Há algumas semanas fui convidado para dar aula no curso de Especialização em Televisão e Convergência Digital, que é organizado pelo grupo de pesquisa o qual faço parte. Quer dizer, (como aqui é um espaço meu, eu posso dizer isso) fui convidado porque as opções anteriores não poderiam. Juntando a necessidade de recursos extras, após as despesas extras e inesperadas deste mês de maio, com a importância de ter uma maior prática docente, topar era algo necessário.
Não seria a minha primeira experiência do outro lado numa sala de aula de Comunicação - ver a outra aqui. A diferença é que ao contrário dos dois semestres de Radiojornalismo 1, no ano passado, estariam na minha frente profissionais, com quase toda certeza com maior experiência na lida jornalística do que eu.
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Acordar cedo (6h) significa ver isso do lado de fora |
Seriam oito horas de trabalho, em dois turnos, para dar aula sobre "Regulamentação e Políticas de Comunicação". Confesso que, por ter contato frequente com o tema - desde a Graduação, seja no movimento estudantil ou na produção acadêmica - não tinha muita preocupação em falar durante tanto tempo sobre o assunto. Além do que geralmente o que ocorre é que falta tempo para que eu possa apresentar as minhas pesquisas. Um assunto tão necessário quanto esse, então...
Porém, uma coisa é eu ficar tranquilo e outra bem diferente é o "ambiente externo" me garantir tamanha tranquilidade. Em meio a milhões de tarefas cotidianas, acrescidas a problemas de ordem técnica que o fazem "perder" dez dias de trabalho, alguns auxílios podem parecer, e virar, aquela pressãozinha. Por mais que a intenção não seja essa.
Se a minha ideia inicial era trabalhar no plano de aula durante toda a sexta-feira, acabei iniciando isso alguns dias antes. Realmente, oito horas para falar para um mesmo conjunto de pessoas e sobre um "mesmo" assunto é muita coisa.
As minhas primeiras definições foram sobre como dividir a aula, de maneira a não ficar muito cansativo e, principalmente, muito cansativo. Porém, mesmo que imaginando que as pessoas não tenham tanto conhecimento sobre políticas de comunicação no Brasil - pelas barreiras mais que óbvias -, tentar estabelecer um diálogo com os alunos, que já deveria ser "obrigatório" para qualquer professor, é ainda mais para um assunto que nos puxa um pouco do lado manifestante social.
Afinal, o que adianta ter um posicionamento político-ideológico bem definido, ser contra a centralização do conhecimento, mas falar, falar e nada de saber se o "público" entendeu pelo menos a ideia central dessa discussão, não é mesmo?
DIVISÃO DA AULA
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Eles também regulam a comunicação... |
Pensando na melhor forma de apresentar o assunto, resolvi dividir a aula em duas partes. Na primeira, tratar sobre as políticas de comunicação no mundo, tendo como referencial dois "entendimentos" diferentes sobre a comunicação: o Reino Unido (com forte presença pública) e os Estados Unidos (com forte presença do mercado). Depois disso, mostrar como esse debate passou a ser incluído - e depois "esquecido" - nas discussões dos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos, com claro destaque às discussões da UNESCO. De maneira a finalizar com a situação de "bungas-bungas" e Murdochs do mercado transnacional atual.
Ah, é bom explicitar que antes de iniciar pra valer, tentei mostrar através de outras políticas públicas a importância de as mesmas existirem. O caso do Estados Unidos, que tem órgão regulados da comunicação desde a década de 1930 (!) serviu para alicerçar as diferenças entre censura, como querem os grandes meios brasileiros, e a necessária regulação de bens/serviços públicos, como é o espectro eletromagnético e deveria ser o direito de se comunicar.
Confesso, mais uma vez, que imaginei que talvez não fosse possível apresentar tudo o que tinha preparado para a primeira metade da aula, a manhã. No final das contas, até que consegui controlar bem o tempo e apresentar tudo o que tinha determinado. Fomos todos almoçar para voltar em uma hora (é, a "folga" é curta mesmo).
Para a segunda parte, à tarde, até mesmo pelo cansaço que tenderia a aparecer pós-almoço, encaixei alguns vídeos - caso do "Liberte sua voz", do Intervozes, e da edição final do "Direitos de Resposta". Por mais que uma boa parte da turma participasse das discussões, a tarde foi de maior "monólogo" por este que vos escreve. Acabei tendo que, por uma das poucas vezes - senão a primeira -, tendo que improvisar mais para cumprir com um tempo mais esticado do que seria necessário.
Nas horas do "improviso", nada como apresentar um programa de debate sobre a mídia toda a semana. Das pautas mais expostas em redes sociais àquelas que só quem acompanha mais de perto pode saber, determinados acontecimentos ajudaram a tentar incentivar uma discussão, inclusive, sobre a produção jornalística. Até onde a culpa é do profissional e até onde é da empresa de comunicação, que atua seguindo pouca regulamentação e quase sem regulação?
A divisão entre as políticas públicas de comunicação no Brasil foi a seguinte: primeiro, traçar um rápido histórico, parando no Código Brasileiro de Telecomunicações, que merece mais atenção, para uma especialização em TV e Convergência, que as regulamentações de rádio, por exemplo - mas que também foram tratadas.
Após o intervalo - antes as aulas do Mestrado tivessem água e lanche também... - prossegui com analisando o capítulo da Constituição sobre a Comunicação Social e as leis sobre a TV fechada, que "interferem" diretamente no negócio do audiovisual no Brasil. Além de, por fim, traçar a situação atual com uma TV aberta em pleno processo de digitalização, mas com leis que têm Telecomunicações (CBT) e Audiovisual (Lei do Audiovisual/2011) no nome, mas são restritas a determinados setores comunicacionais. Assim como, as promessas do ministro das Comunicações sobre um novo marco regulatório.
O comentário final dos alunos foi que precisariam ler mais sobre o assunto, já que não é debatido normalmente. Espero ter conseguido chamar a atenção para os problemas tanto em termos de concorrência quanto em termos de pluralidade na difusão de informações que temos mais no Brasil que em outras partes do mundo.
O cansaço da chegada em casa - que ainda teve que esperar para ser "diminuído" por conta de outras obrigações - valeu a pena por mais uma experiência docente.
*A apresentação, com os vídeos utilizados, está na internet. Ver post anterior ou http://prezi.com/xzp3vm6gchql/especializacao-em-televisao-e-convergencia-digital/