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quinta-feira, 1 de julho de 2021

2021.15 Vidas Secas

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Deve ter sido, pelo menos, a terceira vez que li "Vidas Secas". Já li em formato normal, em quadrinhos e chegou a vez de ver as fotos ilustrativas da edição especial de 70 anos (2008). Comprei como presente para outra pessoa e depois para mim, mas ficou na estante por um tempo.

As fotos de Evandro Teixeira, um dos mais brilhantes fotógrafos brasileiros, auxilia a compreensão do que o texto indica. Para mim, relembrou ainda vários lugares em que passo ao ir para Santana do Ipanema trabalhar. Tem uma foto em especial que reconheci, pois é de um capelinha em cima de uma pedra, que fica um pouco antes de chegar na cidade.

Referência

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas: 60 anos - fotografias de Evandro Teixeira. São Paulo: Record, 2008.

 


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

2019.1 Memórias do Cárcere

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Comprei a edição de 2014 de "Memórias da Cárcere", da Editora Record, há alguns anos. A vantagem dela é que os 4 (versão inicial) ou 2 (das versões mais recentes) volumes estão juntos numa mesma brochura, o que ajuda a seguir na história da prisão do escritor alagoano Graciliano Ramos durante a ditadura do Estado Novo, de 1936 a 1937. Ao mesmo tempo, ao menos para mim, sabia que precisava ter mais tempo para lê-lo, o que me fez adiar a leitura do meu último livro do autor.

As férias vieram, com duas viagens em que me propus a ficar sem qualquer tipo de conexão com a internet - algo que nos tira bastante tempo. Até pelo ano corrido, o ideal era fazer isso. Para os tempos que podem se avizinhar, seria interessante também lê-lo agora. Graciliano foi preso pelo que escrevia em artigos e nos dois livros então publicados (Caetés e São Bernardo), ocupava o cargo de "secretário de educação" em Alagoas.

O livro é separado em 4 partes: Viagens, Pavilhão dos Primários, Colônia Correcional e Casa de Correção. Graciliano se mostra corajoso beirando o inconsequente, pois sabe que vai ser preso e mesmo assim fica aguardando a política buscá-lo em casa. A parte de Viagens é dedicada a isso, contando a viagem a Recife e, posteriormente, a que vai ao Rio de Janeiro, com todas as divergências existentes no navio com pessoas tão diferentes presas juntas, com Graciliano sem conseguir comer com os dejetos indo e vindo no chão. No Pavilhão, a organização é mais clara, com formação de coletivos e cursos realizados. A ida à Colônia Correcional marca o ápice da situação, com prisão num lugar em que, como diz um dos guardas, não há diferenciação nenhuma. É ali que Graciliano relata melhor o contato com ladrões comuns, que chegam a ensiná-lo como fazem furtos, que a figuras de esquerda mais reconhecidas. Na Casa de Correção, sala do Pavilhão dedicada a pessoas prestes a sair, Graciliano tem mais direitos e volta a se alimentar bem. É dali que sabe que "Angústia" é publicado.

O livro carrega uma polêmica desde que foi publicado, após a morte de Graciliano e, por isso, sem o capítulo final. O PCB, ao qual se filiou na década de 1940, teria censurado trechos do livro junto ao filho Ricardo Ramos? O tema veio à tona porque Graciliano descreve com uma visão positiva alguns ladrões, ao mesmo tempo que mostra militantes comunistas como de fato eram, incluindo aí características físicas, num momento histórico de reconstituição de heróis numa visão stalinista (até mesmo sobre como a arte deveria ser utilizada para a luta social). A relação com o ladrão Gaúcho na Colônia Correcional tem mais destaque do que outras e mesmo na ida à Cassa de Correção, Graciliano destaca a saudade da conversão com Gaúcho e outros ladrões.

Como o intuito deste texto é marcar os livros lidos durante o ano, não nos estenderemos. Como destaque final, é curioso como esquecemos ao tratar de Getúlio Vargas das ações realizadas durante a primeira passagem na presidência, sob golpe, com prisão de pessoas com opiniões contrárias ("comunistas") - com direito à entrega ao governo nazista alemão de Olga Benário, grávida, e Elisa Berger, além de aliciamento de sindicatos. Em outro livro, Graciliano afirma que, na década seguinte, encontra Getúlio na praia e evita cumprimentá-lo. Lições da história.

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 48.ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

"Não há arte fora da vida" - O velho Graça

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2012 marcou o 120° ano de nascimento de Graciliano Ramos. Algumas atividades e publicações foram destinadas à data. Dentre elas, uma reedição da biografia "O Velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos", escrita pelo jornalista e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Dênis de Moraes.

Li a versão de 1992 após entregar a dissertação, ainda no Rio Grande do Sul, em 2013. Importante frisar, buscava lá me manter ligado a Alagoas, especialmente a partir dos livros, e Graciliano serviu como importante elo. No mesmo ano, a Bienal do Livro de Alagoas teve como homenageado o mestre Graça, 60 anos após a sua morte, e assisti a uma palestra de Dênis sobre o autor alagoano.

Por motivos que não vêm ao caso, só pude adquirir a nova edição no ano passado, aproveitando para comprar a versão fotográfica de Vidas Secas a partir das lentes de Evandro Teixeira, que daria de presente a alguém importante. Por sinal, foi este mesmo alguém que me estimulou a finalmente tirar "O Velho Graça" da fila.

Na biografia, vemos como um autor como Graciliano foi forjando sua intelectualidade a partir de uma formação sociocultural tão nossa. É a Alagoas da capital ao Sertão, com seus problemas individuais e coletivos, que está exposta em sua produção literária. Além disso, é a construção aqui e no Rio de Janeiro, com passagens na prisão na ditadura Vargas e na União Soviética, já enquanto membro do Partido Comunista do Brasil, que passamos a conhecer.

O homem de normalmente poucas palavras aparece a partir de suas faces e de falas e textos seus e de outros que o acompanharam. Como não consigo ser próximo na escrita, há determinada característica que talvez me acompanhe - talvez também como construção de uma marca:


Graciliano fora "descoberto" graças a dois relatórios mandados ao governador de Alagoas para prestar contas sobre a prefeitura de Palmeira dos Índios, já na casa dos 30 anos, publicando Caetés aos 40, mais velho que seus companheiros da geração regionalista (de 1930) do romance brasileiro - caso de nomes como Rachel de Queiróz, José Lins do Rêgo e Jorge Amado.


Uma marca que segue na sua vida é não conseguir viver da literatura, apesar de posteriormente ser reconhecido como um grande escritor - por mais que ele não achasse seus livros lá grandes coisas. Saiu da prefeitura para ir a Maceió trabalhar rapidamente na Imprensa Oficial, seguiu a serviço do Estado até ser preso anos depois por supostamente ser ligado ao comunismo.

De navio, sairia do Rio de Janeiro para ficar mais de 10 meses no total na prisão por crimes os quais nunca foram investigados, na verdade, mal havia de concreto a dizer - mesmo depois de morto alguém do DOPS telefonaria ao hospital para confirmar se o "comunista" morrera e encerraria o fichário apenas 30 anos depois disso. Ainda assim, Graciliano chegou a ir para a pior das prisões na ditadura Vargas, em Dois Rios. Observador, é dessa experiência que surgiram os volumes de Memórias do Cárcere, que até hoje gera certa polêmica.


Graciliano encontraria com Getúlio Vargas ao acaso numa praia do Rio de Janeiro anos depois. O presidente estenderia a mão e recebia um desdém do escritor, que não esquecera do que vivera - e quase morrera - apesar de precisar de trabalhar também em alguns serviços do governo, que no setor cultural nomeara importantes nomes da literatura como servidores.

Só na década de 1940 é que Graciliano entra no PCB, especialmente porque não se via no ofício da luta, pois a sua única arma era a escrita - algo também que admito para mim. Entra no partido principalmente por sempre se colocar contra os desmandos com as classes trabalhadoras, mesmo não tendo ideais revolucionários, como aponta em determinados trechos Dênis de Moraes, entretanto o momento era fundamental para um posicionamento, ao final da Segunda Guerra Mundial e em plena Guerra Fria.


Graciliano viveu muitas situação complicadas no partido. Discordava de muitos posicionamentos, caso do aparelhamento da Associação Brasileira de Escritores, com direito a brigas entre literatas nacionais, mas cumpria as decisões vindas. Por exemplo, candidato a deputado em Alagoas, faz uma espécie de contra-campanha, ganhando poucos votos, mas ocupando o espaço e a ordem dada.
 
Sua principal batalha fora contra o realismo soviético, baseado nos informes de Zdanov, que pretendia forçar que os escritores produzissem obras que expusessem os problemas do capitalismo e apontassem o socialismo como única fonte salvadora. Graça defendia a liberdade do autor, que exibiria as contradições do sistema dada a impossibilidade de ir a fundo num relato social sem bater de frente com casos assim, mas sem interferências diretas sobre como a história deveria ser ao final.
 
Concordo com ele e essa é uma temática que muito me interessa desde a iniciação científica sobre a estética marxista a partir principalmente da obra de Lukács - e das leituras de clássicos literários que fiz antes e depois da pesquisa. A arte tem o poder de desvelar a realidade, mostrando coisas, inclusive, à frente do seu tempo, independente do posicionamento político-ideológico de quem produz. Forçar uma história é tirar o véu de algo maquilado, não mostrando a verdadeira face por trás.
 
Isso o deixou muito desmotivado, principalmente por conta da pressão vinda do partido para que alterasse o livro de memórias da prisão, Memórias do Cárcere, que acabaria sendo publicado após a sua morte sem o término. Nele, Graça humaniza tanto os criminosos presos com ele quanto as figuras do partido, que eram exaltadas enquanto militantes, mas com defeitos (físicos) expostos - sem qualquer edição à lá Stálin. Essa mini-perseguição junto ao excesso de trabalho necessário para ganhar dinheiro para sobreviver o levaram a atrasar o término do livro.


Como o livro foi publicado após a sua morte, há uma pendenga que de vez em quando aparece sobre uma possível edição a mando do PCB antes da publicação, algo negado ao se comparar os originas manuscritos com o que fora publicado. O relato Viagem já traria problemas pelos questionamentos feitos ao longo da visita aos países soviéticos, já que importunara com perguntas inesperadas.
 
Essa preocupação de Graciliano traz uma visão sobre a produção literária muito importante, além de expor uma opinião - que eu tendo a concordar também - de que a obra não necessariamente alcançaria e descreveria a vida dos operários, pois os autores geralmente estão na burguesia e não poderiam vivenciar as reais necessidades das classes subsumidas.


Para encerrar, ainda nesse quesito de forma de produção, Graciliano fora reconhecido pela secura de seus textos - talvez com exceção do inicial Caetés. Como diria Heloísa, sua esposa, do jeito que ele cortava os textos, com auxílio de uma régua a realizar dois traços paralelos e proporcionais, acabaria apagando todo um livro - algo que quase fizera em suas traduções, ao tirar "exageros" presentes em obras de autores estrangeiros.
 
Retiro o comentário que carrego comigo quando tenho que cortar palavras, parágrafos e/ou páginas para chegar no limite permitido pelas publicações:


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MORAES, Dênis de. O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos. São Paulo: Boitempo, 2012.

sábado, 25 de maio de 2013

As lições e o estilo literário dos relatórios do prefeito Graciliano

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tratamos neste espaço de vários livros de Graciliano, inclusive tentamos recriar numa crônica a bronca que enquanto prefeito dera em seu pai. Chegou a hora de tratar da produção que chamou a atenção para o homem natural de Quebrangulo, que estava bem distante de querer os holofotes para si.

A situação de como Graciliano foi parar na prefeitura é assim descrita por Moraes:

“Uma competente articulação política levaria Graciliano a concorrer à prefeitura de Palmeira dos Índios nas eleições de 1927. A sucessão municipal estava em pauta desde que o prefeito Lauro de Almeida Lima fora assassinado, em fevereiro de 1926, após desentendimento com o fiscal de tributos João Ferreira de Gusmão e Melo. Este em seguida seria fuzilado pelo delegado de polícia local. O banho de sangue traumatizara a cidade. O vice-prefeito Manuel Sampaio Luz assumira para cumprir o terço restante do mandato” (52).


Aos 36 anos, Graciliano Ramos era prefeito de Palmeira dos Índios, mesmo sem querer e sem se preocupar em fazer política como ocorria tradicionalmente no país, quando escreveu o relatório referente ao primeiro ano de mandato, enviado ao governador como uma espécie de prestação de contas. No ano seguinte, a mesma coisa, outro relato ao governador Alvaro Paes. Foi graças a algo que os políticos de hoje seguem não fazendo, que o estilo literário de Graciliano passou a gerar interesse aos editores brasileiros.

Tive acesso a estes relatórios através da 3ª edição de Viventes das Alagoas, obra publicada postumamente recheada de crônicas do autor, que tentarei comentar posteriormente. Ao final, constam os dois relatórios, recheados com o cuidado com os números e de sarcasmo para contar como foi levado cada ano de gestão. Uma aula para os políticos de hoje, numa época que Lei de Responsabilidade Fiscal estava longe de ser obrigação, ainda mais prestar esclarecimentos a cada ano no Executivo - que Graciliano abandonaria ainda no 3º ano para trabalhar na Imprensa Oficial, em Maceió.

Apesar de poucas páginas, ouso apontar os parágrafos que me chamaram a atenção ao longo de uma leitura, que gerou algumas risadas impensáveis para um documento oficial.

PRIMEIRO RELATÓRIO
As dificuldades encontradas numa prefeitura do interior de um Estado tão pobre quanto Alagoas - algo não tão diferente dos dias atuais - foi demonstrada já no início. Ainda que Graciliano Ramos vá demonstrar os gastos realizados com obras essenciais, ele opta por justificar o porquê de não ter feito mais coisas:

“Não foram muitos [trabalhos realizados], que os nossos recursos são exíguos. Assim minguados, entretanto, quase insensíveis ao observador afastado, que desconheça as condições em que o Município se achava, muito me custaram” (183).

A justificativa para que a cidade não estivesse numa situação melhor e, também, que ele pudesse desenvolver de uma maneira ainda melhor a sua gestão aparece com argumentos que bem poderiam seguir ao longo destas mais de 8 décadas transcorridas e ainda para várias cidades do Brasil:

“Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com Prefeitos Coronéis e Prefeitos inspetores e quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia advogavam” (183).

Neste primeiro relatório ele vai reclamar ainda que "os devedores são cabeçudos", "pagam ao Município se querem, quando querem e como querem", fazendo com que fossem gastos recursos para realizar as cobranças. 

Lembra-se aqui que, segundo Moraes [na biografia O Velho Graça], Graciliano se dedicou tanto às contas e às obras da prefeitura que viu o negócio da família falir, por falta de tempo para tomar conta pessoalmente. Já na prefeitura ocorria o inverso. Ainda que as receitas tenham superados as despesas, ele, humilde e sarcasticamente, deixa aberta a possibilidade de deixar o cargo para outrem ao mesmo tempo que critica o nepotismo existente - algo que também só vem a ser proibido muito tempo depois: 

“Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente do que eu; em todo o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento, etc., sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados” (190).

Por fim, destaco o fato de não existir nenhuma legislação coerente com o novo século, afinal os calhamaços de leis eram da época do Império, que dificilmente era encontrada e serviria para os novos tempos:

“Constava a existência de um código municipal, coisa inatingível e obscura. Procurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quase a recorrer ao espiritismo, convenci-me de que o código era uma espécie de lobisomem” (191).

Com 11 contos em caixa e "procurando sempre os caminhos mais curtos", com as curvas nas estradas só quando não era possível ter retas (191), ele encaminhou o relatório no dia 08 de janeiro de 1930.


SEGUNDO RELATÓRIO
Provavelmente, a surpresa causada pelo primeiro relatório não tenha sido a mesma quando Alvaro Paes recebeu o segundo. Afinal, se hoje em dia é difícil imaginar um prefeito realizar tal fato, imagina naquela época, e com tanto detalhamento e certo preciosismo crítico.

Enviado em janeiro de 1930, há repetição de reclamações, um bom relato sobre a sociedade do interior do Nordeste do período e, principalmente, um importante discurso sobre como as pessoas pobres eram mais prejudicadas sempre. Isso aparecendo desde o início, quando ele fala sobre o aumento da receita de 68 para quase 97 contos:

“E não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extinguiu favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo às extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores” (199).

Aqui, agora com ainda mais conhecimento da prática, já que o prefeito acompanhava as obras de perto, ele volta a criticar como os seus antecessores desperdiçavam dinheiro público, ao citar as estradas que existiam até antes da chegada dele, que eram "uma teia de aranha de veredas muito pitorescas, que se torcem em curvas caprichosas, sobem montes e descem vales de maneira incrível" (202).

Assim:

“Dos administradores que me precederam uns dedicaram-se a obras urbanas; outros, inimigos de inovações, não se dedicaram a nada.
“Nenhum, creio eu, chegou a trabalhar nos subúrbios.
“Encontrei em decadência regiões outrora prósperas; terras aráveis entregues a animais, que nelas vivam quase em estado selvagem. A população minguada, ou emigrava para o Sul do País ou se fixava nos municípios vizinhos, nos povoados que nasciam perto das fronteiras e que eram para nós umas sanguessugas. Vegetavam em lastimável abandono alguns agregados humanos.
“E o palmeirense afirmava, convicto, que isto era a princesa do sertão. Uma princesa, vá lá, mas princesa muito nua, muito madraça, muito suja e muito escavada” (203). 

Mesmo com as obras, os munícipes estranham tantas melhorias, mal acostumados com alguém a fazer bens públicos, no entendimento de que "se aquilo [rodovia de Sant'Ana] não era péssimo, com certeza sairia caro, não poderia ser executado pelo município" (204). 

Segue ele dizendo que após as obras, a conversa era outra, em que justificavam que aquilo só tinha sido possível graças ao aumento dos impostos ou que elas eram pagas pelos Estado. O sarcasmo volta a aparecer quando ele admite que se convencerá de que não foi ele que as realizou, dando uma aula logo em seguida: 

“Já estou convencido. Não fui eu, primeiramente porque o dinheiro despendido era do povo, em segundo lugar porque se tornaram fácil a minha tarefa uns pobres homens que se esfalfam para não perder salários miseráveis” (204).

Por fim, trago o tópico "POBRE POVO SOFREDOR", dedicado a traçar as características das pessoas que poderiam pagar impostos, a elite da sua terra, que serão tipificadas nas obras que virão a seguir:

“É uma interessante classe de contribuintes, módica em número, mas bastante forte. Pertencem a ela negociantes, proprietários, industriais, agiotas que esfolam o próximo com juros de judeu.

“Bem comido, bem bebido, o pobre povo sofredor quer escolas, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente e resmungão.

“Como ninguém ignora que se não obtém de graça as coisas exigidas, cada um dos membros desta respeitável classe acha que os impostos devem ser pagos pelos outros” (206).

Se em 30 de abril, Graciliano Ramos sairia da prefeitura de Palmeira dos Índios pensando que teria mais tranquilidade na vida e, especialmente, financeiramente para a família, estava errado. Até o final da ida, nada de tranquilidade, sendo preso e passando por várias dificuldades para sobreviver fosse em Alagoas ou no Rio de Janeiro.

Porém, nasceria grandes obras de alguém que já dava pistas de ser um grande retratista da vida social do interior do país, compondo a partir da década de 1930 o conjunto de artistas regionalistas do modernismo, ainda que mais velho que seus contemporâneos.


REFERÊNCIAS
MORAES, Dênis de. O velho Graça: Uma Biografia de Graciliano Ramos. 2.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

RAMOS, Graciliano. 2º Relatório ao Governo Alvaro Paes – 1930. In: ______. Viventes das Alagoas. 3.ed. Prefácio de Tristão de Athayde. (Obra póstuma). São Paulo: Martins, 1970. p. 197-207.

RAMOS, Graciliano. Relatório ao Governo do Estado de Alagoas – 1929. In: ______. Viventes das Alagoas. 3.ed. Prefácio de Tristão de Athayde. (Obra póstuma). São Paulo: Martins, 1970. p. 181-196.

quarta-feira, 20 de março de 2013

60 anos sem Graciliano Ramos

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60 anos, morria no Rio de Janeiro o escritor Graciliano Ramos. Para além de conterrâneo, ele me chama a atenção desde a adolescência pelo jeito característico de escrever, com outras qualidades pessoais, como a passagem rápida e marcante pela prefeitura de Palmeira dos Índios, cujos relatórios de gestão - algo difícil de existir mesmo com lei obrigando nos dias de hoje -, chamaram a atenção de escritores e editores da época.

Outra coisa, muito cara a mim é a sua consideração sobre a autonomia da esfera artística e estética diante dos imperativos ideológicos. É algo que estudei bastante numa pesquisa de iniciação científica, através da produção teórica de Lukács e de algumas produções literárias, caso das obras de Balzac. Questionei ao meu orientador se realmente numa outra forma social, se necessariamente teríamos uma melhor qualidade artística, já que isso representaria uma contradição à autonomia defendida.

Graciliano filiou-se ao PCB décadas depois de ser preso, ainda na ditadura do Estado Novo, e apesar de ser fiel ao "centralismo" do partido mesmo quando discordava das opções que vinham dos dirigentes, sempre deixou clara a sua autonomia enquanto escritor. Por conta disso, foi muito pressionado nos últimos anos de vida, especialmente por conta de Memórias do Cárcere, que trataria a experiência cruel de ser preso sem qualquer motivo aparente, trazendo as personagens de convívio como apareciam, com um ladrão podendo ter mais destaque que uma figura comunista histórica.

Sobre o "realismo socialista", ele se mostrava contrário, porque restringia a produção artística, algo desnecessário e prejudicial à arte, que era uma ordem vinda e praticada na União Soviética. Se deu bronca no próprio pai na época de prefeito, após passar por tantas situações ruins - o filho dirá que ele e outros dois irmãos ganhavam bem mais que o pai -, não recuaria numa ideia tão própria sobre a arte e, em meu ver, corretíssima. 

Ainda pretendo me organizar para realizar o diálogo entre o que estudei enquanto "estética marxista" com o exemplar brasileiro tão próprio quanto o de Graciliano Ramos. Há em sua obra a representação da situação social em sua volta, na particularidade da região de sua vivência, um Nordeste muito mais sertão que litoral. Mesmo com uma representação muito boa, seca até mesmo na forma de contar, há os espaços que comprovam a possibilidade de a arte transbordar as condições sociais dadas e mostrar as contradições do capitalismo. E isso antes mesmo de qualquer posicionamento político-ideológico que busque uma transformação social radical.

A minha ideia era tratar no dia 20 de março da biografia O Velho Graça, escrita pelo jornalista e pesquisador Dênis de Moraes, cuja edição da década de 1990 eu li recentemente. Ainda que fichado, não venho conseguindo me organizar  mentalmente para escrever, seja para artigos ou para este blog, então isso não foi possível. Ainda assim, o que era para ser uma simples postagem no Facebook, só para registro da data, virou este texto.

Por fim, para se ter uma ideia do que foi a vida de perseguições e problemas do criador de obras como Vidas Secas e São Bernardo, transcrevo trecho do epílogo que está na biografia supracitada. Quem quiser ler os meus outros textos sobre obras de Graciliano Ramos, acesse aqui.

“Três horas após a morte, uma voz anônima telefonaria para a Casa de Saúde São Victor.
- Por favor, pode informar se Graciliano Ramos faleceu?
- Sim, senhor.
- Meus pêsames. É do Departamento de Ordem Política e Social. Desejávamos saber se podíamos inutilizar a ficha dele.
Na lógica repugnante do DOPS, morto o homem, as ideias desapareceriam. Completa ingenuidade. O que pensariam, hoje, os espiões da vida alheia diante da sólida permanência de Graciliano no imaginário coletivo?” (307).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
MORAES, Dênis de. O velho Graça: Uma Biografia de Graciliano Ramos. 2.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

sábado, 2 de março de 2013

Prefeito não tem pai

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Prefeitura de Palmeira dos Índios, 1929.

Fiscal entra esbaforido na sala do prefeito:

- Prefeito, prefeito... Seu Sebastião...

- Quem?

- Seu Sebastião. Ele...

- Que Sebastião, Paulo?

- O seu pai, Seu Sebastião.

- Hômi, fala logo. O que tem ele? - o tempo inteiro o prefeito não havia desgrudado os olhos dos papeis com vários números que rabiscava. Pegara a prefeitura com poucos recursos.

- Ele não quer deixar que os fiscais apreendam os bicho que tão na rua. Disse que era um absurdo, por ser pai do prefeito.

O prefeito levanta a cabeça, olha rapidamente para o chefe da fiscalização e fala:

- Apreenda os bichos e o multe por descumprir a norma.

- Mas.

- Apreenda!

Horas depois, o prefeito Graciliano Ramos encontra o pai, ainda furioso com a multa a ser paga e com os porcos e cães que haviam sido apreendidos na rua. A resposta veio curta e grossa:

- Prefeito não tem pai. Eu posso pagar sua multa. Mas terei que apreender seus animais toda vez que o senhor os deixar na rua.

(O desacato à ordem de não manter os animais nas ruas de Palmeira dos Índios por parte de Sebastião Ramos de Oliveira, pai do escritor Graciliano Ramos, está relatado na biografia O velho Graça: Uma Biografia de Graciliano Ramos, de autoria de Dênis de Moraes. A frase está descrita no livro, a situação que a antecede é pura suposição deste que vos escreve).

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Caciques, padre e um caeté na estreia de Graciliano

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O naufrágio do barco que trazia o bispo Pero Fernandes Sardinha forçou que este e outros marinheiros se jogassem ao mar em meio a um Brasil ainda desconhecido, escreve, quer dizer, pensa o autor, com papéis, tinta e conhaque na mesa... Os índios fazem um ritual, sob o olhar de uma bela mulher.... O bispo clama o reconhecimento divino com a cruz sendo mostrada aos índios, que mostram-lhe o porrete de madeira. Como costurar a história?... Os caetés tratam o corpo e um deles come uma perna. O bispo morto, mas e o chefe, marido da amada?... Ainda que policiais aparecessem, nada seria feito. Nisso, a justiça caeté era melhor que a contemporânea: preso é julgado e condenado... Vez do caeté observar o jogo de poker, ou seria o reconhecimento de um da etnia na mesa?

Este seria apenas, numa construção própria, o encadeamento das imagens de Poty em Caetés, obra de estreia de Graciliano Ramos (1892-1953), publicada em 1933. Confesso que após ter visto as ilustrações dele em Infância, fiquei frustrado com a disposição das imagens na edição que eu li do primeiro livro de Graciliano.

Situado em Palmeira dos Índios, cidade que conheceu bem, a ponto de ser prefeito dela por dois anos com um modelo inovador de gestão, com a apresentação de relatórios anuais sobre os problemas e o que pôde ser feito numa realidade tão oligárquica do interior nordestino, Caetés traz um formato que vai ser bastante utilizado pelo autor nos livros seguintes: o narrador-personagem.

Se depois veremos Paulo Honório, em São Bernardo, contar o seu crescimento em busca do lucro e as perdas pessoas; e o ápice das preocupações de Luís da Silva em Angústia; João Valério é um jovem que trabalha numa casa de empréstimos de dinheiro, escreve para o jornal da paróquia, está no ciclo de convívio da classe média local, mas que possui como maior objetivo naquele momento o de escrever um livro sobre a  história da morte do bispo Sardinha, que teria sido comido pelos índios caetés em território alagoano.
LIVRO
O livro já começa com uma cena que chama bastante atenção. João Valério se despede do dono da casa, após as tradicionais conversas e jogos com senhoras e senhores da cidade, deixa-o no quarto e ao despedir-se da esposa dele acaba beijando o pescoço dela. Detalhe: o dono da casa é um dos seus chefes. A partir daí vamos acompanhando os rompantes do jovem em tentar descobrir se Luísa gostava dele ou não, se deveria seguir na casa e no emprego de Adrião e como continuar a conviver com as demais personalidades da sociedade de Palmeira dos Índios.

João Valério resolve deixar de visitar a casa de Adrião, onde alguns homens jogam xadrez, as mulheres tocam piano, cantam, conversam e cochilam em meio a conversas filosóficas desenvolvidas por Isidoro Pinheiro e pelo Padre Atanásio. Num momento ou outro, quando era cobrado, ele até voltava lá, mas opta por ficar escondido atrás das cortinas ou ir fumar no jardim da casa. O motivo principal era que Luísa não mudara o comportamento apesar da audácia de João na outra noite. Ele acredita que poderia ocupar aquele tempo das noites na escrita e na necessária pesquisa para escrever Caetés. Nada feito:

“Caciques. Que entendia eu de caciques? Melhor seria compor uma novela em que arrumasse Padre Atanásio, o Dr. Liberato, Nicolau Varejão, o Pinheiro, D. Engrácia. Mas como achar enredo, dispor as personagens, dar-lhes vida? Decididamente não tinha habilidade para a empresa: por mais que me esforçasse, só conseguiria garatujar uma narrativa embaciada e amorfa” (23).

Era uma situação difícil de avanço, pois João Valério sempre via Luísa como uma mulher que não trairia o marido. Além disso, por mais que Adrião ficasse doente, sempre se recuperava, o que evitava qualquer perspectiva positiva de uma viuvez, que permitiria à viúva se encantar publicamente por outro homem.

Havia outras mulheres solteiras, e até com bons dotes da família, nas reuniões noturnas. Mas Valério não conseguia tirar da cabeça as reações de Luísa. Curiosamente, apesar de ser reservado, ele não deixa de a inquirir quando acha necessário. Na primeira vez, na cadeira do jardim, ele não tem êxito após o seu pedido de desculpas. Pelo contrário, percebe a mudança de comportamento dela nos momentos seguintes e resolve olhar e conversar com outras, ainda que não desenvolvendo (e desaparecendo) posteriormente.

Valério mora numa pensão com várias personagens citadas, casos de Dr. Liberato, o médico que aparece para curar todo mundo de quase tudo, e, principalmente, Pinheiro, que é o principal amigo dele na cidade, ouvindo-o e dando sugestões para que ele se arranje com alguma filha de alguém rico na cidade. Em meio à desilusão com Luísa, ele até pensara em Marta Varejão - filha de Nicolau, um pobre coitado que sente vergonha da filha por ser pobre:

“Não que me preocupe exclusivamente com o dinheiro, pois se Marta fosse vesga e coxa não a aceitaria por preço nenhum. Mas era bonita, e os bens da viúva davam-lhe encantos que a princípio eu não tinha descoberto” (37-8).

Era paixão rápida, se é que chegava a ser paixão. Uma troca de palavras, encontrava algumas coisas boas em Marta, mas depois lembrava do despeito de Luísa com ele e esquecia tudo, renegando a provável mãe de seus futuros filhos, que o acompanharia para construir a vida no Rio de Janeiro, lugar muito falado por ali.

Hora ou outra, o livro voltava, mas sempre com mais páginas a serem jogadas fora do que aproveitadas. Havia no jovem João Valério um pouco de vontade de aparecer, de se mostrar como um jovem diferente naquela pequena cidade. Cidade esta representada por figuras clássicas, como comerciantes - que atuam diretamente para conseguir dinheiro através de empréstimos -, o médico que trabalha em tudo, com direito ao Neves, farmacêutico, os jurados, e até o novo "futuro grande político", Eugênio Barroca, que começa a se mexer para ser o governador de Alagoas dali a alguns anos.

O intuito de Valério não era ser famoso no Rio de Janeiro por conta da sua produção literária. Sequer era passar do primeiro livro - será que Graciliano pensara ter a capacidade em produzir outros livros depois deste? Apenas se sentir orgulhoso no seu espaço social:

“Talvez eu pudesse também, com exígua ciência e aturado esforço, chegar um dia a alinhavar os meus caetés. Não que esperasse embasbacar os povos do futuro. Oh! não! As minhas ambições são modestas. Contentava-me um triunfo caseiro e transitório, que impressionasse Luísa, Marta Varejão, os Mendonça, Evaristo Barroca. Desejava que nas barbearias, no cinema, na farmácia Neves, no café Bacurau, dissessem: ‘Então já leram o romance do Valério?” Ou que na redação da Semana, em discussões entre Isidoro Padre Atanásio, a minha autoridade fosse invocada: ‘Isto de selvagens e histórias velhas é com o Valério’” (51). 

Afinal, consegue ter uma resposta mais física de Luísa, meses depois, num período em que Adrião viajara a negócios. Ele, cheio de dúvidas, é recebido de forma mais tranquila do que imaginava. Aqui Graciliano dá detalhes do que será a sua característica de narração ao não descrever os pormenores das relações sexuais entre os dois. Não se preocupa tanto com o diálogo, a troca entre as personagens, mas como o protagonista a vê. Assim, esta descrição fica meio bruta, rápida:

“Soltei-lhe as mãos, agarrei-lhe a cabeça, beijei-a na boca, devagar e com voracidade. Apertei-a, machucando-lhe os peitos, mordendo os beiços e a língua. De longe em longe interrompia este prazer violento e doloroso, quando já não podia respirar. E recomeçava. As mãos dela prendiam-me; através da roupa leve eu lhe sentia a vibração dos músculos” (144). 

Os momentos românticos ficam para a imaginação anterior de João Valério, crendo numa mulher cheia de pudores e, apaixonado, torcendo por qualquer coisa a mais que o patrão nunca tivera feito. A estrela a procurar no céu para indicar o caminho daquela paixão em meio à certa revolta dele por não conseguir entender as "almas caprichosas das mulheres. Assim, antes de conseguir uma resposta - ou ao menos pensar que conseguiu avançar em algo - ele sonha com o que seria possível naquelas condições:

“Tencionava poder um dia, com o consentimento dela, apertar-lhe as mãos, correr os lábios por aqueles dedos brancos e finos, pelos braços, até o cotovelo. Em momentos de otimismo aventurei-me a chegar à espádua. Não era uma aspiração demasiado exigente, e eu punha tanto respeito nela que excluí a ideia de que aquilo constituísse traição ao Teixeira. Decidi logo que um homem tão prático não havia ainda bajulado o braço de Luísa e que pelo menos esta parte do corpo dela não lhe pertencia. Convicção idiota, evidentemente. Eu me contentava com o braço – e achava excessivo. Uma felicidade imensa” (91). 

A história segue, mas o avançar da história romântica não necessariamente vai ser o foco de atenção de Caetés. Vemos discussões entre alguns membros da elite palmeirense, novas rodas de conversa, denúncias, mudanças de posicionamento, mas tudo a partir das vistas de João Valério, de um apaixonado que às vezes parece ficar em dúvida até mesmo sobre a paixão. O desfecho me surpreendeu bastante por conta de determinadas expectativas que nós acabamos tendo sobre ciclos "naturais" deste tipo de história. Graciliano não tem nada de "natural", por mais que reflita bem a sociedade em torno.

Esta característica aparece em alguns trechos. Além da evolução de Eugênio Barroca, com direito a "passar por cima" do antigo manda-chuva da cidade, há a forte discussão referente à absolvição de um culpado por assassinato que toda cidade sabia que tinha cometido tal crime provavelmente, provavelmente por sua posição social. O que dá como resposta coisas do tipo: "o que nós poderíamos fazer?".

Há também uma conversa interessante sobre o que significava ter poder naquelas região, algo bem distante de ser alfabetizado ou de conseguir arregimentar eleitores por questões político-ideológicas:

“- Tendo quatro soldados e um cabo, o senhor tem tudo [disse Vitorino]. 

O Dr. Castro reconheceu que os soldados e o cabo eram de grande eficiência: 

- Ora, a força do direito... isto é, o direito da força... Afinal, os senhores me entendem” (84). 

Ao final... Não se assustem, não contarei o final da história, mas destaco duas citações a seguir que estão presentes no final. Ao final, enquanto todxs choram no funeral de um morto, com quase toda a cidade presente, Nazaré pensa na quantidade de dinheiro que aquele deixará e é repelido com a palavra "monstro" por pensar nisso naquele momento. A resposta:

“- Eu? [um monstro – Nazaré] Está enganado. Que é um monstro? Uma criatura diferente das outras de sua espécie, não é? Pois eu sou como os outros homens. Um pouco melhor que uns, um pouco pior que outros. Vulgar. Monstro é você, Pinheiro. Você é esquisito, uma espécie de santo. Apesar de todos os seus defeitos, devia ter deixado para nascer daqui a dez mil anos. Você é monstruosamente bom, Pinheiro” (210). 

No final, apesar dos problemas com o livro que deveria ter sido escrito por João Valério, Graciliano Ramos escreve Caetés como uma metáfora da sociedade em volta. Canibais? Por que não? Mas a inocência dos índios caetés, que viveram em terra daquele Estado, era bem diferente da forma de canibalismo praticada por ali:

“Um caeté, sem dúvida. O Pinheiro é um santo, e eu às vezes me rio dele, dou razão a Nazaré, que é canalha. Guardo um ódio feroz ao Neves, um ódio irracional, e dissimulo, falo com ele: a falsidade do índio. E um dia me vingarei, se puder. Passo horas escutando as histórias de Nicolau Varejão, chego a convencer-me de que são verdades, gosto de ouvi-las. Agradam-me os desregramentos da imaginação. Um caeté” (222).

Se eu dissesse que este livro está entre os melhores que eu já li, estaria mentindo. Mesmo entre os que Graciliano Ramos escreveu. Fiquei sentindo falta de algumas coisas ao longo do livro, expectativas eram frustradas, apesar de alguns detalhes serem apresentados. Mas também se as nossas expectativas fossem consumadas não precisaríamos ler os livros. O óbvio está longe de caracterizar uma boa literatura. E Graciliano foge muito bem do óbvio, principalmente ao contar a história da região que provavelmente mais conheceu na vida.

REFERÊNCIA
RAMOS, Graciliano. Caetés; posfácio de Wilson Martins, ilustrações de Poty. 18.ed. Rio de Janeiro: Record, 1982.

domingo, 27 de janeiro de 2013

"Mas por que o futebol?"

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Estrangeirismo, roupa de empréstimo que não nos serve, costume intruso, coisa estrangeira e exótica, enfim, "um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um mês". É assim que Graciliano Ramos, sob pseudônimo J. Calisto, define o futebol em coluna publicada em abril de 1921 no jornal "O Índio", de Palmeira dos Índios-AL, texto republicado em Linhas Tortas. E agora?

Quem acompanha os meus textos neste blog deve ter percebido - e espero que sim! - que nutro uma admiração pelo conterrâneo Graciliano, que é o autor que mais li livros e que mais escrevi sobre neste humilde espaço. Ao mesmo tempo, tenho uma relação pregressa com o futebol, de amor mesmo, de forma a defendê-lo de quaisquer comentários apocalípticos, seja na Academia ou no cotidiano, com as pessoas que não entendem a paixão que ele gera.

Confesso que há muito procurava este texto, o décimo-primeiro da primeira parte de Linhas Tortas. E aí eu já reli e sigo a pensar como eu posso tratar dos comentários do Mestre Graça, afinal, o mês até que está durante muito né? São 117 anos desde aquela partida organizada e praticada por Charles Miller em São Paulo e, de inserção mais profunda na sociedade brasileira já são, no mínimo, oito décadas.

Por um lado, eu poderia seguir a provocá-lo. Responder os comentários sobre a falta de físico dos brasileiros para esportes que mais o exigissem ou a sua expansão para os mais diversos terrenos, para além das regiões litorâneas, etc. Por outro, poderia desenvolver um mea culpa que jamais Graciliano faria, utilizando de alguns dos argumentos apontados por ele quando, em determinado trecho da crônica, afirma que algumas práticas exóticas podem ser assimiladas por nós.

Não sei bem como vai ser isso, mas que não seja nenhuma das alternativas anteriores. Quer dizer, que tenha um pouco das duas juntas e mais outras. Até mesmo porque de só ter duas alternativas já basta a moeda nossa de cada dia.

CULTIVEM A RASTEIRA!
Comentei no texto sobre Linhas Tortas que as crônicas de Graciliano refletiam uma preocupação com aspectos nacionais, porém, não no sentido elitista, mas sim para incentivar as identidades regionais de um país do tamanho deste. Aqui não é diferente. A todo o momento o autor natural de Quebrangulo escreve que os nossos jovens deveriam deixar as estrangeirices de lado e se preocupar com as coisas locais. Segundo ele:

“Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por desgraça estão abandonados pela débil mocidade de hoje” (80).

Não que Graciliano fosse contra apropriações de coisas exóticas. Lembro que estávamos às vésperas do movimento antropofágico na cultura nacional, a ser liderado por Oswald de Andrade em São Paulo, coincidência ou não. Ainda assim, ele estava situado no grupo de literatos era contrário à "popularização" dele, por mais que não tenha sido por motivos de mantê-lo sob as asas das classes mais abastadas da sociedade. Diferença importante já que aquele período é marcado pela luta pelo profissionalismo neste esporte, o que significava tratar os jogadores como trabalhadores (mercadoria) e, consequentemente, a amplitude de sua prática para pessoas de classes sociais desfavorecidas. O público, comprando ingressos, já poderia ser formado para além de membros da elite.

Ele mesmo coloca que caso a coisa exótica seja assimilada entre nós, ela é mito bem-vinda, e tão logo "arranjemos ela um filho híbrido que possa viver cá em casa". Para alguns, é isto que acabamos por fazer com o futebol, pegamos as práticas bretãs, mesclamos com a ginga e o drible de origem africana e acabamos criando um "estilo de jogo", ou, ao menos, a ideia/tradição disso, de forma que o football viraria futebol, o corner, escanteio, o goal, gol, e assim por diante.

Mas Graciliano achava que o futebol não preencheria necessidade alguma no Brasil, não haveria lacuna a ser por ele ocupada. Primeiro, porque já havia um jogo parecido. Segundo, porque enfrentaria a resistência de locais com pessoas fisicamente ineptas para práticas que exigissem do físico, seria necessária uma transformação da "banha em fibra". Assim:

“O do futebol não preenche coisa nenhuma, pois já temos a muito conhecida bola de palha de milho, que nossos amadores mambembes jogam com uma perícia que deixaria o mais experimentado sportman britânico de queixo caído” (82).

Não importava que ele já estivesse intrincado nas grandes cidades, litorâneas, pois enquanto "as cidades regurgitam de gente de outras raças ou que pretende ser de outras raças; não somos [no sertão] mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda ou galego" (82). Não se adaptaria às "boas paragens de cangaço".

Assim, deveríamos praticar jogos nacionais. E se é para fugir ao "natural" de sermos "em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável", deveríamos recorrer aos esportes regionais: "o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o salto, a cavalhada e, melhor que tudo, o camba-pé, a rasteira" (82).

Sigo citando a ironia e o sarcasmo do autor sobre os problemas sociais dos recantos do país. Ele caracteriza a falta de preocupação, mesmo com o esporte bretão, com a formação do cérebro, que fica em detrimento à constituição muscular. Mas, principalmente, a análise sobre a sociedade brasileira aparece ao caracterizar a rasteira como esporte nacional. Não apenas a rasteira física, mas no sentido metafórico do termo. A vida prática mostra isso. Seja "no comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa" (83).

Dedicar-se à rasteira, no final das contas, significa mais dedicar-se à formação do cérebro, ou da "esperteza", muito mais importante naqueles dias, e ainda hoje:

"E se algum de vocês tiver vocação para a política, então sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o senhor presidente da República até o mais pançudo e beócio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Nacional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno" (83).


Mesmo o esporte que trouxe um excelente resultado para o Brasil, o tiro, que deu a nossa primeira medalha de ouro em Jogos Olímpicos, na Antuérpia (Bélgica), em 1920, com Guilherme Paraense, seria bem mais proveitosa a disputa com "espingarda umbiguda, emboscado atrás de um pau" (82). Ou seja, o problema dele não era com o futebol, que recebia maior destaque por ganhar cada vez maior destaque nas discussões públicas brasileiras, mas que devíamos exaltar mais as coisas brasileiras - por piores que fossem.


E DEPOIS?
Graciliano Ramos viveu até 1953, portanto, conseguiu acompanhar momentos importantes de delimitação do futebol como um esporte a fazer parte da construção de uma identidade nacional. Em 1938, sob o comando de Leônidas da Silva numa primeira seleção "profissional", o Brasil passaria a ser conhecido no mundo inteiro com o 3º lugar na Copa realizada na França.

Em outras duas crônicas, publicadas na segunda parte de Linhas Tortas, volta a aparecer o futebol, agora sem qualquer ressentimento ou crítica, já incluso no debate cotidiano nacional, como neste trecho de "Monólogo numa fila de ônibus", publicada em 15 de julho de 1945:

“Temos o futebol, sim senhor, e temos o cinema. Temos também a esperança do carnaval. No futebol admiramos Leônidas e Perácio, se é que esses dois heróis permanecem no cartaz. No carnaval aplaudimos o samba, nacionalmente” (240).


Antes mesmo disso, em Caetés, o seu primeiro livro, publicado ainda em 1933 - que eu estou acabando de ler e em breve comento por aqui -, Graciliano cita o futebol, ainda que como crítica à intenção de retomar a sociedade de esportes da cidade de Palmeira dos Índios, incluída aí à volta da prática de futebol no campo no lugar do plantio da mandioca e do algodão, que passou a ocupar seu espaço. Porém, isso se dá através da personagem beata, quase assexuada, da história, D. Engrácia:

"- Faz mal, opinou D. Engrácia. Isso assim está melhor do que cheio de vadios trocando pontapés.
"- Decerto, concordou a Teixeira, incorrigível. Antigamente não havia disso" (151).

Não lembro se este esporte torna a aparecer em outros livros de Graciliano Ramos, mas creio ser uma disputa superada já na década de 1930 de o futebol ser apropriado e reconstruído no Brasil, à "nossa maneira", digamos assim, mais do que um exemplo de imposição cultural imperialista - ou de uma prática de lazer restrita aos membros da elite socioeconômica do país. 

Depois disso ainda viria a Copa do Mundo realizada no Brasil, em 1950, e confesso que tenho bastante curiosidade para saber o que Graciliano achou de tudo aquilo. Se é que ele chegou a se preocupar com o assunto, mesmo morando no Rio de Janeiro.

REFERÊNCIAS
RAMOS, Graciliano. Caetés. 18.ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 1982.

RAMOS, Graciliano. Monólogo numa fila de ônibus. In: _____. Linhas Tortas: obra póstuma. 8.ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 1980. p. 240-241.

RAMOS, Graciliano. Traços a Esmo - XI. In: _____. Linhas Tortas: obra póstuma. 8.ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 1980. p. 79-83. (Versão editada aqui)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

As Linhas Tortas de Graciliano

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Para conhecer um autor muitas vezes basta ler os seus escritos. Mesmo para os romancistas, aqui ou acolá há de aparecer traços da sua formação sociocultural. Às vezes, nem assim. É necessário buscar mais informações em textos mais íntimos sobre a infância ou memórias escritas em momentos ruins. Felizmente, se nem assim há a conformação sobre as ideias próprias do autor, para além de suas personagens, há a possibilidade de se buscar uma publicação com crônicas. Especialmente a partir dos autores modernistas. Alguns dos nossos melhores escritores também ocupavam colunas de jornal.

Se 2012 marcou o centenário de Graciliano Ramos, em 20 de março de 1953 completará 60 anos de sua morte, com a 11ª Feira Literária Internacional de Parati sendo em sua homenagem. Assim, esta postagem também segue o âmbito das homenagens ao autor natural da alagoana Quebrangulo. Obra póstuma, publicada em 1963, Linhas Tortas é um compêndio de crônicas escritas de 1915 a 1953, perpassando, portanto, dos 23 aos 60 anos do Mestre Graça.

Linhas Tortas está dividido em duas partes. A primeira tem dois conjuntos de textos: "Linhas Tortas" e "Traços a Esmo", publicadas por R.O. em 1915 no Paraíba do Sul (RJ) e por J. Calisto em 1921 em O Índio, respectivamente. A segunda parte, mais numerosa, conta com textos com títulos, publicados a partir da década de 1930. Em comum, em todos os períodos, uma escrita ácida, cheia de ironia, mesmo para os amigos ou figuras "míticas" da literatura nacional.

Os assuntos são vários, com destaque para as análises, debates e provocações referentes à produção literária nacional. Uma lista de autores são citados ou comentados, dentre os quais eu anotei os seguintes: Machado de Assis, Eça de Queiroz, Balzac, Jorge de Lima, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, José Lins do Rêgo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Guimarães Rosa e Aurélio Buarque de Holanda.

O TRABALHO DO ESCRITOR
Dentre as crônicas é possível observar como Graciliano trata com certa ironia também o seu ato de escrever, mas com uma criatividade incrível para preencher as páginas dos jornais mesmo em dias que não se tem um grande assunto para isso - décadas depois, Luís Fernando Veríssimo vive a dizer que, para ele, escrever é muito difícil.

Em 15 de abril de 1915, ele estreava como colunista do jornal Paraíba do Sul com um texto em que faz o possível para destacar que só assumiu o espaço porque o diretor do jornal quis, apesar de todas suas advertências sobre uma possível falta de qualidade para atender aos desejos dos futuros leitores: “O essencial é que se escreva. Não quiseram que esta coluna ficasse em branco, malgrado todas as razões que foram apresentadas a secretário da folha. Era preciso que se escrevesse, qualquer coisa a esmo, embora” (18).

Décadas depois (em "Alguns tipos sem importância", agosto de 1939), já com alguns livros publicados e prêmios recebidos, ele tenta responder uma questão muito comum: em quem se baseava para escrever suas personagens:

“Referindo-me, portanto, a essa cambada não penso no que ela é hoje multiforme, incongruente, modificada pelo público, mas nos tipos eu imaginei e tentei compor inutilmente. Falharam todos. Esta declaração é necessária: talvez não anule, mas pelo menos atenuará uns toques de vaidade que por acaso apareçam nas linhas que se seguem” (194).

A conclusão sobre eles vem a ser genial, ainda que deixe mais dúvidas para quem voltar a perguntar sobre o assunto:

“Todos os meus tipos foram constituídos por observações apanhadas aqui e ali, durante muitos anos. É o que penso, mas talvez me engane. É possível que eles não sejam senão pedaços de mim mesmo e que o vagabundo, o coronel assassino, o funcionário e a cadela não existam” (196).

RESPOSTAS
Há colunas que eu gostei ainda mais, principalmente aquelas dedicadas a respostas a leitores que questionaram informações ou os comentários realizados em textos anteriores.

Um destes é "Manuel Tavares assassinou um homem", reprodução de uma "Carta de um jurado a cavalheiro de importância", publicada por J. Calisto em O Índio, jornal de Palmeira dos Índios em fevereiro de 1921. A carta trata de uma oferta de uma decisão favorável às pessoas ricas da cidade para não prender ou punir familiares que tenham cometido algum crime. Vejamos o exemplo de argumento deste jurado:

“‘Manuel Tavares assassinou um homem’. Fica-se a incerteza sore se foi Manuel Tavares o assassino ou o assassinado. Sendo ‘assassinar’ um verbo transitivo, também lhe pode servir de agente Manuel Tavares como ‘um homem’. Em casos assim ambíguos, a colocação das palavras em nada influi quanto ao sentido delas. Ninguém nos pode afirmar se o período está em ordem direta ou em ordem inversa. Dizem que ‘Manuel Tavares’ é o sujeito. Por quê? Porque está preso? É absurdo. Não há em gramática nenhuma regra que nos autorize a dizer que agente da ação é o que está na cadeia” (64).

Para quem conhece o Nordeste hoje sabe que coisas assim ainda são passíveis de ocorrer, apesar de geralmente não deixarem registros - ou que os jornalistas não "queiram" procurar estes rastros. Na década de 1920, então, de coronéis e cangaço disputando o espaço no medo das pessoas... Em abril, Graciliano responderia a uma carta de alguém que achou um absurdo o que ele escrevera, como se fosse algo de suma importância para fazer com que as pessoas passem a desacreditar no trabalho de quaisquer júris.

Ironicamente, o autor vai pedindo desculpas e assumindo a sua incapacidade para ocupar um espaço em qualquer jornal:

"Meu arrependimento é grande. Eu devia ter pintado um juiz de fato de olhos azuis, de cabelos loiros, e encaracolados, vestido de anjo. Quem me lesse ficaria pensando que isto é o paraíso e, naturalmente, por imitação, penduraria às costas umas asas de trapo, amarradas a barbante e colaria à cabeça uma rodela de papelão coberta de lata” (77-8).

REGIONALISMO
Uma preocupação frequente de Graciliano ao longo das crônicas publicadas em Linhas Tortas é a de defender o nacionalismo, com fortes críticas a elementos estrangeiros presentes na nossa sociedade - caso do football na década de 1920, identificado como um "modismo" -, assim como, especificamente, a produção literária dos autores regionalistas, casos dele, de Jorge Amado e Rachel de Queiroz.

Em "Norte e Sul", publicada em abril de 1937, Graciliano critica os autores que optam por escrever por países jamais conhecidos em vez de dedicaram uma atenção maior à sociedade em que está presente, as diferenças existentes no próprio país, no entendimento de que para escrever sobre um lugar é necessário conhecer a formação sociocultural do mesmo. Para ele, trata-se de uma fuga ao que incomoda a elite nacional, que prefere coisas que só existiriam na imaginação:

“Os inimigos da vida torcem o nariz e fecham os olhos diante da narrativa crua, da expressão áspera. Querem que se fabrique nos romances um mundo diferente deste, uma confusa humanidade só de almas, cheias de sofrimentos atrapalhados que o leitor comum não entende. Põem essas almas longe da terra, soltas no espaço. Um espiritismo literário excelente como tapeação. Não admitem as dores ordinárias, que sentimos por as encontrarmos em toda a parte, em nós e fora de nós. A miséria é incômoda” (136).

Ele voltaria ao assunto em texto de setembro do mesmo ano, em que faz a diferença dele e de outrxs para "Os donos da literatura". O autor não conseguiu sobreviver de suas publicações, trabalhando em dois turnos até os últimos anos de sua vida:

“A literatura honorária, escorada e oficial, vive sempre lá fora, chega aqui de passagem e quando aparece, é vista de longe, rolando em automóvel; a literatura efetiva, mal vestida e de segunda classe, mora no interior ou vegeta aqui, no subúrbio, e viaja a bonde, às vezes de pingente” (101).

Apesar dessa crítica a quem opta por esconder a miséria, em "O romance de Jorge Amado", um comentário sobre Suor publicado em 1935, ele destaca esta preocupação do autor baiano, "um desses escritores inimigos da convenção e da metáfora, desabusados, observadores atentos" (93). Porém, ele teria se excedido na demonstração da luta de classes, por conta da sua ideologia: "Não nos parece que o autor, revolucionário, precisasse fazer mais que exibir a miséria e o descontentamento dos hóspedes do casarão. A obra não seria menos boa por isso" (95). 

Algo que já destacamos em outros textos, apesar de também ser comunista, Graciliano buscava não "contaminar" a sua produção literária com sua opção político-ideológica, de maneira que a sua forma de ver o mundo fosse expressada na sua história sem qualquer imposição política. Era uma reflexão sobre o que vinha ocorrendo nos países soviéticos, sobre a qual ele visitou e escreveu num diário de viagem suas experiências.


E O FUTEBOL?
Aqui foram destacados os trechos de colunas que mais me chamaram a atenção. É claro que houve o texto sobre futebol, em que Graciliano Ramos faz as críticas a este esporte bretão, que não conseguiria avançar aqui no Brasil. Mas este é um assunto que merece um texto em separado, com toda a certeza. Afinal, como pode-se perceber pela quantidade de vezes que escrevemos sobre este autor por aqui, há uma clara admiração para além do fato de ele ter nascido no mesmo Estado que eu, porém, também pela quantidade ainda maior de vezes que o futebol aparece no Dialética, percebe-se que há uma relação intensa e histórica comigo. 

REFERÊNCIA
RAMOS, Graciliano. Linhas Tortas: obra póstuma. 8.ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 1980.

sábado, 27 de outubro de 2012

120 anos do Mestre Graça

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Fui "apresentado" a Graciliano Ramos de Oliveira durante o Ensino Médio. Como na época o vestibular na Universidade Federal de Alagoas se dava através de um Processo Seletivo Seriado, em que tínhamos uma prova equivalente a cada ano desta fase de ensino, dentre as ementas do que tínhamos que estudar havia três livros por ano. Dentre os do terceiro ano estava São Bernardo.

Por ter morado um tempo razoável fora de Alagoas, ainda que bem mais perto do que agora, meus pais sempre tentaram manter o "orgulho de ser alagoano" nos filhos, então ler um autor alagoano, dentre José de Alencar e Machado de Assis e demais, significava olhar com o mesmo respeito que para os de outros lugares e momentos. Curiosamente, ainda não fiz esse teste, mas provavelmente a maioria dos alagoanos não saberá dizer quem foi Graciliano Ramos - ou Jorge de Lima, ou Lêdo Ivo, ou Nise da Silveira, ou Hermeto Pascoal, ou, ou, ou...

Como meu pai, minha irmã e eu fizemos o então PSS numa sequência de anos próxima, comprávamos os livros e cada um lia em seu tempo. Ao contrário de alguns que optavam pelos resumos dos cursinhos, eu sempre lia todos os livros e depois, caso precisasse reforçar algum detalhe de análise da escola literária - algo que também via no agora antigo Cefet -, olhava para alguns desses resumos. Geralmente lia os livros "obrigatórios" bem antes do vestibular e a sensação de ler São Bernardo foi a confirmação daquelas características "clássicas" de Graciliano Ramos: a secura do nosso sertão praticamente representada no narrar e no seu protagonista.

Olhando para trás, percebo que os livros sugeridos para o vestibular acabaram por gerar a partir dali um maior estímulo para que eu lesse outros livros, principalmente dos autores que eu havia gostado. Por conta de uma "herança" familiar mais ligada ao trabalho do que ao estudo - meu pai foi o primeiro a estudar numa universidade, entrando aos 40 anos -, não havia tanto o "costume" da leitura. Quer dizer, li muitos gibis da Turma da Mônica quando criança e um ou outro livro que me chamava a atenção - caso do Viagem ao Centro da Terra, do Júlio Verne, que foi uma batalha para terminar. Depois dali eu não parei de ler muitos livros por ano, para além dos "obrigatórios" agora da graduação e da pós-graduação.

Enfim, voltando ao Mestre Graça, descobri depois que um dos seus livros também era "obrigatório" para estudantes de outras universidades Brasil afora, caso daqui da UFRGS, mas, geralmente, Vidas Secas. Recentemente, conversando com um pessoal mais novo da graduação em Comunicação da Unisinos, em meio a críticas a Memória Póstuma de Brás Cubas (!) e sugestões de outros livros, alguém falou sobre Vidas Secas. Para alívio deste alagoano, a pessoa disse que gostou do livro.

O segundo livro dele que eu li foi justamente este. Na época ele não tinha na biblioteca da UFAL, por mais incrível que possa parecer, e era dificílimo achar para comprar - Alagoas ainda tem poucas livrarias, ou quase nenhuma, de peso. Minha irmã conseguiu uma cópia, porque precisava estudar para um trabalho, e eu li depois. E isso após tanto ter ouvido falar na cachorra Baleia, desde os estudos no Ensino Médio.

Cheguei a começar a ver o filme, dirigido por Nelson Pereira dos Santos (1963), num cineclube formado por estudantes da universidade, mas o DVD deu problemas e não conseguimos terminar de assisti-lo. Depois de alguns anos eu consegui assistir a São Bernardo, dirigido com o livro como roteiro por Leon Hirszman, com melhor qualidade, num Festival de Cinema. 

Na universidade, peguei o gosto (e a confiança) em comprar livros em sebos pela internet e sempre que tenho que comprar para algo mais do campo acadêmico sempre cato algum literário. Foi assim que comprei o livro de contos Insônia, ainda mais porque a partir da última fase do vestibular este veio a ser um "mal" a me atormentar com certa frequência, o que já gerou uma relação direta com o que ele (muito bem) contava neste conto - com outros também interessantes no livro.

Não lembro exatamente em que ano, mas fui ver uma adaptação para o teatro deste conto, realizada pela Cia. Teatro da Meia-Noite, contemplada pelo Prêmio BNB de Cultura em 2007. A cama que parece ser maior do que é, os barulhos que tiram a atenção, o tic-e-tac do relógio, o "sim" e o "não" o tempo inteiro na cabeça, tudo muito bem retratado no monólogo interpretado pelo ator Marcos Vanderlei.

Depois disso, começaram os livros já relatados neste blog. Procurando por eles nos arquivos deste espaço, percebi a diferença, até mesmo no estilo, de cada um dos quatro: Angústia, A terra dos meninos pelados, Viagem e Infância. O autor que consegue refletir tão bem sensações e ambientes mais ríspidos, caso também de Angústia, escrevendo um livro infanto-juvenil como A terra dos meninos pelados - que foi série da Rede Globo há alguns anos -, contando as marcas de sua Infância e relatando o seu lado político no diário de sua Viagem pelas repúblicas soviéticas, tão diferentes do Brasil.

Antes de qualquer crítica, porque eu tendo a analisar as obras de arte pela capacidade que ela tem de avançar no desvendar a realidade - logo, mostrando suas grandes contradições -, Graciliano criticou bastante a utilização de uma arte hermética, para fins políticos, divergindo fortemente do realismo soviético., por exemplo. Olha que estamos falando de alguém de pensamentos de transformação social, mas que entendia a fundamental importância da "independência" do artista.

O HOMEM
Muito tenho lido neste mês sobre o aniversário de Graciliano, principalmente por conta da reedição da biografia O velho Graça, escrita por Dênis de Moraes, jornalista e pesquisador referência dos estudos críticos sobre as estruturas de comunicação no Brasil. Geralmente retratado como alguém seco, avesso às entrevistas, há relatos sobre a sua vida, desde a escolha política às pressões sobre este posicionamento, como o caso de sua prisão na Ilha Grande (RJ) durante a década de 1930 pelo governo getulista - a quem não teria respondido a um cumprimento anos depois.

Polêmico, ele foi um dos representantes de uma fase do modernismo com autores que se voltaram ao regionalismo, mostrando um Brasil fora do "eixo", casos característicos e contemporâneos da cearense Raquel de Queiróz (autora, dentre outros, de O Quinze) e do baiano Jorge Amador (dentre vários outros, Capitães da Areia). O autor alagoano é apontado como alguém que gostava de criar polêmicas, a ponto de elogiar numa linha e criticar alguém como Machado de Assis na linha seguinte.

Dentre as polêmicas, ao menos para hoje - e muito para um pesquisador de futebol como eu -, Graciliano teria sido um dos intelectuais brasileiros a não acreditar no futebol como um elemento importante para a sociedade brasileira, descrevendo-o como "fogo de palha", um "efêmero modismo estrangeiro".

Graciliano teria seus primeiros livros publicados graças ao reconhecimento aos seus relatos de gestão da prefeitura de Palmeira dos Índios (AL), onde passou dois anos e após cada um deles escrevia as ações e dificuldades do cargo, sendo reconhecido como um homem que peitou os coronéis tão característicos no interior do Brasil e cujo relato sobre as atividades ainda hoje fazem falta na política nacional.

Porém, apesar de ter sido prefeito de Palmeira dos Índios, morado e trabalhado em Maceió e mostrar Viçosa em alguns de seus livros, o autor é natural de Quebrangulo, nascido no final do século XIX, no dia 27 de outubro de 1892, há exatos 120 anos.

O seu primeiro livro publicado foi Caetés (1933), ganhador do Prêmio Brasil de Literatura, ao qual se seguiram: São Bernardo (1934); Angústia (1936), com o qual ganhou o Prêmio Lima Barreto (Revista Acadêmica); Vidas Secas (1938), pelo qual ganhou o prêmio William Faulkner (Estados Unidos); A Terra dos Meninos Pelados (1939), com o qual ganhou o prêmio de melhor literatura infanto juvenil do Ministério da Educação; Brandão entre o mar e o amor (1942), Histórias de Alexandre (1944) e Infância (1945). De forma póstuma foram publicados: Memórias do cárcere (1953), Viagem (1954), Linhas Tortas (1962), Viventes das Alagoas (1962), Alexandre e outros heróis (1962), Cartas (1980), O Estribo da Prata (1984) e Cartas à Heloísa (1992). Graciliano traduziu ainda dois livros: Memórias de um Negro, de Brooker T. Washington; e A Peste, de Albert Camus. Vencendo ainda o Prêmio Felipe de Oliveira (1942) pelo conjunto da obra.

A morte de Graciliano completará 60 anos no ano que vem, sendo ele o homenageado da próxima Festa Literária de Parati, principal evento do setor editorial brasileiro. Continuando no Rio de Janeiro, ocupado por quase três turnos de trabalho e, ainda assim, com ajuda de alguns amigos, como Carlos Drummond de Andrade, para sobreviver, ele morreu no dia 20 de março de 1953, aos 60 anos, vítima de um câncer de pulmão, deixando uma vasta obra sobre o sertão de seu Estado, com uma característica literária altamente particular e inesquecível.

BALEIA
Uma das personagens mais marcantes de seus livros, a cachorra Baleia gerou em mim a intenção de abandonar os nomes estrangeiros que o meu pai resolveu escolher para os dois primeiros cachorros e decidir que o seguinte seria Baleia, independente se fosse macho ou fêmea - graças ao substantivo epiceno.

Dos sete filhotes da minha cadela, um deles nasceu maior que os outros. Estava escolhido o cachorro, que viria a crescer mais do que o imaginado depois, cujo nome casaria muito bem quando comparado aos seus irmãos. Baleia segue lá em Maceió, sendo o meu orgulho de dizer aos quatro cantos do Brasil que o meu cachorro tem este nome e poder explicar a escolha dele toda vez quando é necessário.

Salve Mestre Graça!