quarta-feira, 31 de outubro de 2012

[Por Trás do Gol] Nova experiência, "velho" resultado

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Já tinha assistido a partidas em Pelotas, no Olímpico, em Canoas, em Sapucaia e em São Leopoldo, mas nunca tinha visto a um jogo no Estádio Beira-Rio - apesar de ter participado de um Ciclo de Palestras lá. Aproveitando da passagem (e da necessidade) do Palmeiras por aqui na rodada passada, era a chance que eu precisava para conhecer o Gigante que fica ao lado do Guaíba, quer dizer, o que "sobrou" dele.

A dúvida inicial era para que torcida eu iria. Não que eu seja colorado, mas sempre pesa aquela questão da (in)segurança de ficar no meio da torcida do rival de determinada partida, ainda mais que, ao contrário do ano passado quando eu vi Grêmio X Palmeiras, desta vez eu iria sozinho. Se bem que para alguém que ficou no meio da maloqueirada torcida do arquirrival, qualquer problema é pequeno. Então, comprei o ingresso para o setor visitante e só não iria com a camisa do Palmeiras - fui com um modelo pólo do Brasil, que para os gaúchos é "ofensa" igual rs.

Não sei se porque saí de casa mais cedo, já que ainda teria que trocar o ingresso no Gigantinho, ou porque na Salgado Filho há algumas linhas que passam pela Av. Padre Cacique, mas esperava encontrar aqueles ônibus específicos para dias de jogos ali já no Largo Glênio Peres. Não havia. A parte boa é que escapei de estar num coletivo lotado de torcedores do Internacional e, ainda mais, sendo provavelmente o único a não estar de vermelho.

REVISTA?
Troquei o ingresso de forma rápida e saí a procurar o bendito Portão 25, onde entra a torcida visitante no Beira-Rio. Andei, vi restos de obras; vi dois caras com calças da Mancha Verde serem chamados para a briga; andei mais um pouco e vi placa por placar até chegar no setor que ficava a entrada. Nada de policial ainda e eu fui subindo. Cheguei no Portão 25 e me disseram que ainda não estava aberto, só dali a 10 minutos. Perguntaram se eu havia passado por revista da Brigada e a resposta foi não.
Fiquei ali mais que 10 minutos esperando a autorização para passar. Enquanto isso, fiquei conversando com os seguranças do local, que de primeira me perguntaram se eu vinha de São Paulo ou morava no Rio Grande do Sul. Respondi que morava aqui, mas que não era paulista. Seguimos conversando sobre as obras, sobre jogos do passado - destaque para o apagão de 2 minutos no jogo de 1999, em que o Inter se livrou do rebaixamento graças a gol do Dunga -, segurança,...

Depois chegaram um pai e um filho palmeirenses, que moravam em Guaíba e que também conseguiram passar pela rampa antes de lembrarem que deveriam fechar o acesso enquanto a Brigada não chegava para formar a revista. Vi de cima o pessoal trocando a roupa e colocando camisas do Palmeiras ou da Mancha Verde. Afinal, um dos problemas que verifiquei daqui é que a torcida visitante tem que passar pela torcida da casa, e para sair também, para chegar em seu setor caso venha de transporte coletivo - se bem que para descer da rampa tem que passar por outros quatro ou cinco setores colorados também.

Como ainda faltava duas horas para iniciar a partida, fiquei observando o "coliseu" que virou o Beira-Rio, com direito a ter ficado cercado por cordas num setor de arquibancadas que cabiam, no máximo, 3 mil pessoas. Casais, jovens, senhores de idade com forte sotaque italiano e até uma dupla de senhores vinda de Caçador-SC, um dos quais não parou de dizer que "o velhinho estava ali" quando a musa do Inter desfilou pelo gramado.

Ah, ainda perguntei aos poucos da Mancha que haviam chegado mais cedo quem era a alternativa ao que nós temos para as eleições do clube e ainda os informei sobre o papelão do Frizzo de nem saber que havia Conselho Arbitral para o Paulistão do ano que vem... Em meio ao sábado abafado, quente, com nuvens, mas sem chuva, um pouco antes de a partida começar chegou os ônibus com o resto da organizada.

Assim que chegaram, os goleiros estavam aquecendo e não faltaram xingamentos ao Bruno, chamado, dentre outras coisas, de "mão de alface". Sinceramente, discordo desse tipo de cobrança antes das partidas, ainda mais para jogadores. A primeira confusão foi porque no Beira-Rio não se pode pendurar bandeiras nos muros, já que isso "atrapalha" os patrocínios pintados - e é sério. Eles acabaram pendurando no muro de trás, já que a corda não sustentaria e ainda atrapalharia a visão do jogo. Eu acabei indo para trás da torcida, até mesmo para poder ver a sua movimentação de uma melhor forma e também para não me sentir encurralado com a corda na frente.

PARTIDA
Eu nem precisaria falar deste jogo já que foi o mais polêmico da rodada. O Palmeiras jogou melhor no primeiro tempo, marcando bem e criando boas jogadas em contra-ataques. Patrick Vieira perdeu um bom lance, enquanto Marcos Assunção, na sua especialidade de cobrança de falta, também parou nas mãos de Muriel, que parecia estar num dia inspirado.

Mas depois não houve jeito. Assunção cruzou da esquerda, a bola desviou, mas chegou em Luan, para empurrar para o fundo das redes que ficavam do lado oposto ao que estávamos e, portanto, só agora me dei conta de saber quem tinha feito o gol - sabia que não tinha sido o Barcos porque ele estava na primeira trave. Gritei para caramba e fizemos uma grande festa - além de ouvir os xingamentos para os colorados que estavam do lado.

O Palmeiras ainda perdia algumas chances em novos contra-ataques, enquanto o Inter passava a ter maior controle de bola, com Bruno fazendo boas intervenções. Porém, numa falha de saída de bola de Artur - que levou uma senhora bronca de Barcos -, Guiñazu cruzou da direita, a bola passou por todo mundo e chegou em Fred, sozinho, para empurrar ao gol. Foi a nossa vez de escutar xingamentos da torcida colorada e um gritos de "Ão, ão, ão, segunda divisão", prontamente respondidos por "nós disputaremos a Libertadores, e vocês?".

O time saiu chateado em campo pelo resultado, afinal tinha criado muitas oportunidades. No segundo tempo, o Palmeiras aceitou a pressão do Inter e pouco criou até mais uma jogada pela lateral-direita. D'Alessandro entrou na área e cruzou para Rafael Moura, sozinho, mandar para o gol de Bruno. Mais gritos da frase citada no parágrafo seguinte e, apesar de aumentarmos os gritos para empolgar o time, a verdade é que a desmotivação alcançou o setor 25 do estádio.

Ainda assim, o Palmeiras resolveu jogar, ainda que atabalhoadamente. Curiosamente, esta partida foi a que vi mais escanteios girando por trás do gol, ao menos era isso que o árbitro dava. Quer dizer, nem é curioso, já que não há espaço para cobrar escanteios, devido às placas das obras - que, inclusive, deixavam a "piada pronta" de saber como os gandulas pegariam as bolas que fossem parar um pouquinho mais distantes.

No lance que garantiu a polêmica, com direito a asterisco na tabela de classificação, Assunção cobrou escanteio na primeira trave, vi Maurício Ramos e Barcos pulando, Muriel saindo atrasado tendo em frente outros jogadores do Internacional e a bola tocando as redes. Novas comemorações efusivas, "Olê, porco" e apontar para a torcida rival, enquanto os jogadores colorados pressionavam o juiz. Depois de um "século", o conterrâneo Francisco Carlos Nascimento "resolveu" anular o gol. O companheiro do lado disse que o Barcos tinha feito com a mão, mas por que demoraram tanto? Gritos de "Vergonha" surgiram da torcida.

Não vi o toque na mão porque a jogada foi muito rápida. É óbvio que era para ter sido marcada a falta, ainda mais que o Chicão estava de frente para o lance, num erro absurdo. No entanto, é mais absurdo ainda que o delegado da partida, que geralmente é do Estado onde está sendo realizado o jogo, tenha interferido numa decisão da arbitragem. Este é um campeonato com muitos erros de arbitragem, mas só contra o Palmeiras usam de artifícios outros para garantir a justiça.

Ah, além disso, como publiquei no Twitter assim que vi o lance - só na noite do dia seguinte em casa -, o Barcos foi seguro pelo Índio, o que motivou que ele não pulasse direito para cabecear a bola. Ou seja, antes da mão do Barcos houve pênalti nele a ser marcado. Depois, o próprio Barcos falou nisso e houve alguém na imprensa que viu o mesmo que eu. De qualquer forma, acho babaquice tentar anular a partida. O troço já está difícil mesmo, que não coloquemos na arbitragem as falhas da nossa péssima diretoria, que é incapaz de manter o Cicinho no elenco, mesmo só tendo um lateral-direito nele - e ainda contratar atletas do nível do Leandro, que estava parado há meses!

O final da partida foi de tentar colocar pressão, mas sem qualquer criatividade ou efetividade, apesar de, para sermos justos, a entrada do Maikon Leite ter criado algo diferente, com mais tentativas de ataque por parte deste jogador. No final, mais uma derrota e agora só 100% de aproveitamento nos salva de mais um rebaixamento, 10 anos depois do primeiro.


AINDA TEVE O DEPOIS
Como 2012 está demorando para acabar, ainda tive que sair do estádio no meio dos colorados, felizes da vida após duas vitórias de virada que acalmaram os ânimos locais - ainda que o muro do outro lado ainda "peça" a saída de Fernandão e diga que Forlán é ex-jogador. Mas ainda podia piorar...

Quando descia, ouvi gritos vindos de baixo, coisas de "ão, ão, ão..." e pude perceber o presidente (?) Tirone saindo de uma van, sendo seguido pelo César Sampaio. Ainda balbuciei um fdp, mas nem gritar contra o desgraçado eu pude.

Ao menos valeu a experiência, inclusive de ver ao vivo as dificuldades do torcedor de ir a um estádio em obras para a Copa do Mundo FIFA e que é o único que não foi parado por conta disso - é, eu sei, fui algumas vezes ao Rei Pelé enquanto as obras iam a passos de tartaruga. Além disso, campeão da Copa do Brasil ou rebaixado, "EU SOU PALMEIRAS ATÉ MORRER!!!".

sábado, 27 de outubro de 2012

120 anos do Mestre Graça

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Fui "apresentado" a Graciliano Ramos de Oliveira durante o Ensino Médio. Como na época o vestibular na Universidade Federal de Alagoas se dava através de um Processo Seletivo Seriado, em que tínhamos uma prova equivalente a cada ano desta fase de ensino, dentre as ementas do que tínhamos que estudar havia três livros por ano. Dentre os do terceiro ano estava São Bernardo.

Por ter morado um tempo razoável fora de Alagoas, ainda que bem mais perto do que agora, meus pais sempre tentaram manter o "orgulho de ser alagoano" nos filhos, então ler um autor alagoano, dentre José de Alencar e Machado de Assis e demais, significava olhar com o mesmo respeito que para os de outros lugares e momentos. Curiosamente, ainda não fiz esse teste, mas provavelmente a maioria dos alagoanos não saberá dizer quem foi Graciliano Ramos - ou Jorge de Lima, ou Lêdo Ivo, ou Nise da Silveira, ou Hermeto Pascoal, ou, ou, ou...

Como meu pai, minha irmã e eu fizemos o então PSS numa sequência de anos próxima, comprávamos os livros e cada um lia em seu tempo. Ao contrário de alguns que optavam pelos resumos dos cursinhos, eu sempre lia todos os livros e depois, caso precisasse reforçar algum detalhe de análise da escola literária - algo que também via no agora antigo Cefet -, olhava para alguns desses resumos. Geralmente lia os livros "obrigatórios" bem antes do vestibular e a sensação de ler São Bernardo foi a confirmação daquelas características "clássicas" de Graciliano Ramos: a secura do nosso sertão praticamente representada no narrar e no seu protagonista.

Olhando para trás, percebo que os livros sugeridos para o vestibular acabaram por gerar a partir dali um maior estímulo para que eu lesse outros livros, principalmente dos autores que eu havia gostado. Por conta de uma "herança" familiar mais ligada ao trabalho do que ao estudo - meu pai foi o primeiro a estudar numa universidade, entrando aos 40 anos -, não havia tanto o "costume" da leitura. Quer dizer, li muitos gibis da Turma da Mônica quando criança e um ou outro livro que me chamava a atenção - caso do Viagem ao Centro da Terra, do Júlio Verne, que foi uma batalha para terminar. Depois dali eu não parei de ler muitos livros por ano, para além dos "obrigatórios" agora da graduação e da pós-graduação.

Enfim, voltando ao Mestre Graça, descobri depois que um dos seus livros também era "obrigatório" para estudantes de outras universidades Brasil afora, caso daqui da UFRGS, mas, geralmente, Vidas Secas. Recentemente, conversando com um pessoal mais novo da graduação em Comunicação da Unisinos, em meio a críticas a Memória Póstuma de Brás Cubas (!) e sugestões de outros livros, alguém falou sobre Vidas Secas. Para alívio deste alagoano, a pessoa disse que gostou do livro.

O segundo livro dele que eu li foi justamente este. Na época ele não tinha na biblioteca da UFAL, por mais incrível que possa parecer, e era dificílimo achar para comprar - Alagoas ainda tem poucas livrarias, ou quase nenhuma, de peso. Minha irmã conseguiu uma cópia, porque precisava estudar para um trabalho, e eu li depois. E isso após tanto ter ouvido falar na cachorra Baleia, desde os estudos no Ensino Médio.

Cheguei a começar a ver o filme, dirigido por Nelson Pereira dos Santos (1963), num cineclube formado por estudantes da universidade, mas o DVD deu problemas e não conseguimos terminar de assisti-lo. Depois de alguns anos eu consegui assistir a São Bernardo, dirigido com o livro como roteiro por Leon Hirszman, com melhor qualidade, num Festival de Cinema. 

Na universidade, peguei o gosto (e a confiança) em comprar livros em sebos pela internet e sempre que tenho que comprar para algo mais do campo acadêmico sempre cato algum literário. Foi assim que comprei o livro de contos Insônia, ainda mais porque a partir da última fase do vestibular este veio a ser um "mal" a me atormentar com certa frequência, o que já gerou uma relação direta com o que ele (muito bem) contava neste conto - com outros também interessantes no livro.

Não lembro exatamente em que ano, mas fui ver uma adaptação para o teatro deste conto, realizada pela Cia. Teatro da Meia-Noite, contemplada pelo Prêmio BNB de Cultura em 2007. A cama que parece ser maior do que é, os barulhos que tiram a atenção, o tic-e-tac do relógio, o "sim" e o "não" o tempo inteiro na cabeça, tudo muito bem retratado no monólogo interpretado pelo ator Marcos Vanderlei.

Depois disso, começaram os livros já relatados neste blog. Procurando por eles nos arquivos deste espaço, percebi a diferença, até mesmo no estilo, de cada um dos quatro: Angústia, A terra dos meninos pelados, Viagem e Infância. O autor que consegue refletir tão bem sensações e ambientes mais ríspidos, caso também de Angústia, escrevendo um livro infanto-juvenil como A terra dos meninos pelados - que foi série da Rede Globo há alguns anos -, contando as marcas de sua Infância e relatando o seu lado político no diário de sua Viagem pelas repúblicas soviéticas, tão diferentes do Brasil.

Antes de qualquer crítica, porque eu tendo a analisar as obras de arte pela capacidade que ela tem de avançar no desvendar a realidade - logo, mostrando suas grandes contradições -, Graciliano criticou bastante a utilização de uma arte hermética, para fins políticos, divergindo fortemente do realismo soviético., por exemplo. Olha que estamos falando de alguém de pensamentos de transformação social, mas que entendia a fundamental importância da "independência" do artista.

O HOMEM
Muito tenho lido neste mês sobre o aniversário de Graciliano, principalmente por conta da reedição da biografia O velho Graça, escrita por Dênis de Moraes, jornalista e pesquisador referência dos estudos críticos sobre as estruturas de comunicação no Brasil. Geralmente retratado como alguém seco, avesso às entrevistas, há relatos sobre a sua vida, desde a escolha política às pressões sobre este posicionamento, como o caso de sua prisão na Ilha Grande (RJ) durante a década de 1930 pelo governo getulista - a quem não teria respondido a um cumprimento anos depois.

Polêmico, ele foi um dos representantes de uma fase do modernismo com autores que se voltaram ao regionalismo, mostrando um Brasil fora do "eixo", casos característicos e contemporâneos da cearense Raquel de Queiróz (autora, dentre outros, de O Quinze) e do baiano Jorge Amador (dentre vários outros, Capitães da Areia). O autor alagoano é apontado como alguém que gostava de criar polêmicas, a ponto de elogiar numa linha e criticar alguém como Machado de Assis na linha seguinte.

Dentre as polêmicas, ao menos para hoje - e muito para um pesquisador de futebol como eu -, Graciliano teria sido um dos intelectuais brasileiros a não acreditar no futebol como um elemento importante para a sociedade brasileira, descrevendo-o como "fogo de palha", um "efêmero modismo estrangeiro".

Graciliano teria seus primeiros livros publicados graças ao reconhecimento aos seus relatos de gestão da prefeitura de Palmeira dos Índios (AL), onde passou dois anos e após cada um deles escrevia as ações e dificuldades do cargo, sendo reconhecido como um homem que peitou os coronéis tão característicos no interior do Brasil e cujo relato sobre as atividades ainda hoje fazem falta na política nacional.

Porém, apesar de ter sido prefeito de Palmeira dos Índios, morado e trabalhado em Maceió e mostrar Viçosa em alguns de seus livros, o autor é natural de Quebrangulo, nascido no final do século XIX, no dia 27 de outubro de 1892, há exatos 120 anos.

O seu primeiro livro publicado foi Caetés (1933), ganhador do Prêmio Brasil de Literatura, ao qual se seguiram: São Bernardo (1934); Angústia (1936), com o qual ganhou o Prêmio Lima Barreto (Revista Acadêmica); Vidas Secas (1938), pelo qual ganhou o prêmio William Faulkner (Estados Unidos); A Terra dos Meninos Pelados (1939), com o qual ganhou o prêmio de melhor literatura infanto juvenil do Ministério da Educação; Brandão entre o mar e o amor (1942), Histórias de Alexandre (1944) e Infância (1945). De forma póstuma foram publicados: Memórias do cárcere (1953), Viagem (1954), Linhas Tortas (1962), Viventes das Alagoas (1962), Alexandre e outros heróis (1962), Cartas (1980), O Estribo da Prata (1984) e Cartas à Heloísa (1992). Graciliano traduziu ainda dois livros: Memórias de um Negro, de Brooker T. Washington; e A Peste, de Albert Camus. Vencendo ainda o Prêmio Felipe de Oliveira (1942) pelo conjunto da obra.

A morte de Graciliano completará 60 anos no ano que vem, sendo ele o homenageado da próxima Festa Literária de Parati, principal evento do setor editorial brasileiro. Continuando no Rio de Janeiro, ocupado por quase três turnos de trabalho e, ainda assim, com ajuda de alguns amigos, como Carlos Drummond de Andrade, para sobreviver, ele morreu no dia 20 de março de 1953, aos 60 anos, vítima de um câncer de pulmão, deixando uma vasta obra sobre o sertão de seu Estado, com uma característica literária altamente particular e inesquecível.

BALEIA
Uma das personagens mais marcantes de seus livros, a cachorra Baleia gerou em mim a intenção de abandonar os nomes estrangeiros que o meu pai resolveu escolher para os dois primeiros cachorros e decidir que o seguinte seria Baleia, independente se fosse macho ou fêmea - graças ao substantivo epiceno.

Dos sete filhotes da minha cadela, um deles nasceu maior que os outros. Estava escolhido o cachorro, que viria a crescer mais do que o imaginado depois, cujo nome casaria muito bem quando comparado aos seus irmãos. Baleia segue lá em Maceió, sendo o meu orgulho de dizer aos quatro cantos do Brasil que o meu cachorro tem este nome e poder explicar a escolha dele toda vez quando é necessário.

Salve Mestre Graça!

domingo, 21 de outubro de 2012

[Por Trás do Gol] "A lei do futebol" e só dele

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Imaginava que ia chover à tarde e dependia disso para ir ou não ao estádio. Imaginava que, por conta da vitória no primeiro jogo, veria um confronto tranquilo de volta. Imaginava que veria o artilheiro do time seguindo a fazer mais gols. Imaginava que nunca veria a ambulância sendo utilizada num jogo. Imaginava... Imaginava... Nada do que eu imaginava.

De um lado, time vestido de azul e branco, com estádio perto de onde eu moro, com torcedores teimosos de tão sofredores e com a sigla bem parecida, CEA. Do outro, um time vestido com listras verticais em vermelho e branco e, para piorar, com um jogador que foi mandado embora do CSA no início do ano por falta de comprometimento. Dúvida para quem torcer? Não mesmo, Clube Esportivo Aimoré e com a camisa do Centro Sportivo Alagoano.

Não dava para dizer que era "cem pila"
Só fui com a camisa do Azulão do Mutange porque na segunda fui comprar a camisa do Aimoré, a que falta para a minha coleção dos times gaúchos, e tinham devolvido para a impressão de um patrocinador nos ombros, depois não pude voltar ao Centro para comprar a camisa - e nem imaginava que estariam boa parte do sábado vendendo também ingressos de forma antecipada na rua mais movimentada da cidade. Como no estádio também vendem a camisa, imaginei que poderia encontrar alguma do meu tamanho desta vez. Até encontrei, mas com o dobro do valor da outra vez. Nada feito, por enquanto.

Era a partida de volta das quartas de final da Segunda Divisão do Gaúchão - que na verdade é a terceira - entre Aimoré, daqui de São Leopoldo, e Guarany de Bagé, cidade que visitei no ano passado, bem ao sul deste Rio Grande. Na primeira partida, vitória do Índio Capilé por 1 a 0, com vantagem do empate no jogo em casa.

Como coloquei acima, fiquei na dúvida se iria ou não caso chovesse. No final das contas, apesar de ter ameaçado com muitas nuvens no intervalo do jogo, nenhuma gota d'água caiu no domingo em São Léo. Poderia até ter ficado no barranco atrás de um dos gols, como fizeram cerca de 100 torcedores que fugiram da abafada arquibancada coberta. Do outro lado, cerca de 50 torcedores do Guarany apareceram para empurrar o time para uma difícil batalha: derrotar o time com a melhor campanha no torneio e fazer o clássico bageense Ba-Gua nas semifinais.

MUITAS PARADAS E NADA DE GOL
Já nos primeiros minutos de jogo, QUATRO escanteios seguidos para o Aimoré davam a ideia que o time da casa não queria saber de segurar a vantagem. Acordado do susto, Adriano Gabiru - o mesmo que fez o gol do título mundial pelo Inter em 2006, contra o BARCELONA - tentava criar no meio-campo alvirrubro, sendo "perseguido" pela torcida da casa a cada bola perdida e na única falta recebida por ele.
A partida passou a ficar movimentada, com o Guarany com mais posse de bola e os capilés chegando com perigo no contra-ataque. Num deles, a bola veio da esquerda para Lucas, o artilheiro do time, que chegava sozinho na frente do gol. Porém, atrasado, não só perdeu o gol como ainda piorou a lesão na virilha direita - que o forçaria a sair do jogo ainda no primeiro tempo.

Pitol dava conta do recado lá atrás para manter os presentes não tão preocupados, com duas excelentes defesas em chutes de fora da área do Guarany. Para piorar, o lateral-esquerdo do Aimoré, logo em seguida, saiu carregado de campo com uma lesão no joelho esquerdo - ele apareceria depois com uma muleta, por não conseguir sequer tocar o chão.

Antes de Lucas sair de campo, o Aimoré ainda teve mais duas boas oportunidades. Na primeira, cruzamento da esquerda, a zaga fura na hora de tentar o corte, o lateral-direito aparece sozinho, bate colocado, mas a bola vai por cima do gol. Em seguida, escanteio batido e o zagueiro se antecipa para cabecear para trás, o goleiro do Guarany, já mancando, trabalhou bem e encaixou a bola.

A quantidade de chances no primeiro tempo deve ter sido igual às paradas na partida para atendimento médico. Devem ter sido, no mínimo, sete intervenções, de lesões no joelho e na virilha a recomposição de curativo num braço já quebrado e marca de chuteira na barriga. Nem tudo o "spray mágico" resolveu. De qualquer forma, após mais de quatro minutos acrescidos, o 0 a 0 não saiu do marcador - caso ele existisse no Monumental do Cristo Rei.


EMOÇÕES
Como no primeiro jogo que vi no estádio eu acabei me deslocando para o barranco, desta vez reparei com curiosidade que mesmo aqueles que não sairiam do lugar para ver o segundo tempo atrás do gol ou para comprar bebidas - inclusive cerveja (liberada por aqui) -, levantavam-se e ficavam em pé durante todo o intervalo. Todxs fizeram isso!

Na volta, o goleiro do Guarany entrou em campo só para cumprimentar o árbitro, pois foi substituído antes mesmo do trilar do apito para a segunda etapa. Daniel fez duas defesas excelentes, que davam a ideia de que se saísse gol seria dos donos da casa, que ficavam mais com a bola na etapa final. Foram muitas chances perdidas pelo Aimoré a partir daí, com os jogadores com os pés descalibrados e, inclusive, justificando o porquê de Lucas ter ficado no "sacrifício" por tanto tempo. 

Adriano Gabiru saiu de campo achincalhado pela torcida local e sem cumprimentar o seu substituto. Alguns torcedores chegaram a questionar como o rival conseguia ter jogadores "caros" assim. A resposta foi que, na verdade, eles estavam com salários atrasados - coisas de times brasileiros, preferem ter elenco caro, mesmo que não possam pagá-lo...

O jogo seguia movimentado até um senhor sair do banco destinado à Brigada Militar, aos repórteres e aos responsáveis pelo estádio e pelo torneio para pegar água. Logo em seguida, a ambulância é deslocada para o setor - desculpa, Vila Belmiro, mas aqui foi fácil, fácil. Enquanto eu tentava ver o que ocorria ali em frente, a torcida ficava de olho para as jogadas de dentro do campo, onde o Aimoré perdia mais e mais oportunidades de garantir a classificação. 

Foi daí que saiu a frase que é parte do título deste post. Como "sempre" há torcedor pessimista, dois, próximos a mim, começaram a reclamar das chances perdidas e um falou:

- Não se pode perder tantas chances. No futebol, quem não faz, leva.

- Essa é a lei do futebol.

Pude ver o desfibrilador saindo da ambulância, mas não sei se foi utilizado. De qualquer forma, o homem atendido, de cerca de 50 anos, apareceu com a camiseta aberta e sem a necessidade de ir na ambulância para um hospital - que fica perto dali, ainda que não seja a mesma distância do Rei Pelé ao HGE. Minutos depois de ter entrado no vestiário, ele retornou ao seu posto.


Quando o cronômetro já deveria ter passado dos 35 minutos. Bola alçada na área do Aimoré, alguém desvia de cabeça e a pelota vai no travessão. Ela volta para a entrada da área, alguém chuta e Pitol defende. Ela continua dentro da área e tocam para o outro lado. Longe da MULTIDÃO, Adão bate no alto e marca o tento que levaria a partida aos pênaltis.

Festa no banco do Guarany e das dezenas de torcedores do outro lado. Enquanto isso, um auxiliar do time olhava para o outro banco, falava um monte de coisas, irritado, e mandava calar. A torcida capilé ficou brava com ele, começou a subir no alambrado e quase se tem uma batalha por ali. Depois de alguns minutos, a Brigada foi deslocada para o local, quando já não havia qualquer problema.

Apesar do apoio da torcida até o último minuto, o Aimoré não conseguiu marcar o gol da classificação e a partida foi aos pênaltis. Enquanto os capilés saíam cabisbaixos pela derrota em casa, os alvirrubros de Bagé saíam empolgados.

A LEI DO FUTEBOL
Os pênaltis guardavam um momento de ansiedade para todxs ali. O trabalho do ano em jogo para os dois times - lembrando que o Guarany é dono de dois títulos gaúchos (1920 e 1938). Lei por lei, apesar de mais motivados de um lado, dizem que "pênalti é loteria".

De um lado Pitol, do outro, Marcelo, estes os nomes que tinham o dever de dar alegria aos milhares de São Léo ou às dezenas de Bagé ali presentes. Melhor que eu contar como foi, segue abaixo o vídeo com as cobranças - reparem na aflição do técnico do Aimoré nas últimas cobranças...



Com a classificação nos pênaltis por 4 a 2, segue a batalha do Aimoré para ir à Divisão de Acesso - não podemos chamar de "volta" porque ela foi criada, com este nome, em 2012. Nas semifinais, o Índio Capilé pega outro time de Bagé, o Grêmio Bagé, que passou pelo Nova Prata após empatar sem gols o primeiro jogo contra o Nova Prata e vencê-lo hoje por 2 a 1.

*Para ver mais fotos do jogo, acesse aqui.