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domingo, 21 de julho de 2013

[Por Trás do Gol] Eu e os diferentes acessos de Brasil e Aimoré

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Quando a Divisão de Acesso do Gauchão, ou Série A2, começou eu fui a um dos jogos, que seria o meu último em território gaúcho. Mal imaginava qual seria o resultado final, além das minhas expectativas. Se o São Paulo de Rio Grande garantiu a primeira vaga nos pênaltis, o título do Brasil de Pelotas ontem e a última vaga neste domingo para o Aimoré representam muito.

Representados por índios, os xavantes foram os primeiros que receberam a minha visita; os capilés foram os últimos. A camisa xavante foi a primeira que eu ganhei no Rio Grande do Sul; a capilé foi a última que eu consegui comprar, e a mais difícil. Conheci alguns torcedores xavantes, um fanático, se é que isso não é sinônimo para torcedores do Brasil; conheci os capilés indo ao Estádio João Correia. Um nem poderia ter saído da divisão principal, imagina ficar 4 edições de fora. O outro se reestruturava, acabando de sair da terceira divisão.

Na terra em que a maioria dos holofotes são para Grêmio e Internacional, a ponto de mesmo clubes com tradição recente como Juventude e Caxias estarem em divisões inferiores do Brasileiro, 4ª e 3ª, respectivamente, acabei por simpatizar por dois times do interior. De um lado, o Brasil, pela paixão da torcida - às vezes exagerada - e pela sensação de justiça. Do outro, o Aimoré, o azul e branco cujo estádio eu podia ir a pé e que estava no fundo do poço, na terceira divisão estadual. Este domingo, mudou tudo.


O QUE DEVERIA SER ÓBVIO
O Estádio Bento Freitas foi o primeiro que eu visitei, em 2011. Mas bastava conhecer um pouquinho da história do campeonato gaúcho - quer dizer, algo para além da dupla Gre-Nal -, para saber o quanto o Brasil de Pelotas, e sua torcida, estava longe de seu lugar de merecimento. E isso desde 2009, quando do fatídico acidente de ônibus que matou 3 pessoas, dentre as quais o ídolo Cláudio Millar. 

Ano após ano, o time ficava no quase, mesmo com maior potencial de investimentos que os seus rivais de divisão. Era como se os xavantes jamais pudessem sair do dia 16 de janeiro de 2009, como se os ponteiros do relógio, as folhas do calendário, seguissem paradas naquele momento.

Para 2013, a Federação Gaúcha aumentou o número dos que caíam da A1 e aumentou dos que subiam. Eram 3 as vagas. Ainda assim, o primeiro turno, com clássico da região sul do Estado, davam ares de drama para o que deveria ser óbvio. No Bento Freitas, vitória de 1 a 0; no Aldo Dapuzzo, 1 a 0 para o São Paulo. Após disputa de pênaltis quase intermináveis, derrota de 3 a 2.

Os xavantes deviam nadar tudo de novo. Quer dizer, o (confuso) calendário até já garantia ao clube ao menos a disputa com o perdedor do segundo turno.



A AMEAÇA DO RETORNO
Enquanto isso, a tribo capilé vivia a sua própria crise. Após aquela vitória inicial, com direito a dois gols de Rodrigão, o time seguiu para uma jornada de partidas sem vencer, com a demissão do técnico. Eu acompanhava a cada 3 rodadas e respirei aliviado com a boa sequência de resultados ainda no final do primeiro turno, dando boa margem de segurança para a disputa do segundo. (Afinal, não era possível que pela primeira vez na vida a minha ausência daria azar a algo).

Li algumas respostas à mídia da região do Vale dos Sinos, que considerava o Aimoré como possível rebaixado, logo após ter subido. As mudanças vindas com o técnico Ben-Hur Pereira, que retornara ao cargo no clube que iniciara seus trabalhos como técnico, daria muito certo. Provavelmente, bem mais que qualquer torcedor aimoresista poderia imaginar.


OS DIFERENTES ACESSOS
Com internet, passei a acompanhar mais a Divisão de Acesso. No Grupo A, não só o Aimoré se distanciou de qualquer ameaça de rebaixamento, como fez no segundo turno uma campanha exemplar: 5 vitórias, 1 empate e 1 derrota. O Brasil também liderou o Grupo B, com uma campanha um pouco pior: 4 vitórias, 2 empates e 2 derrotas. Sentia que o confronto poderia vir.

Nas quartas-de-final, o Brasil até perdeu o jogo de ida para o Avenida, mas goleou em casa. Enquanto o Aimoré goleou o Internacional de Santa Maria fora de casa e venceu por 2 a 1 na volta. Nas semifinais, foi a vez dos xavantes passarem fácil pelo Santo Ângelo, com um agregado de 6 a 0; enquanto o Aimoré passou no sufoco pelo Avenida, graças à melhor campanha, após perder por 2 a 1 fora e ganhar de 1 a 0 em casa, em meio a MUITA chuva no Cristo Rei.

Veio o confronto. Em meio a várias discussões sobre o "esquecimento" do regulamento sobre quem ficaria com uma terceira vaga, com pressão nos bastidores do Riograndense, de Santa Maria - e que também tenho uma camisa -, para ter uma decisão pelo 3º lugar de qualquer jeito, já que o time tinha a melhor campanha além dos finalistas do turno.

No final, parecia que o Brasil já tinha vaga garantida, já que tinha o melhor aproveitamento geral mesmo perdendo as duas partidas. Ao Aimoré, caberia 2 pontos para ultrapassar o Riograndense na pontuação geral. Como o vice-campeão do 1º turno seria o campeão do segundo e que era o time de maior pontuação; o Aimoré não teria quem enfrentar, sendo o segundo de maior campanha e vice de turno ao mesmo tempo.

No primeiro jogo, 3 a 0 para o Brasil de Pelotas, título de turno praticamente garantido e muita conversa sobre possível jogo de entrega na volta. De novo com MUITA chuva, Aimoré e Brasil de Pelotas fizeram um jogo bem disputado. O time capilé até teve pênalti a favor, mas desperdiçou, tendo que disputar os jogos extras com o Riograndense.

Assim, enquanto o Brasil partiu para a revanche com o São Paulo, o Aimoré disputaria a última vaga com o time de Santa Maria, fora da primeira divisão há 47 anos!

O Brasil não deu moleza e venceu por 4 a 1 o São Paulo no Aldo Dapuzzo. No sábado, confirmou o título da Série A2 com o gol de Rafael Foster, de pênalti. FINALMENTE o Brasil de Pelotas voltará ao Gauchão. Finalmente teremos um BRAPEL (Brasil X Pelotas) de novo na principal disputa do Rio Grande do Sul.

Numa partida bem disputa, o Aimoré começou perdendo fora de casa, virou o placar, sofreu o empate e marcou o gol da vitória aos 46 do segundo tempo! Se os 3 a 2 pareciam tranquilos, eu não fiquei nada ao ver que o Riograndense abrira o placar em São Leopoldo com menos de 15 minutos de jogo. Os capilés estavam com a vaga por terem feito mais gols fora de casa.

A disputa seguia, com gols anulados do time de Santa Maria e muita disputa no enlameado, ainda que sem chuva, gramado do Estádio João Correia. Se o artilheiro Japa parou no goleiro adversário, a bola achou Luan que, de bico, venceu as travas dos zagueiros e mandou ao gol. Empate no segundo tempo, faltando cerca de 20 minutos, e gritos de "o Aimoré voltou".

Mas ainda teve mais. Pênalti contra não dado, técnico adversário expulso e pênalti a favor, mais uma vez desperdiçado, aos 44 minutos do segundo tempo.

Provavelmente ninguém esperava no início, mais ainda não se esperava após aquelas primeiras rodadas preocupantes, mas o Aimoré voltará a disputar o Gauchão após 20 anos. Mais do que nunca, eu tenho a sensação de novamente ter feito parte da escritura da história.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Dialética ano 6

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Este blog chega neste 05 de julho à marca de 6 anos no ar. De lá para cá, muita coisa mudou, começando por este escriba, que de graduando em Comunicação Social, para ser habilitado como jornalista, passou para Mestre em Ciências da Comunicação. Este espaço também mudou, com a arte e o nome atuais sendo colocados em 2009

Para não cansar-vos com um texto retrospectivo, já que o fiz no ano passado, resolvi destacar dois aspectos deste período: a coluna-blog-coluna Por Trás do Gol e a curiosidade dos acessos por alguém com mania por números.

5 ANOS DE POR TRÁS DO GOL
Começou como coluna, passou a ser blog e voltou a ser coluna. Em setembro, "Por Trás do Gol" faz 5 anos. A proposta era a seguinte:

"Nada como falar mal de jogador atrás do gol ou dentro de cabines com condicionador de ar. Para combater os que fazem isso e utilizam bordões tais como 'esse até eu fazia', surge a coluna 'Por trás do gol'. Além da crítica à imprensa esportiva, alguns comentários que merecerem ser dados dos esportes, especialmente o futebol, também ocorrerão, apesar de este não ser o foco".

Isso também mudou ao longo do tempo. Apesar que meses depois a coluna virou blog, que durou cerca de 3 anos noutro espaço da internet, retornando para cá mesmo em momentos em que não vinha a indicação de [Por Trás do Gol] no título.

Ao contrários de outras colunas que são esporádicas, que chegam a passar algum tempo no ostracismo (caso da "Circo a motor", em voga atualmente) ou as que foram eternamente para o limbo, como a que contava a minha trajetória "Em busca do El Dorado", a "Por Trás do Gol" segue firme e forte porque, honestamente, não me vejo sem o futebol.

Acompanhar esportes, especialmente o futebol, foi o que me fez escolher ser jornalista ainda quando criança, em meio a cadernos, anotações, desenhos, programas de TV, rádio, álbuns de figurinhas e revistas. Fui crescendo, analisando cada vez mais a realidade de forma crítica e cheguei a me transformar num pesquisador da relação mídia e futebol, por mais que não me considere jornalista esportivo - algo que gera um pouco de frustração, apesar do pouco tempo de "profissão".

Assim, escrever sobre isso é acalmar o desejo que vem desde a infância.

NÚMEROS
Como já comentei, sou maníaco por números, estatísticas, dados, etc. Vivo a olhar a quantidade de visualizações, visitas por mês, comparação com períodos anteriores. Acho até que é por conta disso que opto por divulgar as postagens nas mídias sociais, por mais que o meu blog tenha pouco, mas crescente, número de acessos.

Não vou encher a paciência dos meus leitores com estatísticas, mas se tem uma coisa que me fez entrar e me faz continuar nas mídias sociais - que eu já tanto critiquei - é a capacidade de divulgar informações. Primeiro foi o Twitter, que até mesmo por conta do formato gerou pouco aumento; depois o Facebook, que dobrou o número de visualizações; e, por fim, o Google +, que tem uma facilidade extra por conta das comunidades para temas em específico, fazendo com que determinados textos recebem ainda mais visitantes e, principalmente, um ou outro comentário por este site.

Assim, de 2012 para 2013 a quantidade de visitas aumentou cerca de 50%, ainda que a maioria vinda de sites de busca. Ainda assim, os dois textos com mais visitações, sobre os livros "A Condição Pós-Moderna", do Lyotard, e "A obra-prima ignorada", do Balzac, estão com sua porcentagem perante o todo caindo, o que indica uma visitação mais plural, por assim dizer.

Essa questão da busca para trabalhos acadêmicos é algo curioso. O texto sobre o referido livro do Balzac recebeu dois comentários de pessoas que reclamaram por eu não ter contado "justamente" o final (risos). O primeiro texto na lista dos mais acessados que não é uma resenha  sobre livros é a crônica "Rasputin, czar, bolcheviques e ela ouvindo tudo", que é de março deste ano, provavelmente sorteada em meio à busca dos algoritmos da internet para pessoas que querem conhecer a Revolução Russa.

Para finalizar, do 5º ao 6º ano deste blog, creio que 4 textos foram marcantes por conta do público. O primeiro foi de janeiro do ano passado, mas como se trata de uma data história, sempre recebe um grande fluxo, e com comentários. Em "15 de janeiro: "A noite que nunca acabou" e o dia superado", eu resenho um livro sobre a tragédia da delegação do time de futebol do Brasil de Pelotas em 2009.

o lançamento de uma nova edição de "Notícias do Planalto", agora com um comentário sobre o que ocorreu com os jornalistas que publicaram sobre o então presidente Fernando Collor de Mello e cia., gerou muitas visualizações da minha resenha da primeira edição do livro de Mário Sérgio Conti: "Notícias do Planalto: a imprensa e Fernando Collor", que é de 2011.

O segundo é "O texto que eu tanto queria escrever - É CAMPEÃO!", que deveria aparecer nos mais acessados dados os números nele. O que me chamou a atenção foram os comentários de palmeirenses próximos. Num texto que eu entendia como extremamente pessoal, num momento individual muito complicado, algumas pessoas me diziam pelo Facebook que se sentia da mesma forma, ou que eu representei bem a situação.


Por fim, surpreendi no dia que postei "O premiado e muito elogiado O Som ao Redor" e cerca de 3 horas depois haviam mais de 100 visualizações do post. Um ou dois dias depois vi que o post havia sido compartilhando pela página do filme no Facebook, que assim o fez com todos os textos sobre ele - numa interessante forma de incentivo a resenhas sobre este audiovisual.

Termino com o parágrafo final do ano passado, até mesmo porque se as coisas mudaram (ainda mais), o melhor ainda não veio, então...

Vida longa ao "Dialética Terrestre: A arte de discutir a respeito do que há sobre a Terra"! Até mesmo porque eu preciso que ele tenha vida longa para eu ter certeza de ter mais alguns anos.

domingo, 15 de janeiro de 2012

15 de janeiro: "A noite que nunca acabou" e o dia superado

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Para quem não é do Rio Grande do Sul, é bem estranho. Todo o país só fala de futebol daqui para tratar de Grêmio e Internacional, os dois clubes da capital e com títulos nacionais e internacionais importantes. Aqui ou acolá, dependendo do momento histórico, até se falou de Juventude e Caxias - ambos em crise, nas séries D e C, respectivamente. Mas basta conhecer alguém de Pelotas para saber que se futebol é paixão, e se você é apaixonado por futebol, a cidade da região sul é o local a se visitar e conhecer.

Tenho um amigo de Pelotas e sei muito bem disso. Aliás, como ele mesmo nos diz, primeiro é Xavante -  depois é natural de Pelotas, gaúcho e, por fim, brasileiro. Xavante (índios que ocuparam a região sul do Estado e símbolo do clube) é o torcedor do Grêmio Esportivo Brasil, o rubro-negro Brasil de Pelotas, um sinônimo para paixão incalculável e irracional. Até mesmo os mais racionais, conscientes e críticos seres humanos e pesquisadores deixam a paixão dominar suas ações.

Pude conhecer nestes 10 meses em território gaúcho não só um típico xavante, como também verificar esta tresloucada paixão, ir ao Estádio Bento Freitas e perceber o quanto um dia na história desse clube ainda deixa dores vindas de suas cicatrizes. 

#15dejaneiroODiaQueSuperamos
Lembrava ter visto em telejornais da época. No dia 15 de janeiro de 2009, o ônibus que trazia a delegação do Brasil de Pelotas tombou numa curva e caiu num barranco de cerca de 30 metros. As matérias destacavam a presença do goleiro Danrlei, ex-Grêmio, no elenco rubro-negro.

Para tristeza de toda a torcida, três pessoas morreram: o zagueiro Régis, o treinador de goleiros Giovani e o atacante uruguaio Cláudio Millar. Millar é o maior ídolo da história xavante, com mais de 100 gols com a camisa rubronegra e voltara a marcar gol de pênalti após dois anos sem sequer tentar cobrar. O time venceu o Santa Cruz, em Santa Cruz do Sul, por 2 a 1 e voltava para Pelotas num ano em que o elenco era muito bom, base do time que quase subiu à Série B do Brasileiro no ano anterior.

A maioria dos jogadores saiu com graves lesões e com problemas psicológicos. Sem quaisquer condições para atuar na semana seguinte, pela primeira rodada do Gauchão. Alguns, como Edu, que viera do Grêmio como uma grande revelação, mas que dava azar com sucessivas lesões, acabaram encerrando a carreira por conta de problemas físicos que impossibilitariam atividades profissionais.

A noite que nunca acabou
Peguei emprestado, ainda no primeiro semestre do ano, o livro A noite que nunca acabou (Livraria Mundial, 2009), escrito pelo repórter fotográfico Nauro Júnior e pelo jornalista Eduardo Cecconi, ambos do Grupo RBS - o maior conglomerado regional de comunicação da América Latina. A emoção do relato é um claro exemplo de como deve ser o jornalismo, especialmente o esportivo: refletir o momento em suas mais diversas variáveis, desde que respeitando os envolvidos, mas com sentimento.

Impressionou-me no livro o relato sobre as pessoas que perceberam que estavam razoavelmente bem e que procuraram a todo o custo ajudar os seus companheiros, seja aquecendo, conversando e, até mesmo, buscando ajuda o mais rápido possível. A minha surpresa ficou por conta de Danrlei, que pela sua estrela e histórico - principalmente pelas brigas - não imaginava que pudesse se preocupar tanto com as pessoas, sinceramente...

Assim Nauro Júnior e Cecconi contaram:

"Vasculhando a mata à procura de feridos dispersos pelas escancaradas janelas nas sucessivas capotagens, agitando camisetas à beira da estrada, correndo no encostamento em busca de carona, estancando sangramentos com toalhas – também utilizadas para cobrir quem sentia frio, abraçando os amigos para aquecê-los, ou os confortando com mochilas sob suas cabeças, conversando com os desnorteados, tranquilizando os desesperados, velando os mortos, auxiliando a primeira equipe de enfermagem, assim todos ao mesmo tempo ligavam-se à cena, mas fugiam dela.
“Assumir o comando do socorro até a chegada da ajuda profissional possibilitara a todos não racionalizar a tragédia. Protagonizaram uma história sobre a qual ainda não haviam racionalizado. Agiam por instinto” (115).
[...]
“Cléber Gaúcho, Luciano, Danrlei, Carlão, Oliveira, Eliandro, Edenilso, Vinícius, Kelson, eram substituídos pelos médicos e enfermeiros, das ambulâncias que não paravam de chegar” (116).

Insensibilidade da RBS
Após o acidente, a diretoria do clube e a Federação Gaúcha de Futebol tentaram estabelecer um acordo para não prejudicar um time que vivera tal tragédia. A ideia original, que eu até lembrava, era de que o Brasil disputaria o Gauchão, mas não poderia ser rebaixado. Lendo o livro, a proposta não seria aprovada por todos os clubes, única forma de modificar o regulamento aprovado.

Além disso, havia promessas da dupla Gre-Nal para ajudar a formação de um novo elenco Xavante, com a cessão de jogadores da base que não seriam aproveitados. Algo que, pelo que me disseram, também não ocorreu.

De ajuda real, aparentemente só alguns apoios financeiros aqui ou acolá, já que todo o dinheiro reservado e ganho com patrocínios para a formação do time foi gasto com atendimento médico e indenizações a atletas e/ou familiares. O banco estatal patrocinaria o clube durante o Gauchão, a Vivo fechou no dia da reestreia e o novo treinador, Claudio Duarte, aceitara trabalhar sem receber salários.

Mas, fiz questão de destacar que os autores do livro eram (não sei se ainda são) do Grupo RBS porque o mesmo forçou uma situação altamente desnecessária para um clube que passara por um trauma deste nível. Comentei isto num texto da Coluna Além das Quatro Linhas, escrito com outros companheiros, em que analisamos a decadência do futebol do interior gaúcho: a RBS TV, após ter adiantado o pagamento para todos os clubes da primeira divisão daquele ano, pressionou para que as datas fossem cumpridas. 

Nauro Júnior e Cecconi destacam neste trecho do livro o que me fez ter tal interpretação:

"No entanto, o campeonato não pararia. Não podia parar. Com seus direitos adquiridos por uma emissora de televisão, o Gauchão obrigava-se ao cumprimento prévio. O trem do campeonato estadual partiria pontualmente, com hora precisa de chegada.
“A urgência pelo respeito ao contrato que proporciona aproximadamente trezentos e cinquenta mil reais para cada clube pela cessão dos direitos de televisionamento afligia de tal maneira Novelletto [ainda hoje presidente da FGF], que reiterava a iminência de ter o fígado devorado se a tabela não fosse religiosamente cumprida.
“O dinheiro já batera no fundo das contas bancárias da maioria. E mesmo antes de aromatizar os cofres com o perfume das cédulas foi utilizado na quitação de dívidas, na contratação de profissionais, e no pagamento de salários.
“Estavam todos comprometidos com as determinações da emissora, todos submetidos às suas datas, conforme a grade de programação disponível. Ou o Brasil ocuparia um dos vagões desde o início, ou correria para atacá-lo com o comboio em andamento. Certo era que os dezesseis passageiros do campeonato desembarcariam na última estação simultaneamente” (193).

O Brasil de Pelotas até poderia estrear mais tarde no primeiro turno, porém, teria que fazer uma (nova) pré-temporada bem menor que a dos adversários, com estreia no dia 03 de fevereiro, e a incrível façanha de um jogo a cada 48 horas, ou menos. Resumindo: a prova cabal de que o futebol, para quem manda, é muito mais negócio, senão só isto!

Campanha
O livro narra as dificuldades vividas para a formação do time e, consequentemente, dos jogos e confrontos realizados, especialmente no primeiro turno. Para as primeiras rodadas, tentaram juntar a maior quantidade de partidas para o Estádio Bento Freitas, mas também a sequência fora de casa seria ainda mais cansativa.

No primeiro jogo, empate de três a três contra o Santa Cruz, o mesmo que semanas antes haviam vencido com gol do ídolo Millar. Numa partida com virada xavante, mas empate depois, já que vários jogadores cansaram no segundo tempo por conta da falta de preparação adequada, o destaque ficou para o novo capitão do clube. O zagueiro Alex Martins, muito amigo de Régis, comemorou o terceiro gol fazendo da mesma forma que Millar: jogando a flecha xavante para o ar:


Entre derrotas, empates, e a briga generalizada contra o Ulbra/Canoas, que tiraria o goleiro Danrlei do resto do campeonato, o time só teve uma vitória. E ela veio na última partida, já rebaixado. O Brasil de Pelotas, com gol de Kelson, pôde dar uma alegria aos seus torcedores, numa vitória que valeu como a superação desse histórico time e de sua espetacular torcida. O primeiro campeão gaúcho e que um dia (em 1986) eliminou o Flamengo de Zico nas quartas-de-final de um Campeonato Brasileiro...

“O velho alambrado enferrujado foi escalado pela última vez, por jovens de todas as raças, que batiam no peito e beijavam o distintivo do Brasil nas camisas. Kelson, ileso após dois acidentes, artilheiro da equipe e autor do gol da única vitória xavante, foi o último a descer aos vestiários. Nos microfones das rádios, resumiu o que sentia:
'Já joguei em muitos clubes, mas nunca senti esta energia que vem das arquibancadas como aqui. Quero ficar, espero que eu seja um jogador que faça história neste clube'.
“Simultaneamente, dez meninos arrancavam tufos de grama, como objetos para futuras recordações daquela noite. Outro grupo recolhia uma bandeira em formato de camisa gigante.
“Diogo encerrou o comentário na tevê reafirmando a surrealidade dos elementos dramáticos do confronto, dizendo ter visto um acontecimento 'digno de um documentário'.
[…]
“A noite de dois de abril começou ao final da noite de quinze de janeiro. Foram setenta e sete dias e noites de insônia, revisita às imagens da dor, de choro pelas mortes de Claudio Milar, Régis e Giovani, de frustração pela campanha do rebaixamento com um elenco improvisado e um calendário rigoroso.
“Uma noite sem fim que impediu Milar de concretizar o sonho de ser presidente do Brasil. Interrompeu a carreira do zagueiro Régis, resistente às propostas de outros clubes para não deixar o Bento Freitas. Retirou de Giovani a possibilidade de prosseguir com seus projetos acadêmicos e sociais.
“Nenhum xavante nunca vai esquecer o que aconteceu. Mesmo que o tempo cicatrize as feridas emocionais, e as memórias tristes cedam espaço às lembranças eternas dos gols e do aguerrimento” (269).

SITUAÇÃO ATUAL
O Brasil de Pelotas disputará em 2012 pela terceira vez consecutiva a Segunda Divisão do Campeonato Gaúcho, ou Série Intermediária, que começa em março. Ano passado, graças a um erro da diretoria, o STJD tirou seis pontos do clube, que foi rebaixado para a Série D por conta disso - após empatar em pontos com Caxias e Santo André, mas ter melhor saldo de gols que o time paulista.

Independentemente de qualquer coisa, parafraseando o amigo xavante citado no início de texto, e com quem pude conhecer um pouco da história de sofrimento e paixão - tão característicos ao futebol - do Grêmio Esportivo Brasil: "A glória não consiste em jamais cair, mas sim em erguer-se toda vez que for necessário". E a torcida Xavante sempre mostra que, se depender dela, isso não tardará a acontecer.

REFERÊNCIA

JÚNIOR, Nauro; CECCONI. A noite que não acabou. Pelotas, RS: Editora Livraria Mundial, 2009.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

[Por Trás do Gol] Ciclo de Palestras Futebol e Cultura - Dia 1

2 comentários
Após três anos, a coluna "Por Trás do Gol" retorna ao meu blog pessoal, agora Dialética Terrestre. Em outubro de 2008, resolvi aceitar o chamado do amigo Homero Dionísio e criar um blog específico sobre futebol. Como já tinha no http://terrainteressados.blogspot.com um espaço com este nome, ele foi repassado para o blog como o todo. A ideia era tratar do futebol de uma maneira diferente, tanto na forma quanto no conteúdo.

Agora, devido a vários fatores - que vocês podem ler -, o PTdoG retorna para este espaço do jeito que começou, uma coluna. Há uma possibilidade, praticamente já acertada, de retornar a ser um blog, só que noutro espaço que não o Ole Ole, algo mais generalista. Enquanto isso, vamos para o que interessa para este texto.

Ciclo de palestras FUTEBOL E CULTURA
Aqui no Rio Grande do Sul só fui a uma partida e não foi em Porto Alegre, cidade da dupla Gre-Nal. A convite do amigo Eduardo Menezes, acompanhei Brasil de Pelotas 0X1 Chapecoense, no Estádio Bento Freitas, a "Baixada". Fiquei impressionado com a recepção para lá de calorosa que eles costumam fazer. 

Infelizmente, por conta de um erro da diretoria, o Xavante foi rebaixado para a Série D. O lateral-direito Cláudio deveria ter pago uma punição e não atuar na estreia do time contra o Santo André, em que venceu em São Paulo por 3 a 2, e a direção deixou "passar". O time, que terminou a primeira fase com os mesmos oito pontos de Caxias e Santo André, perdeu seis pontos por colocar um atleta de forma irregular e foi rebaixado.

Ainda volto a este tema, e a esta partida, futuramente em outros textos. Além de arranjar tempo para escrever sobre um livro que conta a tragédia que assolou o time no início da temporada de 2009 e que tem tudo a ver com o atual momento do clube.

Ontem, dia 10, tive a minha primeira experiência em território dos "grandes" locais. Curiosamente, numa semana em São Paulo fui a três estádios e vi três jogos diferentes e aqui, em oito meses, nunca havia passado sequer em frente a Olímpico ou Beira-Rio.

A oportunidade, para conhecer um dos dois, veio numa divulgação da Fundação de Educação e Cultura do Sport Club Internacional (FECI), que vi num dos murais da UNISINOS e que um colega de mestrado enviou por e-mail: Ciclo de palestras FUTEBOL E CULTURA. 

Para quem pesquisa sobre futebol, ótima chance para ficar atualizado e saber como um clube local pensa que pode se dar uma discussão na área. Além disso, excelente oportunidade para tenta captar algumas coisas sobre a estrutura do clube.

Dia 1
- Dascal
Pelo que foi dito, 160 pessoas realizaram a inscrição. Acho que tinham cerca de 80 no início. Com toda certeza, tinham muito mais pessoas na fila para entrar no Gigantinho e assistir ao show do ex-Beatle Ringo Starr. Curiosamente, vi um gremista e um torcedor do Juventude vestidos com as camisas de seus clubes. Deboche natural para a região. Pisa-se no território alheio, mas deixando registrada a sua marca.

A primeira palestra do evento foi com o professor da Universidade de Tel-Aviv Marcelo Dascal. A ideia era que ele tratasse de "O futebol e a filosofia". Porém, e isso não foi uma sensação só minha, Dascal acabou passando por muita coisa, mas bem pouco da relação entre as duas áreas.

Pelas minhas anotações, ele passou pela diferenciação do "futebol mesmo" para o "futebol transformado em negócio", mas optou por destacar o que caracteriza a primeira opção - de forma geral, e o debate mostrou isto, ele tem uma visão apocalíptica pelo que o esporte se tornou. 

Segundo Dascal, há duas preocupações no futebol: a competição (jogo, fanatismo, etc.) e a cooperação, já que sem ela não há resultado algum por se tratar de esporte coletivo. Ele critica fortemente o fato de os esportes em geral terem se tornado uma questão de medição, o que no fundo minimizaria o real valor das pessoas.

No fim ele apresentou um conceito que deve ser o que ele defende em todos os lugares: "colonização da mente". Para ele, o futebol, a televisão e outros elementos facilitariam uma nova forma de "manipulação" ou colonização. Enfim, assunto para uma farta discussão que, confesso, não me vi estimulado a tal naquele momento - e, sinceramente, por achar que não teria boas respostas.

A parte mais legal foi quando ele disse que era torcedor corintiano - mesmo que depois tenha falado que o segundo time era o Inter. Sentado atrás de mim, um colorado falou de 2005 - Marcio Rezende de Freitas não dando pênalti em Tinga e o expulsando; caso Edilson Pereira de Carvalho e partidas anuladas,...

- Donald Schüler
A segunda apresentação foi do professor Donald Schüler (PUC-RS/UFRGS), que seria sobre "A filosofia do futebol". Indiscutivelmente, ele sabe falar em público, contando histórias sobre fictícias, ou não, partidas de futebol da sua infância, histórias da sua atual vida pessoal e puxando alguns teóricos para a roda.

Schüler "ganhou" o espaço ao dizer que não era torcedor fanático, mas a esposa era, fazendo com que todos os filhos e netos torcessem para um time, vestissem as cores dele. Adivinhem qual o time? Sport Club Internacional. Quando ele falou que a família inteira era colorada, salva de palmas ecoou na Sala do Conselho Deliberativo - que, apesar de eu não ter dito ainda, fica dentro do estádio, após o portão 7.

Ele destacou que o futebol é um fenômeno brasileiro, basta verificar o espaço dado nos jornais, em que o craque da rodada pode ganhar uma capa inteira enquanto a presidenta fica com uma notinha. Por isso a opção feita por professores, com liderança do professor da UNISINOS Luiz Rohden, de lançar um livro, no ano que vem, relacionando Filosofia e Futebol.

O que ele defende, em específico, é a capacidade de descentralização do futebol, já a partir da bola, que é colocada no centro no início da partida e depois vai para todos os lugares. A força deste esporte foi trazida também pela falta de capacidade de algum ente público comandá-lo, como o prova a organização para a Copa do Mundo - cujo próprio Internacional já teve, e terá, que engolir alguns sapos. Segundo Schüler, não há poder político que resista à determinação de uma entidade de futebol.

Ele resgatou Pitágoras que, num dos seus textos, teria comentado sobre as relações senhor-escravo nas competições "esportivas" de sua época. Em que os escravos seriam os atletas, os jogadores, que são subordinados a técnicos, clubes, associações, etc. e os senhores ficariam na arquibancada, olhando, já que é aí o lugar da busca da "verdade", que não é absoluta ou filosófica. O espetáculo que se vê seria apenas uma pequena parte desta estrutura, que passa por tantas coisas, como pelo próprio torcedor e pelo meio de comunicação.

A relação com a vida, o cotidiano, é que, da mesma forma que o futebol, exige-se a fuga da rotina, a inventividade, a criatividade para sair de situações difíceis. Sem isso, nada anda, seja qual for a carreira ou experiência de vida. O objetivo de estudar tal esporte seria observar que a verdade está no olhar para ele, nos diferentes pontos de vista do torcedor, já que cada qual, seja vendo pela TV ou em diferentes partes do estádio, terá uma perspectiva diferente do que é visto. O que, por experiência própria - que fiz em São Paulo, vendo os jogos em três posições diferentes - eu concordo.

Confesso que não fiquei até o final da palestra. Primeiro, porque Schüler utilizou um exemplo de uma torcedora que só ia ver determinadas, e hipotéticas, partidas por conta de um jogador, numa relação de veneração que, pelo que deu a entender, só seria possível a mulheres. De forma geral, achei a colocação preconceituosa e, por mais que não seja mulher, qualquer tipo de descriminação - mesmo as que eu possa praticar - me afetam. Além disso, como moro em outra cidade, ainda teria que pegar ônibus e trem e isso demora um pouco.

Dia 2
Amanhã o Ciclo continua, com a palestra "Gestão e Desenvolvimento Técnico no Futebol", com o coordenador da preparação física do futebol do Inter, Élio Carravetta; e "Futebol e Subjetividade", com a psicóloga clínica Sonia Sebenelo.

Se eu tiver com disposição e vontade eu volto a postar aqui. Até mais!