sábado, 19 de janeiro de 2013

[Por Trás do Gol] A democracia no futebol bate as portas alviverdes

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Início da década de 1980. Dr. Sócrates e companhia entravam em campo com camisas e faixas com dizeres como "Diretas Já" e "Dia 15 Vote", além da participação ativa na campanha pela aprovação da emenda  Dante de Oliveira. O arquirrival passava a ter um sociólogo como diretor de futebol, que permitiu que os jogadores participassem das decisões que se davam nos vestiários, caso da exclusão de concentração para os jogadores casados e a melhor divisão de prêmios. Foram dois títulos paulistas seguidos, 1982 e 1983, mas a não aprovação das diretas, que gerou a saída de Sócrates para o futebol italiano, deixou este caso como uma exceção na história do nosso futebol.

Final da década de 1980. Após dois turnos, a população brasileira elege o primeiro presidente civil da República após anos de Ditadura Militar e o governo de José Sarney, vice-presidente que assumira o cargo de Tancredo Neves, eleito por meio de Colégio Eleitoral. Anos depois, os jovens vão às ruas vestidos de preto e com as caras pintadas para exigir o impeachment de Fernando Collor de Mello, envolvido com denúncias de corrupção. Casos de corrupção envolvendo políticos no Brasil se multiplicaram anos depois apesar da cassação dos direitos políticos de Collor e muito mais recursos financeiros alimentaram caixas dois, três e qualquer quantidade que fosse.

19 de janeiro de 2013, mergulhado em incertezas e dificuldades políticas, que ajudaram a gerar a situação de rebaixamento no principal torneio de futebol nacional, a Sociedade Esportiva Palmeiras pode ter começado um novo tempo da sua quase centenária história. Os sócios do Palmeiras aprovaram uma ampla reforma estatutária que, dentre outras coisas, amplia a escolha do novo presidente do clube a partir de 2014.
Será que a placa será retirada?
DEMOCRACIA NO FUTEBOL
Creio que o futebol seja um espaço que segue um passo atrás em relação a (pouca) evolução social. Nos estádios o machismo, a homofobia, a xenofobia e demais preconceitos que, ao menos no caso brasileiro, ficam mascarados no cotidiano. Além disso, se temos um avanço gigante da mercantilização na prática esportiva, com grande auxílio da Indústria Cultural nisso, a direção dos clubes seguem funcionando nos modelos arcaicos e oligárquicos característicos. Faz-se tudo por títulos e nada por uma administração que salve a associação de vexames financeiros e, consequentemente, dentro de campo, a curto e médio prazos. Alguns desses dirigentes saem mais ricos que quando entraram e ninguém sabe (será mesmo?) como.

No caso palmeirense, os tempos tenebrosos tiveram  como marca a ressaca após a parceria de sucesso com a empresa de laticínios Parmalat, responsável por montar grandes elencos e na conquista de importantes títulos da nossa história. De 2001 para cá só vieram um Paulista, em 2008, e a Copa do Brasil do ano passado, responsável tanto pela maior alegria dos últimos anos e pela vaga à Libertadores deste ano quanto pela acomodação de acreditar que o frágil elenco daria conta de sair da zona do rebaixamento no Brasileiro.

A aprovação das eleições diretas para presidente não vieram sem pressão. Conselheiros ligados à oposição, caso do economista e ex-presidente do clube Luiz Gonzaga Belluzzo, pressionaram por dentro para que a grande barreira, o Conselho Deliberativo, fosse ultrapassada. Além disso, várias foram as manifestações de torcedores para pressionar os conselheiros para aprovar a resolução. Hoje, digamos, foi apenas a confirmação de um longo e árduo processo.

10 itens foram postos para aprovação neste sábado e apenas um deles precisará de nova análise. Quanto às eleições, foi aprovado também que a posse das novas diretorias devem ocorrer até o dia 15 de dezembro do ano eleitoral ou cinco dias após a última partida do time profissional, o que evita os problemas de programação claramente vistos em 2013, cuja votação será na próxima segunda-feira. Além disso, os candidatos à presidência e às vice-presidências devem estar numa chapa, evitando coisas como em 2007-2008 quando Paulo Nobre, atual candidato à presidência, foi eleito vice-presidente mesmo não sendo da chapa de Affonso della Monica. Por fim, para se candidatar aos cargos, deve-se ter sido conselheiro do clube por, pelo menos, quatro anos.

Na parte prática, e por incrível que possa parecer isso não estava definido antes, a gestão anterior é obrigada a fazer uma transição real, com repasse de informações e dados sobre o clube, para quem assumirá para o biênio seguinte. Assim como, torna-se obrigatória a apresentação de proposta de administração pelas Chapas, no ato da inscrição para os cargos da Diretoria Executiva, com disponibilização eletrônica de seu teor aos associados, mediante solicitação.

A alteração estatutária não aprovada foi o quórum para que as chapas passem do Conselho Deliberativo para as eleições diretas. Estavam em votação não ter quórum, com 213 votos; ter quórum de 15%, que recebeu 1193 votos; e ter quórum de 20%,  que recebeu 536 votos. Apesar disso, foram aprovados os itens: Se não houver a obtenção do quórum de aprovação das chapas, será iniciado novo processo de aprovação das chapas, com os mesmos candidatos; Se houver somente uma chapa inscrita, o quórum de aprovação da inscrição da chapa será de 50% + 1 dos votos dos associados; e Havendo mais de 50% de votos brancos ou nulos, haverá convocação de nova Assembleia Geral, no prazo de quinze dias, para a mesma chapa concorrer à eleição, caso não se obtenha a votação mínima na segunda Assembleia Geral, ensejará o início de novo processo de escolha das chapas, para nova submissão a ela.

Destaco que essa questão do quórum é fundamental para um processo mais "democrático" - por mais que eu tenha problemas com a aplicação prática desse conceito. Dou o exemplo da dupla GreNal, cujas eleições pude acompanhar de perto. No caso do Grêmio, passaram para as eleições diretas três dos quatro candidatos no pleito, vencendo o experiente ex-presidente do Clube dos 13, Fábio Koff. Questionado pela torcida, o então presidente Paulo Odone recebeu a maior parte dos votos no CD do clube, mas não venceu nas eleições diretas. Enquanto isso, o Internacional, que virou exemplo de gestão na primeira década dos anos 2000, só viu o então presidente Giovanni Luigi, bastante criticado pela torcida, ultrapassar a cláusula de 25%, sendo reeleito sem a necessidade de se colocar à votação dos seus quase 100 mil sócios.

O caso palmeirense ainda não inclui os sócio-torcedores, o que, na minha opinião, poderia gerar uma maior adesão à segunda tentativa do projeto Avanti, porém, sai-se de 300 conselheiros, que denúncias surgem que negociam votos em troca de cargos na nova gestão, para milhares de sócios do clube. Um grande passo se levarmos em consideração que este clube completará 99 anos em agosto.

A reforma estatutária aprovada hoje é para se comemorar, porém, devemos seguir de olho no que deve vir por aí, para que nós torcedores palmeirenses possamos acreditar e verificar os avanços reais dessas decisões por dentro da estrutura, podendo modificá-la, por mais que se trata de uma instituição de caráter privado.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A construção e a destruição de mitos no esporte: o caso Armstrong

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o título deste texto já seria excelente para um profundo trabalho acadêmico para analisar a construção de Lance Armstrong como mito do esporte mundial e como toda essa "divindade" foi destruída em tão pouco tempo. Chega a ser inacreditável para aqueles que acompanham e são apaixonados por esportes o que ocorre neste momento. Mais ainda, traz uma questão fundamental para as práticas desportivas profissionais de maneira geral: há limites para se conseguir vitórias?

Por mais que eu incentive algumas pessoas a aprenderem a andar de bicicleta, eu não pratico há mais de cinco anos. A minha relação com o ciclismo profissional é praticamente a mesma de alguns outros esportes, geralmente relegados a acompanhamento em Jogos Pan-Americanos e Jogos Olímpicos, quando os meios de comunicação falam sobre o assunto, e uma matéria aqui ou acolá quando da realização de uma prova no tal "Verão Espetacular" da Rede Globo. Nos últimos meses, um dos meus amigos está praticando o esporte de forma amadora e estou vendo todo o sufoco que é, seja para quem opta por corridas de pista ou de montain.

Ainda assim, o nome Lance Armstrong já era para lá de conhecido. Para além do sobrenome famoso por conta de um ídolo do jazz e do primeiro astronauta a pisar na Lua, Lance tinha sete vitórias consecutivas no "Tour de France", a principal competição do ciclismo mundial e uma medalha de bronze na Olimpíada de Sidney (2000). Mas isso tudo após vencer a batalha contra um câncer nos testículos em 1996, quatro anos após ter iniciado no ciclismo profissional. Estamos lendo, vendo e ouvindo coisas sobre um mito do esporte, alçado à categoria de um dos principais nomes oriundos do esporte como exemplo para a sociedade de forma geral.
CULPADO
As denúncias sobre um grande esquema de dopagem envolvendo o nome de Lance apareceu no ano passado e com provas irrefutáveis de que ele teria se dopado em praticamente toda a sua carreira. Os patrocínios - vitalícios, como manda o marketing esportivo a partir do neoliberalismo - foram caindo fora enquanto as investigações rolavam, mas nada era ouvido do ciclista, que se manteve em silêncio.

Manteve-se em silêncio até esta semana. Ontem, um dos programas de maior audiência dos Estados Unidos, o da apresentadora Oprah Winfrey, mostrou a primeira parte de uma entrevista com o ex-ciclista, banido dos esportes pela Agência Mundial Anti-Dopagem (WADA). Ele admite, pela primeira vez, que realmente se dopou durante este período e o fez por vontade própria, para além de possíveis pressões por resultado.

Armstrong disse que por conta do câncer perdeu parte da capacidade de produzir testosterona, hormônio masculino. A vitória sobre o câncer acabou gerando uma necessidade de mais vitórias também no esporte que praticava. Assim, ele teria chegado ao hormônio eritropoietina (EPO), secretado pelo rim e que estimula a medula óssea a elevar a produção de células vermelhas do sangue. Ou seja, a injeção deste hormônio aumenta a capacidade muscular e dá maior resistência aos atletas, algo essencial em disputas cansativas e duradouras como as de ciclismo, triatlo e congêneres. Além do EPO, ele deve ter usado também testosterona, hormônio do crescimento e cortisona.

Ele considera assustador o fato de nunca ter pensado que estava conseguindo tantos resultados, tantos fãs, toda uma mitologia a partir de trapaça. Só teve este sentido agora, por conta da quantidade de coisas que perdeu, inclusive a fundação que fundou para ajudar pessoas com câncer (Livestrong), e de pessoas que decepcionou.

A segunda parte da entrevista segue sendo aguardada pois espera-se que Lance Armstrong diga quais outros atletas e equipes, inclusive a nacional, estariam envolvidas com o esquema de doping. Segundo ele, era muito simples controlar as fugas dos testes realizados durante a carreira, foram cerca de 500, avaliando o tempo para a substância sair do corpo.

Lembrando que em 2009, a equipe de atletismo Rede teve 15 de seus atletas punidos por doping após a descoberta de um esquema montado por dois treinadores para aumentar o rendimento. Isso causou o encerramento da que era uma das maiores equipes deste esporte no Brasil - ressaltando, ainda mais, que em 2012 não ganhamos nenhuma medalha nesta prática esportiva, por mais que tenham outros motivos.

O que ocorreu com Armstrong é muito comum no ciclismo estrangeiro, mas trata-se do principal nome na história deste esporte, que conseguiu trazer uma história importante de vida para atrair pessoas que não se ligavam ao ciclismo. Algumas notícias dão conta de que pessoas de dentro do Comitê Olímpico Internacional (COI) sugerem à União Ciclística Internacional, que teria feito vistas grossas a este caso, para se retirar do programa dos Jogos Olímpicos até que o esporte esteja novamente "limpo". Tal decisão pode prejudicar milhões de praticantes profissionais em todo o mundo, que tem como principal porta de entrada de patrocínios o maior evento esportivo do planeta.

DOPING E O ESPORTE
Por mais que eu não trate tantas vezes aqui neste blog, mais na prática acadêmica, o aumento da mercantilização sobre o esporte, principalmente a partir da década de 1980, elevou as disputas esportivas para um outro patamar. Temos, para além de grandes esportistas, super estrelas, com contratos para além da esfera do esporte, cuja imagem é repassada para bilhões de pessoas cotidianamente a partir dos meios de comunicação.

O "ser exemplo", de maneira a atrair mais público a determinada prática esportiva, é buscado a todo momento por federações internacionais e empresas como forma de atrair, consequentemente, mais recursos. Ao mesmo tempo, os trabalhadores destes esportes são pressionados para a quebra de recordes e a manutenção de bons resultados. No meio desse caminho, aparecem substâncias proibidas pelos conselhos anti doping por se tratar de um incremento ao que é naturalmente produzido pelo corpo a partir de uma repetição e evolução dos treinamentos e dos materiais externos (caso dos uniformes) utilizados.

Porém, o desenvolvimento tecnológico que permite a criação de super maiôs tecnológicos, proibidos recentemente na natação, também existe para criar novas e poderosas substâncias que aprimoram o organismo humano para a prática esportiva. Assim, é praticamente impossível identificar a utilização dessas substâncias ao longo do tempo, para além das questões políticas envolvidas - e de esportes cujos eventos não têm exames anti doping, algo comum, por exemplo, em torneios de menor a médio porte do futebol.

Chegamos a um ponto em que toda vez que vem um novo recorde se pensa que será o definitivo, chegou-se ao limite do ser humano. O caso recente mais surpreendente é o dos 100 m rasos do Atletismo, em que o jamaicano Usain Bolt conseguiu reduzir quase 0s3 do que vinha sendo feito até então, com a ressalva de que Bolt tem um físico totalmente diferente dos seus concorrentes, o que gera uma arrancada ruim, mas uma recuperação e velocidade extraordinárias.

Enfim, creio que este seja um momento importante para questionarmos se vale realmente tudo, numa sociedade que cada vez mais beneficia apenas o vencedor, para conquistar vitórias importantes no currículo. e, consequentemente, sucesso e dinheiro. O que está em torno da prática esportiva profissional? Qual é a relação de pressões internas e externas envolvidas nisso? Qual o limite para a produção de super astros, cada vez mais distantes do padrão "coubertiano" de atleta?

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Oh, Admirável Mundo Novo!

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Quando costumo dizer que 1984 é o livro que mais gosto, algumas pessoas me indicavam Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley. "Este seria ainda melhor que o livro de George Orwell", me contavam. Além disso, acabei por ver algumas comparações entre as duas obras e, é claro, tendo como referência a sociedade atual.

Li rapidamente o livro, aproveitando-me de uma opção de diminuir o tempo à frente do computador após meses de trabalho quase incessante na dissertação, leituras, documentos, projetos, etc. Como sempre quando eu crio muita expectativa com algo quase sempre saio frustrado. Desta vez, é verdade, um pouquinho frustrado. Mas isso ocorreu mais por uma grande identificação com Winston, de 1984, que pela falta de força deste livro, cujos comentários seguem a seguir.

Comunidade, Identidade, Estabilidade
A minha leitura de Admirável Mundo Novo identificou quatro partes que são contadas ao leitor. Na primeira, estamos entre os jovens estudantes Alfas a quem o Diretor de Incubação e Condicionamento apresenta como se dá a reprodução da espécie humana. Da forma mais "natural" possível, ele vai nos mostrando como de "natural" nada restou à humanidade no ano 632 Depois de Ford. Sim, Henry Ford, da produção seriada e massiva de um bem de consumo não durável como o carro, sendo 01 de outubro de 1908, ano de lançamento do modelo T, considerado como o momento inicial dessa nova era, em que mais importava a "comunidade, a identidade e a estabilidade", lemas do chamado Estado Mundial.

Acompanhamos como tudo ocorre de uma forma bem diferente da atual, especialmente porque não se tem mais a reprodução vivípara. Ou seja, o embrião é fecundado de forma totalmente mecânica, artificial mesmo, através de tubos e bocais. De forma que as mulheres não mais podem engravidar, com muitas delas, inclusive, já nascendo "neutras". Às que não nascem assim, são condicionadas a tomar medicamentos de maneira frequente para evitar ser "mãe", uma palavra odiosa nesses novos tempos, a ponto de ser impronunciável.

Vejamos o que o Diretor diz aos jovens sobre isso:

“Garantidamente estéreis. O que nos leva, por fim – continuou o Sr. Foster – a deixar o domínio da simples imitação servil da natureza para entrar no mundo mais interessante da invenção humana.
Esfregou as mãos. Porque, bem entendido, não se contentavam com incubar simplesmente os embriões: isso, qualquer vaca era capaz de fazer” (17).


Assim, o desenvolvimento daquela sociedade foi ocorrendo, especialmente após a Guerra dos Nove Anos, (no segundo século D.F.) quando as pessoas teriam optado pela estabilidade que por coisas como sofrimento, verdade e paixões. Para isso, a população era criada e condicionada através de uma estratificação "natural", entre Alfas, Betas, Gamas, Deltas e Ipsilones, nesta ordem de importância e com alguma graduação de mais e menos em cada nova casta.

Os trabalhos mais elevados eram feitos pelos Alfas, que vestiam verde, e os trabalhos mais difíceis - caso de se pendurar de cabeça para baixo para consertar aviões em voo - eram realizados pelos Ipsilones, que vestiam cáqui. A questão física, com os mais belos sendo das castas mais altas, é definida pela genética - que viria a se desenvolver a partir da década de 1990, ou seja, 60 anos depois da publicação deste livro. A parte de resiliência quanto a esta situação de divisão social era definida através do condicionamento por qual as pessoas passavam desde bebês, especialmente através de repetições hipnopédicas, que atuavam até mesmo durante o sono. 

Segundo o Diretor:

“- E esse – interveio sentenciosamente o Diretor [de Incubação e Condicionamento] – é o segredo da felicidade e da virtude: amar o que se é obrigado a fazer. Tal é a finalidade de todo o condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social a que não podem escapar” (19).

Vemos um grupo de bebês sendo apresentados a livros e a flores, de forma que, no melhor estilo pavloviano, é criado um grande barulho, ou até choques, quando eles se aproximam deles, de maneira que a partir daí não mais chegarão perto dessas coisas que podem tirar a estabilidade de uma pessoa.

“- Nós condicionamos as massas a detestarem o campo – disse o Diretor, em conclusão – mas, simultaneamente, as condicionamos a adorarem todos os esportes ao ar livre. Ao mesmo tempo, providenciamos para que todos os esportes ao ar livre exijam o emprego de aparelhos complicados. De modo que elas consomem artigos manufaturados, assim como transporte. Daí esses choques elétricos” (25-6).

Nesta nova sociedade, o consumo é elemento obrigatório, de forma que nada é reaproveitado, tudo é comprado. O Diretor explica que:

“- Governar é deliberar, e não acatar. Governa-se com o cérebro e com as nádegas, nunca com os punhos. Por exemplo, houve o regime do consumo obrigatório...” (49).

CONSCIÊNCIA DE SUAS INDIVIDUALIDADES
Ao longo da visita, vamos conhecendo algumas das pessoas que trabalham durante este processo, os Alfas, é claro, já que os de castas inferiores são gêmeos bokanovskianos, nascidos em 82 por óvulo fecundado! Todos iguais, que vão a ser os operários das fábricas e fazer os demais serviços mais pesados, como já dito. Assim, conhecemos Henry Foster, Fanny Crowne, Lenina Crowne e, principalmente, Bernard Marx e seu amigo Helmholtz Watson.

Como já dito, neste novo tempo as pessoas não devem sofrer, existindo o soma, um comprimido, que faz com que rapidamente qualquer angústia seja extirpada e que se caia num sono profundo a ponto de levar qualquer um a uma espécie de delírio mental paradisíaco. Como já dito, como as mulheres não precisam se preocupar com filhos e as doenças foram extirpadas da sociedade, um dos lemas de agora é que "um é de todos", assim, as relações sexuais ocorrem de forma livre e quando o homem ou a mulher quiserem. 

Em meio a tantas coisas diferentes apresentadas pelo livro, algo que acaba por parecer uma evolução, já que em sociedades machistas como a atual, geralmente os homens podem transar com quantas mulheres quiserem, enquanto estas não podem fazer o mesmo. Assim, acompanhamos uma conversa em que Fanny reclama que Lenina estaria muito tempo apenas com Henry Foster, cerca de seis meses, algo que seria desprezível para a época. Lenina diz sentir algo estranho, de querer se apegar a alguém, mas logo é desfeita da ideia.

É assim que conhecemos - em paralelo, uma estratégia utilizada no livro é de, em alguns momentos, contar cenas diferentes num mesmo capítulo, mas de maneira a não nos atrapalharmos, pelo contrário - Bernard Marx, um Alfa Mais que, dizem, teria seu bocal de nascimento atingido por álcool, o que provocara coisas diferentes nele, tanto na parte física, parecida com a de um Delta, quanto na de condicionamento. Bernard recusa-se a tomar somas para aliviar as pressões do dia-a-dia e aparece como um grande questionador desta nova forma social, lembrando de cada conto hipnopédico que fez com que as pessoas repetissem determinadas coisas, como a alegria proporcionada pelos comprimidos de soma.

Bernard crê que as mulheres são vistas e se deixam ver como pedaços de carne, prontos para serem consumidos por quem quiser a qualquer hora, mais pela vontade dos homens que pela delas. Apresenta admiração pela "pneumática" Lenina, sai com ela, mas acaba a irritando ao tentar mostrar coisas diferentes e da natureza, da forma com a qual nós conhecemos.

Ele é tão estranho que ao receber uma ameaça para ir à Islândia, justamente por conta de seu temperamento, ele fica alegre por sentir este desafio:

“Pois Bernard saiu do gabinete de cabeça erguida, exultando, enquanto batia a porta atrás de si, com a ideia de enfrentar sozinho a ordem das coisas; exaltado pela consciência embriagadora de sua significação e importância pessoais. A própria ideia da perseguição deixava-o impávido e em lugar de deprimi-lo, atuava antes com um tônico. Sentia-se bastante forte para fazer face às calamidades e vencê-las, bastante forte para enfrentar até a Islândia. E essa confiança tornava-se ainda maior pelo fato de ele não acreditar realmente, por um só instante, que teria de enfrentar fosse o que fosse. As pessoas simplesmente não eram transferidas por motivos dessa espécie. A Islândia era uma simples ameaça. Uma ameaça muito estimulante e vivificante. Caminhando ao longo do corredor, atreveu-se até a assobiar” (93).

Se Bernard Marx era o esquisito por uma falha na produção, o seu amigo Helmholtz, que trabalhava na publicidade do regime, era por ser esperto demais, mesmo para os Alfas, o melhor em tudo o que tentava fazer. A amizade dos dois foi formada justamente por sentirem que eram individuais numa sociedade com pessoas condicionadas a serem tão parecidas:

“A insuficiência óssea e muscular tinha isolado Bernard de seus semelhantes, e o sentimento de ser assim um indivíduo à parte era considerado, segundo os padrões correntes, um excesso mental , o qual, por sua vez, se tornava causa de um afastamento mais acentuado. A Helmholtz, o que lhe dava tão penosa consciência de si mesmo, e de estar totalmente só, era um excesso de capacidade. O que esses dois homens tinham em comum era a consciência de serem individualidades. Mas enquanto Bernard, o fisicamente deficiente, sofrera toda a sua vida pela consciência de ter sido um indivíduo à parte, só recentemente Helmholtz Watson, tendo descoberto seu excesso mental, compreendera também o que o diferenciava das pessoas que o cercavam” (66).

Não li tanto assim sobre a obra de Huxley, que a escreveu na França e faz parecer, inclusive no pouco que li sobre os outros livros, alguém que não era otimista quanto ao futuro. Num trecho, em que Bernard Marx vai a uma "Cerimônia de Solidariedade", em que finge sentir as mesmas coisas que os demais do grupo, temos num mesmo espaço com um Marx, Sarojini Engels e Herbert Bakunin, três sobrenomes muito conhecidos para a esquerda radical. Além de Lenina, que poderia ser uma referência a Lênin.

MALPAÍS
Por conta do emprego, Bernard pode levar Lenina a conhecer a Reserva dos Selvagens, localizada no Novo México, chamada de Malpaís, onde descobrem que há pessoas de origem Alfa Mais em meio ao que, pela descrição, parece uma mistura entre índios e o que sobrou da divindade cristã de um Deus único.

Este espaço, que causou tanto espanto e nojo de Lenina, enquanto Bernard adorava por ser tão mais natural que o Estado Mundial, era definido nas escolas da seguinte maneira:

"'uma Reserva de Selvagens é um lugar que, devido a condições climáticas ou geológicas desfavoráveis, ou à pobreza de recursos naturais, não compensa as despesas necessárias para civilizá-lo’” (150).

Lá eles conhecem Linda, uma mulher que fora levada pelo Diretor de Incubação e Condicionamento para passar um tempo e que acabou se perdendo por lá, passando a morar no local. Com uma aparência repugnante, Linda não consegue se adaptar à nova velha realidade, e sofre por conta de seu condicionamento, que diz que as mulheres são livres para ter relações sexuais com quer quem fosse. Além de sofrer com a falta de soma, que a faz ser direcionada a Popé e sua bebida alcoólica que dá uma grande ressaca depois.

É ali que ela tem um filho, John, a quem não gosta de ser chamada de "mãe", nome proibido, e que tenta dar algum condicionamento, ensinando a ler e algumas frases hipnopédicas. Porém, John acaba conhecendo uma coletânea de livros de Shakespeare, adorando as histórias e aprendendo muitas das palavras e frases utilizadas pelo autor, proibido no Estado Mundial - todos os livros produzidos antes de 150 D.F. eram proibidos, sendo substituídos por uma literatura infantil, em palavras de um Administrador Mundial, nível máximo de hierarquia.

Bernard Marx articula bem e acaba levando Linda e John, que também fora excluído das atividades locais por ser de tez branca, para a "civilização", onde começa a última parte da história.

"OH, ADMIRÁVEL MUNDO NOVO!"
John se enamora de Lenina, mas foi acostumado a enfrentar um grande desafio para conquistar a mulher amada, enquanto ela foi condicionada a pensar que se há desejo não se deve pensar duas vezes. O que gera vários momentos de grande conflito.

Além disso, a cada coisa que ele passa a conhecer da civilização ele passa a odiar. O cinema sensível, a falta de bons livros, a busca incessante pelo soma e a fuga de qualquer adversidade emocional para o bem da estabilidade. John tem especial pavor aos gêmeos bokanovskianos:

“'Oh, admirável, mundo novo...’ Por algum capricho perverso de sua memória, o Selvagem deu consigo repetindo as palavras de Miranda. ‘Oh, admirável mundo novo que encerra criaturas tais!’” (148).

Pulo algumas partes sobre Linda e a reação do "Selvagem", que fica famoso e traz alguma fama ao excluído Bernard Marx, para colocar citações do Administrador Mundial para a Europa Ocidental, Mustafá Mond, que leu todos os livros proibidos por ser ele quem proibia e criava as leis, podendo, portanto, transgredi-las impunemente:

“- Nós acreditamos na felicidade e na estabilidade. Uma sociedade composta de Alfas não poderia deixar de ser instável e infeliz. Imagine uma usina cujo pessoal fosse constituído por Alfas, isto é, por indivíduos distintos, sem relações de parentesco, com boa hereditariedade e condicionados de modo a tornarem-se capazes (dentro de certos limites) de fazerem livremente um escolha e de assumirem responsabilidades. Imagine isso – repetiu” (208). 

“- Não é somente a arte que é incompatível com a felicidade, também o é a ciência. Ela é perigosa; temos de mantê-la cuidadosamente acorrentada e amordaçada” (210-1). 

"- Nosso Ford mesmo fez muito para diminuir a importância da verdade e da beleza, em favor do conforto e da felicidade. A produção em massa exigia transferência. A felicidade universal mantém as engrenagens em funcionamento regular; a verdade e a beleza são incapazes de fazê-lo. E, é claro, cada vez que as massas tomavam o poder público, era a felicidade, mais do que a verdade e a beleza, o que importava” (213).

Para John, nada daquilo era excepcional, muito importante e o livro termina com a busca pela solidão, que ele tanto rejeitara em Malpaís, mas que tanto queria na "civilização". Afinal, como diria Otelo:

“'Se depois de toda a tempestade vêm tais calmarias, então que soprem os ventos até acordar a morte!’” (222).

Se ele vai conseguir? Basta lembrar que Huxley é pessimista quanto à evolução da sociedade.

REFERÊNCIA
HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Tradução de Vidal Oliveira e Lino Vallandro. 20.ed. São Paulo: Globo, 1994 (1932).