sábado, 2 de março de 2013

Prefeito não tem pai


Prefeitura de Palmeira dos Índios, 1929.

Fiscal entra esbaforido na sala do prefeito:

- Prefeito, prefeito... Seu Sebastião...

- Quem?

- Seu Sebastião. Ele...

- Que Sebastião, Paulo?

- O seu pai, Seu Sebastião.

- Hômi, fala logo. O que tem ele? - o tempo inteiro o prefeito não havia desgrudado os olhos dos papeis com vários números que rabiscava. Pegara a prefeitura com poucos recursos.

- Ele não quer deixar que os fiscais apreendam os bicho que tão na rua. Disse que era um absurdo, por ser pai do prefeito.

O prefeito levanta a cabeça, olha rapidamente para o chefe da fiscalização e fala:

- Apreenda os bichos e o multe por descumprir a norma.

- Mas.

- Apreenda!

Horas depois, o prefeito Graciliano Ramos encontra o pai, ainda furioso com a multa a ser paga e com os porcos e cães que haviam sido apreendidos na rua. A resposta veio curta e grossa:

- Prefeito não tem pai. Eu posso pagar sua multa. Mas terei que apreender seus animais toda vez que o senhor os deixar na rua.

(O desacato à ordem de não manter os animais nas ruas de Palmeira dos Índios por parte de Sebastião Ramos de Oliveira, pai do escritor Graciliano Ramos, está relatado na biografia O velho Graça: Uma Biografia de Graciliano Ramos, de autoria de Dênis de Moraes. A frase está descrita no livro, a situação que a antecede é pura suposição deste que vos escreve).

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