terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A volta, a vida

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2017 foi um ano preocupante e animador ao mesmo tempo. De vontade de não aparecer em certos espaços de trabalho e o que deu o gás para trabalhar muito mais no ano seguinte. De fato, o de uma conjuntura cada vez mais complicada. De fato, o de um segundo semestre que, individualmente, não só salvou o ano como me faz chegar, pela primeira vez em muitos anos, com bem mais tranquilidade aos últimos dos 365 dias deste ciclo.

Vamos separar pelas coisas da vida: trabalho, pesquisa, futebol e coração.


Trabalho
Devido a um final de 2016 muito complicado quanto às relações pessoais, resolvi realmente me enfiar de cabela no trabalho nos meses iniciais de 2017. O resultado foi que o trabalho me mostrou que não posso fazer isso.

Venho batendo na tecla nos últimos meses que o momento atual, de ataque ferrenho ao serviço público, com educação levando cada vez mais pancadas, deveria ser o de maior união em defesa das universidades públicas e gratuitas. Mas é inacreditável como a politicagem supera a necessidade de uma construção política mais cuidadosa.

Foi um ano de eleições para as unidades acadêmicas/campi e, mais uma vez, as falácias rolaram e o discurso que deveria ser o de manutenção e construção foi o de destruir o outro grupo. Nesse meio, decidi estar na comissão eleitoral da eleição do campus que faço parte e, tirando algumas dúvidas sobre mim no início do processo, este decorreu de forma tranquila. A relação melhorou entre o campus e a Unidade e, especialmente os estudantes, têm hoje resultados mais ágeis em suas demandas.

Dito isto, creio que mesmo sem eu ter participado diretamente (fazendo campanha) fui um dos mais prejudicados com o processo. Sei que tenho um pouco de mania de perseguição - algo sempre controlável, mas como não gosto de errar fico preocupado quando certos ataques ou situações se constroem e às vezes minhas dúvidas se confirmam -, mas me senti um alvo constante em alguns espaços de trabalho. De certa forma é natural, vide que desde o processo no Comando Local de Greve de 2015 que percebi uma mudança de perfil nos espaços coletivos. Passei a ser voz ativa, mesmo continuando a pensar antes de falar, e isso incomoda.

Porém, há uma coisa que sempre tentei - e meus hoje amigos da época de Diretório Acadêmico podem confirmar -, discuto ideias e conceitos, não busco menosprezar pessoas em espaços públicos. Uma coisa é criticar o gestor, outra o indivíduo. Outra bem diferente é demarcar espaço generalizando críticas e só vendo erros numa pessoa.

Por coisas assim, e outras que não cabe aqui, passei os últimos meses do ano sem vontade de vir à cidade em que trabalho. Vim por ser minha obrigação, meu trabalho. Mas muitas vezes passava os dias aqui com a cabeça fervilhando, frustrado.

Além disso, acabamos ficando no meio de uma briga que não é nossa, ao menos minha não é, o que acabou prejudicando o andamento de algumas coisas de gestão em Santana. Felizmente, 5 de abril já é ano que vem. Infelizmente, o processo de construção do prédio está ainda mais complicado com o andamento atual.

Ah, sobre as turmas. Primeiro semestre no molde antigo, turmas de nível normal, com participação média. Segundo semestre no molde novo, turmas de períodos diferentes. A do primeiro é boa,  muito participativa, mas gerou alguns problemas quanto ao acompanhamento das atividades. As demais foram interessantes pela experiência de poder acompanhar melhor os trabalhos por serem turmas menores. Final de semestre, creio eu, sem traumas para mim e para eles.


Pesquisa
Maceió - São Cristóvão - Quito - São Cristóvão - Curitiba - São Paulo - Lisboa - Coruripe - São Cristóvão, com algumas passagens em Brasília.

Adoro viajar e foram essas viagens, mas um clube e uma pessoa muito importantes que tratarei a seguir, que me fizeram chegar bem neste fim de ano. Além de apresentar resultados de pesquisas, são espaços que posso rever colegas e até amigos que moram em outros lugares, além de aumentar a rede de contatos com novos colegas. E, na medida do possível tentar ver algo de futebol e/ou aumentar a coleção de camisas.

Era para este segundo semestre ser o mais leve de todos e acabou sendo o mais ocupado desde que cheguei na UFAL. O motivo: eu precisava de tempo para a seleção do doutorado. Em meio a certa frustração de, mais uma vez, não conseguir me organizar para fazer o processo de forma correta; de certa preocupação em determinada fase por um possível erro; de, mais uma vez, ver que o trauma constituído em torno do doutorado cada vez crescia mais... Consegui ser aprovado na primeira opção que tinha em mente: a UnB. O que isso representa para mim está na postagem que fiz aqui.

2018 será de um desafio gigantesco de trabalhar e estudar ao mesmo tempo, mas tinha passado da hora de eu sempre dar meus pulos para resolver as coisas coletivas e tentar fazer isso pelo que só eu posso fazer por mim. Talvez com menos viagens para lugares diferentes, mas muitas viagens para trabalhar e estudar, porém, bem feliz por ter conseguido apesar da minha rotina maluca e do bloqueio.

Futebol
Estádio da Luz, José Alvalade, Batistão, Trapichão e Allianz Parque. Foi o ano de eu ir a estádios fora do país (em Portugal), de ver jogo do Palmeiras na Libertadores no dia do meu aniversário (e eu quase saí rolando escadaria abaixo abraçado com dois torcedores pelo gol aos 51 minutos) e de ver o CSA campeão.


O Palmeiras foi abaixo das expectativas. Parou nas semifinais do Paulistão, nas oitavas da Libertadores e nas quartas da Copa do Brasil. No Brasileiro, um vice-campeonato que é muito mais que merecia. Peguei o jogo contra o Peñarol e outros dois pelo Brasileiro, Vitória e Flamengo. Sigo 100% na nova casa.

Em compensação, o CSA começou o ano com título perdido para o rival no Alagoano numa final de primeiro tempo louco e terminou na crista da onda no Nordeste - junto ao Bahia como os mais destacados do ano na região.

Se as viagens ajudaram nesta reta final, o CSA foi uma das coisas fundamentais! O mata-mata decisivo da Série C foi durante a seleção do doutorado e realmente uma das músicas virou mantra para eu me acalmar antes das provas. O fim do jejum de títulos e do doutorado numa mesma semana é algo inesquecível. Valeu até ficar quase 10 dias sem voz em algum momento de outubro.

Se a outra torcida é mediada pela televisão, o amor pelo CSA vem sendo construído nas arquibancadas do Trapichão, o que torna a sensação dessa reviravolta na nossa história ainda mais especial. Os gritos e as lágrimas que correram no rosto contra a Tombense e, especialmente, na final contra o Fortaleza não foram à toa. Estive em quase todos os jogos do ano em casa - com direito a duas idas a Aracaju -, mas também estava na segunda divisão de 2010 e quando já estávamos eliminados da D ainda na primeira fase.


Muito, muito massa entrar no Trapichão como no jogo contra a Tombense e estar arrepiado, segurando as lágrimas, por pararmos Maceió numa segunda-feira, por sairmos do fundo de um poço sem fundo do ano passado para cá.

Não tenho vergonha alguma de dizer que o futebol é terapêutico para mim e que salvou a minha vida em momentos muito ruins, pois dentro de um estádio eu posso extravasar toda carga negativa ou positiva que as outras áreas acabam empurrando. Estudo porque amo, azar de quem estuda o que não gosta. Ah, e não tem torcedor mais chato que azulino, feliz então...

Aproveitar para citar também os camaradas do Baião de Dois, que pude participar este ano para além do conselho editorial, conhecendo alguns deles pessoalmente em outros Estados. Como disse, meu sonho enquanto jornalista era trabalhar em rádio falando de futebol, passei algumas terças-feiras falando em rádio sobre futebol, com direito à palavra para me representar ("catedrático").


Coração
Talvez até mais que o CSA campeão brasileiro, e ela vive me zoando por sonhar demais quanto a ele (melhor é quanto se cumpre rs), é terminar, finalmente, um ano tranquilo quanto a um relacionamento, ainda que uma coisa ou outra aparece e necessite ser ajustada - infelizmente, os times dela não dá para ajustar.

Foi ao acaso, já que nenhum dois dois esperava, e nessa brincadeira já completamos 6 meses juntos, mesmo com as minhas viagens. Estar com alguém que não está preocupada se vale ou não a pena ficar comigo, ser minha companheira, é a melhor coisa que aconteceu este ano - quer dizer, título BRASILEIRO do CSA me deixa em dúvida se não é do mesmo nível.

Ano que vem apresenta um desafio para além de viagens esporádicas (?) e distâncias para eventos, mas espero que entendamos conjuntamente que os desafios de nossas vidas são melhor enfrentados quando temos a melhor companhia.

Que 2018 seja menos tenebroso do que eu imagine em termos conjunturais e que eu sobreviva até melhor que este ano - de preferência com mais títulos!

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Este ano eu subirei!

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Centroavante vive de fazer gols. Basta a bola passar em frente à área que do nada ele aparece e marca. Imagina quem vive disso ficar mais de 10 jogos sem balançar as redes. Tentar, tentar, passar rente a trave, o goleiro fazer uma grande defesa. Não tem quem suporte, por melhor histórico que possa ter, por mais que treine arduamente.

Era assim a cada "você é doutorando né, posso te apresentar assim?" num evento ou o "você não é doutor?" surpreso. Aquilo gerava um sorriso amarelo, carregado de uma frustração sem fim. Talvez o maior dos pesos que eu, acostumado a colocar muito peso sob as minhas costas (psicologicamente e literalmente também), sentia nos últimos anos.

Pense num time há 9 anos sem ganhar título algum, com direito a passar na segunda divisão de estadual. O time que, mesmo entrando num bom ciclo, tendo o time mais regular do campeonato, chega na final e perde.

Há pouco mais de 5 anos as coisas mudaram. Alguns pessoas devem saber, mas após a qualificação do Mestrado já havia me comprometido a seguir na Unisinos para o doutorado, até ideia estava se desenvolvendo. O falecimento prematuro do professor Valério Brittos, dentre tantas perdas que também me marcam, teve este peso de mudar qualquer planejamento.

Tentei e passei na Unisinos mesmo sabendo que não teria bolsa e seria difícil seguir - e seria mesmo com a notícia posterior que se eu esperasse mais um pouco teria a bolsa parcial, que pagaria o curso. Tentei ainda em 2013 na UFRJ, tive um dia ruim na prova e não passei; fiz a da UERJ, sem prova escrita, achando que seria mais tranquilo, cheguei à última fase lá atrás, fora dos classificados, e desisti. O caos veio depois, mas veio também a salvação com a aprovação para ser professor da UFAL. Tentei ainda em Letras ano passado, mas uma semana antes de entregar o projeto, sofri e sobrevivi a um acidente. Consegui entregar o projeto, mas não foi aprovado. 

Resolvi continuar na Comunicação mesmo e me preparar para tentar em 2017. Mas todo o histórico anterior me gerou um bloqueio que, apesar de vir sendo trabalhado em terapia, fazia com que eu não conseguisse me organizar como pretendia para estudar para a prova escrita e para o projeto. De fase em fase, o pessimismo era grande, mas fui passando até aguardar por duas semanas o resultado final e poder escrever sobre. Devido à quantidade de vagas e aprovados, já sabia após a última fase, há duas semanas. Na MELHOR semana da minha vida desde aquele 19 de agosto de 2014.

Tenho muito a agradecer à minha terapeuta, Flávia Rogatto, finalmente veio a era boa após tantas reclamações semanais - especialmente este ano devido aos problemas no trabalho. À minha namorada, (corintiana e regatiana, vejam só), Carolina, que aturou, atura e aturará meus "abandonos" e minha impaciência no período. Te amo! A Ruy Sardinha Lopes e César Bolaño, que mesmo entre tantas coisas, ajudaram a tirar uma dúvida fundamental sobre o meu projeto, mesmo com o limite de envio muito próximo à data que eu pedi ajuda. A Isolda, de ex-aluna a minha teacher, da Oyster Idiomas, por me preparar para uma das provas de proficiência. Axs colegas e amigxs que torceram, incentivaram e fizeram questão de acompanhar, a quem destaco xs amigxs de Santana Rafael, Izabelita e o xará Aristides (o texto é meu e não vou te chamar aqui de Anderson rs). Aos estudantes de Técnica de Pesquisa em Economia, que, em meio aos trabalhos passados devido às provas do doutorado em Brasília, torceram por mim e seguiram perguntando, fase a fase, que me deram uma moral no momento mais complicado, quando nem eu acreditava.

E como maluco por futebol, que estuda isso, ao Centro Sportivo Alagoano (CSA), que me possibilitou descarregar toda a tensão deste ano, especialmente na seleção de doutorado que foi concomitante com os mata-matas da Série C. Um canto da nossa torcida virou meu mantra para relaxar antes das provas, após cada etapa. Subimos e fomos campeões!

Sei que, no meu caso, ainda não é um título, é mais trabalho, que será loucura começar doutorado sem afastamento, para poder aproveitar melhor esta etapa de pesquisa. Mas para quem é conhecido por fazer loucuras quando se trata do trabalho e do futebol, não faria diferente ao juntar as duas coisas!

UFA! Finalmente saíram estas toneladas das minhas costas!!!

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Apontamentos sobre "Coronelismo, enxada e voto"

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O livro de Victor Nunes Leal faz um panorama histórico das questões que envolveram a constituição do coronelismo, vendo causas e consequências, que demarcam, na visão do autor, a decadência do modelo agrário brasileiro que, apesar de ter então maior parte da população vivendo no meio rural, não apresentava desenvolvimento cultural e econômico. As mudanças políticas, estruturais e administrativas desde a época do Brasil Colônia até então acabam por manter o predomínio da necessidade de se contar com os velhos oligarcas do interior, vide ainda que estes locais não tinham quaisquer condições financeiras de se manter, dependendo dos governadores, daí Leal denominar o período como o da “política de governadores”.

Para o que nos interessa, importa especialmente o primeiro capítulo, que faz uma descrição e diferenciação do processo coronelista, valendo posterior releitura. Já ali aparece uma das coisas que mais nos chamaram a atenção, que é indicar o avanço das comunicações (em plena era do Rádio, anos 1940) como um aspecto de possível mudança dessa situação no país – além da melhoria nas redes de transporte e de possível melhoria na industrialização, levando as pessoas para a cidade, o que se daria depois.

Esse fator nos interesso porque, no balanço que podemos fazer 68 anos após a escrita do livro, é que muitos dos fatores apontados na relação política e com a comunidade rural ainda permanecessem, mesmo com tanta suposta evolução na educação, na busca de informações e com redução de distâncias (nos mais diversos sentidos de acesso). Talvez aqui que esteja algo que ele aponta logo no início e depois na conclusão, que é a capacidade desse modelo de atualizar, com o poder centrado em certas famílias, mesmo que esses descendentes tenham se preparado melhor a partir de educação em outros lugares.

Podemos dizer que o modelo de controle segue presente, especialmente quando a principal atividade das cidades passa a ser o setor de serviços que, no caso do interior, terá uma preponderância importante dos empregos gerados a partir da prefeitura. Por outro lado, a distribuição de concessões de rádios no Brasil, como diversos estudos nas décadas seguintes apontaram, gera o que Suzy dos Santos e outros autores indicam como “coronelismo eletrônico”. Ou seja, uma das formas de atualização de como definir o poder nos municípios foi conseguir esta concessões, a partir de relações políticas muito semelhantes às que Leal aponta.

Da mesma forma que então, apontamos em determinado trabalho, a partir de leituras sobre o “coronelismo eletrônico”, que esta forma precisa se reinventar mais uma vez com a maior quantidade de oferta de informações mesmo em lugares mais afastados, em que a radiodifusão é substituída por formas de consumo não programados, mas escolhidos, de conteúdo. Resta, portanto, observar como esse processo irá se dar – levando em conta, ainda, do ponto de vista das ciências políticas e sociais a necessidade de atualização histórica desse processo em comparação aos dias atuais.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
LEAL, Victor, Nunes. Coronelismo, enxada e voto: O município e o regime representativo no Brasil. 7.ed. Companhia das Letras: 2012.