quarta-feira, 31 de outubro de 2012

[Por Trás do Gol] Nova experiência, "velho" resultado

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tinha assistido a partidas em Pelotas, no Olímpico, em Canoas, em Sapucaia e em São Leopoldo, mas nunca tinha visto a um jogo no Estádio Beira-Rio - apesar de ter participado de um Ciclo de Palestras lá. Aproveitando da passagem (e da necessidade) do Palmeiras por aqui na rodada passada, era a chance que eu precisava para conhecer o Gigante que fica ao lado do Guaíba, quer dizer, o que "sobrou" dele.

A dúvida inicial era para que torcida eu iria. Não que eu seja colorado, mas sempre pesa aquela questão da (in)segurança de ficar no meio da torcida do rival de determinada partida, ainda mais que, ao contrário do ano passado quando eu vi Grêmio X Palmeiras, desta vez eu iria sozinho. Se bem que para alguém que ficou no meio da maloqueirada torcida do arquirrival, qualquer problema é pequeno. Então, comprei o ingresso para o setor visitante e só não iria com a camisa do Palmeiras - fui com um modelo pólo do Brasil, que para os gaúchos é "ofensa" igual rs.

Não sei se porque saí de casa mais cedo, já que ainda teria que trocar o ingresso no Gigantinho, ou porque na Salgado Filho há algumas linhas que passam pela Av. Padre Cacique, mas esperava encontrar aqueles ônibus específicos para dias de jogos ali já no Largo Glênio Peres. Não havia. A parte boa é que escapei de estar num coletivo lotado de torcedores do Internacional e, ainda mais, sendo provavelmente o único a não estar de vermelho.

REVISTA?
Troquei o ingresso de forma rápida e saí a procurar o bendito Portão 25, onde entra a torcida visitante no Beira-Rio. Andei, vi restos de obras; vi dois caras com calças da Mancha Verde serem chamados para a briga; andei mais um pouco e vi placa por placar até chegar no setor que ficava a entrada. Nada de policial ainda e eu fui subindo. Cheguei no Portão 25 e me disseram que ainda não estava aberto, só dali a 10 minutos. Perguntaram se eu havia passado por revista da Brigada e a resposta foi não.
Fiquei ali mais que 10 minutos esperando a autorização para passar. Enquanto isso, fiquei conversando com os seguranças do local, que de primeira me perguntaram se eu vinha de São Paulo ou morava no Rio Grande do Sul. Respondi que morava aqui, mas que não era paulista. Seguimos conversando sobre as obras, sobre jogos do passado - destaque para o apagão de 2 minutos no jogo de 1999, em que o Inter se livrou do rebaixamento graças a gol do Dunga -, segurança,...

Depois chegaram um pai e um filho palmeirenses, que moravam em Guaíba e que também conseguiram passar pela rampa antes de lembrarem que deveriam fechar o acesso enquanto a Brigada não chegava para formar a revista. Vi de cima o pessoal trocando a roupa e colocando camisas do Palmeiras ou da Mancha Verde. Afinal, um dos problemas que verifiquei daqui é que a torcida visitante tem que passar pela torcida da casa, e para sair também, para chegar em seu setor caso venha de transporte coletivo - se bem que para descer da rampa tem que passar por outros quatro ou cinco setores colorados também.

Como ainda faltava duas horas para iniciar a partida, fiquei observando o "coliseu" que virou o Beira-Rio, com direito a ter ficado cercado por cordas num setor de arquibancadas que cabiam, no máximo, 3 mil pessoas. Casais, jovens, senhores de idade com forte sotaque italiano e até uma dupla de senhores vinda de Caçador-SC, um dos quais não parou de dizer que "o velhinho estava ali" quando a musa do Inter desfilou pelo gramado.

Ah, ainda perguntei aos poucos da Mancha que haviam chegado mais cedo quem era a alternativa ao que nós temos para as eleições do clube e ainda os informei sobre o papelão do Frizzo de nem saber que havia Conselho Arbitral para o Paulistão do ano que vem... Em meio ao sábado abafado, quente, com nuvens, mas sem chuva, um pouco antes de a partida começar chegou os ônibus com o resto da organizada.

Assim que chegaram, os goleiros estavam aquecendo e não faltaram xingamentos ao Bruno, chamado, dentre outras coisas, de "mão de alface". Sinceramente, discordo desse tipo de cobrança antes das partidas, ainda mais para jogadores. A primeira confusão foi porque no Beira-Rio não se pode pendurar bandeiras nos muros, já que isso "atrapalha" os patrocínios pintados - e é sério. Eles acabaram pendurando no muro de trás, já que a corda não sustentaria e ainda atrapalharia a visão do jogo. Eu acabei indo para trás da torcida, até mesmo para poder ver a sua movimentação de uma melhor forma e também para não me sentir encurralado com a corda na frente.

PARTIDA
Eu nem precisaria falar deste jogo já que foi o mais polêmico da rodada. O Palmeiras jogou melhor no primeiro tempo, marcando bem e criando boas jogadas em contra-ataques. Patrick Vieira perdeu um bom lance, enquanto Marcos Assunção, na sua especialidade de cobrança de falta, também parou nas mãos de Muriel, que parecia estar num dia inspirado.

Mas depois não houve jeito. Assunção cruzou da esquerda, a bola desviou, mas chegou em Luan, para empurrar para o fundo das redes que ficavam do lado oposto ao que estávamos e, portanto, só agora me dei conta de saber quem tinha feito o gol - sabia que não tinha sido o Barcos porque ele estava na primeira trave. Gritei para caramba e fizemos uma grande festa - além de ouvir os xingamentos para os colorados que estavam do lado.

O Palmeiras ainda perdia algumas chances em novos contra-ataques, enquanto o Inter passava a ter maior controle de bola, com Bruno fazendo boas intervenções. Porém, numa falha de saída de bola de Artur - que levou uma senhora bronca de Barcos -, Guiñazu cruzou da direita, a bola passou por todo mundo e chegou em Fred, sozinho, para empurrar ao gol. Foi a nossa vez de escutar xingamentos da torcida colorada e um gritos de "Ão, ão, ão, segunda divisão", prontamente respondidos por "nós disputaremos a Libertadores, e vocês?".

O time saiu chateado em campo pelo resultado, afinal tinha criado muitas oportunidades. No segundo tempo, o Palmeiras aceitou a pressão do Inter e pouco criou até mais uma jogada pela lateral-direita. D'Alessandro entrou na área e cruzou para Rafael Moura, sozinho, mandar para o gol de Bruno. Mais gritos da frase citada no parágrafo seguinte e, apesar de aumentarmos os gritos para empolgar o time, a verdade é que a desmotivação alcançou o setor 25 do estádio.

Ainda assim, o Palmeiras resolveu jogar, ainda que atabalhoadamente. Curiosamente, esta partida foi a que vi mais escanteios girando por trás do gol, ao menos era isso que o árbitro dava. Quer dizer, nem é curioso, já que não há espaço para cobrar escanteios, devido às placas das obras - que, inclusive, deixavam a "piada pronta" de saber como os gandulas pegariam as bolas que fossem parar um pouquinho mais distantes.

No lance que garantiu a polêmica, com direito a asterisco na tabela de classificação, Assunção cobrou escanteio na primeira trave, vi Maurício Ramos e Barcos pulando, Muriel saindo atrasado tendo em frente outros jogadores do Internacional e a bola tocando as redes. Novas comemorações efusivas, "Olê, porco" e apontar para a torcida rival, enquanto os jogadores colorados pressionavam o juiz. Depois de um "século", o conterrâneo Francisco Carlos Nascimento "resolveu" anular o gol. O companheiro do lado disse que o Barcos tinha feito com a mão, mas por que demoraram tanto? Gritos de "Vergonha" surgiram da torcida.

Não vi o toque na mão porque a jogada foi muito rápida. É óbvio que era para ter sido marcada a falta, ainda mais que o Chicão estava de frente para o lance, num erro absurdo. No entanto, é mais absurdo ainda que o delegado da partida, que geralmente é do Estado onde está sendo realizado o jogo, tenha interferido numa decisão da arbitragem. Este é um campeonato com muitos erros de arbitragem, mas só contra o Palmeiras usam de artifícios outros para garantir a justiça.

Ah, além disso, como publiquei no Twitter assim que vi o lance - só na noite do dia seguinte em casa -, o Barcos foi seguro pelo Índio, o que motivou que ele não pulasse direito para cabecear a bola. Ou seja, antes da mão do Barcos houve pênalti nele a ser marcado. Depois, o próprio Barcos falou nisso e houve alguém na imprensa que viu o mesmo que eu. De qualquer forma, acho babaquice tentar anular a partida. O troço já está difícil mesmo, que não coloquemos na arbitragem as falhas da nossa péssima diretoria, que é incapaz de manter o Cicinho no elenco, mesmo só tendo um lateral-direito nele - e ainda contratar atletas do nível do Leandro, que estava parado há meses!

O final da partida foi de tentar colocar pressão, mas sem qualquer criatividade ou efetividade, apesar de, para sermos justos, a entrada do Maikon Leite ter criado algo diferente, com mais tentativas de ataque por parte deste jogador. No final, mais uma derrota e agora só 100% de aproveitamento nos salva de mais um rebaixamento, 10 anos depois do primeiro.


AINDA TEVE O DEPOIS
Como 2012 está demorando para acabar, ainda tive que sair do estádio no meio dos colorados, felizes da vida após duas vitórias de virada que acalmaram os ânimos locais - ainda que o muro do outro lado ainda "peça" a saída de Fernandão e diga que Forlán é ex-jogador. Mas ainda podia piorar...

Quando descia, ouvi gritos vindos de baixo, coisas de "ão, ão, ão..." e pude perceber o presidente (?) Tirone saindo de uma van, sendo seguido pelo César Sampaio. Ainda balbuciei um fdp, mas nem gritar contra o desgraçado eu pude.

Ao menos valeu a experiência, inclusive de ver ao vivo as dificuldades do torcedor de ir a um estádio em obras para a Copa do Mundo FIFA e que é o único que não foi parado por conta disso - é, eu sei, fui algumas vezes ao Rei Pelé enquanto as obras iam a passos de tartaruga. Além disso, campeão da Copa do Brasil ou rebaixado, "EU SOU PALMEIRAS ATÉ MORRER!!!".

sábado, 27 de outubro de 2012

120 anos do Mestre Graça

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Fui "apresentado" a Graciliano Ramos de Oliveira durante o Ensino Médio. Como na época o vestibular na Universidade Federal de Alagoas se dava através de um Processo Seletivo Seriado, em que tínhamos uma prova equivalente a cada ano desta fase de ensino, dentre as ementas do que tínhamos que estudar havia três livros por ano. Dentre os do terceiro ano estava São Bernardo.

Por ter morado um tempo razoável fora de Alagoas, ainda que bem mais perto do que agora, meus pais sempre tentaram manter o "orgulho de ser alagoano" nos filhos, então ler um autor alagoano, dentre José de Alencar e Machado de Assis e demais, significava olhar com o mesmo respeito que para os de outros lugares e momentos. Curiosamente, ainda não fiz esse teste, mas provavelmente a maioria dos alagoanos não saberá dizer quem foi Graciliano Ramos - ou Jorge de Lima, ou Lêdo Ivo, ou Nise da Silveira, ou Hermeto Pascoal, ou, ou, ou...

Como meu pai, minha irmã e eu fizemos o então PSS numa sequência de anos próxima, comprávamos os livros e cada um lia em seu tempo. Ao contrário de alguns que optavam pelos resumos dos cursinhos, eu sempre lia todos os livros e depois, caso precisasse reforçar algum detalhe de análise da escola literária - algo que também via no agora antigo Cefet -, olhava para alguns desses resumos. Geralmente lia os livros "obrigatórios" bem antes do vestibular e a sensação de ler São Bernardo foi a confirmação daquelas características "clássicas" de Graciliano Ramos: a secura do nosso sertão praticamente representada no narrar e no seu protagonista.

Olhando para trás, percebo que os livros sugeridos para o vestibular acabaram por gerar a partir dali um maior estímulo para que eu lesse outros livros, principalmente dos autores que eu havia gostado. Por conta de uma "herança" familiar mais ligada ao trabalho do que ao estudo - meu pai foi o primeiro a estudar numa universidade, entrando aos 40 anos -, não havia tanto o "costume" da leitura. Quer dizer, li muitos gibis da Turma da Mônica quando criança e um ou outro livro que me chamava a atenção - caso do Viagem ao Centro da Terra, do Júlio Verne, que foi uma batalha para terminar. Depois dali eu não parei de ler muitos livros por ano, para além dos "obrigatórios" agora da graduação e da pós-graduação.

Enfim, voltando ao Mestre Graça, descobri depois que um dos seus livros também era "obrigatório" para estudantes de outras universidades Brasil afora, caso daqui da UFRGS, mas, geralmente, Vidas Secas. Recentemente, conversando com um pessoal mais novo da graduação em Comunicação da Unisinos, em meio a críticas a Memória Póstuma de Brás Cubas (!) e sugestões de outros livros, alguém falou sobre Vidas Secas. Para alívio deste alagoano, a pessoa disse que gostou do livro.

O segundo livro dele que eu li foi justamente este. Na época ele não tinha na biblioteca da UFAL, por mais incrível que possa parecer, e era dificílimo achar para comprar - Alagoas ainda tem poucas livrarias, ou quase nenhuma, de peso. Minha irmã conseguiu uma cópia, porque precisava estudar para um trabalho, e eu li depois. E isso após tanto ter ouvido falar na cachorra Baleia, desde os estudos no Ensino Médio.

Cheguei a começar a ver o filme, dirigido por Nelson Pereira dos Santos (1963), num cineclube formado por estudantes da universidade, mas o DVD deu problemas e não conseguimos terminar de assisti-lo. Depois de alguns anos eu consegui assistir a São Bernardo, dirigido com o livro como roteiro por Leon Hirszman, com melhor qualidade, num Festival de Cinema. 

Na universidade, peguei o gosto (e a confiança) em comprar livros em sebos pela internet e sempre que tenho que comprar para algo mais do campo acadêmico sempre cato algum literário. Foi assim que comprei o livro de contos Insônia, ainda mais porque a partir da última fase do vestibular este veio a ser um "mal" a me atormentar com certa frequência, o que já gerou uma relação direta com o que ele (muito bem) contava neste conto - com outros também interessantes no livro.

Não lembro exatamente em que ano, mas fui ver uma adaptação para o teatro deste conto, realizada pela Cia. Teatro da Meia-Noite, contemplada pelo Prêmio BNB de Cultura em 2007. A cama que parece ser maior do que é, os barulhos que tiram a atenção, o tic-e-tac do relógio, o "sim" e o "não" o tempo inteiro na cabeça, tudo muito bem retratado no monólogo interpretado pelo ator Marcos Vanderlei.

Depois disso, começaram os livros já relatados neste blog. Procurando por eles nos arquivos deste espaço, percebi a diferença, até mesmo no estilo, de cada um dos quatro: Angústia, A terra dos meninos pelados, Viagem e Infância. O autor que consegue refletir tão bem sensações e ambientes mais ríspidos, caso também de Angústia, escrevendo um livro infanto-juvenil como A terra dos meninos pelados - que foi série da Rede Globo há alguns anos -, contando as marcas de sua Infância e relatando o seu lado político no diário de sua Viagem pelas repúblicas soviéticas, tão diferentes do Brasil.

Antes de qualquer crítica, porque eu tendo a analisar as obras de arte pela capacidade que ela tem de avançar no desvendar a realidade - logo, mostrando suas grandes contradições -, Graciliano criticou bastante a utilização de uma arte hermética, para fins políticos, divergindo fortemente do realismo soviético., por exemplo. Olha que estamos falando de alguém de pensamentos de transformação social, mas que entendia a fundamental importância da "independência" do artista.

O HOMEM
Muito tenho lido neste mês sobre o aniversário de Graciliano, principalmente por conta da reedição da biografia O velho Graça, escrita por Dênis de Moraes, jornalista e pesquisador referência dos estudos críticos sobre as estruturas de comunicação no Brasil. Geralmente retratado como alguém seco, avesso às entrevistas, há relatos sobre a sua vida, desde a escolha política às pressões sobre este posicionamento, como o caso de sua prisão na Ilha Grande (RJ) durante a década de 1930 pelo governo getulista - a quem não teria respondido a um cumprimento anos depois.

Polêmico, ele foi um dos representantes de uma fase do modernismo com autores que se voltaram ao regionalismo, mostrando um Brasil fora do "eixo", casos característicos e contemporâneos da cearense Raquel de Queiróz (autora, dentre outros, de O Quinze) e do baiano Jorge Amador (dentre vários outros, Capitães da Areia). O autor alagoano é apontado como alguém que gostava de criar polêmicas, a ponto de elogiar numa linha e criticar alguém como Machado de Assis na linha seguinte.

Dentre as polêmicas, ao menos para hoje - e muito para um pesquisador de futebol como eu -, Graciliano teria sido um dos intelectuais brasileiros a não acreditar no futebol como um elemento importante para a sociedade brasileira, descrevendo-o como "fogo de palha", um "efêmero modismo estrangeiro".

Graciliano teria seus primeiros livros publicados graças ao reconhecimento aos seus relatos de gestão da prefeitura de Palmeira dos Índios (AL), onde passou dois anos e após cada um deles escrevia as ações e dificuldades do cargo, sendo reconhecido como um homem que peitou os coronéis tão característicos no interior do Brasil e cujo relato sobre as atividades ainda hoje fazem falta na política nacional.

Porém, apesar de ter sido prefeito de Palmeira dos Índios, morado e trabalhado em Maceió e mostrar Viçosa em alguns de seus livros, o autor é natural de Quebrangulo, nascido no final do século XIX, no dia 27 de outubro de 1892, há exatos 120 anos.

O seu primeiro livro publicado foi Caetés (1933), ganhador do Prêmio Brasil de Literatura, ao qual se seguiram: São Bernardo (1934); Angústia (1936), com o qual ganhou o Prêmio Lima Barreto (Revista Acadêmica); Vidas Secas (1938), pelo qual ganhou o prêmio William Faulkner (Estados Unidos); A Terra dos Meninos Pelados (1939), com o qual ganhou o prêmio de melhor literatura infanto juvenil do Ministério da Educação; Brandão entre o mar e o amor (1942), Histórias de Alexandre (1944) e Infância (1945). De forma póstuma foram publicados: Memórias do cárcere (1953), Viagem (1954), Linhas Tortas (1962), Viventes das Alagoas (1962), Alexandre e outros heróis (1962), Cartas (1980), O Estribo da Prata (1984) e Cartas à Heloísa (1992). Graciliano traduziu ainda dois livros: Memórias de um Negro, de Brooker T. Washington; e A Peste, de Albert Camus. Vencendo ainda o Prêmio Felipe de Oliveira (1942) pelo conjunto da obra.

A morte de Graciliano completará 60 anos no ano que vem, sendo ele o homenageado da próxima Festa Literária de Parati, principal evento do setor editorial brasileiro. Continuando no Rio de Janeiro, ocupado por quase três turnos de trabalho e, ainda assim, com ajuda de alguns amigos, como Carlos Drummond de Andrade, para sobreviver, ele morreu no dia 20 de março de 1953, aos 60 anos, vítima de um câncer de pulmão, deixando uma vasta obra sobre o sertão de seu Estado, com uma característica literária altamente particular e inesquecível.

BALEIA
Uma das personagens mais marcantes de seus livros, a cachorra Baleia gerou em mim a intenção de abandonar os nomes estrangeiros que o meu pai resolveu escolher para os dois primeiros cachorros e decidir que o seguinte seria Baleia, independente se fosse macho ou fêmea - graças ao substantivo epiceno.

Dos sete filhotes da minha cadela, um deles nasceu maior que os outros. Estava escolhido o cachorro, que viria a crescer mais do que o imaginado depois, cujo nome casaria muito bem quando comparado aos seus irmãos. Baleia segue lá em Maceió, sendo o meu orgulho de dizer aos quatro cantos do Brasil que o meu cachorro tem este nome e poder explicar a escolha dele toda vez quando é necessário.

Salve Mestre Graça!

domingo, 21 de outubro de 2012

[Por Trás do Gol] "A lei do futebol" e só dele

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Imaginava que ia chover à tarde e dependia disso para ir ou não ao estádio. Imaginava que, por conta da vitória no primeiro jogo, veria um confronto tranquilo de volta. Imaginava que veria o artilheiro do time seguindo a fazer mais gols. Imaginava que nunca veria a ambulância sendo utilizada num jogo. Imaginava... Imaginava... Nada do que eu imaginava.

De um lado, time vestido de azul e branco, com estádio perto de onde eu moro, com torcedores teimosos de tão sofredores e com a sigla bem parecida, CEA. Do outro, um time vestido com listras verticais em vermelho e branco e, para piorar, com um jogador que foi mandado embora do CSA no início do ano por falta de comprometimento. Dúvida para quem torcer? Não mesmo, Clube Esportivo Aimoré e com a camisa do Centro Sportivo Alagoano.

Não dava para dizer que era "cem pila"
Só fui com a camisa do Azulão do Mutange porque na segunda fui comprar a camisa do Aimoré, a que falta para a minha coleção dos times gaúchos, e tinham devolvido para a impressão de um patrocinador nos ombros, depois não pude voltar ao Centro para comprar a camisa - e nem imaginava que estariam boa parte do sábado vendendo também ingressos de forma antecipada na rua mais movimentada da cidade. Como no estádio também vendem a camisa, imaginei que poderia encontrar alguma do meu tamanho desta vez. Até encontrei, mas com o dobro do valor da outra vez. Nada feito, por enquanto.

Era a partida de volta das quartas de final da Segunda Divisão do Gaúchão - que na verdade é a terceira - entre Aimoré, daqui de São Leopoldo, e Guarany de Bagé, cidade que visitei no ano passado, bem ao sul deste Rio Grande. Na primeira partida, vitória do Índio Capilé por 1 a 0, com vantagem do empate no jogo em casa.

Como coloquei acima, fiquei na dúvida se iria ou não caso chovesse. No final das contas, apesar de ter ameaçado com muitas nuvens no intervalo do jogo, nenhuma gota d'água caiu no domingo em São Léo. Poderia até ter ficado no barranco atrás de um dos gols, como fizeram cerca de 100 torcedores que fugiram da abafada arquibancada coberta. Do outro lado, cerca de 50 torcedores do Guarany apareceram para empurrar o time para uma difícil batalha: derrotar o time com a melhor campanha no torneio e fazer o clássico bageense Ba-Gua nas semifinais.

MUITAS PARADAS E NADA DE GOL
Já nos primeiros minutos de jogo, QUATRO escanteios seguidos para o Aimoré davam a ideia que o time da casa não queria saber de segurar a vantagem. Acordado do susto, Adriano Gabiru - o mesmo que fez o gol do título mundial pelo Inter em 2006, contra o BARCELONA - tentava criar no meio-campo alvirrubro, sendo "perseguido" pela torcida da casa a cada bola perdida e na única falta recebida por ele.
A partida passou a ficar movimentada, com o Guarany com mais posse de bola e os capilés chegando com perigo no contra-ataque. Num deles, a bola veio da esquerda para Lucas, o artilheiro do time, que chegava sozinho na frente do gol. Porém, atrasado, não só perdeu o gol como ainda piorou a lesão na virilha direita - que o forçaria a sair do jogo ainda no primeiro tempo.

Pitol dava conta do recado lá atrás para manter os presentes não tão preocupados, com duas excelentes defesas em chutes de fora da área do Guarany. Para piorar, o lateral-esquerdo do Aimoré, logo em seguida, saiu carregado de campo com uma lesão no joelho esquerdo - ele apareceria depois com uma muleta, por não conseguir sequer tocar o chão.

Antes de Lucas sair de campo, o Aimoré ainda teve mais duas boas oportunidades. Na primeira, cruzamento da esquerda, a zaga fura na hora de tentar o corte, o lateral-direito aparece sozinho, bate colocado, mas a bola vai por cima do gol. Em seguida, escanteio batido e o zagueiro se antecipa para cabecear para trás, o goleiro do Guarany, já mancando, trabalhou bem e encaixou a bola.

A quantidade de chances no primeiro tempo deve ter sido igual às paradas na partida para atendimento médico. Devem ter sido, no mínimo, sete intervenções, de lesões no joelho e na virilha a recomposição de curativo num braço já quebrado e marca de chuteira na barriga. Nem tudo o "spray mágico" resolveu. De qualquer forma, após mais de quatro minutos acrescidos, o 0 a 0 não saiu do marcador - caso ele existisse no Monumental do Cristo Rei.


EMOÇÕES
Como no primeiro jogo que vi no estádio eu acabei me deslocando para o barranco, desta vez reparei com curiosidade que mesmo aqueles que não sairiam do lugar para ver o segundo tempo atrás do gol ou para comprar bebidas - inclusive cerveja (liberada por aqui) -, levantavam-se e ficavam em pé durante todo o intervalo. Todxs fizeram isso!

Na volta, o goleiro do Guarany entrou em campo só para cumprimentar o árbitro, pois foi substituído antes mesmo do trilar do apito para a segunda etapa. Daniel fez duas defesas excelentes, que davam a ideia de que se saísse gol seria dos donos da casa, que ficavam mais com a bola na etapa final. Foram muitas chances perdidas pelo Aimoré a partir daí, com os jogadores com os pés descalibrados e, inclusive, justificando o porquê de Lucas ter ficado no "sacrifício" por tanto tempo. 

Adriano Gabiru saiu de campo achincalhado pela torcida local e sem cumprimentar o seu substituto. Alguns torcedores chegaram a questionar como o rival conseguia ter jogadores "caros" assim. A resposta foi que, na verdade, eles estavam com salários atrasados - coisas de times brasileiros, preferem ter elenco caro, mesmo que não possam pagá-lo...

O jogo seguia movimentado até um senhor sair do banco destinado à Brigada Militar, aos repórteres e aos responsáveis pelo estádio e pelo torneio para pegar água. Logo em seguida, a ambulância é deslocada para o setor - desculpa, Vila Belmiro, mas aqui foi fácil, fácil. Enquanto eu tentava ver o que ocorria ali em frente, a torcida ficava de olho para as jogadas de dentro do campo, onde o Aimoré perdia mais e mais oportunidades de garantir a classificação. 

Foi daí que saiu a frase que é parte do título deste post. Como "sempre" há torcedor pessimista, dois, próximos a mim, começaram a reclamar das chances perdidas e um falou:

- Não se pode perder tantas chances. No futebol, quem não faz, leva.

- Essa é a lei do futebol.

Pude ver o desfibrilador saindo da ambulância, mas não sei se foi utilizado. De qualquer forma, o homem atendido, de cerca de 50 anos, apareceu com a camiseta aberta e sem a necessidade de ir na ambulância para um hospital - que fica perto dali, ainda que não seja a mesma distância do Rei Pelé ao HGE. Minutos depois de ter entrado no vestiário, ele retornou ao seu posto.


Quando o cronômetro já deveria ter passado dos 35 minutos. Bola alçada na área do Aimoré, alguém desvia de cabeça e a pelota vai no travessão. Ela volta para a entrada da área, alguém chuta e Pitol defende. Ela continua dentro da área e tocam para o outro lado. Longe da MULTIDÃO, Adão bate no alto e marca o tento que levaria a partida aos pênaltis.

Festa no banco do Guarany e das dezenas de torcedores do outro lado. Enquanto isso, um auxiliar do time olhava para o outro banco, falava um monte de coisas, irritado, e mandava calar. A torcida capilé ficou brava com ele, começou a subir no alambrado e quase se tem uma batalha por ali. Depois de alguns minutos, a Brigada foi deslocada para o local, quando já não havia qualquer problema.

Apesar do apoio da torcida até o último minuto, o Aimoré não conseguiu marcar o gol da classificação e a partida foi aos pênaltis. Enquanto os capilés saíam cabisbaixos pela derrota em casa, os alvirrubros de Bagé saíam empolgados.

A LEI DO FUTEBOL
Os pênaltis guardavam um momento de ansiedade para todxs ali. O trabalho do ano em jogo para os dois times - lembrando que o Guarany é dono de dois títulos gaúchos (1920 e 1938). Lei por lei, apesar de mais motivados de um lado, dizem que "pênalti é loteria".

De um lado Pitol, do outro, Marcelo, estes os nomes que tinham o dever de dar alegria aos milhares de São Léo ou às dezenas de Bagé ali presentes. Melhor que eu contar como foi, segue abaixo o vídeo com as cobranças - reparem na aflição do técnico do Aimoré nas últimas cobranças...



Com a classificação nos pênaltis por 4 a 2, segue a batalha do Aimoré para ir à Divisão de Acesso - não podemos chamar de "volta" porque ela foi criada, com este nome, em 2012. Nas semifinais, o Índio Capilé pega outro time de Bagé, o Grêmio Bagé, que passou pelo Nova Prata após empatar sem gols o primeiro jogo contra o Nova Prata e vencê-lo hoje por 2 a 1.

*Para ver mais fotos do jogo, acesse aqui.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

As mudanças da transmissão televisiva

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O desenvolvimento da TV aberta no Brasil enquanto negócio vai se dar a partir do final da década de 1960, quando passa o rádio no recebimento do bolo publicitário e também há uma mudança, primeiro a partir da TV Excelsior e depois com a TV Globo, na maneira de gerenciamento do que virá a ser a principal indústria cultural do país. Durante estes 50 anos, as grandes alterações técnicas deste meio de comunicação são bastante pontuais, com grande destaque para a transmissão em cores, a partir de 1972. De lá para cá, o que vimos foi um aperfeiçoamento destas transmissões, com a ampliação do uso de elementos digitais, ligados ao desenvolvimento da informática e também ao grande avanço tecnológico das últimas décadas, com casos como a transmissão em alta qualidade (HDTV) – utilizada pela primeira vez na Copa do Mundo da Fifa, em 1998.

As novas formas de concorrência promovidas pelo avanço de outros meios de comunicação, com a entrada de atores com mais recursos financeiros na produção e na distribuição do audiovisual, com destaque para o Serviço de Acesso Condicionado (TV fechada) e para as diferentes formas de divulgação promovida pela internet, forçaram um novo e grande avanço para a principal indústria cultural do país.

A definição do padrão digital da TV aberta, o Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre (SBTVD-T) – tendo como base o padrão japonês –, pode gerar importantes mudanças. A primeira coisa é o aumento de qualidade das transmissões televisivas; a segunda é a possibilidade de ver televisão a partir de mídias móveis com a mesma qualidade de transmissão; por fim, os aplicativos que podem ser utilizados durante um programa. O negócio televisivo tende a criar novos produtos, agora pensando numa convergência de mídias a partir do audiovisual – lembrando que o telespectador cada vez mais vê televisão conectado à internet através de um computador ou de uma TV conectada, que permite a utilização do próprio aparelho para o acesso à rede.

Plataforma de exibição

As empresas já se movimentam nesta direção, ainda que o padrão digital enfrente vários obstáculos de agentes de mercado para se desenvolver no país, o que gera o avanço sobre outros modelos de negócio, caso da internet, smartphones e tablets, com possibilidade de novas “telas” a serem mostradas em paralelo à transmissão gratuita. Em setembro, as Organizações Globo, maior grupo comunicacional brasileiro, lançaram o Globo TV+, aplicativo de vídeo on demand, que permite ao usuário escolher o que ver na programação da emissora ou em seus arquivos. Por enquanto o serviço, de pagamento mensal, funciona apenas para Minas Gerais, mas demonstra a tentativa do grupo de concorrer, dentre outros, com o Netflix, na América Latina desde o ano passado, neste tipo de serviço.

A rede Esporte Interativo, presente em 10 estados brasileiros via UHF e especializada em transmissão esportiva, foi a primeira no mundo a realizar uma transmissão pela mídia social Facebook, de forma gratuita. Este ano, resolveu cobrar pelo conteúdo disponibilizado, criando o serviço EI+Plus, em que o telespectador pode assinar o acesso ao canal pela internet, de forma que pode ver um evento ao vivo, repetir um lance nesta mesma partida em qualquer momento, independentemente do editor de imagens. Além disso, tem acesso a todo o conteúdo veiculado pela TV Esporte Interativo a qualquer momento.

No contrato de aquisição do serviço há a preocupação para novas mídias a serem criadas, descrevendo que esta seria uma plataforma de exibição “via qualquer sistema digital de transferências de dados e/ou conteúdos, em qualquer tecnologia existente ou que no futuro venha a ser desenvolvida, incluindo, sem limitação, a internet, telefonia móvel, aparelhos móveis (tablets, palms etc.), OTT (over the top), IPTV, TV Conectada, ou qualquer outro aparelho e/ou aplicativo existente ou que no futuro seja desenvolvido, e que permita a transmissão de conteúdo audiovisual, ao vivo, em delay e/ou sob demanda.

Síntese da pluralidade

Outro exemplo, agora vindo da internet, é o que já está sendo realizado pelo portal Terra (Telefonica, da Espanha), que realizou a transmissão dos Jogos Olímpicos, Jogos Pan-Americanos e mostra uma série de campeonatos internacionais de forma gratuita pela internet. Neste novo modelo de produção de audiovisual, você tem um rol de opções de partidas/competições ao vivo, às vezes até com o direito de escolher se quer assistir com ou sem narração, e assistir outro evento numa janela menor ainda na mesma tela. Apresenta-se também um padrão tecno-estético que permite a discussão do público com comentários publicados na tela principal e a visualização dos melhores momentos da partida em andamento ou de gols de outros jogos.

Estes exemplos conformam dois conceitos ligados à Economia Política da Comunicação desenvolvida no Brasil e que representam as modificações na indústria cultural nas duas últimas décadas: a Fase da Multiplicidade da Oferta e a PluriTV.

O primeiro compreende as características da Fase da Multiplicidade da Oferta de bens simbólicos, já que há a presença de mais atores produzindo cada vez mais produtos simbólicos, com o avanço sobre outras formas de negócio, desde agentes midiáticos a empresas antes extra-mídia (caso das empresas de telecomunicações e de informática), com a televisão aberta sendo obrigada a concorrer e convergir com outros meios de comunicação e também de produzir mecanismos para atender aos anseios de um público cada vez mais segmentado.

O segundo conceito é mais recente e ainda com muitas possibilidades de estudo: a PluriTV. Brittos e Simões (2011, p. 64) denominam essa “nova TV” como a síntese da ideia de pluralidade de formas na cadeia de valores da televisão, tanto pelos aspectos técnicos quanto pelos simbólicos, a partir de uma maior diversidade no ato de produzir e consumir a mídia TV, em que a “PluriTV surge a partir de cruzamentos de meios e de inovações, no que tange ao audiovisual televisivo, em que a questão da convergência tecnológica aparece em destaque, embora não seja a única”.

Ainda assim, apesar de se tratar de uma mudança na produção de audiovisual, as mudanças nos padrões de produção, que passaram a existir e terão ainda mais aprofundamento em curto prazo, não representam uma abertura de espaços para a produção de conteúdos alternativos e/ou contra hegemônicos nestes novos espaços. Pelo contrário, dá-se a entender que é uma adaptação aos novos tempos de disputa mercadológica, que tendem a, no mínimo, reformular as barreiras político-institucionais estabelecidas na liderança do oligopólio midiático.

Referência bibliográfica

BRITTOS, Valério Cruz; SIMÕES, Denis Gerson. Para entender a TV Digital: tecnologia, economia e sociedade no século XXI. São Paulo: Intercom, 2011.

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* Originalmente publicado no Observatório da Imprensa.

domingo, 14 de outubro de 2012

[Em busca do El Dorado] Tudo foi diferente

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Com um tanto de atraso, e com uma rapidez necessária para o momento, tratar de mais uma viagem para mais um congresso/seminário/encontro. Foi a primeira vez que fui a um mesmo Estado em dois momentos num ano. A viagem ao Rio de Janeiro tinha aquela intenção de resgatar a motivação que creio ter tido pela última vez após aquela primeira passagem por lá. Depois de alguns dias num bom pique, as notícias ruins/péssimas se avolumaram e levaram a vontade junto, sobrando como alternativa ligar o "automático" e fazer o que tinha de ser feito.

Agora, a cidade tinha a temperatura "esperada", ou seja, na faixa dos 20º aos 37º, ainda que eu não tivesse muito tempo (e disposição) para conhecer muita coisa por lá. Quer dizer, o principal de uma visita ao Rio, para quem gosta de futebol, até que foi visto. Como o IV Encontro Nacional Ulepicc-Brasil ocorreu na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, campus Maracanã, pude, ao menos, ver o Estádio Jornalista Mário Filho, com suas obras e guindastes à vista.

Preciso dizer, e isso foi citado por algumas pessoas durante o evento, como é estranho conhecer o Maracanã deste jeito. Ainda que a forma de frigideira esteja ali, visível, a obra acaba por descaracterizar este histórico lugar para eventos esportivos. Por enquanto, o Estádio de Atletismo Célio de Barros continua ali ao lado, com pessoas aproveitando desta estrutura esportiva, assim como o reformado ginásio do Maracanãzinho do outro lado.

Em compensação, só vi o espaço reservado para o treino público para o UFC Rio III de longe. Ao lado dos Arcos da Lapa, tudo estava montado já na terça-feira à noite para recepcionar Anderson Silva, Minoutauro e cia. Curioso mesmo foi ver propagandas em pontos de ônibus sobre o evento e outra de uma inauguração de loja de material esportivo com o Spider nela. Outros (e rápidos) tempos para o MMA no Brasil.

Ah, o título do texto fala que "tudo foi diferente" e eu ainda não comecei a dizer o porquê. Em suma, acabei não indo para um hostel porque consegui um lugar para ficar num apartamento da família de um amigo, o que me poupou tempo e dinheiro durante todos os dias que fiquei pelo Rio. No lugar do barulho "natural" de espaços coletivos, a tranquilidade e o conforto de uma residência, com direito à fuga de transportes públicos.

Fuga esta importantíssima na quinta-feira, quando a cidade parou para sair dela por conta do feriadão. Além disso, na quinta caiu uma boa chuva à noite, que acabou até a fazer cair a energia da UERJ por três vezes, com os estudantes sendo liberados por conta disso - a ponto de uma árvore cair e interromper uma das vias à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas.

A UERJ tem uma estrutura bem urbana. São vários prédios altos, com até 12 andares, com muito pouco de intervenção artística. Os auditórios ocupam dois andares, com entrada em cada um deles, e, como quase sempre em lugares mais quentes, são gelados - acrescido ao fato de ter sido recentemente reformado, com o condicionado de ar funcionando à plena carga.

Um problema da universidade foi ter conseguido conexão de internet. Ainda que com várias redes disponíveis, nem sempre a dedicada aos alunos da Faculdade de Comunicação Social funcionava. Para piorar, precisava baixar um vídeo e descobri que a universidade bloqueou todos os sites de compartilhamento. Como tinha que pegar o vídeo para a abertura no 4shared, tivemos que andar um pouco até conseguir isso. Curioso foi saber que num curso de Comunicação não pode compartilhar áudios e vídeos nos sites mais comuns.

O problema na rede acabou também por me fazer menos conectado que o normal. Isso acrescido ao fato de eu estar num local sem wi-fi. A parte boa nisso tudo é que consegui adiantar algumas coisas de trabalho, principalmente aqueles detalhes que se deixa para fazer depois por serem "coisas menores".

O evento foi bem legal. Primeiro, que por se tratar algo mais específico do eixo teórico-metodológico que estudo fica mais difícil de ver coisas "estranhas". Além disso, acabei na véspera da viagem sendo convidado a substituir um professor na mediação de uma mesa sobre esportes, algo prontamente aceito. Fiquei feliz por ter sido a minha primeira presença em mesa sem estar organizando o evento, ainda mais que geralmente prefere-se colocar doutores nas mesas e eu ainda sou mestrando. 

Preciso dizer que a parte ruim é pensar que poderia colaborar com a discussão-tema da mesa e optar por não colocar nada porque senão teria que ocupar um bom tempo com comentário e aí não daria tempo para almoçar depois rs. De fato, ainda precisamos fazer mais coisas conjuntas enquanto pesquisadores da relação comunicação e futebol. Somos muitos que estudaram e/ou estudam as vertentes da união destes temas, mas ainda falta uma maior divulgação de quem e como fazemos.

Destaco que desta vez os que foram ao auditório não saíram até a mesa terminar. Ao contrário do que ocorreu, por exemplo, no Congresso da Intercom deste ano, visivelmente esvaziado nos dias com mesas sobre esportes, ainda que com a presença do pesquisador alemão Hans Ulrich Gumbrecht, pioneiro das Teorias das Materialidades, quando as pessoas ao ouvirem-no falar sobre o livro O elogio à beleza atlética foram saindo do teatro da Unifor.

Fora isso, a apresentação foi tranquila. Algumas ponderações em específico, geralmente ligados a determinado termo escolhido - tratar de "exclusão" com determinados pesquisadores de Comunicação... -, e como quase sempre nos espaços que eu apresento trabalhos que são desdobramentos da minha pesquisa, continua a não ser um tema a gerar muito debate.

Para fechar, uma frase que não me deixou nada tranquilo:

"Este é o ano do dragão, para a sua idade é o que vai definir os próximos 12 anos".

- Opa! Se 2012 definir os meus próximos 12 anos eu estou frito.

"Não, não. Este ano vai ficar marcado para você como o início de um novo ciclo de vida".

Enfim, a pessoa que me falou isso aparentemente não acredita nessas coisas, mas tentou dar um estímulo para eu tomar determinada decisão. Do jeito que está 2012, com mortes, mudanças de percursos e cada vez mais provável rebaixamento no futebol, ainda que com título nacional, creio que não tinha dúvidas de que me marcará. Só espero, sinceramente, que não defina os próximos 12 anos, senão eu passarei 12 anos fazendo campanha para que o ano acabe.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Eleições, mais eleições e pecados

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Domingo de eleições e aquela vontade de criança de ir lá acompanhar os pais para colocar o papelzinho na urna ou apertar as teclas quando nos primeiros anos de urna eletrônica ficam só na memória. Junto a uma forte dor nas costas desde o dia anterior e a um tempo abafado típico da úmida São Leopoldo então... 

Enfim, foram as minhas primeiras eleições como eleitor fora de Maceió. Mais que isso, foi a primeira experiência como eleitor de cidade do interior e a diferença é enorme e olha que São Leopoldo não é tão pequena assim e fica na região metropolitana, ainda que correspondendo ao Vale do Rio dos Sinos. 

Primeiro que eram só três candidatos a prefeito, um do PT, outro do PSDB e um último do PPS. Ou seja, siglas que, por opção ideológica, eu não vejo diferença de uma para outra. Se bem que, por opção ideológica, eu não voto em nenhuma, já que discordo completamente do sistema de representação que conforma a, em que você oferta a uma pessoa o direito de gerir a cidade em que se mora e a algumas dezenas o dever de fiscalizar a atuação desse gestor e propor alterações nas leis. Poder popular? Nem em outra galáxia. 

Além disso, é nesta situação que se percebe a importância do horário eleitoral. Por mais que até eu tenha tentado ler alguma coisa nos portais de notícia da região durante a semana sobre as propostas dos três candidatos, mais para ver as contradições entre eles do que qualquer outra coisa, só se conhece aqueles que aparecem em placas espalhadas em casas e nas cidades. O candidato do PPS mesmo, sem recursos, pouco vi – mais em noticiários do que nas ruas. 

Porto Alegre 

Ah, o que víamos na TV no horário eleitoral? Os candidatos a prefeito e a vereador de Porto Alegre. Confesso que a minha curiosidade me fez ver o primeiro dia, dedicado aos candidatos a vereador, e, provavelmente, só o sotaque muda de um Estado para outro; e vi um dia dos candidatos a prefeito, além de vê-los constantemente nos intervalos comerciais. 

Tecnicamente, surpreendeu-me a campanha da Manuela D’Ávila (PCdoB), que tinha uma movimentação de câmera diferente quando ela falava. Politicamente, a tentativa do candidato do PSDB de defender a austeridade, com corte nos gastos públicos, porém, criticando a falta de gastos em setores primordiais – no debate, ele chegou a questionar o candidato do PT sobre o porquê do governador Tarso Genro não ter cumprido a promessa de garantir o piso salarial aos professores, como se Yeda e cia. fossem cumprir... 

No final das contas, Manuela começou a campanha liderando, mas perdeu o fôlego para máquina administrativa sob comando de Fortunatti (PDT), que venceu ainda no primeiro turno e com porcentagem de votos bem tranquila. Em terceiro, Villaverde (PT) diminui até mesmo a média normal de votos petistas na capital. Com as duas forças de oposição na capital divididas e demorando para atacar a gestão de Porto Alegre – até mesmo porque os três partidos são base do Governo Tarso e do Governo Dilma – deu no que deu. O prefeito que fecha bares, privatiza praças, parques e espaços culturais e que ajuda a defender tatu-bolas de plástico foi reeleito. 

Voltando a São Leopoldo, eu li algumas coisas sobre a confusão do PT para indicar o nome para a prefeitura. O prefeito de então era do partido, mas não podia se recandidatar por estar num segundo mandato. Tiraram o representante do Governo do RS em Brasília para ser candidato na cidade, mas derrubaram o nome do cara internamente. Sobrou para um terceiro que, conforme papos da barbearia, não conseguiria a simpatia nem da família, imagina da população. 

Dois dias antes do pleito, vi um jornal da região com a pesquisa do mês na capa. Ela invertia o que pesquisa do mês anterior dizia, o candidato do PT tinha pulado para a liderança, muito à frente do candidato do PSDB. A mania de ler tudo me fez ver que esta pesquisa foi contratada pelo candidato da situação, enquanto a outra foi do candidato da oposição. Ou seja, alguém confia mesmo em pesquisas – alguém falou no DataFALHA aí ? 

No sábado, acometido por uma forte dor nas costas, ainda fui obrigado a passar algumas horas da tarde deitado ouvindo carreatas, buzinaços e fogos de artifício de um dos candidatos em frente ao prédio. Ô vontade de votar... 

No dia seguinte, a dor só deu trégua à tarde e fui votar. Perto de casa, fui a pé ao Centro de Espiritualidade Cristo Rei, onde “treinam” os padres. Antes de chegar lá, um carro passa por mim com a bandeira com o número 45 e grita o nome do candidato. Respirei fundo e deixei na mente o que queria ter xingado falado. Antes da entrada do CECREI, chega alguém para indicar o candidato que ajuda a vila – e nenhum policial por perto para um lugar com cinco secções, se não me falha a memória... 

Ao menos, não havia ninguém na fila. Até arrisquei votar numa legenda para vereador só para ver no que ia dar, mas a cidade não deve ter nem representantes de partidos mais próximos à esquerda, então só apareceria “VOTO INVÁLIDO”/“VOTO NULO”, nesta ordem, mesmo. 

À noite, o resultado mostrou que as duas pesquisas estavam erradas. O candidato do PSDB venceu as eleições, mas por uma diferença menor que 10%. A tempestade que caiu em seguida impediu maiores comemorações, ao menos de forma audível. 

Mania desde criança, quando ficava até altas horas ouvindo a apuração pelo rádio e as análises na televisão, acompanhei a apuração pela internet também em outras cidades. 

Em Maceió, se em 2008 foi “óbvia” a reeleição do prefeito com uma avalanche de votos (80%), a fácil vitória do candidato ligado ao governador, do PSDB, surpreendeu. Travestido de novo, mas filho do ex-ministro do TCU e senador Guilherme Palmeira e sobrinho de Vladimir Palmeira, Rui Palmeira representa a oligarquia política local, com vistas às eleições ao governo em 2014, quando Teotônio Vilela não poderá mais se candidatar. 

Vence um governador que teve um primeiro ano de mandato terrível, lá em 2007, com greves em todos os setores do funcionalismo público estadual. Fora que a eleição de 2006 foi contra o usineiro João Lyra, que até hoje sofre para repor as perdas financeiras de campanha – com direito à falência, que vai e vem, do grupo empresarial que conta também com um jornal de periodicidade diária. Em 2010, o enfrentamento foi contra os ex-governadores Ronaldo Lessa e Fernando Collor (ex-presidente também). Em 2012, o candidato do governador venceu o do “chapão” da base aliada da presidenta Dilma. 

Ronaldo Lessa foi o grande derrotado. Se já seria derrotado, segundo as pesquisas mais recentes, ainda no primeiro turno, ainda viu sua candidatura não ser permitida pela justiça eleitoral, forçando o “chapão” a indicar de última hora Jurandir Boia. A fritura de Serra em São Paulo não chega nem perto do que Lessa sofreu de derrotas políticas nas últimas duas eleições. Para mim, em meio a uma nova candidatura a Governo e uma super disputa para a vaga do Senado (de Collor) que se avizinha, com a volta de Téo para disputa-la, de repente é hora do ex-governador, que já representou a mudança no Estado, reduzir o ímpeto e disputar para deputado federal em 2014. 

Ah, vale a pena dizer também que foi uma campanha com vários candidatos. Do lado do Governo, o DEM do vice Nonô lançou o apresentador de programa policial e deputado estadual Jeferson Moraes. Do lado do chapão, Galba Novaes, vereador e fiel escudeiro de Collor, também concorreu, ficando em terceiro. Além disso, tivemos candidaturas de PSB e PSL, para além da “tradicional” do PSOL-PSTU, que conseguiu mais de 5% dos votos, num bom crescimento em relação às últimas eleições. 

Conheço o Fleming, candidato do PSOL nessas eleições. Nome novo no partido de Heloísa Helena e Mário Agra, é amigo de amigos meus, mas tenho divergências em relação a algumas coisas – que acabam por agregar ao PSOL também. Confesso que não sei se votaria nele se estivesse em Maceió, mas, ao menos, fez uma campanha interessante e com maior aproveitamento e diálogo através das mídias sociais. Pena que não vi debates – e a Gazeta, afiliada da Globo em Alagoas, não fez o dela. 

Votos expressivos também em Aracaju, terra que vivi minha infância. Nomes velhos como João Alves, Almeida Lima (que desistiu no debate, há dias da votação) e Valadares (ainda que o filho do senador) na disputa. A dobradinha PT-PCdoB e base aliada, há 12 anos no poder, perdeu para o velho João Alves Filho, do DEM, e ainda no primeiro turno. 

No Rio de Janeiro, onde estou agora, apesar de uma excelente campanha de Freixo (PSOL), o Eduardo Paes levou ainda no primeiro turno. Ainda assim, o PSOL conseguiu 28% dos votos numa importante capital do país e se mostra a oposição real num Rio de Janeiro sob comando do PMDB na cidade e no Estado. Vale lembrar também que uma campanha muito elogiosa a do deputado estadual, colocando a militância nas ruas e sem nada em troca. 

Em São Paulo, Russomano foi o cavalo paraguaio e após crescer muito, gerando dúvidas sobre a dualidade PT-PSDB na capital, ele perdeu fôlego nas últimas semanas e viu Serra e Haddad o deixarem bem para trás. Serra joga a vida política neste segundo turno, ainda que com uma rejeição imensa, na casa dos 40%, que tendem a colocar o petista como favorito. 

SUPRESAS 

Por fim, as surpresas. As maiores delas foram as eleições de vereadores do PSTU, isso mesmo, PSTU, em duas grandes capitais. Cláudio Roberto no Pará foi alçado à “fama” num debate a governador em 2010, mostrando-se como alternativa – debates “bipolares” sempre abrem espaço para a esquerda mais crítica aparecer, desde que haja nomes que se aproveitem disso. O outro nome foi o de Amanda Gurgel em Natal. Professora conhecida por um depoimento na ALE do Rio Grande do Norte em maio do ano passado publicado no Youtube – com direito à participação no Faustão –, é a vereadora mais votada da história da capital potiguar. Ah, Heloísa Helena foi reeleita em Maceió, mas com um PSOL com muitos candidatos acusados de compra de votos – a ver... – e com 10 mil votos a menos que em 2008. 

Resta ver como será o posicionamento e a pressão a esses nomes que, para além de esquerda, são de partidos que defendem o poder sob as mãos do povo de forma efetiva, algo bem distante do que ocorre em câmaras de vereadores. A experiência de HH em Maceió não é muito animadora...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

TOM ZÉ!!!

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Ramiro Furquim/Sul 21
Ainda não sei como expressar em palavras o que foi ter assistido ao show do Tom Zé ontem no Auditório Araújo Vianna - ainda que, após uma reforma de sete anos e meio, "cercado" e com o apoio oficial da Coca-Cola -, em Porto Alegre. Este baiano é tudo o que eu imaginava no palco, que já era muita coisa, e mais um pouco. Inacreditável pensar que na semana que vem, dia 11, ele completará 76 anos. É tão assim que dois amigos optaram por estar à beira do palco e voltaram dizendo "ele realmente é velho"...

Para quem conhece um pouco de Porto Alegre, o auditório fica no Parque da Redenção, um dos mais famosos da cidade, onde as pessoas costumam passar os finais de semana "lagarteando" no gramado tomando chimarrão. O Auditório fica numa espécie de praça, mais para o final, e após a reforma ganhou um sistema de som que distribui melhor o áudio e um sistema de refrigeração geral - que deve ser muito útil para o verão gaúcho e suas altíssimas temperaturas (e não é ironia minha).

No caminho para lá, disseram-me que as rádios seguiam a incentivar as pessoas a comprarem os ingressos para ir ao show. A minha resposta foi simples: "infelizmente, é esperado algo assim". Num ano importante para o movimento da Tropicália, que sacudiu a música no Brasil do final da década de 1960 aos anos 70, é importante afirmar a presença de Tom Zé nisso, junto a outros baianos "liderados" por Caetano e Gil (setentões em 2012). Porém, ele ficou duas décadas no "breu", tanto por crítica, mídia, quanto por seus ex-companheiros, ninguém sabendo bem o porquê disso ter ocorrido.

Em Fabricando Tom Zé, excelente documentário que eu já vi duas vezes na TV Brasil, o próprio Tom Zé explica que foi necessário David Byrne achá-lo na década de 1990, e ser muito reverenciado nos Estados Unidos, para reaparecer em terras tupiniquins. Cada vez mais que conheço seus discos/CDs, enfim, gravações, cada qual com uma característica diferente, ora mais romântico (Estudando o Samba), ora mais provocativo (Danç-ê-sah), geralmente muita coisa num mesmo álbum, eu fico a imaginar: Como raios há pessoas que mal sabem que ele existe? Como ele ficou duas décadas sem ninguém se dar conta de sua genialidade?

Digressão à parte, voltemos ao concerto. Achei curioso que na entrada via pessoas de duas faixas etárias. Na ponta, muitos com 20, 30 e poucos anos, estilo mais "independente", turma de protesto - confirmado durante o show -; de outro, pessoal da casa dos 50, 60 e poucos anos, mais "elitizado", por assim dizer e com o risco que essa palavra gera. Ah, ainda havia pessoas a distribuir santinhos de candidatos em prol da cultura.
Ramiro Furquim/Sul 21
SHOW, com todas as letras
Por míseros 15 minutos de atraso, o público já aplaudia reclamando. Isso, 15 minutos (!!!) foi o tempo que demorou para começar. Tom Zé entrou "grávido", com uma bata rosa, porque iria encenar o nascimento da Tropicália, dele surgiriam Caetano Veloso e Gilberto Gil. Foi a primeira vez que vi alguém ser aplaudido de pé antes de qualquer apresentação cultural.

Em meio a tanta "responsabilidade", de um público "culto" como o gaúcho, como ele frisou no início, foi preciso controlar os mais afoitos que queriam ficar à frente do palco para dançar e pular, entregar panfletos e tudo o mais, para que não atrapalhassem os demais, que teriam a visão encoberta caso tod@s ficassem por ali. Antes de chamar a banda, Tom leu cada jornal que publicou algo sobre a sua apresentação, afirmando que ele é que não dera frases boas. Quando falou-se me Zero Hora, gritou-se "este mente". Ele fala "esse mente, mas até que a repórter tentou melhorar, com o título 'Tons de cinza e Tom Zé'". Hora do show!

Tom Zé chama a banda, vestida com capas. Nas primeiras músicas ele faz o parto da Tropicália cantando músicas do seu novo CD/disco, tudo vendido antes mesmo de o espetáculo começar, Tropicália Lixo Lógico. Ao fim, sobra um rabo, cujo motivo de estar ali é explicado por ele, que sempre demonstra grande conhecimento mitológico e filosófico. Show dele é promessa de boas histórias, muito improviso e, acima de tudo, muitos risos.

Ah, não dá para esquecer que em qualquer apresentação dele, pode-se aproveitar para realizar uma manifestação. Desta vez, um grupo reclamava da privatização das praças, parques e espaços culturais porto-alegrenses. O cantor não só leu o manifesto do pessoal, como disse que estaria presente de "coração" no ato desta quinta-feira, não podia ser presencialmente porque viajaria de madrugada. E no final ainda levantou um dos cartazes (ver foto do Ramiro Furquim/Sul 21 no início deste tópico).

Nas músicas mais agitadas, o baiano pulava como se tivesse 30, 40 anos a menos do que tem, com direito a uma homenagem ao pessoal do "country", pulado montando no microfone, vestido de um sutiã que jogaram ao palco - dentre tantas e tantas coisas arremessadas -, com um terno todo rasgado por ele mesmo. Fora o percorrer o palco de um lado ao outro para satisfazer a galera (mais de cem pessoas) que estava de pé nos cantos, porque queria pular e dançar. Fora o "os seguranças têm o direito de se virarem um momento para o palco e me olhar agora, devem estar curiosos para me ver de sutiã".

As músicas mais lentas também são muito boas, mas sempre com o aviso de "agora vamos para uma mais calma e prometo a vocês que depois voltamos com tudo". O pessoal da banda é que sofria com tanta movimentação e mudança, sempre tendo que cuidar para o cabo do microfone de Tom Zé não prender em algo ou até mesmo o rabo não derrubar tripés por onde ele passava.

Pós Semana Farroupilha, ainda vale citar a "observação" sobre o sotaque gaúcho. Ele disse que não esquecessem de lhe dar a segunda cidadania quando o Rio Grande se separasse do Brasil, mas também disse que aqui, por ter sido colonizado por italiano e alemão era diferente do resto mesmo, a ponto de ele chegar no aeroporto na Alemanha e sempre pensar que já ouviu aquele sotaque antes (para gargalhadas minhas).

O final do show foi com uma série de pout-porris, porque Tom se cansava das músicas, indo cada vez mais para trás no tempo com músicas que o público conhecia mais, algumas das quais pedidas para que ele cantasse, caso de "Menina, Amanha de Manhã", "Augusta, Angélica e Consolação" e "", dentre tantas outras que não me vêm à mente agora.

Fiquei muito empolgado com o show dele. É algo que todo mundo que gosta de música, independente do que ache que seja "boa" música, deve experienciar. Um clima totalmente diferente de outros lugares - por mais que o show do Hermeto Pascoal num parque, ao ar livre, em Canoas no ano passado também tenha sido espetacular.

O único problema de Tom Zé são suas escolhas futebolísticas, mas ninguém é perfeito mesmo. Além de corintiano, "Capitais e Tais", música muito boa sobre os Estados do Nordeste que está em Tropicália Lixo Lógico, ele diz que "CRB vai ser agora o novo rei da bola". E nós alagoanos sabemos que algo assim só quando eles estão há 11 títulos alagoanos atrás do CSA, único time nordestino a disputar final de torneio internacional.


Tinha que terminar este post com "Tô", que é uma música que
me encanta e uma das quais eu cantei a plenos pulmões

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O noticiário esportivo é “100% entretenimento”?

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Dos últimos anos para cá, vimos os esportes, com amplo predomínio do futebol, ganharem ainda mais destaque nas programações dos meios de comunicação, só que por motivos para além das quatro linhas. A vinda de grandes eventos esportivos internacionais, duras disputas por direitos de transmissão e o desenvolvimento de uma fase de profissionalização, que tem como uma das marcas a cada vez maior mercantilização das práticas desportivas, fazem com que o jornalismo esportivo adentre por outras áreas, movimentando outras editorias para além dos Esportes.

A importância deste setor é demonstrada com as últimas mudanças de estrutura organizacional da Rede Globo de Televisão, realizada em 2009, que passou a ter como uma das suas divisões a Central Globo de Esportes, ligada à Direção Geral de Jornalismo e Esporte (DGJE), a qual também está submetida a Central Globo de Jornalismo (CGJ). Este período, inclusive, afirma as mudanças no padrão estético-produtivo das matérias esportivas na emissora, com maior presença do humor e de outras formas de narrar histórias, para além dos padrões telejornalísticos construídos pela própria Rede Globo.

Pode-se dizer que a última década é marcada pela mudança de “orientação” da maneira pela qual uma notícia sobre esporte é transmitida, com muita discussão, e polêmica, sobre o assunto. Afinal, será que chegamos num ponto em que o noticiário esportivo seria “100% entretenimento”, como afirmou recentemente o apresentador Tiago Leifert?

Desrespeito e menosprezo

Leifert é, provavelmente, a grande nova estrela da televisão nacional. Coube a ele a reformulação doGlobo Esporte São Paulo, que acabou por se refletir nos noticiários esportivos regionais – que ganharam mais tempo de 2011 para cá. O modelo de apresentação leva em conta mais a espontaneidade do apresentador, também diretor da atração, que acaba por refletir nas reportagens, que buscam a ironia, o curioso do que envolve o esporte, ainda que muito mais o futebol.

Como defensor deste modelo, o apresentador nunca fugiu de discussões sobre como pensava o noticiário esportivo, chegando ao ponto de dizer que o “esporte não deveria ser levado a sério” e partir para discussões via mídias sociais com outros apresentadores, comentaristas e telespectadores – Jorge Kajuru, atualmente na TV Esporte Interativo, por exemplo, diz que foi ele quem criou este modelo mais “espontâneo” de apresentação em sua época de Band.

Alguns problemas na prática também foram vistos, como o caso do repórter que perguntou numa entrevista coletiva ao atacante Barcos, do Palmeiras, se ele conhecia e se achava parecido com o cantor Zé Ramalho, provocando respostas ríspidas do atacante argentino. Outro nome muito comentado quanto a não responder a essas brincadeiras é o atacante uruguaio “Loco” Abreu, atualmente no Figueirense, que se recusou a usar a camisa do “Inacreditável FC”, que é dada pelo Globo Esporte quando um jogador perde um gol “feito”. Abreu, com experiência como repórter esportivo de rádio quando adolescente, acha que há um desrespeito, menosprezo, por parte de alguns jornalistas esportivos com os jogadores de futebol.

O objetivo principal

Outro exemplo vem do Fantástico, cujo quadro esportivo, comandado por Tadeu Schmidt alguns anos antes de Leifert assumir o Globo Esporte SP, tem como uma das marcas registradas colocar a música escolhida para cada atacante que faça três gols no domingo. Num desses, o atacante argentino Herrera, então no Botafogo, perguntou “Música pra quê?”, recusando-se a indicar uma trilha sonora para os seus gols.

Ao contrário de Tiago Leifert, agora também apresentador do reality show The Voice, entendemos que noticiário esportivo não deveria ser 100% entretenimento. Mas temos que entender que futebol e televisão, apesar de o primeiro ser uma fonte de paixões enorme, são duas maneiras de entretenimento sob a atual conjuntura histórica. A função da televisão, sob qualquer dos seus produtos, é entreter a sua audiência de forma que ela não troque de canal e que isso possa gerar mais, ou melhores, patrocinadores para o programa. Entretanto, se aceitarmos prontamente este argumento, podemos nos questionar se isso também não serviria ao telejornalismo. Aceitaríamos de um apresentador de telejornal que o que ele faz é 100% entretenimento?

Não. Aqui é que vem o problema. Por mais que esta nova forma de apresentar as notícias esportivas tenha atraído um público que não acompanhava este programa, também afastou aqueles que querem saber o que acontece/aconteceu com seus clubes de futebol e demais esportes. Informar continua sendo o principal objetivo do jornalismo e os esportes continuam fazendo parte da área de interesse jornalístico.

Brincadeiras de desconhecidos

Seria até leviano num ano em que um dos maiores cronistas brasileiros, o grande escritor Nelson Rodrigues, completaria 100 anos, afirmar que queremos ver uma matéria hermética, como qualquer uma de economia ou de polícia. O futebol envolve a paixão de várias pessoas e tentar mudar a forma “tradicional” de se dar uma notícia sobre uma partida, pegando um viés curioso do que tenha ocorrido, pode, sim, ocorrer, mas desde que não chame mais atenção do que o que ocorreu na partida. Quer dizer, na tentativa de comunicar de uma forma que cause curiosidade e chame a atenção, o jornalista não pode se esquecer de informar sobre a partida ou um treino.

Além disso, a opinião de Leifert não parece ser consenso dentro da própria rede de emissoras em que trabalha. Durante o seminário Globo-Intercom deste ano, os pesquisadores de Comunicação que lá estiveram presentes muito perguntaram sobre este novo jeito de fazer jornalismo esportivo e ficou patente que para a direção da Central Globo de Esportes o informar ainda é prioridade para o jornalismo esportivo da emissora, não apenas o entreter ou buscar algo irônico na partida.

Independente do recurso dos direitos de imagem pagar boa parte do salário dos jogadores, é sempre bom lembrar aos profissionais do jornalismo a necessidade de se preocupar com o Outro numa matéria. Afinal, ninguém, mesmo que seja “pessoa pública”, é obrigado a concordar com brincadeiras de desconhecidos, principalmente após momentos de tensão no trabalho.

Uma espécie de CQC

Quando Leifert disse que o futebol não deveria ser levado a sério, talvez estivesse falando de coisas que provocam violência, no limite das disputas emocionais, não necessariamente de que ele deva ser considerado ou não como um elemento importante da formação cultural das pessoas. Algo que, por mais que ele não quisesse, já faz parte da maioria dos brasileiros.

Fazer um noticiário esportivo diferente pode e deve ser louvado desde que não se abandone o jornalismo no meio disto tudo. O Fantástico, entre idas e vindas em ser mais entretenimento ou mais jornalismo, ainda nos parece abrir mais espaço para o lúdico, porém, caso o entendimento sobre o Globo Esporteainda seja de um noticiário esportivo, há limites – como no caso de Barcos – a serem observados. Desta forma, evita-se que se corra o risco de transformar algo como o Globo Esporte numa espécie de CQC, que se afirma jornalístico quando é barrado em locais “oficiais” (como o Senado), mas nega isso quando é criticado por alguma “reportagem”.

*Originalmente publicado no Observatório da Imprensa.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Intentando entender las visitadoras de Llosa

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li muitas coisas em Espanhol, entre artigos e livros, conversei, estive em outros países da América do Sul e escrevi em espanhol algumas vezes - ainda que com ajuda de tradutores online ou do cada vez menos portunhol. Com a visita de uma colega francesa, mas com pai espanhol (do País Basco), e um novo quadro produzido na Argentina para o programa de rádio, acabei falando e escrevendo mais nestes últimos meses na língua dos países vizinhos. 

Quer dizer, já vinha fazendo isso porque optei por iniciar o aprendizado em Espanhol de forma "oficial". Primeiro, por motivos de trabalho. Por conta da maior proximidade e dos contatos estabelecidos, os pesquisadores da EPC têm maior proximidade com outros da Hispano-América que de países anglo-saxões, por exemplo. Além disso, tive experiências não muito agradáveis com colombianas e um casal argentino, em São Paulo e em Recife, no ano passado. Fiquei chateado por não conseguir conversar direito - por mais que sempre demos um jeito de nos entender razoavelmente. Por fim, sempre me irritou a "obrigação" de aprender inglês, ainda que mal possamos conversar com os nossos vecinos do lado.

Enfim, numa das visitas a esta amiga francesa me perguntou se já tinha lido algo de Mario Vargas Llosa, eu disse que não e ela me emprestou "Pantaleón y las visitadoras" (1973), ainda que não o tivesse lido. Aceitei de pronto. Como ela mesma me disse, serviria para aprimorar a língua, principalmente porque agora já posso identificar as formações gramaticais que vejo toda semana nas clases.

TÍTULO E LLOSA
Óbvio que sabia quem era Mário Vargas Llosa, vencedor do Nobel de Literatura em 2010 e que também já havia sido candidato a presidente no Peru na década de 1990. Além disso, conhecia um pouco sobre o seu posicionamento político-ideológico, creio que de centro-direita, por meio de alguns comentários de um ou outro pesquisador em redes sociais referente aos seus posicionamentos sobre a situação atual de "crise" na Europa. Basta ler um pouco o que dizem na Internet sobre ele e isso se confirma.

Honestamente, não acredito que só pessoas de "esquerda" possam escrever bons livros e/ou que pessoas de "direita" irão demonstrar a sociedade de acordo com o seu posicionamento político. Há toda uma questão de qualidade e capacidade intelectual para a produção artística/literária, que não vem marcada por uma ideologia específica, ou seja, que seja garantida por ela. Mais que um posicionamento pessoal, esta é uma reflexão de pesquisador. 

Dediquei-me a entender uma possível formulação de estudos estéticos num viés marxista, a partir do filósofo húngaro George Lukács, num projeto de iniciação científica no final da graduação. O que eu lia e analisava me mostrou que a Arte seria capaz de avançar sobre a realidade que nos é posta à vista, com a possibilidade real de desvelá-la, ir além no demonstrar a sociedade, com suas mais variadas contradições.

Só para citar um exemplo, de um autor que eu li alguns livros à época para confirmar as características que via em Lukács e até mesmo em comentários sobre opiniões literárias de Marx e Engels, o francês Honoré de Balzac estava longe de ser socialista, mas conseguiu com suas obras mostrar as contradições do capitalismo na primeira metade do século XIX - na verdade, ele desejava o regresso ao feudalismo, por ser de família aristocrática.

Quando peguei o livro, achei curiosa a capa, que abre este post. Não fazia ideia do que significavam "las visitadoras" e achava curioso que houvesse tantas mulheres no desenho da edição que eu peguei, de 1980. A contracapa dá uma ideia do que viria: "Pantaleón, estricto cumplido del deber que le ha sido asignado, termina, llevando el celo a sus últimas consecuencias,  por pulverizar el engrenaje que ha puesto en movimiento".

Ah, em 2000 foi lançado um filme baseado neste livros, mas que até eu pesquisar na Internet por imagens do livro eu ainda não tinha conhecimento.

LIVRO
Confesso que ao começar a ler "Pantaleón y las visitadoras" tive um susto com a forma que o texto foi escrito. Já na primeira parte, uma série de falas que misturam dois lugares diferentes em momentos diferentes. O agora capitão Pantaleón Pantoja está em casa sendo acordado pela mulher Pochita e tendo os cuidados de sua mãe, a senhora Leonor, ao mesmo tempo que sabemos que ele terá uma função importantíssima para o Exército peruano.

Esta maneira diferente de pôr em ação as personagens vai se transcorrer ao longo do livro, o que faz com que o "costume" de apresentação de narrativas de uma maneira mais linear possa até gerar estranheza em muitos momentos. Além dos diálogos, alguns dos quais até que seguem certa ordem, a história é contada através de cartas e documentos oficiais que são publicadas como se nosotros lectores tivéssemos com os papeis nas mãos, por mais "secretos" que fossem por se tratar de documentos de Forças Armadas.

Pantaleón e sua família são mandados a Iquitos numa missão ultra-secreta. Para a esposa e a mãe, dava orgulho em saber que ele estava envolvido em algo deste nível, em que nem elas poderiam saber; a parte ruim nisso tudo era que elas deveriam viver como "qualquer" moradora, sem poder conversar com as famílias de outros soldados e desfrutar dos privilégios de condições assim, em que se pode ter acesso a melhores produtos e casas que a população.

A V Região da Amazônia enfrentava dois problemas, sendo um deles o que o capitão deveria solucionar. As mulheres da região sofriam violência sexual, mas não era de nenhum grupo de criminosos "tradicionais", mas os próprios oficiais é que invadiam casas e retiravam as mulheres. A função de Pantaleón era criar um sistema para "atender" aos ímpetos sexuais dos oficiais, de forma que parassem de atacar a população.

Pantoja assim que chega em Iquitos sente na "pele" as transformações do clima mais tropical da região amazônica, aumentando seu apetite sexual com a mulher, louco por adiantar a produção de um novo capitão. Alguns diziam que poderia ser o clima amazônico a criar delírios nos homens, outros diziam que eram tipos de alimentos e bebidas típicos do lugar. Enfim, o capitão resolver experimentar todos, provando com a sua esposa o que dava certo ou não, de forma a poder proibir que os oficiais se alimentassem dessas coisas.

Além disso, ele resolveu entrar no ramo de las visitadoras y de las lavanderas, de maneira que ele criou o "Servicio de Visitadoras para Guarniciones, Puesto de Fronteras e Afines", que era um setor ligado ao Exército, com direito a avião e navio, para levar prostitutas para os mais recônditos lugares da amazônia peruana, de forma a atender, e descontar dos salários, os oficiais, que parariam de atacar os povoados.

Ao mesmo tempo que Llosa nos mostra através de correspondências e diálogos justapostos como o SVGPFA vai se constituindo, através de todo o primor e preciosismo matemático do oficial Pantoja, acompanhamos o crescimento de uma ordem religiosa popular. A Arca liderada pelo Hermano Francisco cada vez mais ganha espaço na região, arregimentando hermanos e hermanas que têm como característica de demonstração de "fé" a crucificação de animais e, em alguns casos controversos - em que não se sabe se as pessoas se "ofereceram" por serem hermanas ou se foram obrigadas a - matarem e crucificarem pessoas, dentre as quais uma criança que vira um novo mártir e uma senhora de idade, que vira santa.

Em meio ao sucesso do SVGPFA, a imprensa aparece através da Voz del Sinchi, que vai até a central deste arregimento para subornar Pantaleón, de forma a não falar mal dos serviços por ele organizados. Honesto, o capitão joga para fora o radialista e vê em sua irradiação contrária o início da queda e dos problemas conquistados por ele, inclusive a separação de Pochita, que sabe através da rádio o que ele realmente estava fazendo, partindo com a filha Gladicyta para a capital.

Vemos ao longo do livro que, na verdade, o capitão Pantaleón Pantoja é maníaco em cumprir com deveres. Ele mesmo diz, na companhia da visitadora apelidada de Brasileña, que ele sempre se dedica muito às atividades do Exército. Ele foi repassado para comandar a alimentação dos soldados e acabou se especializando em culinária; depois, ele era responsável pelo controle de roupas e chegou ao ponto de se preocupar tanto com isso, com novas ideias de vestimenta, que os outros soldados questionavam a heterossexualidade dele. 

Neste caso, somos brindados no livro com dados e mais dados sérios que provariam a necessidade do Serviço de Visitadoras e do seu máximo rendimento. Apesar de um serviço burocrata e matemático típico do Exército, todos e todas que trabalham com ele o adoram, porque o SVGPFA dá a tranquilidade que nenhum dos outros conseguiriam na forma que trabalhavam antes.

O livro segue nos mostrando vários problemas neste Serviço e na Arca de Hermano Francisco, causando um caos para as mais altas dirigências deste setor do Exército, que acabam pressionados, inclusive, pelos padres e bispos da Igreja Católica que se retiram dos serviços oficiais. No final, chegamos a uma situação limite, que acaba por misturar o SVGPFA e a Arca, que seguem depois cada qual para seu caminho derradeiro e de sua forma.

"Pantaleón y las visitadoras" demonstra o quanto os nossos "representantes" às vezes perdem tanto tempo e dinheiro com coisas inúteis, enquanto vários outros problemas sociais estão ali e nunca sequer são observados. Ainda assim, não coloco este livro na lista dos imprescindíveis e inesquecíveis, talvez a estranheza com a forma - e um término frio, ainda que com um último parágrafo engraçado -  tenha pesado muito.

REFERÊNCIA
LLOSA, Mario Vargas. Pantaleón y las Visitadoras. 10.ed. Barcelona: Seix Barral, 1980.