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Fonte: Pei Fon (TNH1) |
Não
é surpresa para ninguém que acompanha a Copa do Nordeste que há
mais de um ano ocorrem discussões sobre a necessidade de mudanças
no torneio. O Sport optou por não jogar já a edição de 2018, que
apresentou a redução de 20 para 16 clubes na fase de grupos; e o
Bahia, especialmente, ameaça disputar com time sub-23 ou não jogar
o torneio de 2019 se não houver nova redução a partir de 2020.
Para
2019, considerado ano de transição, o torneio terá a mesma
quantidade de participantes, 16, mas a definição de clubes
considerou os campeões estaduais, como era antes, só que também o
ranking da CBF, o que permitiria que os clubes de maior tradição
não ficassem de fora do Nordestão. Discutimos muito disso no Baião
de Dois, incluindo ainda a proposta vinda do Bahia de reduzir para 12
equipes, sob formato semelhante ao que era na fase “Liga do
Nordeste”.
O
modelo aprovado esta semana restringiu-se apenas a 2019, com nova
reunião sobre o futuro a ser marcada no próximo mês. O regulamento
define que os 16 participantes serão divididos em dois grupos com 8
times cada, com clubes enfrentando os do grupo oposto, garantindo
clássicos regionais já nesta fase. Assim, deveremos ter CSA X CRB,
Náutico X Santa Cruz, Ceará X Fortaleza, Moto Club X Sampaio
Corrêa, Sergipe X Confiança e Bahia X Vitória.
O
formato escolhido segue o do Paraibano deste ano, com problemas que
tratamos no Baião, porque pode gerar um desequilíbrio dentre os
classificados. Como exemplo, o Nacional de Patos marcou 19 pontos, 5
a mais que o primeiro do outro grupo, e foi disputar o quadrangular
para fugir do rebaixamento porque ficou em quarto lugar no grupo que
estava – os outros problemas deste e de outros torneios na Paraíba
estão na mídia, também estamos acompanhando, com atualizações a
cada terça-feira.
Outro
ponto preocupante é o valor das cotas. Da mesma forma que ocorreu em
2018, os direitos de transmissão serão divididos em 4 grupos. Antes
desta reunião, os 3 primeiros grupos seriam divididos entre os 12
participantes com classificação direta (campeões de cada um dos
nove estados do Nordeste, mais o melhor do ranking da CBF de Ceará,
Pernambuco e Paraíba). O último era para quem passasse da fase
prévia.
Já
aqui havia um problema, porque conseguiu-se um aumento inicial de R$
4 milhões – que pode ser mais de acordo com acordos de publicidade
que possam surgir até a competição –, mas a redistribuição dos
valores tirou um pouco da remuneração pelo avanço de fases,
aumentando todas as cotas de participação, menos a última, que foi
diminuída em R$ 240 mil.
Em
termos puramente de análise de estruturas de mercado, futebol vive
da concorrência entre clubes. Num jogo, entre equipes. Num
campeonato, todas as que o conformam. Quanto melhor a concorrência,
mais se atrai torcedores para consumir seus serviços e produtos e,
consequentemente, mais empresas interessadas. Afinal, jogos com
resultados mais óbvios tendem a gerar menos demanda. A diferença na
possibilidade de investimento de cada participante interfere nessa
relação.
Isso
não significa que defendemos valor igual como algo mais justo, mas
que se busque modelos de partilha que considerem variáveis mais
relevantes para o torneio, ao mesmo tempo que a diferença não
interfira na qualidade do produto, que é o jogo. A diferença subiu
de 125 mil/ 100 mil/ 20 mil para 500 mil /200 mil /710 mil, de forma
não proporcional ao dinheiro acrescido ao bolo inicial, criando
diferenças consideráveis especialmente para o último grupo, que
receberá duas vezes menos que o anterior, numa partilha de valores
ainda pequenos.
Para
piorar, a reunião ocorrida em Recife mudou a divisão e, no nosso
entender, para ainda pior. Em vez de considerar o ranking para os 12
classificados diretos, ampliou-se para todos os classificados,
independente de terem passado ou não pela fase prévia. Assim, as
faixas ficaram em: Grupo 1 – R$ 1,9 milhão de reais (Vitória,
Bahia, Santa Cruz e Ceará); Grupo 2 – R$ 1,42 milhão (ABC,
Náutico, CRB e Sampaio Corrêa); Grupo 3 – R$ 1,22 milhão
(Fortaleza, Botafogo-PB, Salgueiro e Confiança); e Grupo 4 – R$
510 mil reais (CSA, Moto Club, Altos e Sergipe).
Por
um lado, entendemos que usar apenas o ranking da CBF é um problema.
Este considera apenas os torneios nacionais (Brasileiro e Copa do
Brasil) dos últimos 5 anos, com pontuação proporcionalmente maior
para os anos mais recentes – a partir de uma mudança ocorrida no
final de 2016, pois antes era o histórico todo. O próprio
Nordestão, até por ser o único regional existente, não é
considerado. Isso faz, por exemplo, que o Santa Cruz (R$ 1,9 milhão),
na Série C, ganhe quase 3 vezes mais que o CSA (R$ 510 mil), que
disputa a Série B. Além disso, considera-se o ranking de 2017 para
definir as cotas do torneio que iniciará em 2019, independente do
que for conquistado este ano. Assim, para seguir neste exemplo, a
pontuação do Santa Cruz rebaixado na Série B do ano passado é
maior para o último ano considerado (em valores e em peso) que o do
CSA, mesmo tendo conquistado o título brasileiro da Série C.
Outro
ponto é que o mérito de ida ao torneio privilegiando os campeões
estaduais, que ainda existiu para classificar para 2019, foi
desconsiderado. Assim, o CSA – realmente somos clubistas, por isso
o exemplo recorrente – receberá menos ano que vem que este ano, em
que veio da fase prévia.
O
valor do Grupo 4 é praticamente o mesmo que o último grupo de 2002
(R$ 500 mil), que o CSA também estava, mas a diferença entre grupos
que naquele momento privilegiou os times de primeira divisão, eram
de 110 mil e 60 mil. Criar diferenças que, em progressão
geométrica, tendem a aumentar com a vinda de mais recursos, pode
gerar distúrbios como os vividos no Brasileiro das séries A e B.
Não à toa que o aumento da concorrência da área de radiodifusão
e a pressão de alguns clubes auxiliaram na mudança dos parâmetros
deste caso a partir do contrato de 2019, com porcentagem fixa mínima
dividida de forma igual.
É
fato, e vivemos falando disso no último ano, o valor da Copa do
Nordeste deveria ser muito melhor que é. Para termos uma ideia, este
ano serão pagos cerca de 23 milhões de reais; o torneio de 2002, o
último da fase áurea de liga, pagou 16 milhões de reais em
direitos de TV. A inflação acumulada do período foi de 170,61%.
Numa projeção rápida, o valor estaria em 44 milhões – não
considerando que o regulamento era diferente e as datas abundavam,
com modelo regional sendo base, além do histórico de ainda mais
sucesso à época.
Outra
coisa importante, é que a parceria com o Esporte Interativo, em
contrato assinado por 10 anos, deixou que a variação do pagamento
pelos direitos de transmissão considerassem apenas a inflação do
período. Tribunais internacionais em defesa de concorrência
delimitam 4 anos como tempo máximo desse tipo de acordo, de maneira
a não engessar as possibilidades de conquista de mais dinheiro, da
mesma forma que não se prende a mudanças de prioridades dos grupos
comunicacionais – no caso do EI, por exemplo, a conquista dos
direitos da Champions League fizeram com que o Nordestão não fosse
mais o principal produto da emissora, tirando parte da atenção
destinada ao torneio.
Entendemos
que começar uma necessária nova fase da Copa do Nordeste sem
considerar um formato e uma divisão de valores a partir de critérios
justos para todos os clubes e para estimular uma real concorrência
dentro de campo é um problema a ser considerado urgentemente. Não
podemos criar um novo eixo em nível regional, algo que tanto
sofremos com as divisões de cotas em torneios nacionais.
Por
fim, destaco o orgulho de participar do Baião e Dois e agradeço ao
Matheus Chaves pelas divergências colocadas e discutidas de forma
sensata pelo Twitter – infelizmente divergir, mas dialogar, sem
brigar e ofender, é algo a se destacar nas mídias sociais. Foi a
discussão que estimulou a escrita deste texto.