quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

[Por Trás do Gol] As expectativas da Seleção com Felipão

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Quando soube da notícia da volta de Luiz Felipe Scolari ao comando da Seleção brasileira de futebol, através do Andrés Sanchez, não fiquei satisfeito e não tem nada a ver com a sua saída do Palmeiras no ano passado com o clube bem encaminhado ao rebaixamento. Não. Felipão é um dos maiores treinadores da nossa história, ganhou dois meses antes de sair uma Copa do Brasil com um fragilíssimo elenco. Defendi-o, ou ao menos não o ataquei, até quando pude.

Lembrando, o primeiro time que o atual treinador da Seleção treinou foi o CSA. Ele era zagueiro do clube, onde foi campeão alagoano de 1981. No ano seguinte assumia como treinador e levaria o Azulão do Mutange para mais um título alagoano, saindo após 7 jogos do Campeonato Brasileiro de 1982. Anos depois, e eu nem sabia desse início, Felipão assumiu o Palmeiras e ganhou Copa do Brasil, Copa Mercosul e, o principal, a Taça Libertadores da América de 1999.

Feita a explicação, voltemos ao porquê de eu não ter gostado desta volta e em seguida para um rápido comentário sobre o jogo de hoje, contra a Inglaterra.

Confesso que imaginava a volta de Luiz Felipe quando ele saísse de Portugal, cujo contrato se encerrou em 2008. Com Dunga no comando do Brasil para resgatar a vontade da seleção que se virou aos holofotes e esqueceu do jogo na Copa realizada na Alemanha, na minha cabeça, era só esperar Felipão acabar o casamento com a seleção portuguesa e ele assumiria faltando pouco tempo para a Copa de 2010. Errei.

Desta vez, não esperava que ele assumisse. Ou melhor, não esperava que Mano Menezes fosse demitido como o foi, no final da temporada. Como centenas de jornalistas esportivos comentaram, se era para Mano cair que fosse após o fracasso nos Jogos Olímpicos de Londres. Depois daquilo, ele finalmente conseguiu gerar uma forma de jogo para o time, com Oscar sendo o camisa 10 e Kaká o jogador experiente que faltava ao elenco. Enfim, não adiantaram os elogios do pessoal da Globo a ele no final do ano e não adiantam agora - após várias críticas no período anterior.

Felipão assumiu junto a Carlos Alberto Parreira, numa espécie de comando técnico. Vimos o presidente da CBF, com todo o seu jeito malufista de ser, afirmar a necessidade de mudar tudo, resgatar o lado vitorioso agora com "Felipe Scolari" e "Antônio Carlos". Felipão havia saído há alguns meses do Palmeiras e sempre dissera que não renovaria o contrato em 2013, porque iria treinar uma equipe na Copa do Mundo de 2014. A ideia era esperar o ano terminar e a promessa ser cumprida, mas nem Luiz Felipe ficou no Verdão, nem Marín aguardou. Andrés abriu o jogo dos seus "ex-amigos" antes e a FIFA teria pressionado também.
Fonte: Reuters
NÃO GOSTO DO R10 (OU R49)
Como já disse, tinha visto uma forma de jogo no Brasil nos últimos meses da "era Mano Menezes". Para mim, ao menos por enquanto, só restavam duas dúvidas: um goleiro e o atacante ao lado de Neymar. Apesar de largar em vantagem, goleiro é posição de confiança e Diego Alves não exprimia isso. Hulk não me parece jogador para ser titular do Brasil, mas um bom nome para compor o elenco. Além disso, não haveria centroavante no clube.

Ah, não me venham com "o Barcelona joga sem centroavante" após a lesão do Davi Villa ainda sob o comando de Pep Guardiola. Só a Espanha pode ter como comparação o Barcelona, e olha que o Del Bosque não pode contar com uma peça importantíssima catalã, Messi. Temos que criar uma forma de joga que dê certo com os nossos jogadores. Se for uma parecida com a do Barcelona, beleza, mas e se não for?

Dito isto. Imaginava que com a volta de Felipão, Ronaldinho voltaria a ser convocado. Em 2002, o técnico fez apostas bem mais arriscadas, com as convocações de Ronaldo e Rivaldo, vindo de lesões e jogando pouco nos seus clubes por implicância dos técnicos, e deu muito certo - ajudou também que enquanto as estrelas europeias disputavam a Copa após o final da temporada, eles vinham praticamente de uma pré-temporada, zerados. Ronaldinho jogou bem o Brasileirão pelo Atlético-MG, foi, com certeza, um dos melhores meias do torneio e grande responsável para esse ressurgimento nacional do Galo mineiro.

Ainda assim, se eu já não o queria para a Copa de 2010, agora menos ainda. Ronaldinho teve chances com Mano e não correspondeu. Pela idade, o time precisava de um jogador que assumisse o comando do meio-campo e, consequentemente, do time. R10 ou R49 não correspondeu. Ganso, a "grande esperança" também não. Oscar apareceu, teve confusões, mas assumiu a 10 de forma tranquila apesar de sua pouca idade. Mesmo com Kaká sendo convocado, seguiu jogando bem - e com a 10.

Veio a primeira convocação e lá estava o nome de Ronaldinho, assim como a do goleiro Júlio César. Além disso, Dante, zagueiro de destaque no Bayern de Munique, foi a grande novidade da lista de Felipão, Parreira, Murtosa e cia.
Adriano sofreu pelo lado esquerdo com Walcott (ao fundo)
Fonte: blogaodofutebol.com
ERROS E ACERTOS = DERROTA
Resumindo a minha opinião sobre a derrota de hoje perante à Inglaterra por 2 a 1: os ingleses jogaram muito bem, com rapidez, bom toque de bola, aproveitando especialmente as laterais e o comando do meio-campo com toda a habilidade e destreza de Gerrard; o Brasil teve lampejos de bom futebol, com dificuldades de saída de bola, com Daniel Alves e Adriano presos para marcar, Paulinho e Ramires apoiando ainda menos o ataque - na verdade, sumidos - e Neymar sem maior eficiência lá na frente.

Confesso que olhei meio torto com a convocação do Júlio César. Acompanho pelas notícias o futebol inglês e é fato que ele vem fazendo boas atuações com o lanterna Queens Park Rangers. Ainda que o time ganhe pouco, passou a empatar muito justamente porque leva pouquíssimos gols. Mas e o Diego Cavalieri? Segue sem chances apesar de um grande Brasileiro. (P.S.: Cássio jogou uma boa fase final de Libertadores, uma boa semifinal e uma grande final de Mundial, mas não se mostra regular).

Na partida de hoje, com a falta de entrosamento na defesa, Júlio salvou a Seleção em muitas jogadas. Mesmo o primeiro gol inglês surgiu de rebote de uma grande defesa do goleiro brasileiro, com Rooney marcando no rebote. Na hora, uma grande questão: Por que raios não tinha ninguém acompanhando o ROONEY na marcação? Não é o atacante chinês do amistoso do ano passado, é Wayne Rooney!

Enfim, Júlio César foi cogitado no mercado de inverno para assumir o gol do Real Madrid, por conta da lesão de Casillas, e do Manchester United, de olho numa possível contratação de seu goleiro de Gea para o Barcelona - que quer preparar um goleiro para o lugar de Valdés, que não renovará o contrato. Não saiu, ainda, do QPR, mas mantendo o nível atual é uma grande chance. No fim, o que importa para goleiro é manter a regularidade, se manter jogando. Hoje ele deu um grande passo para ser o titular, ao menos, para a Copa das Confederações.

Além dele, volto a destacar a presença de Oscar no meio-campo da Seleção, ainda que com pouco espaço pela boa marcação inglesa, ele foi um dos poucos a tentar e acertar passes de longa distância. Só no final do jogo é que se aproximou dos atacantes para tentar tabelas. Apesar de hoje estar com a 7, para mim, mantém-se com a 10, é o armador deste time.

Outro destaque vai para o Fred. Entrou no segundo tempo e marcou um gol na primeira jogada. No lance seguinte, manda a bola no travessão. Larga na frente na posição vaga desde a época de Mano Menezes. Luís Fabiano brigou muito, mas não teve chances na etapa inicial.

Falando mal agora. Neymar foi ainda menor que o normal. Perdia no corpo e tinha medo de arriscar alguma finta ou drible em marcadores ingleses. Teve uma grande chance no primeiro tempo, mas mandou a bola por cima do gol com um carrinho. Para mim, parece falta uma tranquilidade em jogar com a camisa amarela - que, por sinal, até que está legal desta vez. Espero que Felipão consiga gerar a motivação necessária nele.

Paulinho fez a pior partida dele pela Seleção, com pouca movimentação para ser o homem-surpresa no ataque e sumido na marcação. Isso vale também para o Ramires, seu companheiro de "volância". Mas não poderia deixar de observar de forma crítica Ronaldinho.

Para além do pênalti mal batido e perdido, a presença dele como o 10, o armador, acabou deixando Oscar mais para trás. Além disso, R10 não conseguiu armar jogadas e errou passes. Na sua 100ª partida pela Seleção, parece-me que, mais uma vez, ele poderia ter tido mais partidas com a amarelinha se jogasse mais com ela. Espero estar errado, caso Felipão continue com ele mais à frente.

De qualquer forma, o Brasil pode colocar nos classificados: "Precisa-se de atleta experiente para o meio-campo!". Com Kaká agora nem indo para a reserva do Real Madrid e ter visto melar a volta ao Milan, ele provavelmente não terá chances até a Copa das Confederações. Esperemos.

De resto, Luiz Felipe Scolari pode contar com muito mais tranquilidade que quando assumiu o comando do time em 2001. O que poderia gerar certa apatia entre os jogadores pode ser rapidamente combatido com amistosos com grandes seleções e a Copa das Confederações já ali na esquina. Só nos resta esperar mesmo - e não me venham com essa de "nova Família Scolari", que saco!

P.S.: Tinha que comentar isso. A camisa é parecida com a de 1990, o jogador a bater pênalti era do Atlético-MG, mas ter um torcedor com a bandeira do Náutico lá atrás é demais até para o imprevisível futebol.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A cobrança da imprensa sobre a Copa

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Em 2007, o Brasil foi ratificado como país-sede da Copa do Mundo Fifa 2014. Várias pessoas e profissionais ligados a este esporte comemoravam a volta do principal torneio esportivo do mundo ao “país do futebol”. 2014 representaria a chance de diminuir o impacto do fracasso de 1950. Entretanto, outros tantos foram os que olharam torto para a decisão. Acabávamos de ver a realização de Jogos Pan-Americanos, que custaram dez vezes mais que o previsto inicialmente. Imagine na Copa.

De 2007 para cá muita coisa mudou. Denúncias sobre a classe dirigente do futebol brasileiro passaram a aparecer com cada vez mais força, cumulando com a saída, e não retirada, de Ricardo Terra Teixeira da presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) no início de 2012, após 23 anos no cargo. As denúncias sobre corrupção neste esporte não pararam com Teixeira e seguem em nível mundial.

Quanto às obras para a Copa do Mundo, alguns dos principais meios de comunicação brasileiros acompanharam com frequência a escolha das cidades-sede, questionando que locais como Brasília, Cuiabá e Manaus tenham estádios com grande capacidade de público quando não tem times fortes para enchê-los posteriormente; o final da promessa de campanha de que não seriam gastos recursos públicos nas obras, que de nada virou quase fonte exclusiva; o aumento dos recursos a serem dispendidos na construção ou reforma dos estádios, quando comparados aos valores inicialmente revelados; o problema nas obras de infraestrutura prometidas, algumas das quais canceladas ou adiadas para começarem depois da Copa; e a pressão da Fifa para alterar leis, como a que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nos estádios ou a que garante a meia-entrada para idosos e estudantes em espaços culturais e desportivos.

“A gente precisa de coisas boas”
Neste tempo, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke ficou famoso no país por falar que o Brasil precisaria de um “chute no traseiro” para que as coisas andassem do jeito que a entidade privada desejava. Era época da votação do Projeto de Lei denominado “Lei Geral da Copa”, com claros benefícios à Fifa e a seus parceiros comerciais, independentemente do que determinavam os estados e a União em suas legislações.

Na última semana, passamos da barreira dos 500 dias para a realização do evento. O ex-jogador Ronaldo, membro do Comitê Organizador Local e que vem se mostrando um grande empresário do marketing esportivo, reclamou do pessimismo da mídia. Segundo ele, estaria “na hora de a imprensa entrar no entusiasmo do povo”, já que os estádios estão ficando prontos e “porque somos todos brasileiros e todos nós queremos que a Copa do Mundo seja realmente um grande sucesso, ninguém quer um fracasso”.

Na mesma semana, a Folha de S.Paulo publicara que o secretário-geral da Fifa, grande crítico da organização brasileira do evento, teria prestado consultoria à candidatura (única) do país para a realização do Mundial. Ronaldo disse que “especulação” é algo grave e que deveria se ter maior cuidado com esse tipo de notícia, já que “a gente vive corrupção, tragédias, e precisa de coisas boas, e a Copa do Mundo é isso, pois vai trazer muitos benefícios aos brasileiros”.

Histórico recente de prejuízos
Essa posição de Ronaldo me fez lembrar de duas coisas. A primeira é que em meio às denúncias contra o ex-presidente da CBF publicadas na ESPN, no Estado de S.Paulo, na Folha de S.Paulo e (depois de algum tempo) na Rede Record, os defensores de Teixeira usavam como argumento de que não havia nada provado contra ele. Pouco depois, o mundo inteiro passou a conhecer ao menos um dos casos, investigado e punido pela Justiça suíça, em que ele e João Havelange, ex-presidente da CBF e da Fifa, teriam recebido propina de uma empresa de marketing na década de 1990 – decisão que há alguns meses a Fifa promete liberar para a imprensa após divergências políticas entre Joseph Blatter e Ricardo Teixeira.

A segunda coisa é Ronaldo pedir para a imprensa fazer ou deixar de fazer algo. Lembrei-me da preparação para a Copa do Mundo de 2006, quando o então presidente Lula perguntou a ele se realmente estava gordo e ele questionou Lula se realmente ele bebia, como diziam. O recado era que cada um trabalhasse no seu e não se metesse no que o outro faz. Parece que ele se esqueceu disso.

Por mais que os meios de comunicação, especialmente os que conformam grandes conglomerados empresariais, pareçam olvidar que jornalismo não deveria ser para agradar a todo mundo, e sim trazer à tona os fatos que fogem à normalidade, nunca se pode dizer que um jornal, revista ou TV diminua a preocupação com um evento que envolve muitos gastos públicos e com um histórico recente (África do Sul) de prejuízos à população de um país em desenvolvimento.

Famílias retiradas
No sábado (2/2), a Folha de S.Paulo perguntou a ele e a Romário, ex-jogador e o deputado federal que mais denuncia os problemas da realização dos megaeventos esportivos no país: “O Brasil aproveitará o potencial da Copa do Mundo?” Ronaldo foi só elogios ao evento, responsável por uma inédita “discussão nacional para reformar aeroportos, melhorar a infraestrutura hoteleira, acelerar obras de mobilidade urbana e construir ou renovar 12 estádios com padrão de qualidade internacional”. Além de gerar milhares de empregos, capacitação profissional e aceleração de obras públicas e melhorias em espaços de prática esportiva.

Ele voltou a destacar a mídia no processo, pois ao menos uma parte preferiria diminuir tal legado. Segundo Ronaldo: “Dizem que os estádios recebem dinheiro público. Verdade. Até porque a maioria deles pertence aos estados. Mas isso é parte de um investimento que já traz frutos. Sem estádios não há Copa.”

Só esquece que a maioria dos estádios municipais ou estaduais ficará sob administração de empresas privadas, casos do Mineirão e do Maracanã. Além disso, esquece ele, e alguns grandes jornais do país, que para que os espaços fossem adequados aos padrões da Fifa (de um torneio a durar um mês) várias famílias foram retiradas de suas moradias. O caso mais comentado é o do Museu do Índio, nas proximidades do Maracanã, no Rio de Janeiro, mas há tantos outros que são comentados em espaços comunicacionais de menor difusão.

Fiscalização e denúncia
Romário respondeu negativamente à questão, a partir da consideração de que a construção das arenas e os jogos televisionados da Copa representariam apenas 10% do que a realização de um evento como este pode gerar: “estimular a economia, alavancar o turismo, melhorar a formação das pessoas, expandir e aperfeiçoar a infraestrutura, elevando-a a um novo patamar de acessibilidade”.

Para o deputado federal, o Brasil não aproveitou a oportunidade e as desistências em realizar obras de infraestrutura, caso do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em Brasília, e o aumento de R$ 3,5 bilhões dos recursos a serem gastos públicos justificariam o pessimismo dos brasileiros quanto ao evento. Além disso, haveria o desrespeito de leis nacionais em prol da Fifa, caso da exigência de ao menos 4% de lugares nos estádios destinados a pessoas com deficiência, que estariam limitadas a 1% dos projetos que contêm este quesito.

Ronaldo termina o seu texto dizendo que a Copa das Confederações deixará uma boa sensação no brasileiro e repete a fórmula da empresa de bebidas que o utiliza como garoto-propaganda – curioso como uma prática esportiva gera a utilização da imagem de seus grandes atletas para vender bebida alcoólica –, ao dizer que se já é bom agora, “imagina na Copa” – que virou “imagina a festa” para a marca.

Fechar os olhos e acreditar que quaisquer males em benefício de um evento privado, ainda que com enorme importância para o povo brasileiro, devam ser aceitos para dar coisas boas a uma sociedade sofrida, com casos frequentes de corrupção e demais problemas socioeconômicos recorrentes no país, parece exagero. Mais ainda o é querer que a imprensa deixe de fazer o seu trabalho de fiscalização e denúncia de fatos errados, desvios de conduta ou crimes em torno de um esporte que dá tantas alegrias às pessoas no Brasil, principalmente quando a maior parte dos recursos vêm destas pessoas, que têm o direito de exigir melhorias reais para além dos trinta dias de festa esportiva.

[Texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa.]

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Caciques, padre e um caeté na estreia de Graciliano

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O naufrágio do barco que trazia o bispo Pero Fernandes Sardinha forçou que este e outros marinheiros se jogassem ao mar em meio a um Brasil ainda desconhecido, escreve, quer dizer, pensa o autor, com papéis, tinta e conhaque na mesa... Os índios fazem um ritual, sob o olhar de uma bela mulher.... O bispo clama o reconhecimento divino com a cruz sendo mostrada aos índios, que mostram-lhe o porrete de madeira. Como costurar a história?... Os caetés tratam o corpo e um deles come uma perna. O bispo morto, mas e o chefe, marido da amada?... Ainda que policiais aparecessem, nada seria feito. Nisso, a justiça caeté era melhor que a contemporânea: preso é julgado e condenado... Vez do caeté observar o jogo de poker, ou seria o reconhecimento de um da etnia na mesa?

Este seria apenas, numa construção própria, o encadeamento das imagens de Poty em Caetés, obra de estreia de Graciliano Ramos (1892-1953), publicada em 1933. Confesso que após ter visto as ilustrações dele em Infância, fiquei frustrado com a disposição das imagens na edição que eu li do primeiro livro de Graciliano.

Situado em Palmeira dos Índios, cidade que conheceu bem, a ponto de ser prefeito dela por dois anos com um modelo inovador de gestão, com a apresentação de relatórios anuais sobre os problemas e o que pôde ser feito numa realidade tão oligárquica do interior nordestino, Caetés traz um formato que vai ser bastante utilizado pelo autor nos livros seguintes: o narrador-personagem.

Se depois veremos Paulo Honório, em São Bernardo, contar o seu crescimento em busca do lucro e as perdas pessoas; e o ápice das preocupações de Luís da Silva em Angústia; João Valério é um jovem que trabalha numa casa de empréstimos de dinheiro, escreve para o jornal da paróquia, está no ciclo de convívio da classe média local, mas que possui como maior objetivo naquele momento o de escrever um livro sobre a  história da morte do bispo Sardinha, que teria sido comido pelos índios caetés em território alagoano.
LIVRO
O livro já começa com uma cena que chama bastante atenção. João Valério se despede do dono da casa, após as tradicionais conversas e jogos com senhoras e senhores da cidade, deixa-o no quarto e ao despedir-se da esposa dele acaba beijando o pescoço dela. Detalhe: o dono da casa é um dos seus chefes. A partir daí vamos acompanhando os rompantes do jovem em tentar descobrir se Luísa gostava dele ou não, se deveria seguir na casa e no emprego de Adrião e como continuar a conviver com as demais personalidades da sociedade de Palmeira dos Índios.

João Valério resolve deixar de visitar a casa de Adrião, onde alguns homens jogam xadrez, as mulheres tocam piano, cantam, conversam e cochilam em meio a conversas filosóficas desenvolvidas por Isidoro Pinheiro e pelo Padre Atanásio. Num momento ou outro, quando era cobrado, ele até voltava lá, mas opta por ficar escondido atrás das cortinas ou ir fumar no jardim da casa. O motivo principal era que Luísa não mudara o comportamento apesar da audácia de João na outra noite. Ele acredita que poderia ocupar aquele tempo das noites na escrita e na necessária pesquisa para escrever Caetés. Nada feito:

“Caciques. Que entendia eu de caciques? Melhor seria compor uma novela em que arrumasse Padre Atanásio, o Dr. Liberato, Nicolau Varejão, o Pinheiro, D. Engrácia. Mas como achar enredo, dispor as personagens, dar-lhes vida? Decididamente não tinha habilidade para a empresa: por mais que me esforçasse, só conseguiria garatujar uma narrativa embaciada e amorfa” (23).

Era uma situação difícil de avanço, pois João Valério sempre via Luísa como uma mulher que não trairia o marido. Além disso, por mais que Adrião ficasse doente, sempre se recuperava, o que evitava qualquer perspectiva positiva de uma viuvez, que permitiria à viúva se encantar publicamente por outro homem.

Havia outras mulheres solteiras, e até com bons dotes da família, nas reuniões noturnas. Mas Valério não conseguia tirar da cabeça as reações de Luísa. Curiosamente, apesar de ser reservado, ele não deixa de a inquirir quando acha necessário. Na primeira vez, na cadeira do jardim, ele não tem êxito após o seu pedido de desculpas. Pelo contrário, percebe a mudança de comportamento dela nos momentos seguintes e resolve olhar e conversar com outras, ainda que não desenvolvendo (e desaparecendo) posteriormente.

Valério mora numa pensão com várias personagens citadas, casos de Dr. Liberato, o médico que aparece para curar todo mundo de quase tudo, e, principalmente, Pinheiro, que é o principal amigo dele na cidade, ouvindo-o e dando sugestões para que ele se arranje com alguma filha de alguém rico na cidade. Em meio à desilusão com Luísa, ele até pensara em Marta Varejão - filha de Nicolau, um pobre coitado que sente vergonha da filha por ser pobre:

“Não que me preocupe exclusivamente com o dinheiro, pois se Marta fosse vesga e coxa não a aceitaria por preço nenhum. Mas era bonita, e os bens da viúva davam-lhe encantos que a princípio eu não tinha descoberto” (37-8).

Era paixão rápida, se é que chegava a ser paixão. Uma troca de palavras, encontrava algumas coisas boas em Marta, mas depois lembrava do despeito de Luísa com ele e esquecia tudo, renegando a provável mãe de seus futuros filhos, que o acompanharia para construir a vida no Rio de Janeiro, lugar muito falado por ali.

Hora ou outra, o livro voltava, mas sempre com mais páginas a serem jogadas fora do que aproveitadas. Havia no jovem João Valério um pouco de vontade de aparecer, de se mostrar como um jovem diferente naquela pequena cidade. Cidade esta representada por figuras clássicas, como comerciantes - que atuam diretamente para conseguir dinheiro através de empréstimos -, o médico que trabalha em tudo, com direito ao Neves, farmacêutico, os jurados, e até o novo "futuro grande político", Eugênio Barroca, que começa a se mexer para ser o governador de Alagoas dali a alguns anos.

O intuito de Valério não era ser famoso no Rio de Janeiro por conta da sua produção literária. Sequer era passar do primeiro livro - será que Graciliano pensara ter a capacidade em produzir outros livros depois deste? Apenas se sentir orgulhoso no seu espaço social:

“Talvez eu pudesse também, com exígua ciência e aturado esforço, chegar um dia a alinhavar os meus caetés. Não que esperasse embasbacar os povos do futuro. Oh! não! As minhas ambições são modestas. Contentava-me um triunfo caseiro e transitório, que impressionasse Luísa, Marta Varejão, os Mendonça, Evaristo Barroca. Desejava que nas barbearias, no cinema, na farmácia Neves, no café Bacurau, dissessem: ‘Então já leram o romance do Valério?” Ou que na redação da Semana, em discussões entre Isidoro Padre Atanásio, a minha autoridade fosse invocada: ‘Isto de selvagens e histórias velhas é com o Valério’” (51). 

Afinal, consegue ter uma resposta mais física de Luísa, meses depois, num período em que Adrião viajara a negócios. Ele, cheio de dúvidas, é recebido de forma mais tranquila do que imaginava. Aqui Graciliano dá detalhes do que será a sua característica de narração ao não descrever os pormenores das relações sexuais entre os dois. Não se preocupa tanto com o diálogo, a troca entre as personagens, mas como o protagonista a vê. Assim, esta descrição fica meio bruta, rápida:

“Soltei-lhe as mãos, agarrei-lhe a cabeça, beijei-a na boca, devagar e com voracidade. Apertei-a, machucando-lhe os peitos, mordendo os beiços e a língua. De longe em longe interrompia este prazer violento e doloroso, quando já não podia respirar. E recomeçava. As mãos dela prendiam-me; através da roupa leve eu lhe sentia a vibração dos músculos” (144). 

Os momentos românticos ficam para a imaginação anterior de João Valério, crendo numa mulher cheia de pudores e, apaixonado, torcendo por qualquer coisa a mais que o patrão nunca tivera feito. A estrela a procurar no céu para indicar o caminho daquela paixão em meio à certa revolta dele por não conseguir entender as "almas caprichosas das mulheres. Assim, antes de conseguir uma resposta - ou ao menos pensar que conseguiu avançar em algo - ele sonha com o que seria possível naquelas condições:

“Tencionava poder um dia, com o consentimento dela, apertar-lhe as mãos, correr os lábios por aqueles dedos brancos e finos, pelos braços, até o cotovelo. Em momentos de otimismo aventurei-me a chegar à espádua. Não era uma aspiração demasiado exigente, e eu punha tanto respeito nela que excluí a ideia de que aquilo constituísse traição ao Teixeira. Decidi logo que um homem tão prático não havia ainda bajulado o braço de Luísa e que pelo menos esta parte do corpo dela não lhe pertencia. Convicção idiota, evidentemente. Eu me contentava com o braço – e achava excessivo. Uma felicidade imensa” (91). 

A história segue, mas o avançar da história romântica não necessariamente vai ser o foco de atenção de Caetés. Vemos discussões entre alguns membros da elite palmeirense, novas rodas de conversa, denúncias, mudanças de posicionamento, mas tudo a partir das vistas de João Valério, de um apaixonado que às vezes parece ficar em dúvida até mesmo sobre a paixão. O desfecho me surpreendeu bastante por conta de determinadas expectativas que nós acabamos tendo sobre ciclos "naturais" deste tipo de história. Graciliano não tem nada de "natural", por mais que reflita bem a sociedade em torno.

Esta característica aparece em alguns trechos. Além da evolução de Eugênio Barroca, com direito a "passar por cima" do antigo manda-chuva da cidade, há a forte discussão referente à absolvição de um culpado por assassinato que toda cidade sabia que tinha cometido tal crime provavelmente, provavelmente por sua posição social. O que dá como resposta coisas do tipo: "o que nós poderíamos fazer?".

Há também uma conversa interessante sobre o que significava ter poder naquelas região, algo bem distante de ser alfabetizado ou de conseguir arregimentar eleitores por questões político-ideológicas:

“- Tendo quatro soldados e um cabo, o senhor tem tudo [disse Vitorino]. 

O Dr. Castro reconheceu que os soldados e o cabo eram de grande eficiência: 

- Ora, a força do direito... isto é, o direito da força... Afinal, os senhores me entendem” (84). 

Ao final... Não se assustem, não contarei o final da história, mas destaco duas citações a seguir que estão presentes no final. Ao final, enquanto todxs choram no funeral de um morto, com quase toda a cidade presente, Nazaré pensa na quantidade de dinheiro que aquele deixará e é repelido com a palavra "monstro" por pensar nisso naquele momento. A resposta:

“- Eu? [um monstro – Nazaré] Está enganado. Que é um monstro? Uma criatura diferente das outras de sua espécie, não é? Pois eu sou como os outros homens. Um pouco melhor que uns, um pouco pior que outros. Vulgar. Monstro é você, Pinheiro. Você é esquisito, uma espécie de santo. Apesar de todos os seus defeitos, devia ter deixado para nascer daqui a dez mil anos. Você é monstruosamente bom, Pinheiro” (210). 

No final, apesar dos problemas com o livro que deveria ter sido escrito por João Valério, Graciliano Ramos escreve Caetés como uma metáfora da sociedade em volta. Canibais? Por que não? Mas a inocência dos índios caetés, que viveram em terra daquele Estado, era bem diferente da forma de canibalismo praticada por ali:

“Um caeté, sem dúvida. O Pinheiro é um santo, e eu às vezes me rio dele, dou razão a Nazaré, que é canalha. Guardo um ódio feroz ao Neves, um ódio irracional, e dissimulo, falo com ele: a falsidade do índio. E um dia me vingarei, se puder. Passo horas escutando as histórias de Nicolau Varejão, chego a convencer-me de que são verdades, gosto de ouvi-las. Agradam-me os desregramentos da imaginação. Um caeté” (222).

Se eu dissesse que este livro está entre os melhores que eu já li, estaria mentindo. Mesmo entre os que Graciliano Ramos escreveu. Fiquei sentindo falta de algumas coisas ao longo do livro, expectativas eram frustradas, apesar de alguns detalhes serem apresentados. Mas também se as nossas expectativas fossem consumadas não precisaríamos ler os livros. O óbvio está longe de caracterizar uma boa literatura. E Graciliano foge muito bem do óbvio, principalmente ao contar a história da região que provavelmente mais conheceu na vida.

REFERÊNCIA
RAMOS, Graciliano. Caetés; posfácio de Wilson Martins, ilustrações de Poty. 18.ed. Rio de Janeiro: Record, 1982.