
O grande vencedor dos maiores prêmios do cinema mundial foi um filme indiano! Quer dizer, não genuinamente indiano.
Slumdog Millionaire venceu desde o glamouroso
Oscar a outros prêmios mais técnicos, como o
Bafta (britânico) e de associações de profissionais ligados ao cinema. A grande questão que faço e que o mundo cinematográfico fez e tentou responder: quais os motivos de tamanho sucesso para uma produção de pequeno porte?
Mesmo tendo “conseguido” o filme antes mesmo da apresentação do
Oscar, só assisti-lo algumas semanas depois, inclusive um dia depois da sua chegada aos cinemas brasileiros – que por
milagre Alagoas ficou incluída.
Como não sou um exímio admirador do cinema, tento me apoiar em algumas fontes de jornais impressos e de blogs ou sites para ver a opinião de algumas pessoas entendidas no assunto. E aí que o filme não foi tão idolatrado assim. Não era um marco do cinema – como já não temos há algumas décadas.
A grande diferença é que era um filme que segue o modelo
bollywoodiano de ser, com atores indianos, equipe quase que inteira da Índia também. Com um polêmico tempero
Cidade de Deus (Fernando Meirelles) e, principalmente, a falta de apoio de grandes estúdios mundiais.
Mas há um ponto que representa quase que um consenso entre os analistas de plantão e este ponto está condicionado às mudanças pós-Bush e a um período de crise do neoliberalismo que o mundo pede.
A potência mundial se viu odiada pelos quatro cantos do mundo por suas atitudes autoritárias e imperialistas. Os grandes conglomerados mundiais acumulavam cada vez mais capital e o próprio sistema traz como uma de suas grandes contradições o fato de necessitar a circulação do capital, para mais um ciclo de alimento da sua acumulação. Eis a crise que afetou especialmente os países de Primeiro Mundo.
Em resposta a isso, os Estados Unidos elegeram a
mudança através do democrata Barack Obama – claro que dentro do ligeiro limite deles. O mundo voltou a apoiar um mandatário estadunidense como se ele representasse o planeta. Sua principal função era olhar para todos os lados, fossem ricos ou fossem pobres.
Assim como no título original do filme, os favelados (ou vira-latas) se tornaram milionários num curto período de tempo. Ao menos as atenções passaram a ser para eles também. E é nesse processo que entra a permissividade da Academia para o filme dirigido pelo britânico Danny Boyle.
Entretanto, qualquer mudança no sistema capitalista – enquanto não for algo radicalmente transformador – terá seus limites. Não seria diferente numa de suas indústrias de alimentação, caso da atual produção cultural.
O grande fato que não tirei da cabeça desde que soube do primeiro prêmio de Quem quer ser um milionário? (nome do programa de perguntas e respostas do filme que virou tema por aqui) é que apesar de tão indiano, sua cabeça é britânica.
Quer dizer então que foi necessário que alguém de um país desenvolvido resolvesse produzir e dirigir um filme no local que mais produz longas no mundo para que o “mundo” percebesse que ali poderia sair algo que prestasse. O
Oscar representou a pequena guinada ideológica da Academia e dos Estados Unidos: o tal do
voltar o olhar para o mundo em sua volta, e isso é bem mais que se juntar ao Reino Unido para invadir Afeganistão e Iraque!
Quanto ao filme em si, ele apresenta um formato interessante ao interligar a vida do garoto ao jogo. Cada pergunta, ficcionalmente coincidente, explicava um momento específico na vida do protagonista, Jamal Malik. No final ele vira mais um representante do grupo que tem Lula no Brasil, Chávez na Venezuela e Obama nos E.U.A., o que quer nos fazer acreditar que todos podem. É assim que os outros
slumdogs passam a vê-lo.
As aproximações com
Cidade de Deus existem primeiro porque ambos mostram lugares no mundo em que as pessoas sobrevivem, apenas isso. Além da muito comentada comparação entre os irmãos indianos com os dos amigos do morro carioca, em que um vira bandido e o outro tenta não ficar igual.
Para finalizar, aconselho para quem assistir ao filme que fique até o final. Já que é durante os créditos que aparece algo tradicional por lá. A dança dos protagonistas lembra, e muito, os clipes dos anos 80; o que virou motivo de piada por aqui em vídeos na Internet de músicos indianos.