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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Do caixa à banca

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Último dia de trabalho em 2014, hora de utilizar este cano de escape que eu chamo de Dialética Terrestre para refletir sobre as questões do labor deste ano. Período em que vivi os opostos. Sair do "fundo de um poço sem fundo" para o extremo disso, alcançando um sonho que eu só imaginava realizar em médio prazo. Chegou a hora de expurgar os males, deixá-los por aqui e pensar em construir as melhores coisas possíveis, ainda que com as dificuldades "tradicionais" que aparecerão.

Contei a algumas pessoas o que estive fazendo antes dos concursos públicos que fui aprovado na UFAL (um para substituto e outro para efetivo), realizados em duas semanas, do final de março ao início de abril. Outras pessoas ficaram na curiosidade. Uma chegou a me perguntar. Mas era difícil contar. Se sempre coloquei na minha cabeça que não era motivo de vergonha, também não era algo para me orgulhar, longe disso.

Comecei 2014 com os resultados de decisões tomadas em novembro do ano anterior. Naquele momento, tinha deixado tudo o que havia de pendência acadêmica acertada - incluindo a revisão e o fechamento de um ebook - porque eu não sabia o que faria. Em meio à total falta de opções, agravada com um resultado de seleção de doutorado que me frustrou enormemente, a melhor delas era, literalmente, largar tudo, algo que já tinha deixado os meus pais de sobreaviso - na época, o Baleia morava comigo. O pragmatismo me manteve vivo. Tinha cursos a terminar em dezembro e uma conta a pagar que não deixaria para eles.

A morte veio de uma maneira diferente: largar tudo o que eu gostava de fazer. Isso passou por esquecer que era jornalista e que era mestre, até mesmo porque naquele momento não teve serventia alguma. Avisei a quem mantinha algum contato de trabalho (voluntário) ligado à pesquisa. Achava que não voltaria, ainda que eu não tenha deixado o tamanho das dificuldades de maneira clara.

Em dezembro até apareceu uma seleção para faculdade particular, cujo resultado não houve e que deixou só boatos percorrerem a minha cabeça - o mais forte deles é que eu e a amiga que fizemos a seleção seríamos muito novos para dar aula.

Comecei janeiro da mesma forma que terminei a última semana de novembro. Acordava 4h15, porque tinha que chegar ao trabalho antes das 6h, saía uma hora para almoçar na casa da minha tia - cheguei até a ficar com alguma cor no rosto por conta do sol do caminho - e batia o ponto ao final às 14h. Dias de maior movimentação, podia até ficar sem almoçar, pegando direto.

Para explicar melhor, uma situação. Eu lá embalando compras alheias e comento com a cliente que tinha morado por 2 anos no Rio Grande do Sul...

- Mas o que você foi fazer lá, tão distante?

- Fiz o meu mestrado lá?

- Você é mestre?

- Sim, sou jornalista e mestre em Comunicação?

- O que você está fazendo trabalhando aqui. Eu sou especialista, você tem uma formação melhor que a minha...

Era isso. Um jornalista e mestre em comunicação trabalhando na "frente de loja" de um supermercado, com a função de caixa assinada na carteira, mas que na verdade era "suplente de caixa", já que o cargo é preconceituosamente quase que exclusivo para mulheres; tendo que fazer tudo. Embalar, recolocar os produtos na loja, carregar caixas e compras...

Era o único lugar que nunca tinha pensado em trabalhar. O motivo é simples: a precarização da profissão ao extremo. Ou, como costumava e costumo dizer, a relação é de semi-escravidão. Ao menos terei o que dizer caso alguém no futuro afirmar para mim que "ser revolucionário de classe média é fácil". A experiência me marcou muito e foi muito diferente de tudo o que fiz antes.

Vivi a luta de classes como membro da classe oprimida, dos trabalhadores em maior número no mercado hoje, os de setor de serviços, que, no nosso caso, não tinham hora certa para almoçar, não tinham dia certo para folgar e que trabalham domingo sim, domingo não, sem qualquer certeza de ficar no emprego porque haviam relações pessoais que poderiam te garantir mais que o seu trabalho. Tudo bem, eu estava "seguro" porque o meu tio era o gerente. Por isso até que arranjei algum trabalho que me pagasse ao menos um salário mínimo, pois não tinha experiência nenhuma com aquilo. Trabalhar no comércio não rolava porque eu não sei vender nada - prova maior disso é que por mais que eu tenha produzido/estudado/respeitado xs demais não tinha conseguido nada no que eu era formado.

Assédio moral; assédio sexual; ver instigados o confronto entre pessoas de mesmo nível hierárquico; o cara que ganha um pouco mais e oprime mais até do que o dono (na estratégia do capital de criar cisões de classe); desvio de função; pessoas de mesma classe que tratavam mal os seus semelhantes por entenderem estar numa situação de empoderamento (supostamente eles pagavam os nossos salários), ... Ouvir coisas como "vocês têm que vir maquiadas, religião é outra coisa", mas tudo é mercadoria; ou "você é casada? Não importa. Não quer ir ao cinema?"; ou "você trabalha para o supermercado, não tem isso de desvio de função". E tantos e tantos outros exemplos que me deixaram em agonia monstruosa desde os primeiros dias. Mas, conta zerada, eu dependia daquilo para sobreviver, literalmente.

O auge foi no domingo em que teve Sport X CSA, quarta de final do Nordestão, e Palmeiras X Corinthians pelo Paulista. Os dois principais confrontos da minha vida. E eu lá trabalhando. Até a televisão que mostrava o jogo local teve que ser desligada porque o dono poderia achar ruim. Livros? Um lido aos trancos e barrancos em cinco meses. Enquanto eu estava acostumado a, pelo menos, dois por mês.

Ah, por indicação, consegui uma "chance" na principal TV do Estado. Trabalhar de graça até aparecer uma vaguinha. Era a fresta numa janela com grades que apareceu. Saía direto do supermercado para lá. Morto de cansado, sem qualquer contato, sem qualquer disposição de fazer o que muitxs fazem para garantir seu lugarzinho como jornalista; vendo o quanto o ambiente televisivo é extremamente (e babacamente) competitivo. Troquei o horário no final de janeiro, dava para eu cochilar em casa, mas retornava pelas 22h30 para sair com o Baleia, comer algo rápido e despencar na cama.

Aprendi muito sobre as rotinas de produção da TV. Adorei aprender a editar, especialmente porque minimamente me vi trabalhando com o futebol - o que sempre me motivou a ser jornalista, desde os 8 anos. A matéria do dia seguinte, que nem sempre tinha como ver, tinha sido eu a editar. Aprendi bastante com um profissional que era exceção à regra dos profissionais da área. Mas sabia desde o início que não tinha chances. Ali fui um suplente de estagiário.

Em março me lembraram dos concursos da UFAL. Tinha olhado antes, mas não tinha vaga em Comunicação. Apareceram, uma para substituto em Telejornalismo em Maceió e uma para efetivo para o tronco inicial em Penedo. Vi os editais quando faltavam três e quatro dias para o limite. Quinze dias para as provas. Fiz e decidi mudar tudo.

Se era para viver daquele jeito era melhor não viver. Encararia as cobranças que viriam caso fosse morar com os meus pais - cobranças que vieram indiretamente em outubro do ano anterior e se agregaram ao ser orgulhoso que não queria depender mais deles após cinco anos sem isso, os dois anteriores totalmente sem ajuda financeira -; os comentários de uma família extremamente conservadora de que "ele estudou tanto...", sem querer entender o porquê disso, em que talvez fosse mais importante eu ter dado umx netx à minha mãe...

Falei com o tio que sairia, não tinha mais paciência nem mesmo para os dois meses que faltavam para ter direito ao seguro-desemprego (ideia inicial). Ele ligou preocupado para a minha tia para saber o que eu iria fazer da vida. Quando souberam, xs colegas de trabalho achavam que eu era maluco. Por mais que eu conversasse com uns ou outrx mostrando a importância de lutarmos pelos nossos direitos, o medo prevalecia entre elxs, o "eu bem que queria fazer isso, mas dependo". Na TV foi muito mais fácil, não pude fazer nada para me destacar minimamente. Foi o único espaço em que trabalhei que tenho a noção que não fui eu, o cara que geralmente se dedica 120%, 200% às coisas.

CONCURSOS
Estudei muito pouco para os concursos. No de substituto, nenhum dos cinco pontos para a prova era para telejornalismo, por mais que a vaga fosse. Na prova teórica, as TICs nas assessorias de comunicação. Sem paciência para fazer provas, desacostumado, com um tema longe de mim, entreguei rápido. Já seria muito se passasse dali. Passei com sete, em terceiro, empatado com o quarto, e bem distante do primeiro.

Mas a didática foi sobre a convergência midiática, um dos temas principais do CEPOS (o do projeto com a Fundação Ford), e poderia acrescer os meus estudos (de curioso) sobre mídias sociais. Quando soube, decidi que ia me divertir dando aula. Foi o que fiz no dia seguinte. Veio o resultado e eu consegui na didática ganhar uma posição. Estava plenamente satisfeito. No dia seguinte, numa aula, ganhei elogios e surgiram possibilidades de reaproveitamento do concurso.

Só que os problemas apareceram do nada. Saí mais cedo do supermercado na terça porque a prova era à tarde. Na quarta tinha avisado que iria faltar por conta de uma disciplina que cursava no doutorado em Linguística. O cara acima chiou e quando cheguei na quinta de manhã soube que "não precisava" ir mais trabalhar, mesmo tendo sido eu a definir o sábado como limite, até para facilitar a contratação de outra pessoa. Fiquei MUITO irritado. Ali não havia uma mínima coisa a falar do meu trabalho naqueles 4 meses e 1 semana. Olha que eu poderia fazer corpo mole, mas eu não sei fazer corpo mole.

Irritado, não consegui estudar mais nada dos 10 pontos para a prova de efetivo que misturaria Lógica, Informática e Comunicação. Pensei até em desistir, mas a experiência ao menos valeria para o futuro. Prova escrita e o ponto foi sobre a "sociedade da informação". De novo, hora de escrever com diversão, com prazer. Veio a surpresa com a nota alta e mais segurança para seguir adiante.

A didática foi separada em dois grupos. Para variar, o pior dos temas veio para o meu: Lógica. Tinha sido o que mais estudei dentre uma preparação bem precária, mas faltava uma parte do ponto. Dar 50/60 minutos de Lógica Formal numa aula inicial é dificílimo para quem tem formação em Comunicação e o diálogo com os estudos da linguagem. Se tinha passado em 2º com boa distância para xs demais, a didática tirou toda a diferença.

Veio o tal do PAA e já estava satisfeito em ter passado por todas as fases presenciais. Nova aprovação, mudança de posição (para terceiro), mas a certeza que tinha passado pelo concurso por inteiro, afinal a Prova de Títulos não é eliminatória. Com ela, voltei a segundo e sabíamos, ou soubemos lá, que o segundo tinha imensa chance de ser aproveitado em Santana do Ipanema. Fui aprovado em ambos os concursos muito mais pela minha mania de saber/ler sobre tudo do que pela minha formação de graduação e Mestrado. A minha necessidade de aprender/conhecer mesmo que não fosse utilizar aquilo em determinado momento foi o que me garantiu sobrepor à falta de estudar minimamente para os concursos.

Tive a sorte de encontrar 3 pessoas que se tornaram quase que amigxs ao longo do processo e depois dele. Voltei com dois deles a Maceió e um me perguntou como me sentia por ter sido aprovado e ter quase a certeza que seria professor efetivo da UFAL. Não tinha caído a ficha. Era incrível! Quando cheguei em casa, desabei! Era a certeza de que tinha tomado a decisão certa de jogar tudo para o alto. Não era aquilo dos cinco meses anteriores que gostava de fazer. Não deveria ser.

POSSE
A espera pela nomeação demorou. Mais alguns meses de o mínimo (do mínimo) de gastos possível em casa. Nada de avisar a qualquer outra pessoa para não gerar expectativas. Até mesmo porque sei muito bem que comigo sempre pode dar algo errado. Tinha de esperar a primeira tomar posse. Ela demorou uma semana a mais. Tive exame que demorava três dias para ser entregue e só me foi duas semanas depois.

Pela primeira vez na minha vida pós-Aracaju não tive como respirar fundo e aguentar a emoção. Voltar à UFAL já seria emocionante de qualquer jeito, mas depois daquilo tudo, especialmente após a morte do Valério, meu orientador, tinha um significado muito maior. A partir dali, com exceção da minha dissertação, minha vida desabou. Era ressurgir das cinzas já jogadas num lixão qualquer. Era ver que a melhor decisão nem foi sair do subemprego, mas saber que o meu pragmatismo muitas vezes exacerbado salvou a minha vida e me permitiu chegar a este momento.

Não era na comunicação, mas era para Contábeis e Economia. Esta última que eu via necessidade de me reaproximar, ou aproximar para valer, depois do Mestrado. Tive sorte ainda maior de chegar numa unidade que por mais que tenha problemas, especialmente por conta da estrutura, quase todo mundo se dá muito bem, independentemente de diferentes posicionamentos político-acadêmicos em dados instantes. Tive sorte gigantesca de encontrar dois professores na Economia marxistas e que, pasmem, são palmeirenses!!! A roda realmente tinha girado.

Era e ainda é muito estranho ser chamado de "senhor" na sala de aula. É ainda muito estranho ser chamado de professor, por mais que eu tenha me formado pensando que um dia seria isso. Mais ainda voltar aos espaços de debate e disputa epistemológica depois de dois anos - e quanta falta isso me fazia! - e ver todo mundo feliz e fazendo questão de me chamar de "professor". A ficha vem caindo aos poucos, mas acho que com esse texto, expurgando o passado recente, mas fundamental para a minha construção, esse processo se complete.

A VOLTA E AS INESTIMÁVEIS PARCERIAS
Comentei sobre o grupo que foi aprovado no concurso e um deles eu volto em particular. O professor Victor, chamado para Delmiro, tem características de trabalho bem parecidas com a minha, apesar de a formação ser mais para os Estudos Culturais que para a EPC - linhas que partem de uma origem comum, mas que seguem destinos diferentes e que de certa forma disputam espaço parecido no campo -, e isso vem nos fazendo desde lá a ter várias ideias de trabalho em conjunto, cada qual respeitando os interesses de pesquisa do outro. Isso é bastante difícil na Academia. Falo isso porque já é muito difícil quando as pessoas compartilham de mesmos objetos ou perspectivas teórico-metodológicas.

Dentre as ideias, uma já foi aprovada. O projeto "A reinvenção do Sertão: Economia Política, identidade e tecnologia da comunicação no desenvolvimento da cultura jovem em Delmiro Gouveia" foi aprovado e ano que vem é por em prática algumas das coisas que pensamos aqui para o Campus Sertão. Se não somos levados à Comunicação em Maceió (para nada, registre-se), traremos a Comunicação, da melhor maneira que a gente entende, para cá.

O projeto conta com seis bolsistas e um colaborador e o meu interesse maior é em aprimorar o conceito do alternativo através do padrão tecno-estético, dando sequência aos trabalhos do CEPOS da época que era liderado pelo Valério. Além disso, temos parcerias com um professor da UFPE, Jeder Janotti, e com uma professora da UFS/OBSCOM, Verlane Santos. A ideia é montar uma rede entre os três Estados, ao menos com o intercâmbio entre as pesquisas de cada um sobre música, em especial, mas também sobre cinema.

Modéstia à parte, participar de um projeto com Economia Política no título é muito massa. Poder fazer com que a EPC torne-se razoavelmente conhecida para valer por aqui é um dos meus objetivos e que espero conseguir até 2020; que Alagoas seja um dos Estados com abertura para a temática e uma referência neles - por mais que o CEPCOM tenha dado um passo importante, e maior que as suas pernas, até 2010.

Quanto a pesquisas, este ano eu só não parei por conta de duas pessoas. Sou fascinado por futebol e a melhor coisa que já fiz na vida foi querer estudá-lo e isso gerou o que acho que é a melhor produção que já realizei, a minha dissertação. Porém, não tive tempo nem para revisá-la, ideia lá de novembro do ano passado. Só produzi graças a um baiano, formado em jornalismo na UFS, e que fiz uma co-orientação não oficial de TCC do final de 2013 para 2014.

Irlan Simões me fez entrar na seara dos estudos mais ligados à identidade, já que eu analiso a apropriação dos esportes enquanto produtos midiáticos e as relações de poder e econômicas nisto. Produzimos dois artigos, apresentamos dois trabalhos, mas ainda aguardamos espaços para a publicação. Um é sobre as possibilidades de estudos da EPC sobre futebol, outro é um histórico de tratamento dos torcedores no Brasil, com o processo de elitização marcando início e as mudanças atuais.

Os encontros até que foram poucos neste ano, mas a parceria é frutífera, especialmente pelo interesse mútuo em construir os estudos sobre futebol numa perspectiva crítica comunicacional, a qual acreditamos e defendemos que seja a EPC. Não estou mais sozinho nesta batalha e isso é muito bom.

Por fim, mas numa ordem de importância pessoal inversa, retomar os estudos sobre a EPC. Ano passado, fui convidado pelo então presidente da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura no Brasil para coordenar um mapeamento dos estudos da EPC no país, tendo em vista que em 2014 comemoramos 10 anos da entidade. Não pude fazê-lo. Assim que acabou o concurso, voltei a entrar em contato e ele me disse que uma orientanda do professor Bolaño estava fazendo algo parecido na UFS.

Mandei e-mail para ela para saber se poderia ocorrer uma parceria, mas imaginando que o conflito de interesses não fosse permitir, afinal esta era a base do tema de pesquisa dela. Mas não. Foi o contrário. Ela topou e apesar de algumas dúvidas na primeira reunião, conseguimos encaixar uma programação de trabalhos interessante.

De abril para cá foram três artigos, três apresentações e a certeza de uma vontade em comum: ir para a frente de batalha em prol do crescimento da EPC. Estivemos juntos apenas em três espaços, mas imagino que xs demais companheirxs deste eixo tenham percebido o tamanho da nossa disposição para isso ocorrer. Dentre as coisas incríveis da parceria estão as broncas que demos simplesmente ao maior nome da EPC da América Latina, um dos principais do mundo. Eu voltei para casa depois de ir a Sergipe em novembro pensando: "pôxa, demos bronca no Bolaño...".

No Rio de Janeiro, no final do mês, por mais que eu estivesse muito mal naquela semana, ela foi brilhante e demarcou espaço importante para a nossa proposta. Aliás, ela é brilhante! O que passei a ver desde o início da parceria em abril, de carregar um grupo nas costas, com direito a seminários e conseguir recursos através de editais mexendo neles sozinha, só me faz pensar que se eu fosse professor de um PPG e fosse da EPC me aproveitaria que em Sergipe não tem doutorado e trazia. Dentre as nossas características em comum, está a de se tiver de carregar vários pianos sozinhx, nós o fazemos.

Ter alguém com a mesma força para entrar numa guerra do tamanho que é o da luta epistemológica do campo, mesmo com todas as dificuldades que temos por estarmos iniciando uma carreira acadêmica e por uma conjuntura que pouco nos favorece, é, com toda a certeza, a melhor coisa deste 2014. Não sei se ela já percebeu, mas é incrível quando os dois se juntam para conversar sobre isso com qualquer outra pessoa. Acredito que não fazemos a crítica pela crítica e isso dificulta qualquer imputação sobre uma maior maturidade acadêmica.

Penso ainda o que ocorreria caso trabalhássemos juntos num mesmo espaço, fosse no velho CEPOS que dava muitas condições de trabalho para pessoas que nem nós - com um claro apoio para isso -, ou mesmo no OBSCOM, na UFS, cuja possibilidade de construção desta luta é central por conta da presença de Bolaño em Economia e na Comunicação.

POR FIM, ENFIM...  
Aí, nos últimos dias de 2014 me vejo como professor efetivo da universidade que eu prometi a mim mesmo que um dia retornaria para mostrar que é possível construir; vejo-me retomando um processo de construção intelectual que parou por 1 ano e meio; vejo-me com segurança para poder fazer tudo que a minha cabeça de maluco produtivo resolve pegar para fazer; vi-me numa banca de seleção para professor de universidade federal esta semana!

São muitos os desafios para 2015. Exigirão muito de mim e espero que eu consiga dar conta deles da melhor maneira possível, para que eu chegue neste meu cano de escape contando o tanto que consegui evoluir.

Teria muitos agradecimentos a fazer. À tia que me ouviu reclamar muito de tudo no início do ano. À enorme paciência dos meus pais em ter um filho tão desapegado que nem eu. Aos amigos, casos de Homero e Victor, os poucos que me viram no pior momento da minha vida - e talvez tenham se assustado. Mas uma pessoa que eu citei e que, por mais que pequenos contatos já tivessem ocorrido em 2013, 2014 proporcionou um conhecimento e uma relação de companheirismo de forma efetiva.

Aprendi muito ao perceber que estava num poço sem fundo. Aprendi muito mais ao sair dele. Aprendi até Lógica Formal rs. Mas se teve alguém que me ensinou mais neste ano se chama Joanne Santos Mota. Dentre várias outras coisas porque o convívio me deu a possibilidade de perceber deficiências e contradições em mim - e jornalista odeia admitir erros. Como disse a ela noutro dia, já está no meu panteão de heroínas e heróis, independente de qualquer coisa. Se hoje eu posso dizer que todos os milhares de problemas que passei de junho de 2012 até aqui de certa forma valeram à pena - por mais que pudessem ter pego mais leve... -, ter tido a oportunidade de conhecê-la foi a melhor coisa de 2014.

domingo, 9 de novembro de 2014

[Viagens] Saindo de um câmara criogênica

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Ao apresentar as falácias no terço de Lógica formal na disciplina que dou aula, brinquei com os alunos sobre a falta de comprovação sobre a criogenia. Esta poderia ser uma falácia por ainda não ser comprovada pela ciência. Mas vai que um Walt Disney ressurge em mente e corpo (vale a pena ver a animação que está lincada)?

Tudo isso para dizer que voltei a Aracaju após quatro anos. Não tinha noção que fazia tanto tempo que não voltava para lá. Voltando, percebi que da última vez tinha ido para apresentar um trabalho do núcleo de estudos e para ver as possibilidades de estudar no mestrado da Unisinos. Depois, passaria na seleção, moraria por dois anos em São Leopoldo-RS, passariam por boas e ruins, voltaria para Maceió e passaria por péssimas e eis de volta.

Sergipe tem uma parcela importante na minha formação. Foi lá que passei dos 2 aos quase 12 anos e cuja mudança nos anos finais foram preponderantes para a minha constituição moral. Maior parte dos princípios que utilizo para as relações sociais foi construída ali. A mudança para cá foi essencial para uma dificuldade da minha parte em mudanças, mesmo após o (essencial) período no Rio Grande do Sul.

Voltar para Sergipe ainda tem um peso enorme. É a passagem pelo Rio São Francisco, ainda que desta vez tenha sido à noite. Rever xs poucxs amigxs desde aquela época. Nesta viagem pude rever dois amigxs de infância. Uma com uma filha de 3 anos e outro com um filho a nascer ano que vem. Pudemos conversar mais do que, inclusive, nas outras vezes que voltei a Aracaju, geralmente por conta de algum evento estudantil ou acadêmico. Relembrar uma cidade que já começava a ter cada vez menos resquícios na memória.

Claro que não terá o mesmo peso de quando eu puder apresentar a minha pesquisa para estudantes de Comunicação (agora Jornalismo e RRPP) daqui da UFAL, mas voltar como professor para o lugar que eu imaginava que só sairia justamente para cursar Jornalismo em Alagoas pode ter sido o tilintar final da ficha caindo que uma nova fase começou.

CEPOS
Dois dias de atividades numa sala cheia de computadores, com pessoas trabalhando montando projetos. O primeiro dia de volta a uma sala com o nome de CEPOS na porta foi bem complicado. Impossível não lembrar daqueles meses finais de Unisinos, de olhar para uma porta fechada e de uma espécie de apagamento de uma trajetória acadêmica gigante.

Por mais que eu queira ser racional demais, teve um momento que silenciei em frente a este notebook, pensando que já havia feito isso tantas e tantas vezes naqueles tempos de Mestrado. Daí ser impossível não ter ficado quieto por alguns instantes naquele dia. Como também era impossível não fazer comparações, mesmo que eu tenha chateado uma pessoa de lá.

Realmente não sei se seria mais fácil. Não nego a ninguém que tínhamos diferenças e que havia algumas arestas a serem corrigidas para a continuação da minha parte. Porém, eu sei que não seria tão difícil. E aí de forma geral. Para seguir o avanço da EPC. Para seguir os meus avanços de vida acadêmica... Aprendi da forma mais difícil que por mais que eu seja "radical demais" e que tente lutar até ser a pessoa que, na pior das hipóteses, vá apagar a luz, tem coisas que fogem do nosso controle. E isso foi a pior lição que o meu período no Rio Grande do Sul me trouxe.

Só agora é que começo a me ver, ao menos um pouquinho, como membro deste novo Grupo de Pesquisa Comunicação, Economia Política e Sociedade (CEPOS). Em Sergipe, senti-me como se tivesse descongelado da defesa da dissertação para agora. Inclusive, esse foi um dos motivos da visita, conversar sobre as alterações naquele material para, quiçá, um futuro livro. Ouvir novamente que seu trabalho era/é muito bom - e ver a anotação do "diamante" sobre isso - após uma experiência ainda mais complicada no final do ano passado também serviu como alento.

As dificuldades se agigantaram coletivamente. Como quase sempre eu quero brigar até o fim, mas aprendi que nem sempre isso é o mais importante. A construção se dá de outras formas, seja pela produção acadêmica ou, especialmente, pela forma de se relacionar e respeitar (palavrinha difícil para qualquer área) outras pessoas. A tal da práxis, no final das contas.

E sabe se lá o porquê, uma determinada área que não dou muita bola, justamente porque fugiria do meu controle racional, resolveu sair da câmara criogênica após alguns anos criando um novo laço com Sergipe. Se sempre tive motivos para voltar, agora tenho mais um. Se os outros já não eram quaisquer motivos. Agora então...

sábado, 20 de julho de 2013

Coleção - Camisa Nº 4

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Se fosse seguir a ordem, do período que esta camisa passou à minha posse, ela demoraria mais alguns meses até aparecer por aqui. Explico, esta camisa era do meu pai e ele me deu já quando tínhamos voltado a Maceió, até mesmo porque até então eu não tinha camisa do clube local. Explicarei...

Moramos de 1990 a 2000 em Aracaju-SE. A minha referência de futebol em Alagoas foi o CSA, especialmente por conta do tetracampeonato do final daquela década - com direito à final da Copa Conmebol, ainda hoje o único nordestino a chegar numa final internacional. Se virei palmeirense, em casa de corintiano, graças à TV (e à era Parmalat), a escolha foi herdada no Estado de origem. Não à toa que em Sergipe torcíamos, ou simpatizávamos, com o Confiança.

Lembro (bem) de ter ido a uma partida contra o Itabaiana, no Estádio Presidente Médici, pela Série C de 1997. Derrota de 2 a 0. Além de ter ido alguns anos antes disso, para o Estádio Rei Pelé para ver uma partida do CSA a qual não me recordo. Só sei que fui ao estádio e, quem diria, dormi, cansado da viagem realizada horas antes de Aracaju para Maceió.

Esta camisa tem boas histórias. Ela chegou à família por meio de uma tia, que trabalhava numa (então) grande livraria de Maceió pelas mãos do então presidente do CSA, Arnon de Mello Neto. O nome não é mera coincidência. Ele é filho do senador Fernando Collor, e inclusive falaria sobre ele posteriormente, num equívoco, em meu ver, de uma revista nacional. Ele fazia compras na livraria/papelaria e ganhou, se me lembro bem, duas camisas no período. Como é a única azulina da família, deu os uniformes ao meu pai.

Este é de 1999, sendo utilizado na Copa do Nordeste daquele ano, em que o CSA foi eliminado pelo Bahia nas semifinais, mas garantiu vaga para a Copa Conmebol com o bom torneio realizado. Eu não encontrei imagens, mas ela teria sido utilizada também no torneio sul-americano. Esta não é a utilizada no quarto título seguido, conquistado em 1999, porque nela o patrocínio da Vasp pulou para frente e o da Tampico para trás da camisa, que, por sinal, é bem bonita, apesar do material ser pesado.

Ainda deu tempo de em Aracaju o meu pai ser questionado nas ruas do Centro de como ele tinha conseguido esta camisa. Não lembro que fim levou a do ano anterior, provavelmente (e infelizmente) deve ter ido para o lixo. Esta resiste bravamente, guardada, como item da minha coleção, a qual deve ter sido entregue a mim em 2004 ou 2005.

Camisa 4
Centro Sportivo Alagoano
Réplica
1999
Valor não recordado

domingo, 23 de junho de 2013

Coleção - Camisa Nº 3

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Esta traz em si uma história trágica (que eu não contarei), ao mesmo tempo que representa o penúltimo título do Campeonato Paulista do Palmeiras, o que veio num Estadual disputado em dois turnos por pontos corridos, ambos vencidos pelo alviverde, com pontos corridos, ganho com várias partidas de antecedência, com uma derrota apenas - se não me engano - e do chamado "ataque de 100 gols".

Da era parmalat, eu diria que representa uma geração intermediária entre aquela que acabou com o jejum de títulos, com bicampeonatos paulista e brasileiro e título do Rio São-Paulo; da geração Felipão, com vice-campeonato brasileiro e títulos da Copa do Brasil, da Copa Mercosul e da Libertadores. Ainda assim, era um timaço. Um super ataque, com Luizão marcando 22 gols; Rivaldo, 18; Müller e Djalminha, 15, em 30 jogos disputados. No todo, foram 102 tentos.

Devo ter ganho essa camisa no segundo semestre daquele ano. Lembro que quando a minha mãe chegou com ela chorei, reclamei e esperneei muito por conta do número. Queria a 9 do Luizão, não a 10. Mais de uma hora depois, ainda com o rosto cheio de lágrimas, olhei de novo o 10 na camisa e saí com:

"- Não tem problema, não, é a camisa do Djalminha".

Camisa 3
Sociedade Esportiva Palmeiras
Réplica
1996
Adquirida em Aracaju-SE
Valor não recordado

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Coleção - Camisa Nº 2

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Tudo bem que a atual fase da Seleção brasileira de futebol não seja boa, mas a segunda camisa da coleção também não era de um bom momento. 24 anos sem ganhar uma Copa do Mundo FIFA. Época de o primeiro presidente eleito por voto direto após a ditadura militar ter sofrido impeachment, morte do grande ídolo nacional meses antes (Ayrton Senna). Porém, ainda assim, havia certo interesse sobre a participação da seleção canarinho - por mais que a mídia, né Dunga?, não confiasse tanto na seleção de Parreira. 

Eu tinha 6 anos e creio que a maioria das pessoas que viveu aquela disputa final de pênaltis deve lembrar em que lugar estava. Esta camisa, especificamente, tem uma história legal a se contar. Primeiro, reparem que não há como duvidar que se trata de uma réplica, já que o modelo é parecido com a usada na Copa de 1990, além da frase de incentivo ao tetra no lado direito. Ganhei da minha madrinha, provavelmente numa das então corriqueiras viagens a Maceió.

Uma semana antes do primeiro jogo do Brasil, a única TV que tinha em casa - tempos longínquos em que os aparelhos eram muito caros... - quebrou. Isso logo depois de eu ter mudado o canal, apertando uma das 13 teclas, antes de ligá-la. Se foi por conta disso, ou não, não sei, mas que a TV parou de exibir imagens, parou. Lembro de ter comentado: "ao menos dá para ouvir a narração".

Enfim, deu tempo de consertar. Passaram os jogos e devo lembrar apenas da primeira partida contra a Suécia, em que não assistimos porque, meu pai, minha irmã e eu fomos jogar bola na garagem, enquanto o Brasil jogava mal e Romário salvava a pátria com um bico. E, óbvio, da final.

Era muito fã do Romário - segui fã, apesar do que ele fez em 2000 contra o Palmeiras e sigo com a sua (surpreendente) atuação em Brasília - e em casa tinha além dos meus pais e da minha irmã, um vizinho. Prorrogação rolando e o Viola, na época no Corinthians, entraria. Não lembro se a Copa foi depois daquela comemoração imitando o porco na final do Paulista, que eles perderiam de goleada no jogo de volta. O vizinho começou a dizer que o Romário ia sair. Eu dizia que não.

Ele seguia perturbando, perguntando se eu tiraria a camisa do Brasil se o Romário saísse. Eu repetia que não, ele não ia sair. Muito fanático na época, resmunguei, provavelmente chorei, mas o Romário não saiu do time. Bateu um pênalti que acertou as duas traves antes de entrar e o Baggio fez o que fez. Brasil tetracampeão mundial e a certeza de uma infância/adolescência com o Brasil em três finais seguidas e com dois títulos mundiais conquistados. Tempo bom que não volta mais...

Camisa 2
Brasil (Confederação Brasileira de Futebol)
Réplica
1994
Ganha em Aracaju-SE
Valor não recordado

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Eleições, mais eleições e pecados

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Domingo de eleições e aquela vontade de criança de ir lá acompanhar os pais para colocar o papelzinho na urna ou apertar as teclas quando nos primeiros anos de urna eletrônica ficam só na memória. Junto a uma forte dor nas costas desde o dia anterior e a um tempo abafado típico da úmida São Leopoldo então... 

Enfim, foram as minhas primeiras eleições como eleitor fora de Maceió. Mais que isso, foi a primeira experiência como eleitor de cidade do interior e a diferença é enorme e olha que São Leopoldo não é tão pequena assim e fica na região metropolitana, ainda que correspondendo ao Vale do Rio dos Sinos. 

Primeiro que eram só três candidatos a prefeito, um do PT, outro do PSDB e um último do PPS. Ou seja, siglas que, por opção ideológica, eu não vejo diferença de uma para outra. Se bem que, por opção ideológica, eu não voto em nenhuma, já que discordo completamente do sistema de representação que conforma a, em que você oferta a uma pessoa o direito de gerir a cidade em que se mora e a algumas dezenas o dever de fiscalizar a atuação desse gestor e propor alterações nas leis. Poder popular? Nem em outra galáxia. 

Além disso, é nesta situação que se percebe a importância do horário eleitoral. Por mais que até eu tenha tentado ler alguma coisa nos portais de notícia da região durante a semana sobre as propostas dos três candidatos, mais para ver as contradições entre eles do que qualquer outra coisa, só se conhece aqueles que aparecem em placas espalhadas em casas e nas cidades. O candidato do PPS mesmo, sem recursos, pouco vi – mais em noticiários do que nas ruas. 

Porto Alegre 

Ah, o que víamos na TV no horário eleitoral? Os candidatos a prefeito e a vereador de Porto Alegre. Confesso que a minha curiosidade me fez ver o primeiro dia, dedicado aos candidatos a vereador, e, provavelmente, só o sotaque muda de um Estado para outro; e vi um dia dos candidatos a prefeito, além de vê-los constantemente nos intervalos comerciais. 

Tecnicamente, surpreendeu-me a campanha da Manuela D’Ávila (PCdoB), que tinha uma movimentação de câmera diferente quando ela falava. Politicamente, a tentativa do candidato do PSDB de defender a austeridade, com corte nos gastos públicos, porém, criticando a falta de gastos em setores primordiais – no debate, ele chegou a questionar o candidato do PT sobre o porquê do governador Tarso Genro não ter cumprido a promessa de garantir o piso salarial aos professores, como se Yeda e cia. fossem cumprir... 

No final das contas, Manuela começou a campanha liderando, mas perdeu o fôlego para máquina administrativa sob comando de Fortunatti (PDT), que venceu ainda no primeiro turno e com porcentagem de votos bem tranquila. Em terceiro, Villaverde (PT) diminui até mesmo a média normal de votos petistas na capital. Com as duas forças de oposição na capital divididas e demorando para atacar a gestão de Porto Alegre – até mesmo porque os três partidos são base do Governo Tarso e do Governo Dilma – deu no que deu. O prefeito que fecha bares, privatiza praças, parques e espaços culturais e que ajuda a defender tatu-bolas de plástico foi reeleito. 

Voltando a São Leopoldo, eu li algumas coisas sobre a confusão do PT para indicar o nome para a prefeitura. O prefeito de então era do partido, mas não podia se recandidatar por estar num segundo mandato. Tiraram o representante do Governo do RS em Brasília para ser candidato na cidade, mas derrubaram o nome do cara internamente. Sobrou para um terceiro que, conforme papos da barbearia, não conseguiria a simpatia nem da família, imagina da população. 

Dois dias antes do pleito, vi um jornal da região com a pesquisa do mês na capa. Ela invertia o que pesquisa do mês anterior dizia, o candidato do PT tinha pulado para a liderança, muito à frente do candidato do PSDB. A mania de ler tudo me fez ver que esta pesquisa foi contratada pelo candidato da situação, enquanto a outra foi do candidato da oposição. Ou seja, alguém confia mesmo em pesquisas – alguém falou no DataFALHA aí ? 

No sábado, acometido por uma forte dor nas costas, ainda fui obrigado a passar algumas horas da tarde deitado ouvindo carreatas, buzinaços e fogos de artifício de um dos candidatos em frente ao prédio. Ô vontade de votar... 

No dia seguinte, a dor só deu trégua à tarde e fui votar. Perto de casa, fui a pé ao Centro de Espiritualidade Cristo Rei, onde “treinam” os padres. Antes de chegar lá, um carro passa por mim com a bandeira com o número 45 e grita o nome do candidato. Respirei fundo e deixei na mente o que queria ter xingado falado. Antes da entrada do CECREI, chega alguém para indicar o candidato que ajuda a vila – e nenhum policial por perto para um lugar com cinco secções, se não me falha a memória... 

Ao menos, não havia ninguém na fila. Até arrisquei votar numa legenda para vereador só para ver no que ia dar, mas a cidade não deve ter nem representantes de partidos mais próximos à esquerda, então só apareceria “VOTO INVÁLIDO”/“VOTO NULO”, nesta ordem, mesmo. 

À noite, o resultado mostrou que as duas pesquisas estavam erradas. O candidato do PSDB venceu as eleições, mas por uma diferença menor que 10%. A tempestade que caiu em seguida impediu maiores comemorações, ao menos de forma audível. 

Mania desde criança, quando ficava até altas horas ouvindo a apuração pelo rádio e as análises na televisão, acompanhei a apuração pela internet também em outras cidades. 

Em Maceió, se em 2008 foi “óbvia” a reeleição do prefeito com uma avalanche de votos (80%), a fácil vitória do candidato ligado ao governador, do PSDB, surpreendeu. Travestido de novo, mas filho do ex-ministro do TCU e senador Guilherme Palmeira e sobrinho de Vladimir Palmeira, Rui Palmeira representa a oligarquia política local, com vistas às eleições ao governo em 2014, quando Teotônio Vilela não poderá mais se candidatar. 

Vence um governador que teve um primeiro ano de mandato terrível, lá em 2007, com greves em todos os setores do funcionalismo público estadual. Fora que a eleição de 2006 foi contra o usineiro João Lyra, que até hoje sofre para repor as perdas financeiras de campanha – com direito à falência, que vai e vem, do grupo empresarial que conta também com um jornal de periodicidade diária. Em 2010, o enfrentamento foi contra os ex-governadores Ronaldo Lessa e Fernando Collor (ex-presidente também). Em 2012, o candidato do governador venceu o do “chapão” da base aliada da presidenta Dilma. 

Ronaldo Lessa foi o grande derrotado. Se já seria derrotado, segundo as pesquisas mais recentes, ainda no primeiro turno, ainda viu sua candidatura não ser permitida pela justiça eleitoral, forçando o “chapão” a indicar de última hora Jurandir Boia. A fritura de Serra em São Paulo não chega nem perto do que Lessa sofreu de derrotas políticas nas últimas duas eleições. Para mim, em meio a uma nova candidatura a Governo e uma super disputa para a vaga do Senado (de Collor) que se avizinha, com a volta de Téo para disputa-la, de repente é hora do ex-governador, que já representou a mudança no Estado, reduzir o ímpeto e disputar para deputado federal em 2014. 

Ah, vale a pena dizer também que foi uma campanha com vários candidatos. Do lado do Governo, o DEM do vice Nonô lançou o apresentador de programa policial e deputado estadual Jeferson Moraes. Do lado do chapão, Galba Novaes, vereador e fiel escudeiro de Collor, também concorreu, ficando em terceiro. Além disso, tivemos candidaturas de PSB e PSL, para além da “tradicional” do PSOL-PSTU, que conseguiu mais de 5% dos votos, num bom crescimento em relação às últimas eleições. 

Conheço o Fleming, candidato do PSOL nessas eleições. Nome novo no partido de Heloísa Helena e Mário Agra, é amigo de amigos meus, mas tenho divergências em relação a algumas coisas – que acabam por agregar ao PSOL também. Confesso que não sei se votaria nele se estivesse em Maceió, mas, ao menos, fez uma campanha interessante e com maior aproveitamento e diálogo através das mídias sociais. Pena que não vi debates – e a Gazeta, afiliada da Globo em Alagoas, não fez o dela. 

Votos expressivos também em Aracaju, terra que vivi minha infância. Nomes velhos como João Alves, Almeida Lima (que desistiu no debate, há dias da votação) e Valadares (ainda que o filho do senador) na disputa. A dobradinha PT-PCdoB e base aliada, há 12 anos no poder, perdeu para o velho João Alves Filho, do DEM, e ainda no primeiro turno. 

No Rio de Janeiro, onde estou agora, apesar de uma excelente campanha de Freixo (PSOL), o Eduardo Paes levou ainda no primeiro turno. Ainda assim, o PSOL conseguiu 28% dos votos numa importante capital do país e se mostra a oposição real num Rio de Janeiro sob comando do PMDB na cidade e no Estado. Vale lembrar também que uma campanha muito elogiosa a do deputado estadual, colocando a militância nas ruas e sem nada em troca. 

Em São Paulo, Russomano foi o cavalo paraguaio e após crescer muito, gerando dúvidas sobre a dualidade PT-PSDB na capital, ele perdeu fôlego nas últimas semanas e viu Serra e Haddad o deixarem bem para trás. Serra joga a vida política neste segundo turno, ainda que com uma rejeição imensa, na casa dos 40%, que tendem a colocar o petista como favorito. 

SUPRESAS 

Por fim, as surpresas. As maiores delas foram as eleições de vereadores do PSTU, isso mesmo, PSTU, em duas grandes capitais. Cláudio Roberto no Pará foi alçado à “fama” num debate a governador em 2010, mostrando-se como alternativa – debates “bipolares” sempre abrem espaço para a esquerda mais crítica aparecer, desde que haja nomes que se aproveitem disso. O outro nome foi o de Amanda Gurgel em Natal. Professora conhecida por um depoimento na ALE do Rio Grande do Norte em maio do ano passado publicado no Youtube – com direito à participação no Faustão –, é a vereadora mais votada da história da capital potiguar. Ah, Heloísa Helena foi reeleita em Maceió, mas com um PSOL com muitos candidatos acusados de compra de votos – a ver... – e com 10 mil votos a menos que em 2008. 

Resta ver como será o posicionamento e a pressão a esses nomes que, para além de esquerda, são de partidos que defendem o poder sob as mãos do povo de forma efetiva, algo bem distante do que ocorre em câmaras de vereadores. A experiência de HH em Maceió não é muito animadora...

domingo, 8 de janeiro de 2012

Em busca do El Dorado: Há doze anos e os dois sonhos

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Noite passada foi uma das mais estranhas de todas. Dormi tarde, após ter revisto 2001: Uma odisseia no espaço  - que em breve será comentado aqui - e acordei mais tarde do que o normal, quase duas horas a mais do "limite" rotineiro. Algo que já seria motivo para ter aquela lerdeza quase natural de quem dorme além da conta.

Mas o que mais me intrigou foi o fato de ter tido ao longo da noite dois sonhos cujo eixo foi o mesmo. Sonhei por duas vezes que perdia um voo, algo que quase ocorreu na minha primeira viagem de avião, lá em 2007, por total falta de experiência e confiança excessiva nas outras pessoas. Entretanto, algo que de lá para cá não chegou nem perto de ocorrer.

No primeiro sonho, eu estava num lugar desconhecido, saindo de um evento qualquer correndo para pegar um ônibus a tempo de chegar no aeroporto e pegar o voo, que estava marcado para as 20h. Para variar, faltou sorte e houve algum acidente que impedia que os ônibus chegassem até ali. Lembro de ficar o tempo inteiro olhando o horário e de perguntar para alguém se topava dividir um táxi, apesar de ter que andar para chegar num - mesmo que a outra pessoa não tivesse com a mesma pressa que eu e que eu não saiba quem seja ela.

Minutos, horas, enfim, momentos depois, outro sonho. Estava na casa dos meus pais - ou, pelo menos, conversando com o meu pai - e desta vez despreocupado com o horário do voo. Imaginava que ainda teria algumas horas para chegar no aeroporto e estava quase tudo pronto, bastava chamar o táxi para irmos. Curiosamente, bateu uma dúvida se o horário era às 20h ou se já tinha passado, às 18h - hora que percebi que estava atrasado no sonho anterior. O que gerou uma mistura do eu do anterior com o atual. Uma tremenda confusão.

Ainda assim, resolvi olhar para o comprovante da viagem e percebi que realmente tinha me programado errado. O horário do voo era às 18h. Sem qualquer alternativa, o desespero bateu. Já que provavelmente a companhia aérea não iria me encaminhar de graça para outro horário, nem eu imaginava se teria dinheiro para comprar uma nova passagem na hora. No susto, acordei! Não sei se tanto pelo sonho em si do que pelo fato de ter sonhado com quase a mesma coisa duas vezes numa mesma noite.

Após esse curioso relato sobre o meu mundo onírico, vamos ao post que sairia de qualquer jeito hoje e, fica para análise d@s leitor@s deste espaço, poderia ter alguma relação.

12 ANOS
Nos últimos dias vinha lembrando de que hoje completaria doze anos da minha volta a Maceió e do texto que eu fiz há dois anos sobre o fato de eu não me sentir em casa por lá. Apesar que depois da volta em setembro, eu já perceber que não me sinto em casa em lugar algum, seja lá ou aqui em São Leopoldo, e ter chegado à feliz definição que talvez o problema seja eu.

No final do ano passado, em contato com um colega de grupo de pesquisa que mora em Sergipe, relembrei o carinho que tenho pela cidade, em especial por Aracaju, onde passei toda a minha infância. Ainda mais quando leio notícias de amistosos dos times sergipanos com os alagoanos, casos do Confiança, do River Plate e do Itabaiana, cidade que pude conhecer graças a um jogo, em 1997, do CSA contra o Itabaiana em que perdemos por 2 a 0. Há mais de um ano que não falo ou entro em contato com o pessoal de lá...

O futebol, principalmente para este período, é o que também me faz lembrar dos anos de Maceió. Estamos prestes a ter o início de mais um Campeonato Alagoano e eu estou acompanhando mais de perto, através da internet, as notícias sobre o Estadual de lá do que o daqui. Acho que até mesmo a dupla Gre-Nal não estou acompanhando como poderia, ficando restrito aos sites nacionais. Afinal, justo quando eu me identifiquei como torcedor apaixonado pelo CSA, para além do falar que sou azulino, meses depois vim para o Rio Grande do Sul.

É óbvio que pai e mãe fazem falta, principalmente o meu pai, que era a pessoa com a qual eu acompanhava os jogos tanto dentro do estádio quanto pela televisão, um grande parceiro. Não é à toa que todas as vezes que nos falamos por telefone sempre comentamos algo referente a futebol. Os meus cachorros também fazem falta, davam a alegria que às vezes falta. Soube que a minha avó materna vive olhando para a estátua do laçador que dei para ela quando a visitei em setembro...

Mas a viagem para lá me mostrou que o ideal a se fazer por enquanto é manter a distância. Tem problemas que continuam os mesmos, ou pioraram, e se já não tinha muita paciência enquanto estava por lá, agora menos ainda. É difícil para as pessoas entenderem o meu desapego familiar, a ponto de não querer voltar para Maceió nestas férias, mas, modificando uma frase orwelliana, se as pessoas são diferentes umas das outras, algumas são ainda mais diferentes.

Para terminar este texto, que também serve para marcar os dez meses de São Leopoldo, completados ontem, uma música que acabo de escutar - não por conta deste post:

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Dez anos de Maceió (ou "Quero ir para casa")

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Manhã de sábado. Dali a poucos minutos, parte da família viajaria. Não que fosse algo incomum, afinal o percurso Aracaju-Maceió era feito quase que de quinze em quinze dias. Porém, desta vez era diferente, quase que definitivo. Significava nunca mais voltar ao que outrora fora o lar.

O filho mais novo, no que é possível para alguém com 11 anos, despede-se de cada cômodo da casa, como se fossem pessoas que deixara ali após uma convivência de tanto tempo. Por mais que voltasse uma vez ou outra para a cidade, sabia que nunca mais veria sequer a frente da residência - verde com calçada vermelha e portão azul.

Nada de garagem para jogar bola sozinho, do quintal para rachar os dedos nas sextas à noite em jogos com o pai. Nada dos corredores para andar de bicicleta passando por obstáculos ou para correr atrás do cachorro - com uma sandália na boca. Nunca mais estaria ali.

E pensar que um pouco mais de um ano antes poderia ter ocorrido algo que evitaria tudo aquilo. Por pouco a ligação material da família com a cidade natal seria vendida. Mas não foi. E o que importaria? Nem mesmo sete ou oito meses antes daquele 8 de janeiro de 2000 havia a decisão da volta a Maceió. Talvez até fosse impensável.

Mas o tempo passa, algumas pessoas nascem e outras morrem, mas geralmente a situação só "pesa" mesmo quando chega ao fim alguma vida próxima - e como, por infeliz coincidência, eu sei disso neste momento. Tudo muda.

Por mais que dissesse que quando tivesse idade suficiente se mudaria para Maceió para cursar Jornalismo por lá, a mudança era muito cedo e, provavelmente, não tentaria essa aventura de morar na casa da avó ou de tias.

Além disso, viver quase dez anos num local é criar apego o suficiente para não querer sair de lá. Por mais feias que fossem as praias sergipanas, por mais feia e pequena que fosse Aracaju, o garoto se sentia parte dela. Por mais que fosse tímido, tinha a família de amigos que eram mais amigos que a própria família.

Mas já não adiantava mais. A escolha havia sido feita pelos pais e mesmo qualquer resmungo - e foram muitas reclamações depois - não adiantaria nada. Bastava agora mudar, da mesma forma que aconteceu com os móveis, com o cachorro, com a família.

O passado não daria facilidade nenhuma. Pelo contrário, seria uma vida nova. O que significaria, na opinião dele, uma mudança de atitudes. Aquele menino estudioso, tímido, mas chorão e mimado para caramba tinha que ter uma postura melhor.

Dez anos já se passaram daquele dia e a criança virou adulto - outra porcaria que o tempo nos traz. Individualmente, o crescimento - não só na altura - foi imenso. As responsabilidades assumidas no fazer parte dos problemas financeiros da casa, os próprios problemas financeiros antes inimagináveis, em termos de estudo então, nem se fala. Entretanto, foram principalmente os problemas de ordem de saúde familiar que o fizeram se desenvolver.

E essas problemas familiares...

(Antes de qualquer outro comentário, é bom que se explique que a partir de agora se entende família como as pessoas com laços sanguíneos que moram com ele; o resto é parente - que enche bastante a paciência! Você só sabe o quanto podem ser insuportáveis quando está mais perto deles.)

Hoje, 08 de janeiro de 2010, o garoto, agora um rapaz de 21 anos, continua palmeirense - sem o fanatismo daquela época -, tornou-se torcedor azulino de fato - e como isto o fez/faz sofrer. Os exemplos da vida paterna o transformaram em alguém sem qualquer vontade de estabelecer amizades, um grande chato.

Enfim, não posso garantir que o rapaz estará nesta cidade nos próximos dez anos - mal posso garantir que estarei vivo amanhã, imagina garantir que alguém continuará em Maceió -, mas é certo que ao longo dessa década se pegou muitas vezes pensando na frase "quero ir para casa" mesmo não quando não tinha motivo objetivo algum para isso.