segunda-feira, 8 de julho de 2019

2019.10 O Diário de Anne Frank/ 2019.11 Mônica é daltônica?

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Como eu havia reclamado à minha companheira que precisava ler mais, como coloquei em posts anteriores, ela sugeriu que passássemos a ler o mesmo período em determinado tempo e depois conversássemos sobre ele.

Fazia algum tempo que ela havia lido "O Diário de Anne Frank" e queria retomar. Eu havia lido uma versão em quadrinhos, mais reduzida, no início do ano. A história é um clássico da literatura mundial especialmente por se tratar de um conjunto de pessoas que se escondeu para evitar a perseguição nazista na Holanda. É mais forte ainda por se tratar de um diário de uma criança/adolescente, com todas as características da idade.

Terminado ele, eu tirei da gaveta a reedição do primeiro gibi da Mônica, "Mônica é daltônica", em versão do ilustrador Odilon Moraes. Acostumado com as Graphic Novels MSP, achei que seria uma um pouco maior, mas é uma história super curta, mas que me fez ver a força da liderança feminina de uma personagem mulher nos quadrinhos já nos anos 1970 - com todas as divergências possíveis sobre Maurício de Souza nos últimos anos. Fora algo que é óbvio só de olhar a capa, material muito bonito.

FRANK, Anne. O diário de Anne Frank.

SOUSA, Maurício; MORAES, Odilon. A Mônica é Daltônica. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

terça-feira, 25 de junho de 2019

2019.9 A tradutora

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Acabei não comentando no texto anterior, mas passei de janeiro a maio sem terminar nenhum livro. Entrei na rotina de ler muito, mas especialmente textos acadêmicos (artigos e capítulos de livros). Se eu somasse tudo daria muita coisa, mas uma das minhas reclamações recentes é que essa situação, que tem o acréscimo de usar bastante o Twitter, está fazendo com que eu piore a minha escrita. Além, é claro, de eu não consegui ler coisas por prazer.

Dentre outros motivos para eu ter diminuído a leitura deste tipo de texto está o fato de eu viajar muito à noite/de madrugada, em que há o cansaço do dia mais a busca por não incomodar as pessoas. Outra coisa, mais óbvia, é a falta de tempo mesmo para ler à noite, em que eu prefiro descansar quer ler mais um pouco. Além disso, as minhas idas à UnB são longas, mas normalmente eu estou a maior parte de tempo em pé no ônibus. Até por esses fatores, sinto muita falta do Leia Mulheres, que me forçava a ler um livro por mês, partindo de diferentes motivos.

Anos atrás, dei num amigo secreto o livro "O fotógrafo", do Cristovão Tezza. Ano passado, quando passei pelo (incrível) Sebinho aqui em Brasília saí carregados de livros. E "A tradutora", do autor paranaense, foi um deles. O livro ficou aqui e acho que não levei para Maceió (ou Santana) em nenhuma viagem, assim, eu acabei lendo-o a conta-gotas, encerrando hoje.

Como se não bastasse ser em conta-gotas, o livro trata de três dias na vida de Beatriz, que está traduzindo um texto, serve como tradutora para um executivo da Fifa que vai a Curitiba por conta da Copa e ainda tem memórias sobre um namoro que deveria acabar e conversa com uma amiga sobre o relacionamento com o executivo. São histórias em paralelo, divididas em aspas, travessões e itálicos que fizeram com que eu demorasse a achar o fio da meada. Quando consegui, agradei-me do livro (nem tanto do final).

TEZZA, Cristovão. A tradutora. São Paulo: Record, 2016.

2019.8 Meus desacontecimentos

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Sou fã da Eliane Brum desde o dia em que pude acompanhar uma entrevista em que um grupo de pesquisa da Unisinos fez com ela, ainda em 2012. Meses depois, um texto dela na revista Época sobre a situação dos índios Guarani-Kaiowás viralizou. Acompanhava uma coluna ou outra na revista e venho lendo mais coisas desde que ela foi contratada pelo El País Brasil.

Das coisas que eu gostei naquele momento em São Leopoldo e segui acompanhando é a busca pela autonomia no trabalho jornalístico, de buscar ouvir e contar a história das pessoas, independente da pauta que foi passada ou do tamanho do que será contado.

Meus Desacontecimentos é um relato pessoal sobre como a relação com as palavras fez com que Eliane Brum suportasse o cotidiano, sendo uma criança que conviveu com a memória de saudade da mãe por uma irmã mais velha que morreu ainda bebê. A partir do que ela conta no livro temos muitas explicações dos caminhos que conseguimos enxergar nos seus textos. 

Se você é ou quer ser jornalista e não conhece as colunas de Elaine Brum, maratone: https://brasil.elpais.com/autor/eliane_brum

Também para quem não é jornalista, há o livro de ficção dela, que li algum tempo atrás, que é o "Uma, duas", um relato muito vivo da relação entre mãe e filha. Forte, mas necessário.

BRUM, Eliane. Meus desacontecimentos. São Paulo: Leya, 2014.

domingo, 14 de abril de 2019

Não é que o El Dorado chegou?

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Quando cheguei em São Leopoldo-RS para cursar o mestrado, resolvi criar o "Em busca do El Dorado" para contar a minha trajetória naqueles dois anos. Muitas das minhas angústias, ainda que também das viagens e conquistas, vieram parar aqui neste blog. Quando aquele percurso se encerrou, segui por caminhos muito tortuosos, especialmente no primeiro ano, a ponto de eu afirmar aqui que o "El Dorado não existe" já no início da segunda fase.

Pouco mais de 6 anos depois, lancei um dia depois do meu aniversário a atualização da dissertação do Mestrado, um trabalho que uniu a minha paixão pelo trabalho acadêmico com o amor de uma vida ao futebol numa perspectiva crítica. Ainda consegui fazer isso num auditório com o nome "Lauthenay Perdigão", o maior entusiasta da memória do futebol alagoano no Estado, e no meu lar, o Trapichão. De tantas emoções que vivi e vivo naquele espaço de concreto e de afeto, nunca imaginei que estaria ali em outra função.

Muitas pessoas queridas e de diferentes épocas e contextos estiverem presentes, mesmo com a mudança de último momento no horário. Fiquei bem feliz com os relatos de "só você para fazer com que eu viesse num estádio". Um dos meus maiores orgulhos, desde as disciplinas do Mestrado, era também falar sobre futebol numa perspectiva crítica para pessoas assim; para além, claro, das que também são fissuradas neste esporte (ou num clube) e poderiam ver a importância dos estudos acadêmicos sobre o tema.

Confesso que ainda não caiu a ficha que tudo isso ocorreu, que não é um dos meus tantos sonhos "irrealizáveis" desde criança envolvendo jornalismo esportivo. Das primeiras camisas da coleção, hoje muito pequenas porque eu só tinha 6 anos; dos cadernos cheio de anotações de dados de torneios esportivos desde os 8; dos artigos científicos e capítulos de livros sobre futebol a partir dos 22; da vida no Trapichão em jogos de distintos campeonatos; do orgulho e emoção que tenho de poder trabalhar com algo que curto muito, independente de ser cada vez mais mercadológico. Antes de professor da Ufal, presidente da Ulepicc-Brasil ou qualquer outra coisa que o trabalho nos dá, eu sou a pessoa que conhecidxs e amigxs identificam como quem ama o futebol. Sou eu em toda a minha história, de muita resistência e muita luta, num momento extremamente difícil para fazer certas coisas, que estava ali. Até que controlei bem a emoção ao final para tudo o que representou.

Agradeço a todo mundo que puderam ir num sábado à noite prestigiar o meu trabalho. Aproveito também, àquelxs que não puderam ir devido a outros compromissos - algumas pessoas que até me pediram para guardar um exemplar. E também agradeço a todas as felicitações de aniversário nos últimos dois dias, fossem presenciais, ou em alguma ferramenta de comunicação pela internet. Como comentei no grupo da minha turma de doutorado, nunca antes precisamos tanto de demonstrações voluntárias de afeto para podermos seguir lutando, seguir vivendo.

Ah, não pode faltar o apoio fundamental de Carolina, minha companheira, e a pessoa que mais gosta de me fazer surpresa em aniversário.



quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

2019.7 Verão no Aquário

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O único livro que havia lido de Lygia Fagundes Telles era "As Meninas", escrito no início da década de 1970 e com um potencial grande de crítica ao regime militar no Brasil. Para além da conjuntura atual, até porque li antes das coisas se agravarem, já era um livro essencial para leitura. Foi por gostar muito de "As Meninas" que logo comprei "Verão no Aquário", mas deixei na fila de leitura por algum tempo.

Escrito mais de 10 anos antes, com publicação em 1963, representa um momento de transição no Brasil e também de uma família ex-pequeno burguesa, numa situação social de necessária venda da antiga casa, mas com a filha participando de todas as festas de alta classe e se apaixonando por um jovem que queria ser padre e de condições financeiras muito ruins.

O texto é contado a partir do ponto de vista de Raíza, em meio a um suposto triângulo amoroso com André e a mãe Patrícia, escritora. Com texto marcante da autora - vejam que li este depois do que seria publicado na década seguinte -, somos encaminhados a terminar a história rapidamente. Destaco ainda que os capítulos do livro trazem pequenos pulos temporais, então não são algo contínuo, dia após dia.

TELLES, Lygia Fagundes. Verão no Aquário. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

2019.6 Grão

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Tenho dificuldade em iniciar livros que se propõem a inovar na escrita, seja com parágrafos diferentes, muito curtos ou muito longos, com pontuação deslocada ou qualquer outro jeito de escrever de forma diferente. Não à toa que sou muito mais para a prosa. O livro de Ana Maria Vasconcelos gerou em mim, inicialmente, um incômodo no formato, por justamente trazer estes tipos de elementos. Precisei parar e ler outras coisas para depois voltar a ele. Só aí conseguir me adaptar ao texto e seguir.

É um livro que traz textos com grande profundidade emocional, o que também exige um bom momento de quem estiver lendo, pois carrega certa carga dramática ligada ao introspectivo. Por isso até que neste caso a forma de escrita se encaixa muito bem.

VASCONCELOS, Ana Maria. Grão. Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2014.

sábado, 19 de janeiro de 2019

2019.5 Fechado por motivo de futebol

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Como disse na leitura passada, precisei ir à livraria para comprar livros novos de ficção, ainda de férias dos estudos. Passando pela "literatura internacional", vi "Futebol ao sol e à sombra" e já fui procurar o "Fechado por motivo de futebol", que um amigo de Baião de Dois tinha comprado meses atrás. 

Já li o livro de contos clássico sobre futebol de Galeano, mas só o título desta edição já me chama a atenção, porque poderia ser muito bem o lema da minha vida e colocar uma placa com isso na porta, como o autor uruguaio fazia em épocas de Copa do Mundo. 

Como a ideia aqui não é descrever, então destaco especialmente a última parte, "Futebol, a única religião sem ateus", com entrevistas, prólogos e textos quando ganhou prêmios. Enquanto pesquisador de esquerda sobre o futebol, marca bastante a relação que ele faz das críticas à direita e à esquerda em relação a este esporte. Galeano diz que à direita porque os trabalhadores pensam com os pés; e à esquerda porque o futebol faria com que os trabalhadores não pensassem.

Seguem alguns trechos que posso usar como epígrafes em trabalhos futuros:

"Por que o futebol é o espelho do mundo e em meus livros eu me ocupo da realidade. [...] E o futebol é uma parte fundamental da realidade, sempre achei muito indignante que a história oficial ignorasse essa parte da memória coletiva que é o futebol como em países como os nossos" (191). 

"A opulência e a pobreza, o norte e o sul, jamais se enfrentam em igualdade de condições, nem no futebol nem nada, por mais democrático que o mundo diga que é" (213-214). 

GALEANO, Eduardo. Fechado por motivo de futebol. Porto Alegre: L&PM Editores, 2018.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

2019.4 Valente para Sempre

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Morando num apartamento, com livros noutra casa, fui à livraria em Maceió buscando alguns livros de ficção. Sempre passo pela parte de quadrinhos - especialmente para buscar graphic novels da Turma da Mônica. Achei "Valente para Sempre", do Vitor Cafaggi, li a história e decidi comprar.

Basicamente, trata de como o cachorro Valente lida com uma paixão platônica e depois vai para outro relacionamento. Da Dama à Princesa, é uma aula para lidar com sentimentos. A única parte ruim é que os outros 4 volumes, de continuação, são difíceis de comprar, pois a última edição é de 2013.

CAFAGGI, Vitor. Valente para Sempre. Panini Livros: São Paulo, 2013.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

2019.2 A Samurai: primeira batalha/2019.3 O Diário de Anne Frank em Quadrinhos

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Gosto de ler quadrinhos/graphic novels. Apoio alguns de brasileirxs pelas plataformas colaborativas e compro outros em livrarias. Junto às leituras da Revista Placar, os quadrinhos da Turma da Mônica fizeram parte da minha introdução à leitura e seguem sendo muito importantes, ainda que tenha retomado a leitura deles nos últimos 3 anos.

"A Samurai: primeira batalha" faz parte de um projeto mais amplo da curitibana Mylle Silva. A proposta é interessante por diversos motivos. Primeiro, em termos de conteúdo, por retratar a história de uma mulher criada para ser gueixa, Michiko, mas que escapa de vez em quando para ser samurai num Japão numa sociedade patriarcal e misógina (ao extremo), Período Edo. Segundo, por ser uma história sendo contada, pois esta edição é a terceira (ainda que, historicamente, seja um prólogo à história principal). Terceiro, por utilizar os traços de diferentes quadrinistas e coloristas, o que é interessante para apresentar outras pessoas. Por fim, nesta edição, em especial, por se tratar de um quadrinho feito todo por mulheres. Conheça o projeto em: http://asamurai.com.br/

De certa forma, "O Diário de Anne Frank em quadrinhos" dialoga com o livro lido anteriormente, Memórias do Cárcere. De reconhecimento internacional, é o diário de uma adolescente dos seus 13 aos 15 anos, escondida com a família e outras pessoas judias no anexo de um prédio na Holanda no período do nazismo. Há outro livro em quadrinhos sobre o Diário, este eu comprei há alguns anos e só li ontem e, creio, tratar-se das notas do diário, passando rapidamente pela história, sendo uma boa alternativa para leitura de adolescentes que se assustam com números de páginas e que precisam conhecer uma história real vista pelo ponto de vista de uma adolescente. A força de uma história, infelizmente, já clássica na literatura mundial tem roteiro e ilustração de Mirella Spinelli - o que também deixa uma relação com "A Samurai".

SILVA, Mylle et al. A Samurai: primeira batalha. Curitiba: Nhom, 2017.

SPINELLI, Mirella. O Diário de Anne Frank em quadrinhos. São Paulo: Nemo, 2017.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

2019.1 Memórias do Cárcere

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Comprei a edição de 2014 de "Memórias da Cárcere", da Editora Record, há alguns anos. A vantagem dela é que os 4 (versão inicial) ou 2 (das versões mais recentes) volumes estão juntos numa mesma brochura, o que ajuda a seguir na história da prisão do escritor alagoano Graciliano Ramos durante a ditadura do Estado Novo, de 1936 a 1937. Ao mesmo tempo, ao menos para mim, sabia que precisava ter mais tempo para lê-lo, o que me fez adiar a leitura do meu último livro do autor.

As férias vieram, com duas viagens em que me propus a ficar sem qualquer tipo de conexão com a internet - algo que nos tira bastante tempo. Até pelo ano corrido, o ideal era fazer isso. Para os tempos que podem se avizinhar, seria interessante também lê-lo agora. Graciliano foi preso pelo que escrevia em artigos e nos dois livros então publicados (Caetés e São Bernardo), ocupava o cargo de "secretário de educação" em Alagoas.

O livro é separado em 4 partes: Viagens, Pavilhão dos Primários, Colônia Correcional e Casa de Correção. Graciliano se mostra corajoso beirando o inconsequente, pois sabe que vai ser preso e mesmo assim fica aguardando a política buscá-lo em casa. A parte de Viagens é dedicada a isso, contando a viagem a Recife e, posteriormente, a que vai ao Rio de Janeiro, com todas as divergências existentes no navio com pessoas tão diferentes presas juntas, com Graciliano sem conseguir comer com os dejetos indo e vindo no chão. No Pavilhão, a organização é mais clara, com formação de coletivos e cursos realizados. A ida à Colônia Correcional marca o ápice da situação, com prisão num lugar em que, como diz um dos guardas, não há diferenciação nenhuma. É ali que Graciliano relata melhor o contato com ladrões comuns, que chegam a ensiná-lo como fazem furtos, que a figuras de esquerda mais reconhecidas. Na Casa de Correção, sala do Pavilhão dedicada a pessoas prestes a sair, Graciliano tem mais direitos e volta a se alimentar bem. É dali que sabe que "Angústia" é publicado.

O livro carrega uma polêmica desde que foi publicado, após a morte de Graciliano e, por isso, sem o capítulo final. O PCB, ao qual se filiou na década de 1940, teria censurado trechos do livro junto ao filho Ricardo Ramos? O tema veio à tona porque Graciliano descreve com uma visão positiva alguns ladrões, ao mesmo tempo que mostra militantes comunistas como de fato eram, incluindo aí características físicas, num momento histórico de reconstituição de heróis numa visão stalinista (até mesmo sobre como a arte deveria ser utilizada para a luta social). A relação com o ladrão Gaúcho na Colônia Correcional tem mais destaque do que outras e mesmo na ida à Cassa de Correção, Graciliano destaca a saudade da conversão com Gaúcho e outros ladrões.

Como o intuito deste texto é marcar os livros lidos durante o ano, não nos estenderemos. Como destaque final, é curioso como esquecemos ao tratar de Getúlio Vargas das ações realizadas durante a primeira passagem na presidência, sob golpe, com prisão de pessoas com opiniões contrárias ("comunistas") - com direito à entrega ao governo nazista alemão de Olga Benário, grávida, e Elisa Berger, além de aliciamento de sindicatos. Em outro livro, Graciliano afirma que, na década seguinte, encontra Getúlio na praia e evita cumprimentá-lo. Lições da história.

RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 48.ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Spotlight e as crises

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Ia dizer que duas coisas me incomodam bastante nos últimos tempos, mas são muitas mais, o contexto brasileiro não ajuda mesmo. Assisti ontem com a minha companheira a "Spotlight: Segredos Revelados", que me fez lembrar ainda mais das coisas que me incomodam.

Para além de um vencedor de Oscar de melhor filme, é interessante saber que é baseado num fato real: a investigação sobre os diversos casos de pedofilia na Igreja Católica, que começam nos Estados Unidos e depois seguem para outras partes do mundo. Enquanto jornalista, em meio a uma crise de décadas causada pela evolução das tecnologias digitais de informação e comunicação e a deficiência na preparação para o jornalismo investigativo, com o entretenimento tomando conta do ofício em troca de cliques, ver uma grande reportagem dessas dá um alento. É possível fazer jornalismo "de verdade", mas sob quais condições?

A equipe Spotlight do Boston Globe é dedicada apenas ao jornalismo investigativo, mas em 2001 já sob pressão da diminuição da circulação e com a sombra de cortes nas equipes. Exigir bom jornalismo também deveria gerar a exigência de condições de trabalho. Confesso que vejo como algo difícil na formação atual e no que se exige nas empresas do Jornalismo, contando com equipes reduzidas e produção mais quantitativa que qualitativa, ter muito espaço para reportagens assim. O novo jornalista deve estar preparado para trabalhar em todas as mídias, com redações "convergentes", recebendo salário de um para trabalhar em 3 ou quatro meios de comunicação.

Mas há exceções no Brasil, destaco três agências dedicadas ao jornalismo investigativo: Agência Pública (https://apublica.org/), Sportlight (http://agenciasportlight.com.br/) e The Intercept Brasil (https://theintercept.com/brasil/). Além delas, destaco a Revista Piauí (https://piaui.folha.uol.com.br/), com podcasts muito bons ("Foro de Teresina" e "Maria Vai com as Outras"); e El País Brasil (https://brasil.elpais.com/), com colunistas como Eliane Brum e Xico Sá - apesar de certa reportagem sobre o CSA. Cada caso geraria um bom trabalho sobre como conseguem se manter com certa autonomia no conteúdo, pegando como eles conseguem se manter - as reclamações de setores "progressistas" de "a piauí é de banqueiros" sempre aparece, por exemplo.

A outra coisa que me revoltou ao ver o filme é lembrar da discussão sobre "valores morais da família". É chover no molhado dizer isso para quem pode ler este texto, mas a maior quantidade de casos de estupro de vulneráveis ocorre dentro de casa, e isso é estatístico, não doutrinação (ao contrário dos que negam até números conhecido). Vem de pessoas de confiança, o que normalmente faz com que as crianças tenham medo de denunciar ou não tenham a voz escutada.

Caso semelhante ao relatado no filme. Num dos momentos, a repórter pergunta o que a mãe fez ao padre e o jovem responde "biscoitos", enquanto outro afirma que em locais menores o padre é visto como se Deus tivesse ali para as pessoas. Aqui não quero centrar críticas à Igreja Católica, vide até mesmo o caso recente ligado à "cura espiritual", em que até apresentador de telejornal fez questão de dar opinião de que "estava muito estranho", ao tratar da quantidade de denúncias que apareciam.

Irrita-me muito o fato de as pessoas se aproveitarem das fraquezas psicológicas de outrem para se beneficiar de algo. E aí vai desde casos de aproximação de amizade, algo que comentava em casa na tarde de ontem; até casos de assédio e outras formas de violência. Há toda uma indústria que se mobiliza em torno disso. E aqui sim há uma mobilização gigante para acreditar piamente, pois não há link na internet ou opinião de especialista que ajude.

O filme é ainda mais interessante no momento em que o diretor do jornal pede para sair de um caso específico e denunciar o sistema que permita que coisas daquele jeito, de décadas, acontecessem. Em outra coincidência, ouvi num telejornal ainda ontem que o papa Francisco disse que os casos de pedofilia teriam diminuído a credibilidade da instituição, que do segundo semestre do ano passado para cá tem colocado especialistas no tema na alta cúpula. Mas, 18 anos depois de Spotlight. Outro porém é a denúncia que Francisco teria encoberto algumas denúncias que surgiram (https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/26/internacional/1535270300_057389.html).

A forma como isso se dá mostra que séculos depois da Idade Média, a Igreja Católica permanece como uma instituição muito poderosa. A diferença, ao menos no caso brasileiro, é que a bancada religiosa tem muita força e distribuição por outras matizes religiosas ligadas ao protestantismo.

Por fim, mas não menos importante, vale resgatar ainda que neste caso tivemos a denúncia de três padres em Arapiraca-AL (última notícia sobre o caso que encontrei: http://gazetaweb.globo.com/portal/noticia/2017/07/tribunal-de-justica-mantem-condenacao-a-padres-de-arapiraca-_36273.php), não à toa o nome da cidade aparecem nos créditos do filme, pronto em 2015. A investigação foi feita por Roberto Cabrini, do SBT. 

Lembrei ainda que ano passado houve ato ecumênico durante o "Ele Não" de Maceió, e uma pessoa denunciou o padre que participou (https://tribunahoje.com/noticias/cidades/2018/10/26/padre-alagoano-sofre-intimidacao-por-participar-do-ato-ele-nao/) para a Arquidiocese, acusando-o de proselitismo político. O padre lembrou da invasão à CNBB por partidários do atual presidente.

Ainda que eu tenha posicionamento sobre religião, deixo claro que não sou de tentar estimular que as pessoas tenham o mesmo que eu. Creio que a fé em algo é importante para diversos momentos, mas que é ainda mais relevante que as pessoas estejam bem e conscientes sobre este processo. O ponto de vista crítico vale em quaisquer situações. Especialmente para perceber os problemas nos espaços que se ocupa, retirando qualquer local em que discussões ou críticas não possam ocorrer. Afinal, "degeneração moral" ou "doutrinação ideológica" surgem mais de lugares "tradicionais" e "confiáveis" do que daqueles que sempre foram alvo. Afinal, a quem interessa uma educação que estimule a autonomia do pensamento crítico?