Inglaterra revisa a sua legislação a cada quatro ou cinco anos - para o "bem" ou para o "mal" - e o exemplo do capitalismo, os Estados Unidos, tem um órgão regulador (FCC) desde a indústria do cinema, na década de 20!

Questões
Dentre as participações para questionamentos, deixou-me intrigado as reclamações quanto à divisão do bolo publicitário estatal, vinda de Cláudio Calmo e do Alan, um dos diretores da Abraço-RS. Por mais que se tenha começado a dividir, são 65% para as grandes mídias e 35% para o que sobra, entre pequenos empresários e mídias comunitárias e/ou blogs.

O responsável pelo Cloaca News disse que no Clic RBS, portal do grupo, eles não se responsabilizariam pelo conteúdo ali publicado. Eu procurei pelo site, mas não consegui confirmar esta informação, já que é um absurdo. Com um noticiário não se responsabiliza pelo que seus profissionais produzem?

Por fim, uma frase final de Conceição Tavares: "Qual a tática deste governo para a comunicação? Se for para aparecer na Ana Maria Braga é uma tática suicida!".

(Por conta de outras atividades não pude ficar para a parte da tarde, que teve uma audiência pública sobre as rádios comunitárias, com a participação de representantes do Ministério das Comunicações, do Governo do Rio Grande do Sul e da Abraço)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O que já mudou e o (muito) que ainda precisa mudar I

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Na quinta e na sexta-feira da semana passada (08 e 09), o Governo do Estado do Rio Grande do Sul realizou em Porto Alegre a etapa estadual de "Seminários Comunicação em Pauta: O que já mudou e o que ainda precisa mudar". O evento ocorreu no Auditório da Caixa Econômica Federal, após ter etapas em oito municípios gaúchos. Pelo que entendi, a ideia era fazer um fechamento das discussões tidas até ali.

Antes de falar sobre as atividades dadas nestes dois dias, destaco a falta de divulgação do evento. Eu mesmo só soube de sua existência porque o meu orientador de mestrado recebeu um convite por e-mail. Depois, eu fui procurar mais informações sobre o evento e pouco encontrei. O resultado: acho que teve, nos dois turnos que eu participei, cerca de, no máximo, 20 pessoas! 

Temos que aprender a expandir as discussões sobre democratização de comunicação - que é a pauta comum, apesar deste blogueiro não concordas - para além das restritas trincheiras. Senão, nunca teremos força para efetivas vitórias contra Golias oligarcas da radiodifusão e gigantes maiores ainda, os das telecomunicações. Já passou da hora de esses Davis catarem a maior quantidade de pedras possível.

Conselho de Comunicação
A noite da quinta-feira foi dedicada às discussões sobre ações de governos de Estado para colocar em prática o Conselho Estadual de Comunicação. Não precisaria nem lembrar, mas retomamos aqui, que o Conselho Nacional de Comunicação foi o único artigo do Capítulo da Comunicação Social na Constituição Brasileira a ser regulamentado (em 1991). Órgão auxiliar do Executivo, o CCS só teve atividades de 2002 a 2006, num acordo pós injeção de capital nas Organizações Globo.

Após alguma discussão sobre os Conselhos Estaduais no segundo semestre do ano passado, propagados como forma de censura por Estados com membros da base do governo no poder, principalmente por conta das eleições, a Bahia deu um grande passo e no dia 30 de novembro realizou eleições para o seu. O Rio Grande do Sul teve a criação do Conselho de Comunicação sugerido no final deste ano pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o "Conselhão", que trata da gestão pública.

Parar discutir a criação de Conselhos Estaduais de Comunicação, falaram a secretária de Comunicação e Inclusão Digital Vera Spolidoro, o vice-presidente da Associação Rio-Grandense de Imprensa (ARI) Mário Rocha, o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul José Nunes e o secretário de Comunicação da Bahia Robinson Almeida.

Como pretendo focar a análise sobre as intervenções dos representantes estatais, opto por comentar rapidamente as diferenças por conta da posição de classe dos representantes da classe jornalista e da classe patronal.

Em meu entender, Mário Rocha parece ter sentido que estava na "terra do inimigo" e optou por não adentrar em pontos críticos que deixam clara a divergência dos donos de mídia. Ele até destacou a importância do debate, com o confrontamento se necessário - alguém cochichou perto de mim: "Ele só não deixa ocorrer isso dentro da redação dele"...

Já Nunes mostrou uma perspectiva menos otimista, mesmo com a possibilidade criação de Conselhos de Comunicação Estaduais. Ele destacou a necessidade de mudar a situação da comunicação a partir da regulamentação dos artigos constitucionais, algo que não imagina que possa ocorrer em curto prazo. Apesar da importância e da luta do sindicato por, a criação de um Conselho de Comunicação aparenta ser um paliativo.

- Vera Spolidoro
Não conhecia ainda a secretária Vera Spolidoro, quer dizer, ouvi muito falarem sobre ela, que era alguém vinda do movimento de comunicação e que o governo Tarso (PT) "apropriou" como uma forma de diminuir as reclamações dos setores que debatem o assunto. Na dúvida sobre ir ou não para este primeiro turno, a curiosidade por ouvi-la é que me fez ir.

Dentre tantas coisas ditas, ela destacou que o atual governo estadual viu como determinante o papel que a comunicação exerceria na gestão, operacionalizando um de seus lócus de atuação, no entendimento de que a informação é um bem público. Além disso, ela apontou alguns tópicos de relevância para a secretaria, alguns já colocados para ação e outros a serem postos. Destaco abaixo os que me chamaram mais atenção:

1. Reversão da política de investimento publicitário do governo. Além de começar a descentralizar isso, com 35% das verbas para micro e pequenas empresas de comunicação, blogs e rádios comunitárias (através do apoio cultural), pensa-se em se criar um fundo para manter mídias públicas e comunitárias;

2. Incluir o debate sobre conteúdos nas escolas estaduais;

3. Debater a transformação do Sistema Piratini de estatal para público. Esse ponto muito me surpreendeu. Apesar de eu ter passado quase dois anos num sistema estatal sob gestão tucana, que mal deu atenção ao Instituto de Comunicação, é difícil imaginar um governante que queira tornar público um possível instrumento ou, no mínimo, meios de comunicação que não falariam mal do Governo. Esperemos...

- Robinson Almeida
No país da Copa do Mundo FIFA, num Estado governado pelo mesmo partido da presidenta, o secretário de outro Estado governado por petista chega atrasado por conta de problemas de voo. E só faltam dois anos e meio!!!

Antes de qualquer coisa, Robinson fez questão de frisar que ele recebeu muitas críticas por conta de sua formação não ser em comunicação. Há cinco anos responsável pela comunicação no governo Jaques Wagner, o engenheiro disse que sofreu certa perseguição dos grandes grupos midiáticos baianos por conta disso, porém conseguiu estabelecer um diálogo com os mais variados setores da comunicação. A impressão que eu tive na fala dele é que se trata de um militante "típico" do PT, aquele que já absorveu que para se conseguir o mínimo de avanço que seja, pode-se vender um pouco da alma (coalizão de classes). A criação do Conselho de Comunicação da Bahia veio desta "clássica" forma.

Almeida contextualizou a situação encontrada. Primeiro falou a importância do projeto único que Rio Grande do Sul e Bahia têm com o plano nacional, para depois destacar que o tema da comunicação seria o grande tabu da democracia brasileira que, enquanto direito, deveria ser promovido à sociedade como um serviço. Num entendimento da comunicação como serviço e da informação como direito.

No caso da Bahia, a situação parecia ser ainda pior, dados os vícios do "carlismo", que percorreu décadas do Estado que um dia teve sua capital "maldosamente" chamada de "ACM City". Havia uma clara mistura entre as esferas pública e privada na comunicação.

Por isso que as vitórias teriam sido grandes lá. Eles fizeram a primeira conferência estadual de comunicação quando a discussão não ocorria em nível nacional. As pessoas não estavam, e não estão, acostumadas a discutir o assunto sob uma perspectiva econômica e/ou política [seria da Economia Política?]. O que há é uma transformação do poder político dos partidos para os meios de comunicação.

Uma das maiores reclamações e a mudança principal para a segunda gestão petista na Bahia foi a transformação da Assessoria Geral de Comunicação numa Secretaria de Comunicação neste ano. A instalação do Conselho de Comunicação Social foi o segundo grande passo do ano, por mais que a Constituição estadual - como vivemos num país sob o regime federalista, cada Estado possui sua própria constituição - já previsse a criação desse órgão para auxiliar o Governo na criação de políticas públicas desde 1989.

Para romper as barreiras dos membros do mercado, com ordem da Assoc. Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) - liderança da Globo - para não participarem dessas discussões, eles conseguiram criar uma rusga dentre os empresários da comunicação para a efetivação do Conselho, dada a necessidade da participação ou, no máximo, da omissão deles sobre o assunto. Foi criado um grupo paritário pró-Conselho e foram envolvidas instituições importantes, como a OAB.

Depois disso, foi "só" convencer os deputados estaduais. Conseguiu-se a aprovação por unanimidade da criação do Conselho Estadual de Comunicação, com a representação de 10 pessoas do setor empresarial, outros 10 dos movimentos sociais e os últimos 7 do Governo. Para isso, o Governo recuou e aceitou a inclusão de algumas emendas.

No último dia 30, houve a eleição para as posições de conselheiros. Dentre os eleitos como titulares, há representantes do setor de audiovisual, a TV Araru (afiliada do SBT na Bahia), das telecomunicações (OI) e de importantes grupos impressoas (A Tarde). Do lado dos movimentos sociais, há eleitos da Rádio Comunitária Santa Luz, Intervozes e Barão de Itararé. No dia 10 de janeiro haverá a posse dos eleitos. A Rede Record Bahia chegou a se inscrever, dentro do contexto das brigas com a Globo, mas retirou a candidatura no dia das eleições.

Questões
Das questões, acabei por anotar que o Grupo Rede Brasil Sul (RBS), o maior conglomerado regional de comunicação na América Latina, informou ao Governo Tarso que tomaria uma posição de neutralidade sobre o Conselho de Comunicação. Vamos ver se eles não aparecem com a velha discussão sobre a "censura", como já fizeram neste ano ao manipularem um discurso do governador Tarso Genro sobre a importância da democratização da comunicação.

Amanhã arranjo um tempo para falar sobre o segundo turno do Seminário que teve, dentre outros, o professor Laurindo Leal Filho (USP/Prog. Ver TV) como um dos palestrantes.

domingo, 11 de dezembro de 2011

[Por Trás do Gol] Lembrando do CSA

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Nas últimas semanas recebi a visita de colegas alagoanos para, dentre outras coisas, o Seminário do Grupo. Ontem acompanhei o último deles até o aeroporto e enquanto esperávamos a hora do embarque, quatro pessoas sentaram ao lado e, curiosamente, a ligação com Alagoas era bem maior que o sotaque baiano poderia negar.

Eu estava com a camisa do Palmeiras em homenagem ao grande goleiro, e precursor da preparação específica para este cargo, Valdir Joaquim de Moraes. Um dos homens me perguntou se eu era paulista. Respondi que não, era alagoano. Primeira coincidência, havia uma alagoana no grupo. A mulher era de Penedo.

Mas o melhor veio a seguir.

Ele me perguntou se conhecia o Rómeu. Tudo bem que eu sou novo e, além disso, só acompanhei o futebol alagoano na primeira década do século XXI. Mas como azulino, filho de azulino, não tinha como não saber que se tratava de um ex-jogador do Centro Sportivo Alagoano (CSA). Ele era irmão do Rómeu e a mãe dele estava sentada ao meu lado.

Além disso, ele me disse que era tio do Gustavo, que foi campeão alagoano com o Murici no ano passado. É óbvio que eu também sei quem é o jogador. Foi formado nas categorias de base do CSA, mas o clube não o aproveitou. Pelo que eles me disseram, ele já rodou um pouco o mundo, atuando na Polônia. Ano passado ele retornou a Alagoas pelo Murici e chegou a jogar pelo próprio Azulão no segundo semestre, quando "contratamos" a base do time do interior para jogar Segundona estadual e o Brasileiro da Série D.

No início do ano ele retornou ao Murici, onde foi um dos grandes destaques no jogo contra o Flamengo pela Copa do Brasil. Atuou muito bem no primeiro tempo, mas foi tirado do time logo no início da etapa complementar.

Como ele me relembrou, o Gustavo jogou o segundo semestre deste ano no ASA, pela Série B, sendo titular durante toda a disputa, com algumas boas atuações. Como todo o time, acabou caindo de rendimento no segundo turno.

O Rómeu continua morando em Maceió, na Jatiúca, e deve retornar a Salvador, segundo a mãe dele, para as comemorações de fim de ano.

Quem diria. Mais de 4 mil quilômetros de distância e num dia qualquer, no aeroporto, conheço a família de um dos maiores ídolos da torcida azulina. É quase inacreditável.


domingo, 4 de dezembro de 2011

[Por Trás do Gol] A título de editorial - Dr. Sócrates

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Eu sou editor de uma coluna de esportes que se propõe a escrever "Além das Quatro Linhas" e confesso estar numa encruzilhada sobre o que escrever na edição que deverá ser publicada amanhã.

Não que eu já não tenha pautado o amigo que escreve comigo a coluna, prepara as bases do texto, sobre o que escrever, mas tudo mudou. Uma notícia me deixou entristecido e motivado a tecer algumas, ou muitas, linhas sobre após clicar em todo link que me aparecia sobre o assunto.

Assim que vi a notícia do falecimento no início da manhã de hoje (4h30) de Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o Dr. Sócrates, esta figura ímpar dentro e fora dos campos de futebol. Disparado, um dos grandes exemplos de alguém que pensa "além das quatro linhas".

Sou palmeirense, não tive a oportunidade de ver Sócrates atuar em campo e na época da "Democracia Corintiana", mas pude ler e ver/ouvir alguma de suas (fortes) opiniões sobre a realidade dos jogadores, com certeza bem menos do que deveria ter lido, visto e ouvido.

Sócrates é também a representação das muitas contradições que este esporte tão querido, idolatrado, amado, criticado e estudado por mim representa das relações sociais. Vindo da classe média alta, continuou seus estudos em Medicina mesmo em detrimento do início da carreira como jogador em Ribeirão Preto.

Ao contrário de tantos bons jogadores, ele não precisava da vida como atleta para realizar o sonho da mãe de ter uma casa própria e demais coisas que aparecem nos discursos e na realidade de muitos jogadores. A formação em Medicina acabou por objetificar a classe dentro de campo a uma das profissões mais "respeitadas" do país. Mas nunca, jamais, deixando de refletir o posicionamento crítico sobre a realidade.

Não vou entrar em efêmeras discussões sobre a sua simpatia pelo regime cubano, a ponto de colocar o nome de Fidel no seu filho mais novo. Num mundo em que a criticidade é cada vez mais exceção, isso é visto por mim como uma dádiva. Nos campos futebolísticos, então, é uma imensa exceção, e isso juntando jogadores (!), comissões técnicas, dirigentes e jornalistas.

Apesar de ter "Brasileiro" no nome, o pensamento era mais amplo que questões locais. Um dos raros casos em que o prenome encaixa muito bem com a pessoa: Sócrates.

Não sei ainda se este texto será adaptado para um editorial antes da coluna, se virá no final do texto como uma dedicatória dela e de tantas outras que já foram publicadas e virão a ser, pois escrever futebol "além das quatro linhas" é mais que isso, é vivê-lo sob os diversos matizes proporcionados por este esporte, entender porque fazem o que fazem com a nossa paixão; racionalizando o máximo possível sobre algo que muitas vezes é irracional, explicando as relações de poder sobre, mas nunca esquecendo do amor em torno do assunto. Sócrates reflete isso.