domingo, 30 de junho de 2013

[Por Trás do Gol] "Eles são os favoritos"

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Creio que depois de 1958 é a primeira vez que o Brasil não chega para uma partida como favorito. Ainda mais quando esta é numa final de torneio oficial, quando até aqui o otimismo em torno do time cresce bastante, e em território brasileiro. Provavelmente até mesmo na Copa do Mundo de 2010, um enfrentamento brasileiro contra a Espanha traria como favorita a seleção canarinha.

Do último confronto com a Espanha, em 1999, muita coisa mudou. Enquanto o Brasil seguiu a trajetória de finais seguidas com o título em 2002, e, mesmo com altos e baixos, ganhou duas Copas das Confederações seguidas (2005 e 2009) chegando aos mundiais como um dos maiores favoritos; a Espanha finalmente se consolidou como uma das forças do futebol mundial. Mais que isso, hegemonizou, com dois títulos europeus seguidos e uma Copa do Mundo no meio, com o tiki-taka tornando-se referência de como jogar futebol, técnica e taticamente.

Ao Brasil, restou a reconstrução de um time envelhecido de 2010 para duas gerações depois, já que Kaká, Robinho e Ronaldinho não vingaram. Sob os ombros de Neymar e Oscar, na casa dos 21 anos, ficou a responsabilidade de chamar a partida. Enquanto o primeiro quase que sempre gerou esta expectativa, e só a vem cumprindo na Copa das Confederações deste ano - ainda que mais objetivo que o normal -, o segundo conquistou o seu lugar dentro de campo no ano passado, mas com o cansaço se refletindo neste torneio FIFA.

Uma das maiores comparações que podem explicar o porquê do favoritismo espanhol para este domingo está no comando técnico. Vicente Del Bosque assumiu a seleção espanhola após a conquista da Euro de 2008, mantendo-se no cargo desde então, e também aprimorando o tiki-taka, que tem em campo o comando de jogadores do nível de Xavi e Iniesta.

O Brasil tinha Dunga até 2010, passou para Mano Menezes, após supostas desistências de Felipão e de Muricy Ramalho. Mano ficou até o ano passado e caiu quando ninguém imaginava, já que o time, com Oscar como o meia articulador, dava cara de um jeito de jogar. Felipão assumiu com a proteção de Parreira no comando técnico, muito pelo peso simbólico de ambos terem sido os últimos treinadores campeões do mundo do Brasil.

Verdade seja dita, a não ser que ocorra uma tragédia amanhã - uma goleada primorosa espanhola -, Felipão se mantém tranquilamente como técnico brasileiro até a Copa do Mundo, sem maiores cobranças. Na Copa das Confederações, reclamações à parte sobre o Hulk como titular, conseguiu montar uma seleção e uma visível forma de jogar. Ainda que haja falhas em determinados momentos, até mesmo porque o conjunto que os espanhóis têm, com tempo junto na cancha, nós ainda não temos - nem temos um Barcelona para juntar a maioria dos nossos titulares durante todo o ano.

Dos quatro jogos da Espanha, vi dois por completo (Uruguai e Nigéria) e a semifinal a partir do final do primeiro tempo. Contra o Uruguai, o time teve o melhor tempo até aqui, dominou completamente os nossos vizinhos, mas só marcou um gol. Na segunda etapa, tiraram o pé, marcaram outro gol e ainda sofreram um de bola parada no final, que gerou certa pressão para os minutos derradeiros. As duas outras partidas foram bem diferente. 

Por mais que a manutenção da posse de bola fosse superior, está aí o Bayern de Munique para ensinar-nos que isso só não é o suficiente. Contra a Nigéria, um golaço com o selo Barcelona de qualidade no início da partida e o time passou a se poupar "para evitar a fadiga". A Nigéria só não fez gols porque deve ter alguma mandinga para equipes que vestem verde e branco ainda em vigor no território brasileiro. Foram os 3 a 0 mais enganosos deste torneio. 

Contra a Itália, então... Se no ano passado todo mundo esperava uma final disputada, quando mais o tiki-taka foi criticado, por atuações burocráticas, e veio um 4 a 0, este ano foi o contrário. A Itália aproveitou-se do ponto fraco da marcação espanhola, a cobertura das laterais, e chegou a dominar a primeira etapa. Depois, o jogo se igualou e foi até à prorrogação com as duas seleções tendo chances de marcar.

Portanto, se o Brasil ainda tem muito o que jogar junto - e é vergonhoso imaginar que só terá duas ou três partidas após a Copa das Confederações -, a Espanha não é o time imbatível que tanto propagaram. Ô mania de esquecer que a imprevisibilidade é a marca e a graça do futebol!

Por fim, Maracanã por Maracanã, que as lembranças de amanhã sejam das "Touradas em Madri" do dia 13 de julho e não do Maracanazzo do dia 16.

*A frase que dá título ao post é de Neymar, e o desenho de Dálcio Machado.

sábado, 29 de junho de 2013

Mais um golpe na cultura em Alagoas

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Era dia 30 ou 31 de janeiro de 2007. Não lembro exatamente. Entrava numa das salas do Cine Cidade pela primeira vez, para ver "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias". Primeira e única. A partir do dia 1º de fevereiro, Alagoas perdia duas das suas cinco salas de cinema existentes, todas na capital Maceió. Além disso, perdia um importante espaço alternativo a blockbusters. Revivemos tal situação agora.

O Centro Cultural SESI, com um teatro, uma sala de cinema, espaço para exposições de obras de arte e um espaço para café ocupando o que antes foi o Cine Art Pajuçara, num prédio defronte à praia, foi fechado oficialmente pelo Serviço Social da Indústria (SESI) em Alagoas. 11 profissionais, incluindo Marcos Sampaio, coordenador do espaço, foram demitidos.

O Centro conquistou importante espaço na cultura alagoana ao longo de seus 9 anos de existência tanto pelos filmes que passavam por lá, como também pelas exposições e peças. Mas dá para destacar a série de eventos ligados aos cinéfilos, como mostras dos mais diversos tipos e o grande sucesso , o "Corujão", que exibia filmes do final da noite ao início da manhã, intercalados por música e entrevistas a cineastas, produtores e atores. No fim, um café da manhã era oferecido a quem aguentava a jornada.

EXPLICANDO
Após a tragédia na Boate Kiss, em Santa Maria-RS, como ocorreu no resto do país, em Alagoas houve uma força-tarefa para fiscalizar a situação de espaços dirigidos a grandes públicos. Os cinemas não ficaram de fora - agora com dois shoppings com multiplex. Foram fechadas as salas do Pátio Maceió, do Shopping Farol e do Centro Cultural SESI. Apenas o cinema da rede Kinoplex (Grupo Severiano Ribeiro), no Maceió Shopping (antigo Iguatemi) seguiu aberta.

O principal problema era que o projeto apresentado ao Corpo de Bombeiros era diferente do que foi construído, tendo a necessidade de uma reforma urgente para que os espaços possibilitassem melhores condições para os espectadores. Algumas decisões judiciais permitiram que as salas do Pátio Maceió e do Shopping Farol reabrissem. A coordenação do Centro Cultural explicitava que só reabriria após estar apto a isso.

A justificativa dada pelo SESI para o fechamento do espaço foi que dentre as exigências estariam obras que não teriam como serem feitas, caso do reforço num dos pilares de sustentação do prédio, cujo espaço era alugado para o seu funcionamento. Assim, acrescido a um movimento de corte de gastos, optou-se pelo desligamento do espaço.

Acompanho este caso porque o fechamento das salas de cinema ocorreram duas semanas depois de eu ter voltado para Maceió. Lamentei muito que o Centro Cultural SESI tivesse sido fechado por tê-lo frequentado, ainda que nunca tenha podido ir ao "Corujão", que tanto propagandeei em terras gauchas como excelente proposta cultural. Bem acostumado com o Guion e, especialmente, com as salas da Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, não fui ainda ao cinema desde que voltei a Maceió.

Deste processo, o que mais me chamou a atenção foi que os projetos para construção de espaços eram feitos, aprovados, mas os empresários não os cumpriam. Não vi em nenhuma matéria jornalística por aqui, mas seria bem interessante investigar como se faz isso. Continuo com a pulga atrás da orelha me perguntando se não haveria uma espécie de fábrica de projetos que facilitassem sua aprovação pelos órgãos oficiais, na certeza de que na prática ele não importasse tanto. 

Vejam bem, não estou acusando ninguém, mas explicitar como isso ocorre, quais os trâmites burocráticos a se seguir, e que expliquem como pode a parte levada a órgãos oficiais é diferente do que vem ser colocado na prática é essencial, ainda mais que a segurança de várias pessoas pode ficar em risco.

Além disso, como imaginar que um local reinaugurado há 9 anos não tenha tido sequer uma fiscalização para verificar as condições de segurança? - ainda que ele tenha passado por melhorias ao longo do tempo. Assim como, custa-me entender como espaços mais novos como os cinemas dos shopping Farol (Lumière) e Pátio Maceió (Centerplex) passaram incólumes. Ah, será que não há um padrão que estes grupos empresariais deveriam seguir para a construção de suas salas no Brasil?

Também é bom lembrar que de órgão oficial e cinema nos últimos anos em Maceió, a grande notícia foi a "carteirada" de policiais, que foi proibida no Pátio Maceió pela gerente do espaço, que foi levada presa por vários deles por conta disso. Isso gerou uma repercussão negativa, além de reuniões com produtores culturais locais para analisar melhor esta situação, que criou certo constrangimento no comando policial do Estado.


MOBILIZAÇÃO
Há mobilização via mídias sociais para a reabertura do Centro Cultural, com reunião marcada para a próxima terça-feira, com 1.561 pessoas confirmadas. Dentre as propostas, está a do SESI ocupar outro espaço, mantendo os projetos culturais então realizados na Pajuçara. Uma pessoa sugeriu o que antes era o antigo Cine Cidade, que após ser ocupado por uma rede de lojas de varejo, segue sem qualquer utilização - ainda que no início houvesse uma promessa de que pudesse ser utilizado para algo, como um cineclube. Além disso, Marcos Sampaio, que afirmou ter segurado o quando pôde a manutenção do espaço pelo SESI, afirmou que segue tentando articular novos parceiros para a reabertura do lugar ou do projeto. 

Por enquanto, tudo não passa de especulações. De certo, a perda de um espaço importantíssimo para a cultura em Alagoas, que se ficarmos restritos ao cinema, ficará refém das escolhas das redes de cinemas nacionais - com exceção da Sessão de Arte do Maceió Shopping, funcionando a mais de dez anos, com sessão de um filme bem conceituado todo sábado, a partir das 11h.

domingo, 23 de junho de 2013

Coleção - Camisa Nº 3

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Esta traz em si uma história trágica (que eu não contarei), ao mesmo tempo que representa o penúltimo título do Campeonato Paulista do Palmeiras, o que veio num Estadual disputado em dois turnos por pontos corridos, ambos vencidos pelo alviverde, com pontos corridos, ganho com várias partidas de antecedência, com uma derrota apenas - se não me engano - e do chamado "ataque de 100 gols".

Da era parmalat, eu diria que representa uma geração intermediária entre aquela que acabou com o jejum de títulos, com bicampeonatos paulista e brasileiro e título do Rio São-Paulo; da geração Felipão, com vice-campeonato brasileiro e títulos da Copa do Brasil, da Copa Mercosul e da Libertadores. Ainda assim, era um timaço. Um super ataque, com Luizão marcando 22 gols; Rivaldo, 18; Müller e Djalminha, 15, em 30 jogos disputados. No todo, foram 102 tentos.

Devo ter ganho essa camisa no segundo semestre daquele ano. Lembro que quando a minha mãe chegou com ela chorei, reclamei e esperneei muito por conta do número. Queria a 9 do Luizão, não a 10. Mais de uma hora depois, ainda com o rosto cheio de lágrimas, olhei de novo o 10 na camisa e saí com:

"- Não tem problema, não, é a camisa do Djalminha".

Camisa 3
Sociedade Esportiva Palmeiras
Réplica
1996
Adquirida em Aracaju-SE
Valor não recordado

sábado, 22 de junho de 2013

Mais algumas considerações

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Do último texto, até que com sinais alarmistas, para hoje, li muitas coisas, conversei com algumas pessoas - uma delas da Argentina, curiosa por entender o que ocorre por aqui - e até vi um debate realizado na USP sobre os reflexos dos movimentos que ocorrem no Brasil. Ah, e ainda discuti com pessoas por aqui - e que acredita que no Brasil vivemos no socialismo -, sobre a questão dos partidos nas manifestações. Várias opiniões e questões interessantes a serem colocadas, das quais destacarei duas coisas, que creio não anularem os problemas que eu visualizei na quinta-feira passada.

Mas antes disso, tenho que recomendar por aqui o que iniciou como postagens do Facebook e que virou um blog, o Guia do Acomodado. Uma visão não "militante" sobre o que acontece agora, o que permite também ter uma visão crítica sobre todas as possibilidades percebidas. Para quem ainda não conhece o blog, deve ter visto por aí o "Guia do acomodado pra entender o que aconteceu no dia 13.06.2013 no país e (quem sabe) acordar".

Partindo para as questões, em meio ao mar de informações pedindo cuidado com o repúdio generalizado referente aos partidos, vi dois comentários que assumiam ir diferente ao caminho percorrido por algumas pessoas nas mídias sociais. 

Vai ser difícil encontrá-los novamente, mas, podendo cometer o erro da memória, a crítica era para o pessimismo generalizado, com a possibilidade de um golpe praticamente iminente como alguns comentavam. A crítica foi centrada no que seria uma simplificação dos movimentos, porque passaram a ter outras pautas - e aqui, deveria-se respeitar as críticas diferentes a problemas diferentes. Mas o principal é que esta mudança de pauta, por fora da movimentação política, mesmo para os partidos de esquerda, teria criado algo como "a nossa pauta ou o fascismo". Em suma, entender a complexificação do atual momento, para além de "fórmulas prontas".

Como disse, e repito, estou reproduzindo algo de ontem, sujeito à minha memória e respectiva reprodução. Mas são análises e perspectivas válidas. Ah, inclusive incluíam o cuidado caso haja essa abertura para movimentos fascistas dominarem as manifestações, por mais que não acreditassem que se chegasse a um ponto como em 1964.

Dizer que têm muita razão ao afirmar que não se tem como analisar o momento atual com ferramentas teóricas/práticas anteriores. Do mesmo jeito que toda uma complexidade marcou e ainda marca os movimentos iniciados com a Primavera Árabe e posteriormente os #Occupy pelo mundo. Neles há o que se não quer, mas não o que se deseja pôr no lugar, o que gerou vários problemas no caso dos países árabes mesmo após a saída de alguns ditadores.
"Keep Calm" e mensagem religiosa num mesmo espaço
No caso do #Occupy, li muitos cientistas políticos analisando que dentre os 99% contra o capitalismo financeiro não significava nem de longe que eram 99% contra o sistema capitalista. Não à toa que congressistas iam conversar nas praças e não havia grandes litígios. Numa rápida pergunta a quem estava ali o porquê de estar, havia muitas opiniões diferentes. Sobre o que ocorreria depois, então...

É interessante observar que o movimento #Occupy não teve tanto reflexo no Brasil, até mesmo por conta do momento econômico. Teve alguns focos em alguns Estados, caso do Rio Grande do Sul e de São Paulo, mas sem o apelo para trazer as pessoas às ruas, independente de ser uma pauta mais flexível.

Além disso, como consta na hashtag que fiz questão de reproduzir e como se deu na divulgação interna e para o mundo da Primavera Árabe - e também da possível fraude nas eleições anteriores no Irã -, há a presença de uma nova forma de articulação, a internet. Curioso disso tudo, é que a utilização da internet foi feita numa região que a "comunidade cristã ocidental" não costuma prestar atenção para falar da história contemporânea.

Por mais que se mantenha, e seja muito necessário, ir às ruas , a articulação é feita pela internet e ganha na prática reflexos da linguagem e do agir das mídias sociais. E isso é algo muito novo, especialmente quando as pautas culturais e de comunicação não costumam fazer parte das discussões prioritárias dos grupos libertários/revolucionários, envoltos na luta com o trabalhador para a transformação social.

Assim, ver cartazes como eu vi na terça com referência ao RPG, com "Só Goku salva" ou "Dumbledore não deixaria isso acontecer" é algo normal tendo em vista que as formas de articulação, os espaços de discussão e, principalmente, novas redes sociais - no termo geral - foram criadas, com diferentes maneiras de expressão. Na minha opinião, achar isso um absurdo tanto é não querer difundir o que se pensa quanto imaginar que se tem o monopólio das formas de protestar.

Nem sei se consegui desenvolver direito o que queria postar, mas é necessário rever as formas de atuação, deixar de acreditar que seguir a cartilha, teórica e de prática, à risca, é o mais correto a fazer - olha que eu defendia coisas assim há muito pouco tempo. Analisar as referências teóricas históricas, mas entendendo-as através das mudanças ocorridas na sociedade é fundamental para não se perder em meio às "novidades" que podem surgir. Ficando na área acadêmica em que pesquiso, o quanto a Comunicação mudou dos tempos de Marx para os atuais, o quanto a categoria "trabalho" mudou e precisa ser muito discutida,...

Muita coisa mesmo apareceu...
Sobre a questão partidária, um amigo argentino me perguntou o quanto que a questão "anti-partidária" atual poderiam ser relacionadas ao "Que Se Vayan Todos" de 2001 por lá, que refletiu a série de demissões de presidentes por pressão popular, após grave crise provocada pelas práticas neoliberais a partir do final da década de 1980. Nenhum partido agradava da mesma forma que na Grécia, em Portugal e na Espanha, os partidos socialistas pouco fizeram de diferente em relação ao capital financeiro. E o pouco que Hollande faz na França neste momento, por mais que haja avanços quanto ao tratamento ao estrangeiro no país.

Na hora, eu respondi que acreditava que não, que poderia haver uma apropriação das pautas mais gerais, como ser contra a corrupção, por determinados movimentos de direita. Por mais que aqui em Alagoas os partidos tenham sido obrigados a sair para não apanharem - ainda uma baita contradição para um movimento que grita "sem violência" para a polícia e "sem vandalismo" -, os gritos eram contra o governador do PSDB e a presidenta do PT. 

Mas, de fato, o "partido" parece não representa ninguém, por mais que muitos tenham votado neles nas eleições passadas e votarão no ano que vem. Vale lembrar que é muito normal votar num deputado estadual de um partido, noutro de outro, no governador do partido opositor do candidato a presidente. Há o individualismo forte na hora do voto, até mesmo por conta da grande quantidade de partidos e também pela falta de identidade ideológica na maior parte deles (dos famosos, que ganham eleições). Sobre os demais, os de esquerda - eu não considero PT e o PCdoB nisso -, quase ninguém conhece suas propostas, por mais que estejam focados em lutar ao lado dos trabalhadores, não pela via eleitoral.

Como disse antes, o conceito de trabalhador/operário há muito precisa ser repensado. Entender quais as lutas e necessidades destes então... 

Volto a afirmar que não acredito em conscientização das "massas", termo que já indica algo homogêneo e uniforme, por vanguardas esclarecidas. Quem mais pode reclamar das contradições do capitalismo do que quem o sofre na pele? Ainda assim, se pegarmos na definição do IBGE, quantos membros da classe E, os das necessidades de sobrevivência, vão às ruas? Quantos estão organizados, inclusive nestes partidos?

Às vezes é mais fácil considerar a alienação, ou facilidade de manipulação, por parte de algumas pessoas quando ocorre algo diferente do imaginado. Muito necessário é reavaliar as próprias ações, saber a importância de entender o movimento sociocultural.

Há muita pauta nos movimentos, como a da causa homossexual, que está longe de um consenso, por mais que divida espaço com outras coisas. Eu li na página do ato aqui que se deveria tirar qualquer outra bandeira, inclusive do movimento gay, negro ou qualquer um, já que "eles deveriam criar o próprio movimento deles". Para isso, indiscutivelmente, o alerta deve estar aceso e a discussão deve ocorrer. Por mais que seja extremamente difícil não ser levado à ironia após uma série de tentativas.

Afirmei no texto anterior que, apesar de todo o meu receio, via grande importância das pessoas irem às ruas quando no Brasil não se há o costume para isso - ao contrário de outros locais, sendo a Argentina o exemplo "gritante". Em Alagoas, então... Não lembrava de algo deste tamanho, sem a participação de centenas de pessoas de movimentos de trabalhadores sem-terra, partidários e tudo o mais, desde que voltei a primeira vez para morar por aqui, em 2000. Independente do rumo que tomar, é fato que se trata de um momento histórico e é muito difícil entender a transformação quando se está no meio dela.

Assim, continuo muito crítico a quem acredita que PSTU é a mesma coisa do PT, mas fora do poder, que DEM é o mesmo que estes, que PSDB e PMDB são a mesma coisa, porque não são. Da mesma forma que, se achar necessário, vou defender a expressão das posições ideológicas dos partidos de esquerda, ainda mais se construíram o processo desde o início, o que remove a ideia de "oportunismo", argumento que muitos usam como justificativa. Não dá para entender um movimento que veste branco para indicar que se é um movimento pacífico, mas que bateria em pessoas que estão do lado para lutar pelas melhorias.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Muitas pessoas nas ruas

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[Deve estar bem bagunçado. Se der, reviso amanhã, colocando algumas fotos, vídeos e áudios. Ah, o texto é beeeem longo]

Tinha pensado muito no tanto de criticismo iria levar em considerar numa análise pessoal e por aqui quanto ao movimento contra o aumento da passagem aqui em Maceió. Tinha pensado em escrever só na tarde ou na noite da sexta-feira, mas dado o rumo que se tomou nacionalmente, com forte preocupação de um golpe da direita, não conseguiria dormir - mesmo que pela segunda noite seguida.

Quem me conheceu por conta da militância sabe muito bem que eu não sou um militante para valer, admito. Tenho meu posicionamento ideológico, creio que bastante claro, radical, visando a transformação social para além de melhorias passageiras, mas não sou de participar de movimentos sociais, de atos legítimos, ainda que muito por conta da inviabilidade das atividades cotidianas de pesquisa - que no fundo ajudam à minha formação ideológica. Além de uma experiência não muito boa, por conta das práticas alheias, na época de militante estudantil.

Minha preocupação quanto a um criticismo exagerado era por considerar que a maioria das pessoas não teria o mesmo posicionamento ideológico meu e de colegas e amigos da época do Diretório Acadêmico, que, independente da trajetória, não o esmoreceram. E o principal, um dos meus motivos por nunca ter me aproximado de um partido de esquerda (de fato), eu sempre acreditei que quem sofre pelas contradições do capitalismo é que pode dizer melhor o quanto ele é pavoroso para o operário. Crer que ninguém precisará "encaminhá-los" a um processo revolucionário.

Enfim, ideias que eu não discuto/estudo há algum tempo à parte, minha ideia era chegar sem conceitos pré-concebidos sobre a multiplicidade de discursos, as brincadeiras exageradas ou não, possíveis demonstrações de preconceitos ou repetição sem pensar de determinadas falas, brados, hinos, etc.

Claro, o movimento das opiniões mudou graças à repressão escancarada e impossível de não ser publicizada por parte da PM de São Paulo na semana passada contra o Movimento do Passe Livre - com jornalistas de grandes empresas também sendo atingidos. Ficou tão explícito que Datena e Marcelo Rezende passaram a suavizar de forma extrema as opiniões sobre movimentos sociais e até a Rede Globo e a Folha, que teve repórter atingida pela polícia logo depois de um dos seus "editoriais raivosos", deu o braço a torcer. 

Ainda que esta mudança da "opinião pública" tenha gerado um novo padrão de manifestação, agora com "a minoria" sendo de vândalos e que o movimento era apartidário - gerando uma contradição e um novo "modelo militante" -, gerou uma série de manifestações em todo o país. E manifestações com mais e mais pessoas e com maior repúdio às ações repressivas como nunca d'antes. Maceió mesmo, com 2 mil pessoas nas ruas? Quando? [Sem contar com grevistas da educação e/ou movimentos de trabalhadores rurais sem-terra].


PARTIDOS
Na semana passada não fui porque fui convidado ao ato um dia antes dele ocorrer e não estava por dentro das coisas daqui. Na segunda, ainda não estava confiante de que seria algo tão interessante quanto prometia em São Paulo, além de alguns grilos que ficaram na cachola da época da graduação e a etapa final de uma observação de pesquisa. Mas já tinha confirmado a ida a uma possível nesta quinta, na página do ato nacional. Tempo também dos prefeitos diminuírem o valor das passagens pelo Brasil.

Ao longo da semana, já dentre os protestos de SP, comecei a ver na TV aberta manifestantes puxando bandeiras, quebrando e tirando as faixas dos mastros porque eram de partidos políticos. Violento mesmo. E os grandes grupos midiáticos se vangloriando, e, consequentemente, incentivando, à repetição de coisas assim.

Já tinha dado uma olhada na página do ato aqui e visto que havia uma discussão sobre a presença ou não de bandeiras de partidos, dado o exemplo midiatizado de outros Estados. Comecei a ler um dia antes alguns dos comentários e comecei a ver com estranheza coisas como "o voto é do povo, aqui é democracia e se o povo escolher não ter bandeiras não vai ter. Eu garanto!". Olha o que o voto faz diariamente, olha a representatividade proposta pela internet, olha a falta de contextualização e conhecimento sobre a atuação destes partidos - olha como o discursos é o mesmo da democracia representativa...

Uma amiga minha chegou a discutir e perguntar, "mas o que você fará para garantir". "Éééé...". VIOLÊNCIA. Opa. O movimento que grita "sem violência", veste branco pedindo paz e grita também "sem vandalismo", não teria vergonha em bater num companheiro daquela luta, que construiu aquela e várias causas desde sempre, ao contrário dos que chegaram agora, mas que né, são a maioria.

Essa era uma das coisas que eu pretendia observar no ato e confesso que em boa parte do tempo pensei em chegar antes para ver como seria dada essa decisão e, caso necessário, evitar que coisas como as citadas acontecessem por aqui. Além de tentar ter uma preocupação com os jornalistas que TRABALHARIAM cobrindo o evento. Por mais que seja de emissora a, b ou c o cara não deve ter microfone roubado, câmera tapada ou sofrer violência. Grite, xingue a empresa, vá até ela, mas a pessoa está ali para fazer o trabalho dela.
Uma colega minha, do PSTU, respondeu ao meu tuíter da madrugada deste texto sobre o que aconteceu com os militantes partidários ontem:

"Os Partidos de esquerda se retiraram aqui do ato quando algumas pessoas nos ameaçaram. Foi preciso fazermos um cordão de isolamento para manter nossa integridade física. Foi muito triste. Passamos o ato inteiro escutando palavras de ordem contra a gente, e depois vieram nos agredir. Tivemos que sair".


PROTESTO
Já no ônibus haviam alguns estudantes, gritando, chamando palavras de ordem, brincando, mas também convocando as pessoas nas ruas para irem ao ato. Inclusive, antes de descermos, um senhor se levantou e disse para protestarmos mesmo, afinal a geração dele não pôde fazê-lo por conta da ditadura militar [informação muito relevante].

Uma multidão de gente já caminhava a partir da Praça Centenário e vi o espaço dado às pessoas com bandeiras de partido. Menos mal que puderam levá-las, mas sob muita pressão, com gritos de "sem partido" e "abaixa a bandeira", com direito a estímulo por parte de quem estava no carro de som. Vai que acrescentaram uma pauta naquele momento...

Andei em direção ao início e só alcancei na altura da Praça dos Martírios (do Governo), observando os gritos, as pessoas vestidas de branco, com bandeiras do Brasil, com caras pintadas e até com camisas da Seleção da CBF - porque as bandeiras dos partidos não podiam, mas a da Seleção podia, Arnaldo?

Ainda assim, eram de 10 a 20 mil pessoas nas ruas de Maceió para protestar. Inacreditável. Incrível. Apesar de alguns problemas, como o locutor do carro da frente dizer que ali era um movimento da juventude livre que era "apartidária" e "sem ideologia". Mais uma balançada de cabeça minha. "Sem ideologia" existe?

O hino nacional era cantado algumas vezes e eu não canto o hino nacional por conta da sua criação, seus ideais positivistas - como "ORDEM e Progresso" da bandeira. Cantavam "Sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor". E eu quieto. Não canto o hino há algum tempo por conta do seu significado - e sim, como apaixonado por futebol, canto o hino do clube que eu torço e me representa, que seja contradição!

Bombas e rojões assustavam muitas vezes, mas nenhuma crítica foi feita. Algumas vaias só foram ouvidas quando alguns batiam em portões e/ou pichavam alguns locais. De resto, muita brincadeira, fotos no Facebook - que é bem normal para os dias de hoje e a popularização do protesto - e amplos espaços entre os blocos. E foi isso que gerou a divisão em três partes, com uma partindo para a Av. Fernandes Lima, enquanto as outras seguiram para a orla de Pajuçara/Ponta Verde, chegar no apartamento do governador.

Como estava nesta segunda parte, segui, esperei muitas vezes para a aproximação de uma parte com bandeiras, mas demorava muito. O apoio das pessoas nas casas e prédios em que o ato passou era grande. Na orla, os turistas pularam para janelas e entradas dos hotéis para verem tudo aquilo. Toda respostas das pessoas em casa eram saudadas nas ruas. 

Aquela sensação em mim para saber a importância dos aplausos das pessoas que votam naquele vizinho que o ato visitaria ou em pessoas de pensamento parecido. Que ser saudado nas comunidades carentes e periféricas, como a que eu moro e que mal se comenta sobre isso, seria bem mais importante e relevante para uma transformação real...

Saí antes de chegar ao apartamento do governo porque eu pego ônibus e só tenho uma linha à disposição para chegar ou sair da parte nobre da cidade. Confesso que saí com estranhamento, mas surpreso com a quantidade de pessoas que se manifestaram. E uma das coisas que vi na Argentina e achei fantástico foi que todo mundo protesta. Vimos senhoras com super casacos de grife batendo panela numa noite geladíssima, quando já tínhamos visto um protesto interrompendo a avenida que o hotel ficava e uma greve geral dias depois. Nas condições reais, isso é interessante.

Porém, cheguei em casa, liguei o computador e vejo uma série de informações relatando até ESPANCAMENTOS a militantes de partidos políticos no Rio de Janeiro e em São Paulo, com o Movimento do Passe Livre de SP abandonando o ato porque foi EXPULSO por fascistas que tomaram conta do movimento por lá sob os argumentos do nacionalismo, apartidarismo e "sem ideologia". Depois me disseram que na Bahia perseguiram negros e membros de movimentos LGBT.

A coisa ficou tão grave que a minha time-line e amigos em mensagens começaram a considerar um novo golpe de direita no país!!!

Tudo bem que em Alagoas se foi protestar contra o governador usineiro, do PSDB, mas as bases de defesa explicitadas em outros locais do Brasil quando comparadas as daqui assustam, geram um pavor ainda maior em quem já sentiu na pele a repressão mesmo em dias de "democracia" e que leu e ouviu muito sobre as repressões na ditadura militar.

Trata-se de um movimento que apesar da pauta do passe livre e de combate ao aumento da passagem sempre se definiu de esquerda, articulado com partidos de esquerda e que cresceu e vem sendo apropriado por setores de extrema-direita muito porque, como comentava dias atrás com um amigo anarquista, as pessoas estavam muito mais para uma "marcha pela família, por Deus e pela Liberdade" do que para uma revolução das massas.

Mas nunca esperava uma guinada deste nível. Para ser sincero, não esperava algo assim nunca mais enquanto eu vivesse. Assustado, torcendo para que isso não ocorra e acompanhando o encaminhamento que a história dará.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

‘Cabeça no jogo’ e as novas formas de mostrar o futebol

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Em meio a tanta inovação tecnológica, como o “futebol de botão do 3º milênio”, do “Central da Copa” na Rede Globo, o que mais me chamou a atenção na cobertura da estreia do Brasil na Copa das Confederações Fifa Brasil 2013 foi um programa que passou no horário do jogo, comentou o jogo, mas não mostrou nenhuma imagem da partida. Eu só soube da existência do “Cabeça no jogo” da ESPN Brasil por conta do acompanhamento que fazia pelo Twitter. Achei estranho o nome e só depois da metade do primeiro tempo é que acessei pela internet o streaming da transmissão.

Marcelo Duarte, Celson Unzelte, Alexandre Oliveira, Leonardo Bertozzi e José Roberto Malia eram as cabeças que víamos em cinco quadros diferentes, com tempo e placar no lugar tradicional, o canto esquerdo superior, e um espaço na metade inferior para tuítes e vinhetas, como imagem de Felipão e Murtosa, cornetas e gols. Segundo a ESPN Brasil, a proposta era garantir “comentários bem humorados e análises fundamentadas” para mostrar o “torneio como você nunca viu”, nas partidas do Brasil, semis e final da Copa das Confederações. Dentro do processo de convergências dos meios, a atração foi transmitida pelo canal de TV fechada, no site na internet, na rádio online do grupo, via tablet e por smartphone.

Não estou entre os apaixonados pelo modelo brincalhão de tratar o futebol. Acabei por acompanhar o programa pela curiosidade do formato, que me lembrou do que fez o grupo Record, ainda sob comando de Silvio Santos e da família Carvalho, na Copa do Mundo Fifa de 1982. Com a exclusividade adquirida pela Globo, Silvio Luiz transmitiu as partidas no rádio e criou uma campanha publicitária cujo título era: “Copa do Mundo: olhos na TV, coração na Record”, que incentivava o público a baixar o volume da TV e ouvir a locução da emissora. Além disso, assim que acabava a transmissão da concorrente, a Rede Record exibia uma mesa-redonda sobre a partida.

Momentos de silêncio e pedidos de palmas

Em tempos de maior participação do público, ainda que não a ideal, alguns tuítes eram lidos e o programa permitia que outras pessoas ligassem para participar e comentar a partida. Porém, ao menos neste programa inicial, foram poucas pessoas “desconhecidas” a participar.

Pelo que acompanhei, houve a participação dos cantores Reginaldo Rossi e Nasi, do humorista Ary Toledo e de outros profissionais da ESPN, caso do ex-tenista Fernando Meligeni, de Mauro Cezar Pereira e Antero Greco. Quase todos eles destacando as vaias recebidas pela presidenta Dilma Rousseff e pelo presidente da Fifa Joseph Blatter, que aumentaram com o seu pedido por mais educação. Vale lembrar que a ESPN é um dos grupos comunicacionais que mais mostram denúncias contra a estrutura de poder que envolve o futebol nacional e internacional. Assim, era até óbvio ouvir mais coisas sobre o fato de antes da partida lá que na transmissão da Rede Globo.

Sem os direitos de exibição do campeonato, víamos a reação dos jornalistas, ainda sem o tempo ideal para garantir um entrosamento melhor e maior participação de todos os cinco. Alguns momentos de silêncio eram percebidos, até mesmo por conta das atenções voltadas à partida, que também gerava a chamada de atenção para uma possível jogada mais perigosa do Brasil ou do Japão. Além disso, alguns pedidos de palmas para jogadores que recebiam closes da transmissão oficial também foram vistos, casos da saída de Neymar após o final da primeira etapa e de Hulk, jogador mais questionado da Seleção, substituído no segundo tempo – e que não recebeu nenhum comentário sobre as pernas, como fez Galvão Bueno na transmissão global.

Novidade no Fantástico

Houve direito até à participação “invisível” do estagiário Arthur, que era chamado para confirmar determinado dado sobre a partida, além de ser o responsável pela pipoca, mastigada sem nenhum pudor ao longo do segundo tempo.

O intervalo do jogo também trouxe os melhores momentos, mas do “Cabeça no jogo”, com as frases mais engraçadas selecionadas pelos responsáveis pelo programa, que terminou assim que acabou a partida, um bom tempo antes das transmissões da Globo e da Band. Para quem acompanha os canais ESPN no Brasil, o “Cabeça no jogo” fica como uma alternativa para fugir das narrações “tradicionais” para a TV local.

Para finalizar, já que o “Central da Copa” foi citado, em meio a tanta tecnologia, além do já citado campo de botão virtual, havia projeção de jogadores da Seleção e comentários de Caio dentro do campo, pareceu muita coisa para pouco tempo. Afinal, além da parte comandada por Tiago Leifert e Alex Escobar, havia o tradicional papo de Galvão Bueno com seus comentaristas, direto de Brasília. Em meio a tanta coisa, o auditório, que caracterizou o programa na Copa do Mundo Fifa 2010, pouco participou. Até mesmo uma convidada global, a atriz Daniele Suzuki, pouco falou ao longo da atração.

A boa novidade do final de semana na Globo foi a participação de Marcelo Adnet durante o Fantástico, especialmente o primeiro esquete, em que ele interpretou o torcedor que se acha estranho em meio ao “futebol moderno”, tendo que pagar caro por lanches dentro de um estádio, em que mal se pode torcer como sempre se fez.
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[Texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa]

terça-feira, 18 de junho de 2013

[Por Trás do Gol] Futebol e política se entrelaçam

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Pressão política  nos bastidores para demitir o técnico tal. Movimentações politicas para formar a chapa das eleições da diretoria. Forte campanha entre os associados ou conselheiros. Briga com o presidente do Conselho, de outro grupo político. Pressão por mais democracia, para que a participação na política do clube seja maior,... Política interna dos clubes. Política numa associação formada por eles. Acordos entre clubes, grupos empresariais/midiáticos. 

Pressão por mais poder na CBF. Pressão para ser escutado na Conmebol. Pressão da presidenta, ao não querer aparecer do lado do presidente da CBF. Disputas políticas, com direito a várias rasteiras, dentro da FIFA. Promessa desta para o fim da corrupção - de seus inimigos.

Dizer que futebol e política não se misturam é desconsiderar que em torno desta manifestação cultural há instituições sociais, culturais e econômicas que, como tais, sofrem as pressões por conta das disputas de poder dentro delas, independente de esferas e recursos em jogo.

É desconsiderar o caderno de encargos de uma entidade privada para que um Estado, cujo presidente e congressistas são escolhidos por eleições diretas, cumpra, mesmo que para isso seja necessário abrir exceções às próprias leis nacionais. Realizar a política de remoções, está entre as propostas, para melhor o visual e não atrapalhar a visão do estrangeiro sobre o Brasil.

É desconsiderar que não foi nenhum jogador do Náutico ou um torcedor histórico do clube a dar o pontapé inicial na Arena Pernambuco, mas a presidenta, que assim o fez também nos cinco demais. Muito menos foi um grande empresário, afinal, sem empréstimos de bancos estatais ou mistos, isenções fiscais e demais benesses do Executivo os estádios não sairiam.

O erro crasso, e histórico, de crer que "futebol, política e religião não se discutem" é repetir o mantra ditatorial de imposição sobre o que se pode pensar, falar e debater. Não há comunicação quando só um fala e aos demais só resta escutar o que o outro quiser falar, e quando.

Crer nisso é assinar embaixo que é "mais fácil realizar eventos assim em lugares com menos democracia", como já fez a tal entidade privada em outros momentos (1978, na Argentina) e como imaginaria que pudesse fazer por aqui, vendo agora o futuro com maior tranquilidade graças ao centralismo político na Rússia e o domínio dos sheiks do Catar. Afinal, para que iam escolher o Reino Unido, e suas comissões de fiscalização e investigação, se o extremo calor catariano de 2022 vem acompanhado de muitos bilhões de dólares e segurança para o evento?

Proibir protestos na "área delimitada pela FIFA" demonstra que por 30 ou mais dias, em 2013 e em 2014, viveremos numa situação com várias exceções para atender ao que delimita a entidade, que nada gasta com o evento, vide os últimos, com lucros anuais na casa do bilhão de dólares. Dá ordem, exige pressa, ameaça dar um chute no traseiro e ainda pede por respeito e fair play após uma simples vaia de uma parte bem pequena dos "amigos brasileiros".

Futebol e política se misturam sim. Diversos fatos históricos comprovam o entrelaçamento de ambos. Para não ficar apenas em exemplos ditatoriais e/ou autoritários, a presença das torcidas no Egito nos protestos de lá, com direito à clara perseguição

O problema é que a política não deve ser só para alguns representarem muitos. O futebol atinge muitos e com a visibilidade das manifestações num momento de um grande evento do "futebol espetáculo" por aqui, parece que há o medo de a política aparecer ainda mais forte, só que nas ruas, com a população evitando os representantes e a fazendo por conta própria.

sábado, 15 de junho de 2013

[Por Trás do Gol] A vaia de milhões por milhares

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A cara do Gustavo Feijó (pres. da FAF) vale por mil palavras
O locutor anuncia o presidente da FIFA Joseph Blatter e a vaia começa. Em seguida, vem a presidenta Dilma Rousseff. Blatter fala em português, mas a vaia era tão grande que Galvão Bueno diz que não conseguiu traduzir porque não conseguia ouvir direito. Blatter reclama, pergunta: "Amigos brasileiros, onde está o respeito e o Fair Play, por favor?". As vaias aumentam. Dilma falaria muito mais, mas só dá como aberta a Copa das Confederações FIFA Brasil 2013.

Vaia para só para ele, vaia só para ela ou para os dois? Teve quem se perguntasse isso; teve quem (Veja, Época e cia.) que afirmasse que todas as vaias foram para Dilma e Blatter se "irritou" com isso; teve gente que não entendeu porque as vaias para a presidenta; e até quem colocasse a culpa na "elite" que ocupava o estádio... Não me importava naquele momento procurar agulha no palheiro.


A FIFA mandou, manda, mandará e fará praticamente o que quiser - como mandar as vendedoras de acarajé para 1 Km da região da Fonte Nova e do Dique Tororó. As obras teriam removido cerca de 250 mil pessoas - ver aqui. Em meio a tantos protestos nas ruas, num momento historicamente ímpar para este país, sinaliza para aprovar via Congresso uma lei que identifica manifestações sociais como terrorismo!

Brasília teve protestos ontem, com os sem-teto - que não têm onde morar, enquanto se gastou R$ 1,5 bilhão com um estádio -, e mais ainda hoje. Momentos antes da partida, a polícia criava um cercado entre os manifestantes após terem mandado bala, gás de pimenta e até atropelado pessoas. Se o estopim veio das manifestações contra o aumento da passagem - de Porto Alegre a São Paulo -, parece que a maioria acordou que as PMs da vida defendem os interesses de uma minoria, mesmo batendo em "instrumentos" desta, caso dos jornalistas.

Independentemente da discussão política, fiquei muito satisfeito pelas vaias - por mais que o Lula também as tenha recebido nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Quantas vezes vemos na TV a felicidade de ir às ruas para o futebol e lemos e ouvimos aqueles que acham que o "futebol é o ópio do povo" copiarem a fórmula de refrigerantes da vida, dizendo que o povo vai esquecer de tudo. Se era ou não o "povo" dentro do MANÉ GARRINCHA, a resposta "mal educada" à bronca do Blatter mostrou que os políticos locais podem até se rebaixar, mas há quem não o fará. As manifestações fora do estádio e em outros Estados também o provam.

Para finalizar, o que comentei ainda no início da tarde: "Torcendo ao ver as manifestações em Brasília que o "imagina na Copa" se efetive. Ainda mais em ano de eleição".

sexta-feira, 14 de junho de 2013

[Por Trás do Gol] O Taiti nos representa

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Você e seus amigos resolvem participar daquele torneio da comunidade ou da escola mesmo sabendo que as chances de ganhar são ínfimas. Afinal, enquanto o futebol para vocês é apenas o "racha" de um dia por semana, e olhe la, já que é bem difícil encontrar uma data em que todos possam; tem A equipe, aquela que ganha o campeonato todo ano e que treina duas vezes por semana, são quase profissionais.

Enquanto o Nosso Time vai passando de fase no sufoco, A equipe resolveu mandar uns quatro titulares. Afinal, pensavam eles, se ganham todo ano e são bem mais fortes que os concorrentes, por que iriam mandar força total para um torneiozinho? Mas futebol é futebol, mesmo nos rachas da várzea. O time fica no meio do caminho enquanto o Nosso chega, pela quarta vez, na final.

Desta vez, o adversário não é A equipe, com preparação melhor, jogadores profissionais e tudo o mais. Não. É alguém do mesmo nível. A bola rola e o jogo é pegado até que ela sobra para o cara do nosso time  que é office boy de uma empresa de telefonia. ele bate rasteiro, mas bem no canto. GOL. Título com direito à dança típica da comunidade.

Imagina isso tudo tendo como garantia uma vaga para jogar com a campeã mundial de futebol profissional num dos estádios mais emblemáticos do mundo! - apesar de vários textos sobre, o meu desagrado ao "novo" Maracanã pode vir depois, por enquanto, sigamos...

Quem gosta tanto de futebol. Quem odeia essa coisa que inventaram chamada de "futebol moderno", em que torcida não pode levar instrumento musical porque ele pode sair batendo em alguém ou se jogar para o campo. Ah, claro, não pode levantar para nada no estádio - até mesmo porque as coisas ficaram tão caras que é melhor ficar sentado mesmo, poupando energia. Quem vê o futebol como o futebol, não o espetáculo FIFA, tem como deixar de torcer para o Taiti?

Dos 23 convocados, apenas um é profissional, joga num desconhecido time grego, e isso porque o pai, que foi jogador, levou-o para morar na Europa desde novo. O resto da seleção é formada por carregadores de malas, office boys, e no time titular que jogará na segunda-feira há 3 desempregados. Não, não estão sem times de futebol, estão sem quaisquer empregos e conseguiram viagem ao Brasil com tudo pago - se bem que o Taiti é tão feio né?...


Para aumentar a simpatia, eles chegam ao Brasil com uma camisa florida, como se viessem curtir as praias - por mais que as deles sejam melhores que as nossas (a maioria vai). Nos treinos, espanto com a grande estrutura disponível, com direito a hotel e tudo, fora que na "apropriação" pelo Atlético-MG, a surpresa ao ver a Arena do Jacaré com 5 mil pessoas! O que para nós é pouco, para eles é muito, afinal, "cerca de 100 pessoas nos veem jogar", disse o técnico.


Se o tal "futebol moderno" gerou milhares de barreiras para os repórteres chegarem nos jogadores, com o Haiti é só chamar - e saber falar francês. Entrevistas a todo momento, afinal, eles não estão acostumados.

Favorito a saco de pancadas, a surpresa no rosto de Varihua, o único profissional, quando a repórter diz que os jogadores da Nigéria estão em greve é indescritível. "Eu não, não sabia". Era a possível chance de fazer ainda mais história. Por mais que a FIFA o Ministério dos Esportes da Nigéria tenha debelado a greve, os africanos terão apenas um dia para treinar antes da partida. Vai que...

Já tivemos zebra amadora no futebol feminino, com as jogadoras do Japão vencendo as estadunidenses no Mundial passado, mas aqui é bem mais difícil. Estamos falando de Espanha, Uruguai, Itália, Brasil, México... Mas se ao menos eles conseguirem fazer um gol, este poderá representar o sonho do mais grosso peladeiro das várzeas por aqui. Afinal, mesmo usando o visto do lado direito, o Taiti nos representa!

quarta-feira, 5 de junho de 2013

TWITTER: Momentos antes da reinauguração do Maracanã

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Antes da partida entre Brasil e Inglaterra, amistoso que marcou a reinauguração do Maracanã, resolvi observar a movimentação das palavras ligadas ao jogo. O intuito era utilizar ferramentas de mapeamento/coleta de dados da mídia social Twitter, tendo em vista novas utilizações futuras em observações de grandes eventos esportivos. Este texto, portanto, representa um relato do que observei das 14h30 até às 15h56 do domingo (2/6), com algumas observações para além do mero repasse de dados.

Não cheguei a observar a conversação que se deu através das mídias sociais porque ainda estou tentando apreender melhores formas de visualizar isto. Até utilizo o programa NodeXL, que formula um gráfico a partir de determinada palavra-chave ou usuário, porém é algo que estou no início do uso e requer mais testes antes de utilizá-lo como referência.
Ainda na fase "Decifra-me ou te devoro" no NodeXL - vendo a conversação a partir do @lance_net
Assim, acabei focando a visualização do Trendsmap, que já havia empregado anteriormente (ver, nesteObservatório, “Os diferentes ‘tempos’ de um acontecimento jornalístico", sobre a cobertura do caso guaranis-kaiowás). Trata-se de um site que gera as palavras mais tuitadas num determinado momento, possibilitando que elas apareçam sob o mapa-múndi, podendo-se encurtar a área de análise ao máximo – por cidades.

Primeira visualização - Trendsmap
Nos Trending Topics
Pelo mapa inicialmente visto, às 14h31, a maior movimentação no Twitter se dava no entorno da região Sudeste, com palavras que representam jogos da própria mídia social, como “#citepessoasquequeriaestaragora”, como também que representam um dia específico, caso de “prostituta”, por ser o dia internacional das prostitutas. Quanto a termos ligados ao futebol, o Sudeste especificamente tinha como destaque as seguintes palavras: “maracanã” e “maraca”, ligadas ao estádio Mário Filho; “inglaterra”, adversária brasileira no amistoso; e “neymar”, principal jogador da seleção brasileira de futebol.

Em Minas Gerais, havia destaque para o atacante Diego Tardelli, com retuítes e respostas ao seu perfil na mídia social “@tardelli_9”, no dia dele jogar contra seu ex-clube, o São Paulo, no Campeonato Brasileiro pelo Atlético-MG. No Nordeste, havia ainda destaque para os 99 anos completos pelo Ceará Sporting Clube, com a hashtag “#ceara99anos” no Ceará; e, com menor quantidade de tuítes, mas visível, “Aflitos”, por conta da última partida realizada neste estádio pernambucano, que será substituído pela Arena Pernambuco, construída para os eventos Fifa e que ficará sob a gerência do Náutico.

Pessoas tuitando "maracanã" - 15h34 - Trendsmap
Observando a movimentação de tuítes referentes ao “Maracanã”, a maioria demonstrava desejo em estar no estádio no momento de sua reabertura, com algumas pessoas criticando a quantidade de dinheiro gasto para (mais) esta reforma – acima de R$ 1 bilhão. Deste momento e, ao menos, até o início da partida, a palavra “Maracanã” seguiu nos Trending Topics do Twitter. “Dia internacional da Prostituta” e “Parada Gay” – realizada em São Paulo no domingo (2/6) – também seguiram nos TTs durante este período. “BrasilXInglaterra” chegou a aparecer às 15h35 e “Hulk” um pouco antes do jogo. O meia-atacante foi escalado como titular do Brasil quando todos esperavam a escalação de Lucas, o que gerou protestos nas mídias sociais e (muitos) durante a partida dentro do estádio.

Mourinho no Twitter britânico - 15h14 - Trendsmap
Alternativa para dialogar com o público
Por curiosidade, aproveitei o Trendsmap para observar os comentários relativos ao amistoso no Reino Unido, com observações às 15h10 e às 15h55. Na primeira visualização, nenhum tópico referente ao jogo estava destacado. Após maior zoom, a palavra “Brazil” aparecia apenas na região da cidade de Liverpool. Mas o grande destaque por lá também era futebolístico: a confirmação por parte do presidente do Real Madrid, Florentino Perez, de que o ex-técnico do clube, o português José Mourinho, voltaria ao inglês Chelsea, com tags “jose”, “mourinho” e “perez” entre as mais tuitadas na região.

Só perto do jogo (15h54), "brazil" começa a aparecer - Trendsmap
Se poucos minutos antes da partida começar, as tags “maracanã”, “maraca” e “inglaterra” se intensificaram em todos os cantos do Brasil, a palavra “Brazil” começou a surgir com mais força na Inglaterra. O que, para mim, gerou uma curiosidade sobre a conversação em torno das partidas de futebol por lá, se realmente apenas fica restrita à duração da partida. Para finalizar este relato, o @lancenet, do grupo Lance!, pediu pelo Twitter para que as pessoas que estivessem no Maracanã tuitassem, ou publicassem no Instagram, uma foto com a hashtag “#tonomaraca”: “Está no Maraca? Mande uma foto para o Lance! no Twitter ou no Instagram com a tag #tonomaraca. Lembrando que o perfil tem que ser público”.


Observando horas depois da partida, foram poucas pessoas a publicarem as fotos no Twitter, cujo pedido seguiu ao menos até às 22h. Foram 22 postagens de 15 pessoas diferentes, num espaço de mais de 250 mil seguidores deste perfil na mídia social – porém, sem ter como saber o quanto destes estavam vendo a partida no estádio. Esta é uma alternativa dos grupos de comunicação para dialogar com o seu público nas mídias sociais, de maneira a aceitar a produção de conteúdo por parte de outras pessoas e possibilitando, neste caso, diferentes visões sobre a reinauguração de um espaço tão importante para o país quanto o estádio Mário Filho.

Futebol pelo Twitter
De forma geral, as mídias sociais permitem a publicação de informações tanto de perfis de meios de comunicação, quanto de atores/repórteres e das demais pessoas que acessam o espaço, tendo como alternativa, inclusive, o diálogo entre todos – desde que o perfil seja “público”, aberto para qualquer um seguir.

Cada vez é mais comum as pessoas que têm acesso à internet acompanhar as partidas de futebol pela televisão e também pelo Twitter, só que neste caso podendo comentar, criticar ou participar de brincadeiras nesta mídia social. Se as Olimpíadas de Londres foram um marco para a utilização destes sites, com consequências graves para alguns atletas que assim o fizeram, os eventos Fifa, a partir da Copa das Confederações de 2013, podem representar uma consolidação destas formas de comunicação.

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[Texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa]

terça-feira, 4 de junho de 2013

A Série C na TV Brasil em debate no Observatório do Esporte

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Publiquei um texto no Observatório da Imprensa sobre a importância da volta do futebol para a grade de programação da TV Brasil (leia aqui). No final de semana seguinte, o pessoal do Observatório do Esporte, um programa da Rádio UNESP FM 105.7, da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" campus de Bauru-SP, entrou em contato comigo por e-mail - através do Lattes - para marcar uma entrevista por telefone sobre o assunto.

Falei na segunda-feira passada, antes de saber que provavelmente a TV Brasil imagina gastar R$ 9 milhões na transmissão do torneio, contando com os direitos e os gastos com material técnico e humano. Também foram entrevistados sobre o assunto o gerente executivo de esportes da TV Brasil, Carlos Souza, e o professor de Mudança Social e Participação Política da USP, Marco Antônio Bettine, que viajou pelo Brasil para pesquisar a Série C - um trabalho que os apaixonados por futebol devem ficar loucos para saber como foi.

O Observatório do Esporte já teve 124 edições, sendo transmitido à meia-noite de sexta para sábado e às 11h do sábado, fazendo parte de um projeto de extensão da universidade. Tendo um blog e uma página no Facebook

Ficha técnica: 

Locução de Luís Morais e Julio Penariol.

Comentários de Carlo Napolitano, Tuca Américo e Gabriel Cortez.

Equipe de Produção: Gabriel Cortez, Fernando Martins, Vinícius Martins e Mariana Teodoro.

Equipe de Produção UNESP FM: Fábio Fleury e Sylvestre Oliveira.

domingo, 2 de junho de 2013

O "complexo de vira-latas" (e o mito Obdulio) na memória de Nelson

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Brasil saindo na frente e levando a virada em pleno Estádio localizado no Maracanã, Rio de Janeiro, lotado de torcedores e o narrador vem com um: "Silêncio no Maracanã". Além do gol de empate do Paulinho na reinauguração do agora Estádio Mário Filho, muita coisa mudou de 1950 para cá. A seleção do país conquistou cinco títulos mundiais, o nome do estádio mudou, as gerais acabaram e cabem bem menos que 200 mil pessoas naquele espaço, que agora "parece estar na Europa". Ainda assim, o que ocorreu no dia 16 de julho de 1950 segue na memória de quem curte futebol no país, imagina para quem viu ocorrer...

Depois de muito tempo, retornamos com os destaques das crônicas publicadas em "À sombra das chuteiras imortais". Mesmo com a reprodução dos textos publicados a partir de 1955, uma das minhas contestações foi que aquela tarde de 50 ficara marcada na vida de Nelson Rodrigues, mesmo com o fim do "complexo de vira-latas", ou o seu abandono temporal, a partir de 8 anos depois.

Em 1956, o tema apareceu por duas vezes, em 7 de abril ("Freud no futebol"), ele repete, com certa ironia, uma afirmação de uma "autoridade", em que "só um Freud explicaria a derrota do Brasil frente à Hungria [1954], do Brasil frente ao Uruguai e, em suma, qualquer derrota do homem brasileiro do futebol ou fora dele” (26). Para 4 dias depois culpar as goleadas das partidas anteriores, contra a Suécia (6 a 1) e Espanha (7 a 1) perante a derrota que se dera numa casa lotada:

“É uma goleada e vamos e venhamos: - qualquer goleada promove duas vítimas: - o que perde e o que ganha. Basta folhear a história do futebol. E nós temos, à mão, um exemplo crudelíssimo, que ainda hoje nos enfurece: - o do match Brasil X Espanha. Perdemos o campeonato do mundo porque, dias antes, goleamos de uma maneira quase imoral. Tivéssemos obtido uma vitória mais sóbria e menos feérica, trucidaríamos o Uruguai com os pés nas costas” (27).

Como já fizera em trecho relatado na postagem anterior sobre este livro, Nelson não gostava quando a torcida não ajudava aos jogadores - o que imaginaria dos dias de hoje, hein? Para ele, havia uma relação entre a torcida e a seleção, em que cada tipo de jogador correspondia a um tipo de jogador, dos melhores aos piores, sendo que o escrete brasileiro traduziria "uma projeção de nossos defeitos e de nossas qualidades". Assim, ele concluiu que "em 50, houve mais que o revés de onze sujeitos, houve o fracasso do homem brasileiro” (50 - O gordo salvador – 3/5/58).

Sarcasticamente ou não, Nelson confiava no time brasileiro e criticava também os seus companheiros jornalistas por olharem torto para o time que iria "nos" representar na Suécia dias depois. Em "Complexo e vira-latas" (31/5/58), última crônica antes da Copa do Mundo, ele narra o que representava a derrota de 1950 para o povo brasileiro, num relato que mistura a análise sociológica, com antropológica e psicológica:

“Eis a verdade, amigos: - desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse ‘arrancou’ como poderia dizer: - ‘extraiu’ de nós o título como se fosse um dente” (51).

Em seguida, ainda no mesmo texto, surge a explicação para um dos termos mais famosos da produção de Nelson Rodrigues, o "complexo de vira-latas":

“Por ‘complexo de vira-latas’ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos ‘os maiores’ é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: - porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos” (52).

O texto ainda representa a transformação de mito que a mídia esportiva nacional transformou o capitão uruguaio Obdulio Varela. De real, ele teria comprado várias edições de um jornal que colocara já no domingo o poster dos campeões do mundo, e teria forrado o vestiário do Uruguai, ordenando que cada jogador urinasse nos jornais. De possivelmente falso, o tapa no rosto de Bigode, que a partir dali ficaria com medo e não jogaria bem - deixando de cobrir os avanços de Ghiggia pelo lado esquerdo.

(Negros, o goleiro Barbosa, o lateral Bigode e o zagueiro Juvenal foram apontados como grandes culpados pela derrota da final, mesmo após 61 anos com a proibição da escravidão. Especialmente o goleiro vascaíno, que repetiria até os seus últimos dias que no Brasil não há prisão perpétua, ainda assim ele pagou a pena dele pelo resto da vida).

O mito Obdulio, mais até do que o ponteiro Ghiggia, que dera o passe para o primeiro e fizera o gol do título, seguia mesmo com o bicampeonato brasileiro (1958/1962), caso deste trecho de uma crônica publicada no dia 18 de novembro de 1963 ("O divino eloquente"), reafirmando algo que segue praticamente no inconsciente coletivo brasileiro, o time de futebol como representação da pátria, "o Brasil joga hoje":

“Amigos, vocês se lembram da vergonha de 50. Foi uma humilhação pior que a de Canudos. O uruguaio Obdulio ganhou de nosso escrete no grito e no dedo na cara. Não me venham dizer que o escrete é apenas um time. Não. Se uma equipe entra em campo com o nome do Brasil e tendo por fundo musical o hino pátrio – é como se fosse a pátria em calção e chuteiras, a dar botinadas e a receber botinadas” (102).

A precoce eliminação na Copa do Mundo de 1966, com graves erros de administração - a ponto de 4 seleções diferentes treinarem meses antes da Copa, sendo definidos os jogadores pouco antes da viagem à Inglaterra -, relembraram a tragédia de 1950. Após as derrotas para a Hungria e para Portugal, que caçou Pelé na partida, por 3 a 1, ele destaca a vergonha ainda maior daquele momento:

“Amigos, eis 80 milhões de brasileiros numa humilhação feroz. Eu diria que a vergonha de 50 foi mais amena, mais cordial. Naquela ocasião, não tínhamos o bicampeonato. Ainda não se instalara em nosso futebol o mito Pelé. Ah, o brasileiro de 50 era um humilde de babar na gravata. Quando passava a carrocinha de cachorro, cada um de nós tinha medo de ser laçado também” (129 – A vergonha – 20/7/66).

Num texto de abril de 1969 ("Um escrete de feras"), período que até Pelé sofria críticas de torcedores e parte da imprensa esportiva, sendo o escrete treinado pelo comunista João Saldanha em pleno governo militar, Nelson relembrava do seu mito Obdulio Varela para defender o amigo treinador da seleção:

“O ‘escrete de feras’ é uma velha utopia de todos os brasileiros, inclusive a grã-fina das narinas de cadáver. A humilhação de 50, jamais cicatrizada, ainda pinga sangue. Todo escrete tem a sua fera. Naquela ocasião, a fera estava do outro lado e chamava-se Obdulio Varela. O escrete de João terá onze Obdulios” (144).



PRÓXIMOS
Para não prometer de novo e demorar para cumprir, sejamos honestos, pode ser que os textos sobre as demais "fases" das crônicas organizadas por Ruy Castro neste livro não sejam comentados por aqui, como pode ser que sim. Na dúvida, repito que À sombra das chuteiras imortais contém textos publicados de 1955 a 1959 na Manchete Esportiva e de 1962 a 1970 em O Globo. Vale a pena ler.

REFERÊNCIA
RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol; seleção e notas de Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

sábado, 1 de junho de 2013

E se...

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“SE aquela bola tivesse entrado!”. “SE o juiz não tivesse errado!”. “SE o lateral acompanhasse a jogada!”. Muitas são as reclamações pós-jogo de eventos cruciais numa partida de futebol que poderiam mudar o resultado de uma partida e, quiçá, de um torneio.

É por isso que dentre os textos especiais devido à décima nona edição da Copa do Mundo de Futebol, eu criei antes do mundial da África do Sul no falecido blog Por Trás o Gol uma série de textos com o objetivo de fazer o SE entrar na história, com o que poderia ter ocorrido em cada uma das edições da Copa do Mundo caso uma possibilidade qualquer - de uma jogada, política, de um erro, etc – tivesse se tornado real.

Cheguei até a Copa de 1950. Na verdade parei, por admiração, na Copa do Mundo FIFA de 1950, e também por conta do excesso de trabalhos. Para voltar a ela, republico os textos já produzidos ao menos uma vez por menos, torcendo para conseguir chegar até junho do ano que vem na Copa do Mundo de 2010.

Ah, friso que os textos da série E Se... não tem nenhuma intenção de se tornar referência histórica, ou seja, não adianta comentar, como fizeram no outro espaço, que eu estava errado. Eu não só sei disso, como afirmo que a intenção é esta. Sejamos criativos, amig@s! Como dizia no primeiro texto, a coluna E se... não chegou para mudar a história do futebol, mas para contar o seu principal evento de uma forma diferente.

Para começar, nada melhor do que uma “carta” escrita por alguém que foi o grande responsável pela existência das Copas do Mundo de Futebol. Já pararam para pensar SE ele não tivesse existido?

“Paris, 12 de janeiro de 2010

Olhar hoje o football como esse fenômeno capaz de movimentar tantas pessoas ao redor do globo e, consequentemente, tanto dinheiro é assaz prazeroso, assim como é assustador.

Já foi bastante difícil convencer aos ingleses que o esporte não era exclusivo deles, apesar de terem criado a maioria das regras e de o terem mandado para vários países. Não é à toa que o nome de sua entidade maior é em duas línguas (Federátion Internacional Football Association). Imagina quando me deu na telha que deveríamos criar um torneio mundial...

A ideia era grandiosa: transformar o football em um fenômeno capaz de juntar em quinze dias jogadores de vários lugares do mundo para descobrir quem joga melhor. Hoje seria fácil, após 80 anos de disputa e com tantas seleções se enfrentando no desejo de disputar uma competição desse porte. Mas foi em 1914 que, enquanto presidente da FIFA, resolvi fazer do esporte algo realmente internacional.

Quantas tentativas frustradas...

Ah, SE o meu desejo não tivesse vindo num dos primeiros momentos da humanidade. Aquela guerra no continente europeu acabou com qualquer possibilidade de realização, até mesmo porque nem o meu país teria condições de pensar em atividade física que não fosse a que vislumbrasse a defesa ou a conquista de territórios.

E isso me custou longos anos. Não foi fácil reconstruir os países após a Primeira Guerra. Pelo menos, foi tempo suficiente para que outras regiões do planeta pudessem aprimorar o seu jeter, a sua maneira de jogar. O Brasil mesmo, maior vencedor com a pelote nos pés, ganhou seu primeiro título internacional em 1919.

Mas não tirava da cabeça que tinha que realizar um torneio mundial de football. Afinal, logo, logo, as Olimpíadas voltaram a ser realizadas e cada vez mais pessoas de vários países do mundo participavam, mesmo após longas viagens de navio.

A ideia continuava. Faltava alguém que quisesse assumir a responsabilidade, um país-sede. Anos após anos e nada de ninguém querer arriscar num primeiro evento deste porte para um esporte específico.

Não sei SE teria conseguido achar alguém caso o Uruguai não montasse aquele timaço na década de 20! Dois títulos olímpicos seguidos no continente dos criadores do futebol fizeram com que o Governo daquele país assumisse a realização de um torneio mundial exclusivo e, ainda mais, que assumisse os custos sozinhos e dividisse os lucros com os demais concorrentes.

É claro que SE 1930 não fosse o ano do centenário da independência do Uruguai – daí o nome de Estádio Centenário – seria bem mais difícil para que eles aceitassem.

O nome do torneio World Cup é também derivado dos ingleses. O Cup vem do nome do primeiro torneio internacional de seleções da história, surgido em 1872, realizado pelos países que formam a Grã-Bretanha. Assim, o torneio seria uma ampliação dessa copa britânica.

Pena que nem os ingleses nem a maioria dos europeus quiseram participar da primeira disputa. SE eles tivessem tido a coragem de França, Bélgica, Iugoslávia e Romênia seria um evento maior ainda. E pensar que desistir de uma Copa do Mundo é quase impensável nos dias de vocês...

A taça era linda! Uma mulher com asas representando a vitória, que recebera o mesmo nome do evento, que demorou três meses para ficar pronta (fevereiro a abril de 1930) - esculpida pelo artesão francês Abel Lefleur, a nossa contribuição para a disputa. Bem mais tempo que o gasto para o Pickles a achar, já enquanto Jules Rimet, na Inglaterra e para alguns brasileiros a derreterem depois.

Treze seleções disputaram a primeira edição das Copas...

Excuse, mas tenho que parar de escrever agora.

Jules Rimet”

SE o francês Jules Rimet não tivesse sido tão obstinado na tentativa de criar um evento tão grandioso, os seus sonhos transformados na realidade atual, é provável que não discutiríamos com tanto afinco a realização de uma partida de futebol, quiçá de um torneio mundial. Por isso esta pequena homenagem.

Aguarde os próximos textos da série E se...  e descubra quem poderia ter sido campeão mundial SE determinada coisa tivesse acontecido de uma maneira diferente. Depois da Copa das Confederações, em julho, traremos a da Copa do Mundo de 1930. Poucos jogos e a coincidência na língua e nas listras azuis, brancas e no sol das bandeiras sendo menor que os problemas com qual bola jogar.